sábado, 1 de agosto de 2015

O presente que não se dá



Paulo Montenegro

Antes de uma data ser especial, era apenas uma data. Vejo nos últimos anos algumas datas perderem força e, por vezes, me peguei criticando algumas delas, e você com certeza já fez o mesmo.

Aniversários talvez sejam as datas mais controversas, pelo menos para mim. Ao longo do tempo, parei de esperar por esse dia, parei de comemorar, e o dia mais mágico do mundo se tornou apenas mais um dia. Por quê?

Não acredito que seja apenas por ter envelhecido e ficado chato, ou porque agora toda festa saia do meu próprio bolso. Hoje eu me questiono: o que realmente estamos comemorando?
Você é um acidente. Por mais que você tenha sido planejado com todo cuidado, e que o médico que atendeu sua mãe disse a exata hora da sua cesárea, se precisou desse artifício, é que houve alguma complicação.

E o plano original foi mudado. Antes desse momento, em que mãos humanas te seguraram pela primeira vez, e o registro da sua vida se iniciou, aquela data era apenas mais uma data.
Ainda assim, aquela foi apenas a primeira oportunidade que o mundo teve para te tocar.

Você estava vivo bem antes disso. E nos próximos 10, 20 anos, o que você receberá serão “parabéns” (por ter sido arrancado da barriga da minha mãe, ou por ter conseguido a proeza de viver mais um ano? Não entendi, amigo), presentes e comidas hipercalóricas.

O cara que criou a comemoração de aniversário deve ter sido dono de salão de festas ou seguro de vida, só pode. Os presentes então, só deixam tudo mais confuso. Alguns vêm carregados de segundas intenções, outros são completamente desconexos com a sua identidade e, na minoria, vêm os que realmente mudam tudo.

Um presente de aniversário deveria ser uma forma de mostrar uma simples coisa: eu estou presente em sua vida. Eu vejo em todos os dias do ano seu sofrimento, sua alegria, suas vitórias e seus sonhos, e eu quero que você viva mais, que você sonhe e realize mais ainda.

Sou feliz por ser testemunha da sua passagem na Terra, e de fato, desejo sua felicidade.
E o que traz mais felicidade do que realizar um sonho? Por isso hoje, na margem dos meus 30 anos, dou parabéns para as pessoas que não tenho lá muita empatia, me julgue.
Não é o seu caso.

Desde que nos conhecemos, você me disse sete vezes que sonha em quebrar pratos e copos durante uma briga e, em todas as vezes, você sorria com certa euforia.
Sim, eu contei.

Por isso, essa noite vou te irritar de propósito, e vamos quebrar alguns pratos e copos, madrugada adentro. E você que está lendo isso e não entendeu, não se preocupe. Basta que tenha compreendido que, no dia do seu aniversário, ou em qualquer outro dia, mais feliz é aquele que realiza.

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