segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Urgente!!!




Marcus Vinicius Batista


Caro leitor, um aviso: só leia este texto se você tiver certeza de que tem tempo para ele. Perdoe-me se pareço pretensioso, mas não desejo que você destine importância para esta crônica. Desejo que você esqueça as demandas ao redor, sente-se em um local confortável e se prepare para refletir ao final destes parágrafos. Não fui eu que o fiz pensar, e sim sua própria disposição em respirar com prazer.

Ando cada vez mais incomodado com a necessidade de sermos urgentes. São demandas que reforçam nosso egocentrismo ao exigir atenção máxima para ontem. Na verdade, para o minuto anterior ao agora.

O incômodo se mistura com a convicção de que poucas situações são realmente urgentes. Calibramos os relógios para despertar o tempo todo, engolindo o discurso de que assim seremos considerados produtivos, relevantes e – aí sim a pretensão – essenciais. Na prática, a velha utopia da imortalidade, travestida da falsa modéstia de “não somos eternos, mas poderíamos ser insubstituíveis”.

Adoramos a urgência porque a transformamos em remédio paliativo para nossas ansiedades e angústias. Empurramos para o outro a responsabilidade de nos suportar como mimados que batemos o pé para que tudo se resolva no nosso tempo, jamais no tempo do outro.

Inventamos prazos, construímos cronogramas, multiplicamos metas que ruem no primeiro atraso do que é realmente humano. Adiamos o contato com nossas falhas quando impomos resultados que beiram o automatismo de uma máquina sem chance de sentir, de cair, de precisar de um intervalo. O ócio é sinônimo de culpa nessa perspectiva. Só falta pedirmos o açoite para caso de não termos nada para fazer. Melhor sangrar do que se encontrar com o próprio espelho.

Não posso mais comprar a pressão alheia por produtividade de porcelana. Não significa também dizer que só farei o que quiser. A questão talvez seja compreender o tempo próprio e colocar diante do outro a areia movediça e a miragem que representam uma urgência que apenas importa para quem a criou, para quem se escravizou pelo tempo.

Tento, diariamente, dispensar a urgência das informações que nada servem, das imagens que acariciam o narcisismo do prato recém-devorado da vida feliz, dos pedidos acompanhados de risinhos que mascaram a irritação de quem sabe – nas entrelinhas da mensagem – que sua emergência supervalorizada é conto da carochinha. Este conto é, muitas vezes, chamado de correria, mas sem linha de chegada.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A noite de Valdo


Valdo Soares, à esquerda na imagem. Foto: Arquivo pessoal

Marcus Vinicius Batista

Segunda-feira é dia de trabalho duro na cozinha de casa, na Vila Edna, em Guarujá. As quatro bocas do fogão estão ocupadas. São duas panelas de arroz, uma panela de pressão com feijão até à boca e uma de carne. Mais tarde, no início da madrugada, a comida será distribuída pelas ruas da cidade.

A casa simples na Vila Edna é a residência atual de Valdo Soares e da esposa Alessandra. Os dois, com o auxílio de voluntários, tocam o Projeto Resgatando Vidas. Em menos de dois anos, o grupo retirou das ruas 43 pessoas, muitas delas hoje em tratamento contra dependência química.

Valdo Soares tem 40 anos, mas aparenta mais uns cinco, seis. O rosto apresenta certo desgaste pela vida antiga. Os cabelos daquele tempo também ficaram mais raros. Hoje, a barriga se esconde dentro da calça e aponta a mudança na rotina, no cenário, na própria alimentação. O medo das noites solitárias na casa a céu aberto acabou!

Quando eu o conheci, depois de muito ouvir falar dele, não associei o nome à pessoa. Quem me contou a história de Valdo nunca o descreveu. Não precisava, valia mais o relato. Na minha frente, um sujeito com mais de 1,80 metros, vestido de terno e gravata, delicado nos movimentos, envergonhado ao falar, sorridente com todos nas rodas de conversa, atento aos diálogos.

