domingo, 20 de setembro de 2015

Esperar ensina ... (Conversas com Beth # 17)


Marcus Vinicius Batista

Estou sentado há três horas e meia na mesma cadeira. Fico na parte mais curta de um corredor em L, onde não há movimento de pessoas, pois a porta de acesso é trancada. Posso esticar as pernas, oscilar entre o sono mal dormido e a leitura do romance policial. Posso curtir relativo isolamento, que corta o efeito de ouvir a conversa alheia sem ser convidado. Um comportamento que sei que não evitarei.

Costumamos entrar no hospital por volta das 9 horas. O lenço na cabeça de Beth afasta quaisquer perguntas por parte dos porteiros e das atendentes. Passamos direto e viramos à direita, na oncologia. Em minutos, uma funcionária destrincha a burocracia e nos pede para aguardar. Ela, em minutos, sumirá em cabines depois da porta de vidro. Eu tenho missão de me sentar e esperar.

Ao meu lado, o filtro d’água alivia a expectativa. Muitos copos para o calor de um corredor quase fechado, sem ventilação ou ventilador. De vez em quando, alguém surge para retirar umas revistas, empilhadas em suportes há muito tempo. Menu eclético, da Caras à National Geographic. Li, no mês passado, uma edição de qualidade da Caminhos da Terra, publicada em 1998 e resistente ao tempo.

A cadeira onde me sentei me deixa a cinco metros de Beth, mas a porta de vidro é o muro que nos separa. Não posso entrar lá. Comunicação via torpedo de celular, mas apenas para informar quanto tempo falta para acabar a primeira aplicação. Beth se protege da quimioterapia com a poesia de Manoel de Barros. Eu salivo pela chance de protegê-la daqui a pouco.

O local não é somente de espera. É de desgaste. O ar é pesado e lento, há poucos sorrisos, conversas curtas, que se resumem a bom dia, por favor e obrigado. Gente que duvidaria que parasse em pé. Gente com dor e olhar de esperança para nunca mais voltar ali. Funcionários que esboçam simpatia e chamam pelo nome para construir uma atmosfera de pessoalidade.

Depois que Beth entra para a primeira dose de medicação, eu saio para a primeira dose de qualquer bebida que me mantenha esperto. Café, água, Coca-Cola, suco, eles se revezam como aditivos para uma preocupação com verniz de impotência.

A impotência também é a ausência de ter para onde ir. Mas por que iria? Espero assinando em branco que Beth está bem. As dores nas costas só desaparecem quando durmo novamente. Sou acordado pela própria Beth, sorridente, mas com a mão direita atrelada a uma seringa.

Temos uma hora para nova sessão. Não podemos deixar o hospital. Só há dois lugares para permanecer. O corredor de espera da oncologia está descartado. A desculpa é lavar o rosto, usar o banheiro. Decido comer algo. A cantina está sempre com movimento, mas prevalece o som da TV, em eterna conexão com a Rede Globo.

Como um sanduíche. Beth tomou lanche durante a quimioterapia. E sua dieta é sal zero, algo quase impossível na cantina. No mês passado, conseguimos um sanduíche de frango grelhado, sem sal, com queijo branco e pão de forma, uma exceção no cardápio, negociada com diplomacia numa conversa com a dona do lugar.

Como a segunda aplicação, desta vez de um remédio contra náuseas, aconteceria em meia hora, pensamos em ir para o jardim. Ali, no mês passado, pudemos conversar sobre assuntos mais amenos, Beth dormiu um pouco encostada no meu ombro. Encontramos colegas da imprensa em serviço.

Desta vez, a chuva nos transferiu para um banco de madeira, daqueles de espera de atendimento. Ficamos em silêncio, eu folheava distraidamente Manoel de Barros. A arquitetura do prédio nos prendia um pouco mais, sem que o relógio nos imantasse a cada três minutos.

A segunda aplicação, ao contrário da anterior, é rápida. Cinco minutos. O problema seria o intervalo até a próxima: quatro horas. A experiência de três sessões de quimioterapia nos permitiu planejar este intervalo. Com um carro emprestado, pudemos esperar na casa da Celi e do Marcelo, um casal de amigos que nem mesmo o sobrenome diferente os tiraria da família.

