domingo, 2 de agosto de 2015

Zoraide, a baiana




Joana Merlin Scholtes*

Blocos de carnaval de cidade pequena tentam imitar em brilho e pompa, os da capital. Sem sucesso, é claro, pois seus recursos são infinitamente menores. Mas ao tomar a avenida, a ansiedade no coração de seus integrantes, o desejo de brilhar, de mostrar a todos a perfeita cadência do samba, igualam-se em todos os povoados desse Brasil afora.

Entre os figurantes daquela pequena escola de samba itanhaense, o bloco mais animado é o das baianas! Algumas, nota-se logo pela falta de gingado, nem baianas são! Mas não há como confundir Zoraide, pele de mel queimado, traços afro brasileiros, fantasia que assenta como luva num corpo já entrado em anos, mas ainda exuberante. E seu sorriso, então? Brilham seus dentes mais do que as lantejoulas de sua fantasia.

Quem vê cara não vê coração, diz o ditado. Hoje, porém, alegra-se o coração de Zoraide! Seu desejo, seu sonho realizados: economizou o suficiente para comprar a fantasia e desfilar em mais um carnaval! Rebolando ao som da batucada da modesta bateria, Zoraide esquece suas dores e até mesmo seus amores: os filhos e netos que o destino lhe legou. Ou que ela, incauta, não soube evitar.

Que vida a sua! Segundo ano incompleto, mal sabe ler! Seis filhos com cinco pais! Nenhum daqueles que nela implantara sua semente permaneceu a seu lado para apoiá-la na aventura de criá-los.

O primeiro, que ela teve bem jovem, fora deixado na Bahia e criado pela avó até a adolescência. Zoraide veio para São Paulo com um alemão por quem se apaixonara, a quem deu dois filhos, fortes e claros como o pai. Deu, literalmente, pois este os levou ainda bebês, ao retornar à Europa. Não lamentou! Como poderia alimentá-los se nem um teto tinha? Em seu coração, permaneceu a mágoa daquela perda!

Deveria ter aprendido a lição: mas não. Com outro caso, produziu mais um filho, o qual, adulto, viria a dar dores de cabeça. E depois de mais um namoro, veio a única menina, hoje mãe solteira como ela. E finalmente, o mais novinho, epilético, atualmente cuidado pelo irmão mais velho, aquele que ela abandonara e que hoje é o que mais a ajuda.

Com o correr dos anos, trabalhou em pousadas, hospitais, restaurantes. Sofreu o pão que o diabo amassou, tendo até sido estuprada! Mas agarrou-se aos filhos, mudou-se para Itanhaém e tentou, por bem ou por mal, mantê-los na escola e fazer deles pessoas de bem. Nem sempre foi fácil: os mais velhos cuidavam dos menores, não havia uniformes novos nem comida farta.

Às vezes, quando faltava emprego, só havia no prato os peixes que Zoraide conseguira pescar no Costão. Aos trancos e barrancos, as crianças cresceram e tomaram seus humildes rumos.

Há alguns anos, o segundo filho havia se ligado, em São Paulo com uma moça que se drogava. Zoraide encarregou-se da filha deles, sua neta mais velha. A segunda criança foi vendida pela mãe, por dez reais, para comprar crack e usada por três anos para pedir esmola na rua.

Ao descobrir o paradeiro da família, a justiça obrigou a avó a recebê-lo, já que os pais não tinham condições de criá-lo! Zoraide aceitou mais essa carga!

Hoje, excelente cozinheira e relativamente bem empregada, ocupa-se dos netos, jovens adolescentes e ajuda a cuidar da filha de sua filha. A pobreza ainda impera. A situação continua difícil, mas menos crítica. Zoraide aceita tudo com resignação, culpa-se pelos maus passos e não se revolta contra a sorte nem contra a falta de apoio do sistema social.

A vida que teve não a amargurou: permanece meiga e afável, exibe um sorriso franco e diz que está bem, à vista do que já passou! E, no fundo, entre outros anseios, espera, no próximo carnaval, poder outra vez exibir-se e mostrar a todos o que a baiana tem!

Obs.: 8. texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado em abril, no Gabinete de Leitura, em Itanhaém. 


Um comentário:

Mariza C C. Cezar disse...


"Zoraide, a baiana" é uma dessas crônicas que nos prende do início ao fim, tão agradável quão lúcida no enfoque e narrativa dos usos e cortumes, dos problemas sociais e econômicos de um povo que sabe lutar e sonhar, que sabe desafiar e aceitar as dificuldades e misérias sociais e morais e que segue em frente vivendo poesia!
Esta crônica da baiana Zoraide nos deixou com gosto de "quero mais!
Cumprimentos á autora e á página.
Mariza C.C. Cezar