Depois de uns cinco minutos, Carlos Júlio, um amigo, me disse: "Esse é o Valdo, que dormia embaixo da marquise da loja." A loja é a Pap'Sport, que fica na rua Bento de Abreu, no Boqueirão. Valdo apenas sorriu e agradeceu a Carlos Júlio pelos conselhos. Palavra dele, conselhos. "E tenho que agradecer também ao Gabriel, irmão dele."

Valdo viveu por 25 anos nas ruas de Santos. Viciou-se em crack, chegou a 49 quilos. Os cabelos eram compridos e se misturavam com a barba. Dormia sob a marquise da loja, na época sem portão. Passava até uma semana sem tomar banho. Como qualquer morador de rua, Valdo dormia ao amanhecer e perambulava à noite ou permanecia vigilante durante a madrugada, por medo de tomarem suas coisas e de apanhar das "autoridades".

Um dos donos da loja, Gabriel Pierin, chegava pela manhã e via aquele corpo mal coberto estendido logo na entrada. Gabriel o acordava e dali brotavam algumas conversas, os tais conselhos sobre mudança de vida. Valdo recebia um café e, de vez em quando, ganhava roupas para que pudesse tomar banho - os chuveiros da praia eram o socorro imediato - e continuar o dia. 

Refeição pronta na casa de Valdo, via doações

O estalo veio alguns anos atrás. Valdo fez a curva e escolheu a outra rota da bifurcação. Ele obteve tratamento e largou o crack, conheceu Alessandra e se casou com ela. Passou a frequentar uma igreja no Guarujá e arrumou um emprego que o permite morar na casa onde prepara as refeições para pessoas que hoje refletem o espelho dele ontem.

Batemos papo várias vezes no sábado. Era o lançamento do livro Uma Estrela na Escuridão, do próprio Gabriel. Percebi, durante uma das conversas, que Valdo ainda não tinha o livro em mãos. Encostei na mesa onde Gabriel autografava, cochichei ao ouvido dele e recebi como resposta um sinal positivo de cabeça.

Fui até a outra mesa, apanhei um livro com Margareth, a esposa de Gabriel, retornei ao fundo do salão e entreguei o exemplar para Valdo. "É nosso presente, nosso agradecimento." Valdo ficou mudo, olhava para os lados e se voltava para a mesa de autógrafos. Os olhos se encheram d'água e ele murmurou: "Obrigado."

Meia hora depois, o auditório da Estação da Cidadania estava cheio para ouvir o testemunho de Andor Stern, um senhor de 1,60 metros e 87 anos que falaria dos horrores que sofreu em campo de concentração na Segunda Guerra Mundial. Ele é o "personagem" do livro do Gabriel.

No meio da mini-palestra, aquele sujeito de terno e gravata se levantou, fez sinal de reverência e, bem baixinho, fez uma pergunta a Andor. Tão baixo que teve que repeti-la. Andor o cumprimentou e agradeceu.

Após a mini-palestra, Valdo foi convidado - de surpresa - para o centro do auditório. Falaria sobre si próprio. Tímido, travou diante da plateia. Gabriel o auxiliou com diversas perguntas. Valdo pôde explicar porque sua trajetória havia mudado a partir de curtas conversas logo cedo, pela manhã, e auxílios de um comerciante de material esportivo e também autor de livros de História. Mas, por algum motivo qualquer, ele tomou pé da mudança e soube aproveitar os empurrões que muitos não recebem.

Aplaudido de pé por todos no auditório, Valdo sorriu. O livro debaixo do braço, o terno impecável, a barba feita e o cabelo cortado sem falhas, todas as peças de uma noite de reconhecimento. No dia seguinte, era hora de apertar o orçamento doméstico, colocar as panelas no fogo e trabalhar para não se esquecer daquela marquise e de quem ele era.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 20 de outubro de 2015. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Ouvindo vozes


Araceli Go, no vocal; Walmir Olveira, à esquerda na foto

Marcus Vinicius Batista

Caminhávamos com certa pressa por causa de um compromisso de domingo à tarde. Nada urgente, somente mais um filme em DVD com duas amigas. Seguíamos eu e Beth naquela passada de dia de semana, sem motivo para tanto, por enquanto distraídos.