Ficamos no apartamento deles e pudemos almoçar, às quatro da tarde, uma comida saudável e sem sal. No meu caso, sal a gosto. Conseguimos descansar um pouco e pensar em como resolver detalhes logísticos (devolução de carro, ida para casa e ida para o meu trabalho). Às 17h30, a terceira aplicação. Uma injeção rápida, com um minuto de espera. Só que voltar ao hospital duas vezes no mesmo dia altera a sensibilidade ao tempo. Um minuto de resignação, de tarefa a cumprir. Ressuscita o cansaço, as dores musculares, o receio com os efeitos colaterais.

Nunca fui tantas vezes em um hospital. Estar na Beneficência Portuguesa é uma rotina semanal que se perpetuará até o próximo ano. Entre consultas e exames, assinaturas e guias de atendimento, o dia mais cansativo sempre será o da quimioterapia. É entrar pela manhã e sair ao anoitecer.

Na prática, é a segunda visita na oncologia no mesmo mês. O ritual começa dez dias antes. Primeiro, entregar a guia na sede do plano de saúde. São três ou quatro dias de espera. Recebemos um telefonema, retornamos à sede, retiramos a guia aprovada e seguimos para o hospital. Lá, entramos com a papelada para marcamos a sessão de quimioterapia para a semana seguinte.

Esperar tem nos ensinado que o caminho deve ser aproveitado para que se entenda e valorize a chegada. Esperar por Beth na quimioterapia me ensina que o tamanho de nossos problemas podem ser redimensionados. Esperar ao lado de outras pessoas, quase todas desconhecidas, nos ensina a observar a humanidade em cada pele amarelada, cada rosto cheio de vincos, cada lenço que esconde nova perspectiva. Sem queixas, sem choradeiras; pelo menos, naquele corredor.

Esperar pelos efeitos da quimioterapia é saber que teremos novos testes de paciência, principalmente para Beth, às vezes antes do terceiro dia, como prometem as cartilhas médicas.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Deuses e homens (Conversas com Beth #16)



Marcus Vinicius Batista

Conheci muitos médicos. Sou amigo de muitos deles. De jogar futebol uma vez por semana, tomar uma cerveja e fazer a resenha da partida. De perceber a humanidade e a responsabilidade a cada dúvida dentro de um consultório. E tive o desprazer de conviver com outros. Daqueles que arrotam falsa sabedoria pelos jalecos. Daqueles que não tocam a mão em pacientes porque podem descer ao nível da mortalidade.

Perdoe-me se pareço simplista, mas se trata de uma divisão pessoal, individual e intransferível. Convivo com médicos quase todos os dias da semana, por conta da doença da minha mulher, além dos acompanhamentos regulares por causa da minha amiga de anos, a diabetes. Assim, entendo que médicos podem ser divididos em duas categorias: os que sofrem pela humanidade que carregam consigo e os que sofrem pelo complexo de Deus que julgam ter se transformado.

Os deuses de consultório são perceptíveis assim que a porta se fecha. Eles olham de cima para baixo, mantém uma distância segura como se todos os pacientes tivessem ebola em ebulição. Mascaram a ignorância nos remédios amostra grátis, que garantem uns passeios de vez em quando, nos exames, dos quais são dependentes, e no palavrório com sufixo químico para afastar qualquer chance de questionamento.

Deuses, no fundo, são sujeitos autoritários. Sentem prazer em decidir seu futuro numa canetada de letra incompreensível. Vi, certa vez, uma médica plantonista não olhar para minha filha, nitidamente doente, e dar o veredicto: virose. A boca cheia para a palavra que encobre a expressão de “não faço a menor ideia do que você tem”.

Em outra situação, minha mulher, Beth, estava com a pressão altíssima – chegou a 23 por 12 – por conta de uma crise de lúpus. O médico, que teve que ser auxiliado por um enfermeiro para pedir a pressão, a classificou como hipertensa. Ignorou a informação de que ela tinha lúpus diagnosticada há 15 anos e não quis saber das orientações da reumatologista que a acompanha há mais de uma década.

Os deuses são filhos do tecnicismo, pregam a desumanização das relações e rezam de joelhos, como servos, à tecnologia dogmática da indústria farmacêutica. Os deuses incorporam doutor a seus próprios nomes.

