domingo, 30 de agosto de 2015

Estátuas de sal, sabor de intolerância




Victória Silva*

Poucas coisas são tão desejadas por um estudante do Ensino Médio quanto à vida universitária. O combo faculdade acompanha maioridade, festas, permissão para dirigir e, em alguns casos tidos como de sorte, um status de relacionamento. No entanto, se tem uma coisa que não muda, é a alegria ao ser liberado da aula mais cedo.

Conciliar trabalho e estudo faz com que qualquer cinco minutinhos sejam motivo de glória e, por conta deles, o fretado é trocado por um ônibus, mesmo que lotado.

Foi numa dessas noites, de aventura e intermunicipal abarrotado, que me deparei com uma realidade que preferia acreditar ser real apenas em roteiros de novelas: um casal abraçado – como qualquer outro – a não ser pelo fato de serem duas garotas.

Educadamente, pedi para colocar minha mochila num canto e elas, também educadas, sorriram em aprovação. Fones no ouvido, planos para dormir mais cedo e o longo caminho até a minha cama. Lá vamos nós.

Aliás, lá íamos nós...

“PAREM AS MÁQUINAS!”, gritou um senhor grisalho e arrogante na mesma dimensão. Ele não podia ficar no mesmo veículo que as garotas que estavam abraçadas, assim como três ou quatro casais heteros que não o incomodaram nenhum pouco.

O discurso, cheio de ódio e rancor, dizia que a bíblia não permitia tal ato, citava estátuas de sal e o fim de uma “peste”. As garotas se mantiveram imóveis, atitude louvável, já que não pude fazer o mesmo.

O proclamador da bíblia me questionou sobre o fato e eu, tentando manter minha limitada educação, disse que não me importava. “As garotas tem o livre arbítrio de fazer o que desejam; todos temos, desde que isso não interfira na liberdade de ninguém, o que elas não estão fazendo”.

E lá se foi ele, rumo a outro ônibus, latindo meia dúzia de asneiras sobre a minha geração.

Teria evitado ser parte do cenário de uma novela global, sem cachê e glamour, apenas um ônibus lotado e uma mochila cheia de atividades atrasadas.


Obs.: Texto que nasceu do curso "Escrita Criativa", ministrado no Espaço Certo, em Santos (SP). 

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