Na vizinhança, por duas quadras, reinava o silêncio de domingo pós frango de televisão, lasanha ou macarronada com molho de tomate. O silêncio pré-jogo do Corinthians ou pré-gritos do apresentador de nome aumentativo e seus dançarinos quase famosos.

Na terceira quadra, a voz nos empurrou para reduzir o ritmo. Olhamos um para o outro e começamos a procurar a origem. Só casas e uma imobiliária fechada. Era Tom Jobim, não sabíamos a música. Mas era bossa nova numa voz feminina. Ao fundo, bem baixinho, um violão. De vez em quando, atravessando a melodia, uns pássaros.

A segunda hipótese era a escola de inglês do outro lado da rua. No domingo, estaria fechada. Não havia data especial nem reação do público diante de uma voz tão bonita. A música acabou e não houve palmas. A vantagem é que a voz subia o tom, não por causa da cantora, mas porque estávamos perto dela.

De novo, Tom Jobim. De novo, a voz, o violão e um ou outro pio. Atravessamos a rua e descobrimos qual era a casa. Quando paramos no portão, a surpresa. De costas, quem cantava era Araceli Go. De frente para nós, Walmir Olveira ao violão. Os pássaros estavam espalhados em algumas gaiolas, impossível identificar os demais cúmplices da orquestra. 

Araceli e Walmir, em apresentação no Teatro Municipal de Santos

Walmir nos identificou e fez sinal com a cabeça. Em silêncio, admirávamos a voz de Araceli e sorríamos. Quando a música terminou, aplaudimos por instinto. Ela se virou para o portão e perguntou, surpresa:

— Quem é?

— Araceli, é o Marcão. E a Beth!

— Oi, Marcão, tudo bom?

Engatamos uma conversa rápida e seguimos adiante, pois o filme nos esperava e não queríamos atrapalhar o ensaio do dueto. No dia seguinte, feriado de segunda-feira e um churrasco marcado no prédio de amigos comuns. Chegando lá, descobrimos a razão do ensaio. Mais de uma hora de uma enciclopédia de vários momentos da Música Popular Brasileira.

Confesso que nunca tive longas conversas com Araceli. Por outro lado, tenho horas de estrada ao som da voz dela e do violão do Walmir, música suficiente para os dois lados do vinil, bonus track do CD e extras de DVD.

A primeira vez que a ouvi cantar jamais será reprisada e só me resta o saudosismo. Primeiro, estávamos juntos, com os mesmos amigos - André e Meire - em uma das mesas do Pierrot, bar que não existe mais. Segundo, fomos ouvir um craque que também se foi.

No final daquela noite regada a bolinhos de feijoada e chopp, Celso Lago chamou Araceli Go ao palco e, juntos, eternizaram seis músicas. Não me lembro a ordem delas, mas as imagens permanecem adaptáveis às vozes de ambos. Foi a última vez que conversei com Celso Lago antes dele morrer, em 28 de dezembro de 2013.

Araceli e Walmir sempre souberam presentear. Não escolhem hora e lugar à toa. A última vez foi no lançamento do livro do meu irmão André Rittes, na Estação da Cidadania. Com cinco minutos de show, uma senhora me parou na porta.

— É aqui que tem apresentação de chorinho. Eu vi no jornal.

— Não é chorinho. É MPB (como se chorinho não o fosse).

— É de graça?

— É, mas tem lançamento de livro também.

A senhora viu o show e gostou tanto que comprou o livro.

Durante a apresentação, um amigo encostou do meu lado e perguntou o nome da dupla. Depois da resposta, minha idiotice jornalística se manifestou na informação irrelevante:

— Ela é cega!