Prefiro lidar com os médicos que colocam o homem à frente do nome gravado no bolso do jaleco. Essas pessoas compreendem, com relativa clareza, que o conhecimento médico-científico deve servir a quem não está ali para uma visita de cortesia ou uma bajulação gratuita. Médicos sabem que, mais do que o vocabulário de hospital, é preciso falar a língua de quem sofre.

Médicos não existem para curar. Existem para aliviar o sofrimento. Deuses acreditam que só vivem para curar e imagino o quanto devem provocar risada no inevitável, o quanto sofrem com as ilusórias cláusulas de suas doutrinas.

Recentemente, os 20 dias de UTI da minha mulher nos levaram a conhecer mais alguns médicos-humanos. Bruno Vieira é um deles. Ele se armou de uma espada, ao lado dos outros mosqueteiros, Philipe Saccab e Felipe Gannoum e de Rosina del Maso, a Guinevére desta história, para cutucar e ferir a matilha que ameaçava destroçar Beth. Eles ainda enfrentam os lobos (a lúpus), sempre preocupados, disponíveis e sorridentes quando a ocasião permite.

Médicos como eles conversam conosco, pacientes e familiares, na horizontal. Lidam com o conhecimento médico como elemento de solidariedade, sem ar professoral ou pregação do alto da montanha. Dividem dúvidas, procuram outros profissionais e, acima de tudo, sabem dizer “não sei”.

Diferente de muitos na era dos tagarelas, esses médicos costumam ter “escutatória”, como dizia Rubem Alves. Ser médico é ir além da doença, dos sintomas, das taxas, das estatísticas laboratoriais. Ser médico é incorporar, em tudo isso, a vida do paciente, sua rotina, sua história, inclusive seu nome. E olha que estes quatro profissionais passam seus dias entre ambulatório e UTI, aquele endereço em que a morte é o porteiro, mas nem sempre quem dá a última palavra. Agradeço a eles pelo que fizeram e fazem sem cobrar ingresso de entrada no reino de Deus.

Ao contrário dos homens, os deuses precisam, para descerem à terra dos mortais, daquilo que lhes falta: o humano, que ironicamente só se manifesta quando o vemos em outro da mesma espécie.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Para Zuzu Angel, um som ao saxofone


Museu de Arte de São Paulo - MASP

Maria Rita Paschalis

Há três meses eu, mais cinco professores e dois monitores fomos a São Paulo participar de um projeto cultural. Levamos 92 alunos (a maioria do Ensino Médio) para conhecerem o MASP e o Itaú Cultural, onde havia uma exposição sobre a estilista Zuzu Angel.

Nossa maior preocupação era que nada acontecesse com os alunos até chegarmos ao nosso destino, na avenida Paulista. Era um dia nublado com cara de chuva. A maioria dos alunos não conhecia aquela parte de São Paulo. Eles estavam deslumbrados com o tamanho da avenida mais famosa do Brasil, com muitos bancos, consulados, comércios em geral, o lugar escolhido para manifestações e shows também.

Antes de chegarmos na estação Brigadeiro, passamos em frente a um banco e percebi uma senhora que saia de uma agência bancária. Olhava incrédula e assustada a multidão que percorria a calçada, pensando ser um arrastão e segurava fortemente a bolsa com medo de um assalto.

Ela ficou na porta do banco e dali não saiu até que todos nós tivéssemos passado. Na hora, começamos a rir da situação, mas nos pusemos no lugar dela e creio que nós também ficaríamos receosos por não saber do que se tratava.

Acho prudente o uso de uniforme que identifica quem somos e de onde viemos. Ninguém tinha uma camiseta da escola e nem nós um crachá que identificasse que éramos professores e alunos.

Ao chegarmos na estação Brigadeiro, havia um rapaz muito alinhado trajando um terno e tocando um saxofone. Todos os alunos pararam, maravilhados com o show. Era um mundo bastante novo para muitos deles.

Um grupo ficou no prédio do Itaú Cultural e eu, com o outro grupo, e professores seguimos caminhando até o MASP. Lá, eles conheceram o vão livre, onde havia um escritor desconhecido tentando vender suas obras, falando sobre sua trajetória como escritor, até que liberaram a nossa entrada.

