quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Poema de quem não lê jornal



Isabella Narcizo*

Eu realmente tenho de saber as histórias de papel higiênico
Da real política da terra de Santa Cruz

Tenho de ler cada palavra suja e sangrenta
De terras não muito distantes
Daqui

Tenho de analisar as retas dos gráficos
Diagramas de Venn
E uma gama de intempéries estatísticas
Que gritam:
És burra e és cega

- Concordo.
Sou burra e cega pelas mãos de vós
E Pelas mãos de vós minha voz se enrouquece
De pavor da ignorância

"Você sabia?"
Não, eu não sabia.
"Você já leu?"
Não, eu não li.

Tudo o que eu podia eu fiz
Não sujei o mundo
Não violei pessoas
Nem fiz cara feia
Disse as palavras mágicas
E distribui sorrisos e flores
Vocês sabiam? Não?
Vocês fizeram? Não?

Vive-se o cortiço e vive-se
Urinetown

Respira-se mijo e mija-se óleo

Enquanto na bolsalândia
Come-se gente

"Fulano de tal e fulano de til
Investigados por x
Ainda em andamento
Processo parado devido a"

"Cicrano de tal morto em
Tiro perdido
Fogo
Lista e passo-a-passo da mais nova dieta detox"

"Casamento de Bil e Bal
Término de Xiu e Xau
Nascimento de
Atraso nas entregas
Juros correção monetária preço do pastel
Novo processo aberto"

- Vão pra porra

Nas lousas
Um alimento pobre

Nos prédios e bares, gente
Vazia em todos os lugares.

(O céu sabe do chacoalho do chão
O mar sabe do galope do vento
E tudo avisa: pelo amor de vós, parem
Mas céu e mar e chão e vento sobreviverão
Para assistir cada reta e diagrama
Nos engolirem por inteiro
E nem darem a descarga)

* Embora seja um poema, este texto nasceu a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado na Universidade Católica de Santos (UNISANTOS), em maio deste ano. Isabella é estudante de Letras. 

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