O amigo olhou para mim e disse: "É... não reparei!"

Realmente ... bastava só ouvi-la cantar e Walmir, tocar.

A rua da comida global


Você conhece esta torta de banana? 

Marcus Vinicius Batista

Qualquer prato de comida por quilo se parece com a Assembleia Geral da ONU. O sushi se senta ao lado da lasanha. A picanha conversa com a batata souté. O yakisoba se mistura com o feijão e o arroz carreteiro. Molho de ervas banha a mandioca frita, quando não o shoyu afoga o ovo de codorna.

Se vamos a uma temakeria, vemos que boa parte dos pratos fala inglês via cream cheese. Já testemunhei, com certa estranheza, a alga e o arroz acompanhadas por doritos. E, para variar o cardápio, pede-se uma porção de hot rolls de nutella e banana.

A rua Tolentino Filgueiras sustenta uma nova forma de globalização gastronômica, com os talheres cravados no tradicionalismo. A convivência é internacional, mas a demarcação é por território.

A Tolentino costuma fazer parte da minha rota entre o bairro do Boqueirão e o Gonzaga. Passo por ali por duas razões principais: trabalhos com colegas da imprensa - muitos veículos de comunicação ficam no Gonzaga - ou para comer.

A rua foi durante boa parte da infância um caminho entre minha casa - ou da minha avó - e a rua Bahia, onde estavam concentradas minhas fontes de energia. Saíamos da avenida Ana Costa - minha avó morava no prédio em cima do restaurante Beduíno -, virávamos a esquina, andávamos uma quadra e chegávamos no paraíso.

Na rua Bahia, minha avó me levava para comprar refrigerantes, chocolates, balas, chicletes e outras quinquilharias alimentícias. Era a rua onde a vizinha de minha avó, Nair, também comprava os chokitos que me dava a cada visita que fazia à amiga.

Hoje, a rua Tolentino Filgueiras é endereço a la carte, de maior permanência, e não de passagem fast-food. Não visitei todos os restaurantes da rua, mas sempre encontro alguma mudança, algum detalhe a cada caminhada rumo ao Gonzaga. Parei até para ler cardápios sem entrar no estabelecimento. Aliás, escrevendo agora que percebi: só passo pela rua no sentido de ida. Na volta, sempre tomo outro caminho, geralmente a Azevedo Sodré ou a Galeão Carvalhal.

Andando é que reparo nos restaurantes. Começo pelo chinês, que me lembra minha mulher e sua paixão por Yakisoba. Ela reclama que nunca incluo este prato no nosso menu. Dívida a ser paga. Do outro lado da calçada, minha perdição, carnes argentinas. Resisto à tentação e sigo em frente, não por moralismo religioso, mas porque o Deus-Mercado não me permite. É desejar a picanha ou o chouriço e se realizar no hambúrguer.

O hambúrguer me aproximou dos Estados Unidos nos tempos do rockabilly. É o complemento do cinema, usualmente com cebola, cheddar, molho, batata frita e Coca-Cola. A trilha roqueira, às vezes, nos empurrava para a década de 60, ainda que artificialmente como o cheddar, por sinal, de origem inglesa. As poltronas de lanchonete americana lembram o Tio Sam e protegem as costas do operariado tupi.

No outro lado da rua, o outro lado do muro da América do Norte. Gosto do Guadalupe e seus pratos mexicanos, apesar de algumas adaptações para o paladar brasileño. Ali, experimentei guacamole, mas prefiro umas batatas, que vem acompanhadas com cheddar - ele sempre - e bacon. Uma concessão à Cultura McWorld. Um brinde com tequila.

O meu endereço preferido fica em frente. A Cantina di Lucca tem o melhor nhoque da cidade. Minha barriga no quinto mês de gestação é a prova ambulante de que a experimentação foi diversificada pelos restaurantes de Santos para se alcançar um veredicto.