Para quem gosta de arte como eu, foi um espetáculo à parte. Obras que encheram nossos olhos de deslumbramento. Era interessante ouvir os comentários e as críticas dos alunos sobre as obras, aproveitando o que tinham aprendido em Arte e História na escola.

Quando saímos, eu falei a eles sobre o parque Trianon que fica em frente ao museu, um dos parques que visitei muito na minha infância.

Ocupação Zuzu Angel, no Itaú Cultural
Voltamos a caminhar para visitarmos a exposição de Zuzu Angel. Primeiro, conhecemos algumas confecções e tecidos usados por ela, máquinas de costura antiga, botões e aviamentos. Os alunos receberam orientação das monitoras sobre o material que Zuzu utilizou para confeccionar suas obras e também um retalho onde eles puderam deixar uma mensagem a ela e colocar em um painel apropriado juntamente com seus nomes.

Depois descemos para outra sala, onde algumas artistas vestidas como na época e com modelos de Zuzu, interpretavam as cartas que ela escreveu ao filho desaparecido durante a ditadura militar. Ao lado, havia um acervo com as cartas originais do filho e de Zuzu, e também relatos de toda a luta que ela viveu para tentar encontrar o filho, e depois querer resgatar o corpo dele para, ao menos como mãe, poder enterrá-lo.

Todos nós pudemos aprender que a vida muitas vezes nos reserva uma imensa lição e tenho certeza que a experiência ficará marcada por muito tempo na lembrança dos nossos alunos.

domingo, 13 de setembro de 2015

Silencioso domínio



Betty Watanabe

Ele chega... Silencioso, ou pela compra, de troca ou raramente como presente. É a febre do momento, você não precisa falar, nem escrever muito, pois ele faz tudo. Precisa sim, ter habilidades nos dedos.

Ele acorda você e com você, é o seu primeiro bom dia, passa o dia inteiro com você e ainda dorme ao seu lado, quando lhe faz companhia por altas horas da madrugada. É incrível, como para muitos, é imprescindível. Acompanha as pessoas em todos os lugares e momentos.

Acredito que você, como eu, já entrou numa loja e os vendedores estavam distraídos com eles em suas mãos. Nas ruas caminhando ou até na praia, é raro você ver alguém que não o tem nas mãos. A todo momento, selfie de tudo...

E quando ele toca, em lugares silenciosos ou públicos, e o indivíduo começa a falar alto e não se toca? Aliás, o que falar das variedades dos toques, um mais sensacionalista do que o outro?

Já presenciei em palestra a pessoa atendê-lo e sem nenhum constrangimento responder ao chamado, mesmo sendo fulminado pelos olhares presentes. E os acidentes que causa, quando motoristas se distraem em atendê-los, sem falar das muitas mortes.

São muitas as estórias e causos, sobre o tal. Oh!... O meu está tocando, com licença, tenho que atender meu celular.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Putz, cresci ... e agora?



Juliana Chacon

Durante a adolescência, talvez um dos nossos maiores sonhos seja “virar adulto”. Poder ter a liberdade de fazer o que bem entendemos, sem precisar da permissão de ninguém, mas nunca chegamos a pensar nos lados ruins que essa liberdade traz.

Na virada do ano de 2014, eu já sabia que aquele seria mesmo um ano diferente, tinha completado 18 anos, estava tirando minha carta e ingressaria na faculdade. Tudo parecia estar ótimo até eu me dar conta de todas as responsabilidades que viriam para mim, a começar pela própria faculdade.

Lá, eu era dona de mim, não precisa dar satisfações para ninguém. Se ficasse na aula ou não, se estava prestando atenção, ninguém se importa com isso. Os professores só querem que você entregue tudo na data e tire uma nota satisfatória. Então, um aviso no inicio do ano “dia tal, vai ter trabalho” valia para o semestre inteiro. E como tem coisa viu, perdi as contas de quantas atividades eu fiz.

Fora isso, já assinava tudo com meu nome; então, qualquer problema eu seria responsabilizada. E aí comecei a perceber que independência não é só sobre ir ou não a algum lugar, mas resolver todas as coisas sozinha.

Percebi Isso no dia que faria um exame de sangue e chamei minha mãe para me acompanhar. Ela me respondeu de uma forma tão natural: “Eu preciso ir?” Deu um medo muito grande quando pensei nisso: “Putz, agora eu cresci; logo, logo, vou ter um emprego e ficar cada vez mais autônoma, sem precisar que ninguém tome atitudes por mim”.

