terça-feira, 1 de setembro de 2015

Obrigado, Luiz


Luiz Alca de Sant'Anna - (Foto: G1/Santos)

Marcus Vinicius Batista

Na última vez que estive na casa de meu pai, pratiquei – pouco antes de ir embora – o mesmo ritual. Abri o armário do corredor e procurei por um ou dois livros que pudesse doar ou deixar nos projetos de trocas literárias. Livros meus, que me aguardavam com sonolenta saudade, à espera de um novo leitor, com frescor por aquelas obras.

Este ritual sempre resultava em folhear – ou apenas manusear – livros que pertenceram à minha mãe, Zuleica, falecida em 2013. Era um processo rápido, de reflexão breve, de cultivo de memória afetiva, mas que compunha o até a próxima na casa do meu pai.

Neste momento, invariavelmente, eu mexia em livros do Luiz Alca. Era assim que minha mãe o chamava. Minha mãe tinha os cinco livros dele. Na prateleira, faltava somente “Outra Face”, reunião de crônicas que estava na minha estante, em casa. Li boa parte dele e sou grato pela obra pousar em minhas mãos, pois muitas das crônicas se encaixaram em cenários emocionalmente desfavoráveis da minha vida. Funcionaram como confortos paliativos, como a boa literatura deve ser.

Mexer nos livros dele me conduziram, muitas vezes, a uma lembrança de 1996, quando minha mãe me arrastou – ou eu me convidei, não me lembro – para uma excursão em Nova Iorque, a única viagem que fiz para fora da América do Sul. Eu tinha 22 anos, pedi parte das férias antecipadas na redação da TV onde trabalhava e embarquei num dos passeios mais divertidos e culturalmente enriquecedores da minha vida. A excursão era a tradicional viagem anual que o Luiz organizava com suas alunas e acompanhantes.

Nova Iorque foi nosso endereço por sete dias, distribuídos em museus, teatros, bares, cafés e caminhadas sem rumo para conhecer, ouvir e conversar com pessoas que estarão na sua vida por cinco, seis minutos, pela duração de um papo. Aprendi ali a importância de escapar dos tours guiados e andar na rua, aberto às surpresas, aberto à cultura local. Luiz Alca trabalhou como um guia informal, de dedo cirúrgico para indicar uma atração alternativa, um evento cultural de que não me arrependeria.

Depois desta viagem, nos vimos poucas vezes em quase 20 anos, mas conversamos muito. As dezenas de e-mails não cediam à urgência da vida pública de hoje; pelo contrário, serviam à troca de experiências, de pontos de vistas, sempre a partir de crônicas, a maioria escritas por ele, algumas por mim.

Sentia-me como seu interlocutor quando lia suas crônicas em A Tribuna. Não era uma leitura diária, mas aos solavancos. Deixava acumular vários dias, juntava os textos quando passava na casa dos meus pais e depois os levava embora para ler em doses homeopáticas. Confesso que dispensava as notas quase sempre e manifestava uma curiosidade perversa pelas legendas das fotos dos “colunáveis”.

Luiz era um cavalheiro no sentido britânico de ser. Procurava compreender minhas críticas, meus desatinos textuais em nossas correspondências virtuais. Aceitou minha observação – e disse ter concordado – que a coluna social era um gênero sintomático do provincianismo.

Quando publiquei meu primeiro livro, também de crônicas, ele me concedeu a gentileza de falar sobre o lançamento em sua coluna. Semanas depois, repetiu a generosidade de elogiar meu livro no mesmo espaço.

Conheço Luiz Alca de Sant’Anna desde criança. Minha mãe, Zuleica, foi aluna dele por três décadas, nos cursos de Dinâmica do Comportamento. Os conteúdos eram alvo de conversas entre eu e ela, às vezes, por semanas depois de uma das aulas dele. Ele a fazia pensar, ela retribuía me fazendo pensar mais um pouco.

Depois da morte dela, descobri pilhas de páginas de A Tribuna, com as crônicas de Luiz Alca, dentro de uma gaveta. Passei dois meses lendo-as, três ou quatro por dia, num ritual que simbolizou – sem alarde - meu jeito de reconhecer a importância dele nas nossas vidas.

No último final de semana, A Tribuna, onde Luiz escreveu por 15 anos, publicou uma revista com 30 crônicas dele. Adiei a leitura, na velha mania de avaliar errado pela pressa do cotidiano. A velha ilusão de, como crônicas e leitor, achar que as crônicas fazem o cronistas eterno. Que ele nunca parará de escrever, de chegar nas entrelinhas do nosso miúdo mundo.

Guardarei seus textos como lembrança e fico feliz de que ele recebeu todo o reconhecimento merecido, em vida. Conversava, anteontem, com Beth, minha mulher, sobre a crueldade de não ter o trabalho devidamente valorizado antes de morrer. Luiz Alca não fazia parte deste clube, ainda bem.

Uma coincidência final: Luiz e minha mãe morreram com a mesma idade, aos 68 anos. Sinto-me triste pela ausência de seus escritos, ensinamentos e companhia. Sentirei falta dele e das palavras. Tenho certeza que minha mãe me sussurrou o mesmo agora em meus ouvidos. Obrigado, Luiz!

3 comentários:

medvet49 disse...

Nem conheço você, Marcus, mas falou tudo que precisa ser dito sobre o Luiz. "Tudo" talvez seja muito, porque ele deixará em todos que tiveram o privilégio de seu convívio um imenso vazio, que palavra nenhuma talvez consiga preencher. Parabéns pela sensibilidade!

Carlos Gama disse...

Completo!

Carla disse...

Vou ratificar o primeiro comentário: Parabéns pela sensibilidade, Marcus!