O nhoque à fiorentina é nosso modelo de repetição - nosso porque falo também de minha mulher, Beth -, mas já provamos pelo menos uma dúzia de molhos. Fomos, inclusive, cobaias de um experimento científico. Como professor universitário, tinha que renovar meu amor pela Ciência. Como jornalista, tinha que ser solidário ao intercâmbio cultural entre França e Brasil, que pousou na nossa mesa, materializado no petit gateau de goiabada e sorvete de coco.

O nhoque costumava ser nosso ritual mensal para refeições na rua Tolentino Filgueiras. A crise econômica, ré para todos os julgamentos do momento, aumentou um pouco os intervalos entre nossas visitas.

Independentemente do restaurante que frequentamos, a sobremesa que nos atrai por hipnose está do outro lado da avenida Ana Costa. Globalizados ou não, nesta hora prevalece a brasilidade digna de um livro de Darcy Ribeiro. Na lanchonete com nome de cidade espanhola, nasce a melhor torta de banana que já comi.

Eu e Beth nos sentamos nos balcões do Sevilha para renovar nossos votos gastronômicos com a torta de banana, uma receita de família que faz a minha família salivar. Recentemente, arrumei uma desculpa e fui até lá para o almoço. A refeição seria rápida, pequena, que nos poupasse física e mentalmente para a torta.

Descobri, sem querer, que o mistinho deles também é o melhor que já devorei em Santos. Desisti da vitamina, troquei o almoço pelo lanche em definitivo. Dois mistinhos depois me fizeram dizer até breve para a torta de banana. Neste caso, não houve estômago que sustentasse um amor antigo e uma nova paixão. Mentira, a torta sempre nos acompanha até em casa.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 13 de outubro de 2015. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Amigas para sempre



Marcus Vinicius Batista

Quando minha mulher, Beth, estava internada, eu estava todos os dias na Beneficência Portuguesa. O hospital permitia dois acompanhantes na visita, e meu companheiro de corredores, elevadores e UTI era meu sogro, Lauro.

Ao final da visita, atravessávamos o canal 2 para pegar o ônibus de volta para a Aparecida. Ali, duas linhas como opção: 54 e 194. Num dia, apanhamos o 54 e nos sentamos no fundo do ônibus. Uma mulher, na faixa dos 50 anos, entrou conosco e se sentou dois bancos à frente, ao lado de uma moça com metade da idade.

Gosto muito de me sentar no fundo do ônibus. Não sei exatamente o motivo, mas me permite uma visão mais privilegiada da viagem, embora sem utilidade prática. Talvez somente apreciar a vista e achar outro ângulo no mesmo roteiro arquitetônico.

Levo sempre um livro como distração, mas - neste caso - soaria grosseiro apenas ler com meu sogro ao lado. Aliás, as conversas sobre tempos antigos sempre rendem bons "causos".

A questão é que as viagens de ônibus ficaram silenciosas. Eventualmente, alguém abre a boca para falar, mas não dá para escutar o interlocutor, ausente do local dos fatos. Prevalece a conversa telefônica, uma exceção no silêncio de velório.

A maioria parece estar com torcicolo, com dores no pescoço. Muitos não conseguem olhar pela janela, como se fossem cidadãos exemplares em cumprimento de lei municipal que determina a cabeça somente virada para baixo. Questão de segurança. Os olhos fixos nos celulares e variações eletrônicas, com dedos frenéticos que tocam o teclado ou apenas com o dedo anular para observar o quase nada da rede social.

Na altura do Canal 3, voltei a observar a mulher que subira conosco no ônibus. Ela e sua amiga também passageira teclavam sem parar em seus celulares. As pernas de uma encostadas nas pernas da outra. Ombros que às vezes se chocavam com o ônibus sacolejante. E as cabeças, paralisadas.

Dois pontos depois, a mulher mais velha se levanta e puxa a corda. Quando faz este movimento, esbarra na moça do lado e se vira para pedir desculpas.