Claro que é bom poder ir em shows sem precisar me preocupar se vou ter permissão para isso e dirigir é uma coisa muito legal, mas fiquei lembrando de quando era pequena e meus pais me ajudavam com as lições de casa e falavam para o médico o que eu estava sentindo, quando arrumavam minha comida e o lanche da escola, e a única coisa que eu tinha que me preocupar era se chegaria a tempo de assistir ao desenho.

Eu sei que ainda não tenho nem metade das preocupações que a maioria das pessoas tem, mas é engraçado pensar que talvez, só por um momento, seria bom voltar para o tempo da escola, cinema, clube e televisão.

Obs.: Texto que nasceu do curso "Como escrever crônicas", ministrado na Universidade Católica de Santos (UNISANTOS). 

O grande baile de máscaras



Armando Cândido

Parece que nos últimos tempos os nossos políticos têm confundido Santos com Veneza. Talvez seja por culpa dos nossos canais, mas convenhamos, aqui não precisamos andar de gôndola. Quando não chove. O fato é que eles agem como se estivessem em um grande baile de máscaras ao redor de uma "fogueira das vaidades"! As cenas que têm sido protagonizadas pelos excelentíssimos seriam cômicas se não fosse trágicas.

Os políticos santistas de hoje podem, definitivamente, ser comparados às grandes personalidades do passado como Judas Iscariotes, Nero, Napoleão Bonaparte, Adolf Hitler e por aí vai. Mas triste mesmo é vermos cada vez menos Mahatmas Gandhi, Josés Bonifácio e Saturninos de Brito. Esses sim estão, a cada dia, mais raros. Verdadeiros espécimes em extinção.

E isso não é tudo: o pior que nossos políticos, nos quais já perdemos a esperança, é parte de nosso povo que me remete a trilogia vencedora de 11 Oscars “O Senhor dos Anéis”, e mais parece um exército de orcs ajoelhados diante do grande olho de Sauron. Seguem cegamente suas ordens travestidas de notícia e se indignam apenas com aquilo que o grande irmão seleciona.

Se for verdade o ditado que diz: "em terra de cego, quem tem um olho é rei", queria eu ser o mais simples dos plebeus apenas para não enxergar tanto descaso, tanto desmando. Essa fogueira das vaidades me queima os olhos mais do que sol do meio dia. Mais do que a visão, me tira a esperança, mina minhas forças, me deixando prostrado, sem reação.

Parece que não quero mais ver isso. Se já não vejo mais motivos para lutar. Talvez deva pegar pelas mãos minha afro-francesinha e refugiar-me em Veneza, pois lá, ao menos, os passeios de gôndola são muito mais românticos.

Obs.: Texto que nasceu no curso de Escrita Criativa, ministrado no Espaço Certo, em Santos. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Jamaica, seu Kiko, a Kombi e a galinha




A esquina da rua Vieira de Morais com a avenida Santo Amaro, em São Paulo, é testemunha das idas e vindas de pedestres, ciclistas, motos, ônibus, carros e caminhões. Ela também é o endereço de Jamaica, que impunha respeito – quando não, medo - a quem cruzava seu caminho, sensações até justificadas pelo tamanho e porte dele.

O que a pressa de quem passava por ali não deixava ver eram os olhos grandes e redondos do Jamaica que, junto com o rabo balançando à velocidade da luz, queria mesmo era ganhar carinho.

A gente nunca esquece a primeira vez com o Jamaica.

Eu, pelo menos, não vou esquecer. A esquina do endereço de Jamaica era minha passagem diária para o trabalho e, todos os dias, eu sorria para ele, com vontade de chegar mais perto. Depois de alguns dias e de me investir de coragem, fiz minha primeira parada diante dele. Fui abraçada pelas suas patas fortes depois que ele deu um pulo, ficou de pé e, nessa posição, alcançou quase a minha altura. Levantei as mãos e me rendi às lambidas. Seu Kiko ficou ali, intercalando risadas e broncas no Jamaica.

