segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O beijo do metrô





Beatriz de Santana Almeida

Qual a cor de um beijo?

Aquele, com certeza, era transparente. Transparente é cor? Sim, se for embassado, como aquele beijo. Como ele foi parar ali eu não sei. Numa altura daquelas, não podia ser de criança. Era beijo apaixonado. Por quem? Por si mesmo? De homem ou mulher? Não sei.

Suponho que seja uma mulher, dando um adeus carinhoso a seu amado do lado de dentro. Na hora que ela ainda está saindo da estação, o amado jogou-lhe um beijo e colou ali, naquela janela do metrô. Ou foi o contrário? Ela que colou o beijo ali pra ele tocar com as pontas dos dedos?

Mil perguntas podem continuar sendo feitas e teremos apenas suposições de respostas. Como, dentro do transporte mais lotado e apressado da grande São Paulo, uma marca de boca em formato de beijo foi parar ali na janela? A sensação de encarar aquela marca é saber que ainda existem provas de amor na cidade cinza, que ainda existem pessoas que não se importam com olhares desaprovados e faz aquilo que se sente melhor em fazer.

Certa vez, uma mocinha entrou no ônibus, toda apaixonada com algumas flores em uma mão e um grande panetone na outra, sorria bobamente e parecia orgulhosa de que todos vissem sua alegria. Sentou-se do lado da janela, olhou pra fora e avistou o namoradinho.

Não deu outra, quando o ônibus estava tomando partida, tascou um beijo na janela, retribuído por beijos aéreos do moço. O ônibus foi beijado e a marca daquela boquinha ficou lá. Será que a pessoa responsável pela limpeza reparou e esfregou a marca também pensando no momento que aquilo aconteceu?

O beijo dado no metrô pode também ter sido um momento narcisista. Um homem acertou na roupa e no pentear do cabelo, olhando-se no reflexo da janela, deu-se um beijo, elogiando a si mesmo e sem se incomodar com pensamentos alheios. Como diz uma canção de Os Paralamas do Sucesso, cuide bem do seu amor, seja quem for, principalmente se for você mesmo.

Há quem diga que é nojento encostar os lábios em janela de transporte público assim. Você não sabe quem encostou ou que bicho por ali passou. Mas lava-se a boca com sabão e as bactérias não existirão mais. Coisas mais nojentas existem, como colar chiclete embaixo do banco ou tirar sujeira do nariz e colar na janela. Na mesma janela que alguém, por algum motivo, beijou.
No fundo, não precisamos saber quem beijou, podemos apenas sorrir dessas marcas e seguir em frente, para as saídas do metrô.


Obs.: Texto que nasceu do curso "Como escrever crônicas", na Universidade Católica de Santos (SP). 

2 comentários:

Anônimo disse...

Como faz pra ter um texto publicado aqui?

Marcos Willians disse...

Sem palavras... Lindo demais...