— Puxa, desculpe! ... Paula, é você? Tudo bem? Como está sua mãe?

— Maria, tudo. Quanto tempo! Como não te vi ...

— É... Eu também não te vi. Sabe, a correria ... Pena que não deu tempo de conversar. Tenho que descer. Tchau!

— Tchau!

Olhei para meu sogro, também testemunha do não-encontro. Ele apenas sorriu como quem sentira um novo "causo" cair no colo.

sábado, 10 de outubro de 2015

Entre dois séculos


Demolição de parte das instalações do Saldanha
Foto: Tiago Gomes

Marcus Vinicius Batista

Quando soube da demolição de parte das instalações do Clube de Regatas Saldanha da Gama, não consegui evitar a nostalgia que me leva a exercícios de memória. Fui sócio-atleta por dois anos, na virada da década de 80 para os anos 90. Defendi, como goleiro, o time de futsal do clube. O Saldanha chegou a ser o melhor time infanto-juvenil da Baixada em 1990 e até hoje guardo, com carinho, uma das camisas de goleiro que vesti naquela época (e que, claro, não me serve mais como veterano aposentado).

Voltei inúmeras vezes ao Saldanha. Assisti por quatro vezes à festa junina da Mariana, minha filha, nas quadras do fundo do clube. No mesmo lugar, vi a estreia do Vinicius, meu filho, como dançarino caipira, no ano retrasado.

No começo da vida universitária, lá para 1992, passava pelo menos uma manhã por semana jogando tênis com os velhinhos. Eu e meu amigo Paulo Coelho - não o escritor, mas o administrador de empresas - usávamos somente uma carteirinha para entrar no clube. A dele. Até que um dia fomos descobertos porque um dos porteiros achou que o Paulo tentava entrar com uma carteirinha cuja foto não se parecia com ele. Recebi o documento de volta, pelas mãos de um diretor, que recomendou que eu - o então Paulo - parasse de jogar tênis naquele clube de graça.

A única vez que remei na vida foi num caiaque na sub-sede do clube, localizada na praia de Santa Cruz dos Navegantes, em Guarujá. Também fui em diversos aniversários e ensaios de apresentação da escola dos meus filhos no salão de festas, de frente para o mar.

Confesso que soube da venda de parte das instalações do Saldanha há mais de dois anos. O clube não está sozinho. As marretas e máquinas que hoje transformam paredes em ruínas representam uma mudança de mentalidade, tanto do público como dos dirigentes, sobre o papel dos clubes em Santos.

Vender parte do terreno que abrigava a sede foi a maneira de equacionar dívidas trabalhistas, fiscais e bancárias. Ainda sobrou dinheiro para modernizar as dependências, como fez o Vasco da Gama e o Brasil Futebol Clube, que se alimentam de novas fontes de receita. Outros se uniram, como o Caiçara e o Clube dos Ingleses, para compartilhar eventos e custos. 

Foto: Almanaque de Santos
Os clubes, neste século, perderam parte de sua função social. Foram trocados por academias, condomínios fortificados, shoppings e versões parecidas de lazer. Os sócios pagantes são uma espécie em extinção. Quem ficou virou sócio remido, que não paga mensalidade e não gera receita.

Os esportes migraram para escolinhas e o futebol para as quadras de society. Saudades dos torneios internos nas manhãs de domingo, que incendiavam o campo grande com pés descalços, da molecada aos veteranos.

Despedi-me do velho Saldanha no final do ano passado. E da melhor maneira que poderia dizer adeus: jogando futebol no campo grande. Descalços, ralando as pernas a cada defesa ou gol sofrido.

Naquela tarde de sábado, joguei com velhos companheiros de futsal e adversários dos tempos de adolescente. Também pude estar ao lado de amigos de tempos recentes, que dividem as peladas em campos de futebol society, outra modernidade do século XXI.