Seu Kiko e Jamaica são amigos desde que o segundo era um filhote e o primeiro ainda morava embaixo de uma lona, montada de acordo com a conveniência – ou inconveniência – em ruas do Brooklin. Depois de três anos, seu Kiko mudou de casa. Hoje, mora em uma velha Kombi, comprada depois de anos de economia e com a ajuda de uma amiga. Dentro, o espaço é compartilhado por uma cama de solteiro, roupas e outros objetos.

A galinha chegou algumas semanas depois de eu ter conhecido os dois. Seu Kiko contou que um homem, que passava pela esquina com a bichinha nos braços, perguntou se ele não queria ficar com ela. Do lugar que vinha e para aonde ia, seu Kiko não soube me responder, mas disse ao rapaz que ficava com a galinha.

Chiquita, a quem questionasse o que ele faria com ela, daria que um bom prato com quiabo. Mas era brincadeira do homem de coração mole que vivia, todos os dias, em condições duras junto com o companheiro.

Os três se deram bem. Quer dizer, mais ou menos. Jamaica não deixava Chiquita chegar perto da ração e mostrava isso com alguns pulos na direção dela. Chiquita, incansável na busca por comida – condição da sua natureza de galinha – subia no colo do seu Kiko quando ele estava comendo alguma coisa. A familiaridade foi crescendo, e ela já fazia isso mesmo sem que seu Kiko tivesse algum petisco na mão. Fazia porque queria, mesmo.

A Kombi, seu Kiko, Chiquita e Jamaica tiveram que mudar de endereço por conta de uma notificação da subprefeitura de Santo Amaro, amparada na legislação que proíbe o estacionamento permanente de carros em vias públicas. Com a ajuda de um guincho – a Kombi não funciona, serve apenas de casa – e de amigos, o veículo e seus moradores foram para uma outra rua, no mesmo bairro.

Tive que mudar meu percurso de ida ao trabalho para continuar visitando meus amigos. Em uma daquelas manhãs, vi a Chiquita caída enquanto me aproximava da Kombi. O filete de sangue que escorria próximo do seu corpo comprovava que ela estava mesmo morta. Seu Kiko explicou que, bem provavelmente, ela tinha morrido porque o papo tinha estourado.

Na última vez que passei por lá, seu Kiko e Jamaica estavam bem e lidando com as coisas do dia-a-dia: reclamações dos vizinhos que não gostam da Kombi e dos seus moradores, cumprimentos de quem passa por ali todo dia e as saídas em busca de dinheiro. Mais uma história da cidade que nunca dorme.

Obs.: Texto que nasceu do curso de Escrita Criativa, ministrado no Espaço Certo, em Santos.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Eterno



Matheus Doncev

Existe algo diferente no sentimento amor. Por que tão bom? Por que tão bonito? É algo que precisa ser sentido de forma sincera, na qual você realmente se entrega por aquele que leva a honra de ser amado por você. Não importa quem, só importa como.

Acredito no “para sempre”. O verdadeiro amor te faz mudar a forma de agir, pensar, viver porque o amor é uma adaptação à vida. Você não muda sua essência, apenas aprimora. Ou deveria, pois aqui fica outra dúvida: por que tão doloroso?

O amor sabe ser controverso. Horas ele te ensina que nada dura pra sempre e que somos humanos. Corações podem mudar. Sim, podem. Há frações de segundos que te provam que o amor não é perfeito e que sua companheira (ou companheiro) não é a pessoa que talvez te dê o “para sempre”, pois ela te completou por momento. Seja um momento de mês, anos, décadas. Ué, claro que pode.

Somos humanos. Agimos de formas diferentes, pensamos de formas diferentes, com gostos diferentes e, a cada ano que passa, agimos diferentes porque estamos em constantes mudanças com nós mesmos. E se você achar sua companheira com quem quer se casar, construir uma família e viver o “para sempre” ... Adapte-se! Sinta, mude, pense, prove e DEMONSTRE! Faça que, mesmo que por venturas não seja eterno, seja para sempre enquanto dure.

Com amor, Matheus

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A loira da faculdade





Caíque Stiva*

Conheci uma loira na faculdade. Ela foi amarga comigo no começo, mas com o tempo passei a gostar dela. Esse gosto passou a crescer a cada dia, até que eu percebi que era amor.

Antes mesmo de ingressar no ensino superior, alguns amigos que já a conheciam me alertavam sobre sua capacidade de seduzir um homem. Chegavam a dizer coisas do tipo:

‘’É amor à primeira vista.’’ ou até mesmo ‘’Ela faz o seu tipo. ’’

Achei um exagero e, a princípio, não dei bola, mas aquilo sempre me vinha em mente. Eu pensava se um dia iria realmente gostar dela, em como seria minha vida com ela presente em quase todos os momentos e o que minha família pensaria dessa relação.

Ainda em tempos de escola, comecei a pesquisar sobre ela, ou como costumamos dizer hoje em dia, ‘’estalqueá-la’’. Descobri muitas coisas sobre sua vida com ajuda da internet e me dei conta de que a loira tinha um ‘’tipo’’ bem comum. Seu corpo cheio de curvas e seu suor chamava (e ainda chama) muito a atenção dos rapazes que frequentam a faculdade.

Em fevereiro desse ano, chegou o primeiro dia de aula. Era o dia do trote e eu estava nervoso, pois sabia que naquele dia voltaria mais cedo pra casa e consequentemente estaria careca e fedendo, ou seja, sem chances de conhecê-la.

O trote em si foi até que leve. Cortaram meu cabelo, jogaram todos os tipos de comida na minha cabeça – e no corpo todo também –, mas eu estava contente com a conquista de ter entrado na tão temida faculdade. Minha única preocupação era tomar o ônibus naquele estado, mas foi tranquilo, pois eu não era o único sujo no lotado 934EX das 23 horas.

Mas, se eu voltaria mais cedo, por que eu peguei o ônibus às 23 horas?

Quis o destino que, naquele dia 2 de fevereiro de 2015, eu finalmente conhecesse a famosa loira da faculdade, que não saia dos meus pensamentos há meses.

Nosso primeiro contato foi através de um veterano do meu curso que tinha uma grande afinidade com ela. Ele me chamou logo após o trote e disse:

‘’Bicho, tem alguém que eu quero que você conheça.‘’

Entrei em estado de choque, pois eu não queria que ela me visse naquela situação, e logo tentei recusar:

‘’Não, cara, olha meu estado. Não dá para ir até lá assim.‘’

Após alguns minutos de conversa, ele finalmente me convenceu. O encontro foi no Bico Doce, o barzinho que fica bem ao lado da faculdade, lugar onde me tornei freguês assíduo. Porém, só o frequento após as aulas, porque a faculdade é cara e não dá para ficar faltando e jogando dinheiro fora.

Chegando ao bar, lá estava ela, do jeitinho que me havia sido descrita. Loira, corpo curvilíneo e suado.

Estendi minha suja e fedorenta mão - que nem o sabonete do banheiro da universidade foi capaz de limpar -, agarrei-a e levei até minha boca. Que CERVEJA deliciosa. Foi com certeza amor à primeira vista. O primeiro copo de cerveja, logo após um dia cheio de nervosismo, foi apaixonante.

Não foi a primeira vez que bebi cerveja na vida, mas foi com certeza a mais especial, era a tão falada cerveja da faculdade, e melhor ainda porque foi de graça. Meu amigo veterano foi quem pagou aquela garrafa.

Começava ali uma história de amor que já dura há meses e, com moderação, vai durar uma vida.


Obs.: Texto que nasceu do curso "Como escrever crônicas", ministrado na Universidade Católica de Santos. 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Obrigado, Luiz


Luiz Alca de Sant'Anna - (Foto: G1/Santos)

Marcus Vinicius Batista

Na última vez que estive na casa de meu pai, pratiquei – pouco antes de ir embora – o mesmo ritual. Abri o armário do corredor e procurei por um ou dois livros que pudesse doar ou deixar nos projetos de trocas literárias. Livros meus, que me aguardavam com sonolenta saudade, à espera de um novo leitor, com frescor por aquelas obras.

Este ritual sempre resultava em folhear – ou apenas manusear – livros que pertenceram à minha mãe, Zuleica, falecida em 2013. Era um processo rápido, de reflexão breve, de cultivo de memória afetiva, mas que compunha o até a próxima na casa do meu pai.