Depois do jogo, um churrasco no tradicional bar do clube, onde prevaleceram as conversas sobre futebol, de hoje e de ontem. Na hora de registrar a despedida, o paradoxo que simboliza o contemporâneo: um dos jogadores trouxe uma máquina fotográfica polaroid. "Digital é o caralho!", ele disse antes das gargalhadas.

O papel de fotógrafo sobrou para um dos adolescentes que acompanhavam os pais peladeiros. Após o clique, surgiu o problema: como compartilhar a imagem? Os celulares deram conta de fotografar a fotografia.

As contradições entre as ruínas da saudade e a modernidade das marretas estavam ali, na imagem de um clube que entrou em cirurgia plástica para rejuvenescer. O Saldanha ficará parecido com o irmão Vasco, possivelmente. Talvez seja o preço para viver mais um pouco, com ou sem multidões de sócios.

Obs.: Esta crônica foi publicada, originalmente, no site Juicy Santos, em 6 de outubro de 2015.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Ficando velho


Marcus Vinicius Batista

Envelhecer é coisa da sua cabeça. Envelhecer é perceber que velórios e enterros ficaram mais intensos do que aniversários na agenda. Envelhecer é concluir que compramos remédios na mesma frequência com que comprávamos batatas fritas e doces em décadas passadas.

Percebo a velhice se aproximar ao pensar várias vezes no convite para jogar futebol. Dois dias de recuperação, analgésico no cardápio, dores que trazem os lances de fantasia para a realidade do corpo desobediente.

A velhice manda recado quando sair de casa vira caso diplomático. A improvisação morre. O horário, o dinheiro, o casaco, a chuva, a vida amanhã constroem a pauta que trava negociações.

A velhice sussurra quando o dane-se some do vocabulário e da atitude. Pendurar roupa no varal, comer a beterraba da dieta, espantar o açúcar ou o sal, trocar a areia da caixa do gato deixam de ser detalhes e são gravados na pedra como os Dez Mandamentos.

A velhice se assume quando o passado era melhor; o meu tempo era a melhor época; a saudade se veste como autoridade suprema sobre os julgamentos presentes. As gerações posteriores são vistas como aquelas que não sabem viver.

A velhice sobrevive no alto valor dado ao olhar dos outros, nas convenções sociais como atos de fé, na escravidão de aderir à religião do pensamento único.

Velhice é refletir primeiro sobre o que pode dar errado, os riscos e as culpas que conduzem às apostas pelo que é garantido.

A velhice é uma incerteza que se finge absoluta nos teimosos olhos de quem nunca mais teve dúvidas. Não seria melhor apostar na "maturidade de estar velho"? Pelo menos, é um conceito que jamais saberemos quando chega e só o descobrimos quando já se foi.

A maturidade é aceitar o convite para a pelada de final de semana, com a convicção de que importa é se divertir, aproveitar a resenha depois do jogo, regada a churrasco e cerveja. O placar não vale nada diante das lembranças de uma ou outra jogada que incentivará para a partida da próxima semana.

A maturidade é reunir os amigos mais próximos em casa - não aqueles do oba-oba virtual - para uma sessão de cinema, falar da vida, conversar sobre livros e pessoas interessantes, bebericar, degustar uma comidinha que não está do menu do dia-a-dia. Horário, casaco, dinheiro e chuva ficam para a lista dos chatos.

A maturidade talvez nos visite quando compreendemos que a casa é nosso melhor refúgio. Cuidar dela é essencial, principalmente para nossa saúde mental. As obrigações podem ser executadas com uma boa trilha sonora e uma conversa com quem se ama e vive a seu lado.

Estar velho é detectar os atalhos do campo. É relativizar quem te observa, quem adoraria dizer o que você deve fazer, quando e como. Convenções sociais valem para certas circunstâncias; se valer para todas, passaremos os grilhões nos tornozelos.

Estar velho é, por mais que a ranhetice grite por nossa atenção, ter uma única certeza: meu tempo é hoje e ainda há muito por fazer ou admirar, junto com as gerações anteriores a posteriores, dependendo do papel e da hora.