Neste momento, invariavelmente, eu mexia em livros do Luiz Alca. Era assim que minha mãe o chamava. Minha mãe tinha os cinco livros dele. Na prateleira, faltava somente “Outra Face”, reunião de crônicas que estava na minha estante, em casa. Li boa parte dele e sou grato pela obra pousar em minhas mãos, pois muitas das crônicas se encaixaram em cenários emocionalmente desfavoráveis da minha vida. Funcionaram como confortos paliativos, como a boa literatura deve ser.

Mexer nos livros dele me conduziram, muitas vezes, a uma lembrança de 1996, quando minha mãe me arrastou – ou eu me convidei, não me lembro – para uma excursão em Nova Iorque, a única viagem que fiz para fora da América do Sul. Eu tinha 22 anos, pedi parte das férias antecipadas na redação da TV onde trabalhava e embarquei num dos passeios mais divertidos e culturalmente enriquecedores da minha vida. A excursão era a tradicional viagem anual que o Luiz organizava com suas alunas e acompanhantes.

Nova Iorque foi nosso endereço por sete dias, distribuídos em museus, teatros, bares, cafés e caminhadas sem rumo para conhecer, ouvir e conversar com pessoas que estarão na sua vida por cinco, seis minutos, pela duração de um papo. Aprendi ali a importância de escapar dos tours guiados e andar na rua, aberto às surpresas, aberto à cultura local. Luiz Alca trabalhou como um guia informal, de dedo cirúrgico para indicar uma atração alternativa, um evento cultural de que não me arrependeria.

Depois desta viagem, nos vimos poucas vezes em quase 20 anos, mas conversamos muito. As dezenas de e-mails não cediam à urgência da vida pública de hoje; pelo contrário, serviam à troca de experiências, de pontos de vistas, sempre a partir de crônicas, a maioria escritas por ele, algumas por mim.

Sentia-me como seu interlocutor quando lia suas crônicas em A Tribuna. Não era uma leitura diária, mas aos solavancos. Deixava acumular vários dias, juntava os textos quando passava na casa dos meus pais e depois os levava embora para ler em doses homeopáticas. Confesso que dispensava as notas quase sempre e manifestava uma curiosidade perversa pelas legendas das fotos dos “colunáveis”.

Luiz era um cavalheiro no sentido britânico de ser. Procurava compreender minhas críticas, meus desatinos textuais em nossas correspondências virtuais. Aceitou minha observação – e disse ter concordado – que a coluna social era um gênero sintomático do provincianismo.

Quando publiquei meu primeiro livro, também de crônicas, ele me concedeu a gentileza de falar sobre o lançamento em sua coluna. Semanas depois, repetiu a generosidade de elogiar meu livro no mesmo espaço.

Conheço Luiz Alca de Sant’Anna desde criança. Minha mãe, Zuleica, foi aluna dele por três décadas, nos cursos de Dinâmica do Comportamento. Os conteúdos eram alvo de conversas entre eu e ela, às vezes, por semanas depois de uma das aulas dele. Ele a fazia pensar, ela retribuía me fazendo pensar mais um pouco.

Depois da morte dela, descobri pilhas de páginas de A Tribuna, com as crônicas de Luiz Alca, dentro de uma gaveta. Passei dois meses lendo-as, três ou quatro por dia, num ritual que simbolizou – sem alarde - meu jeito de reconhecer a importância dele nas nossas vidas.

No último final de semana, A Tribuna, onde Luiz escreveu por 15 anos, publicou uma revista com 30 crônicas dele. Adiei a leitura, na velha mania de avaliar errado pela pressa do cotidiano. A velha ilusão de, como crônicas e leitor, achar que as crônicas fazem o cronistas eterno. Que ele nunca parará de escrever, de chegar nas entrelinhas do nosso miúdo mundo.

Guardarei seus textos como lembrança e fico feliz de que ele recebeu todo o reconhecimento merecido, em vida. Conversava, anteontem, com Beth, minha mulher, sobre a crueldade de não ter o trabalho devidamente valorizado antes de morrer. Luiz Alca não fazia parte deste clube, ainda bem.

Uma coincidência final: Luiz e minha mãe morreram com a mesma idade, aos 68 anos. Sinto-me triste pela ausência de seus escritos, ensinamentos e companhia. Sentirei falta dele e das palavras. Tenho certeza que minha mãe me sussurrou o mesmo agora em meus ouvidos. Obrigado, Luiz!