domingo, 16 de agosto de 2015

É dos carecas... (Conversas com Beth # 14)




Marcus Vinicius Batista

Depois da segunda sessão de quimioterapia, nós esperávamos que os cabelos caíssem de vez. Salvo as náuseas e um dia de fortes dores de cabeça, os efeitos colaterais foram menos agressivos. Pelo menos para mim, que procuro acompanhar bem de perto e insisto em perguntar se você está sentindo algo, se tudo anda bem.

Seus cabelos que restaram davam a impressão de seguir contra a corrente. Resolveram crescer e ficar esvoaçantes – dentro das limitações de centímetros – para indicar a resistência. Por isso, não fiquei surpreso quando você decidiu exterminá-los com a máquina zero. Eu havia notado sua preocupação descontraída, nos dias anteriores, com os penteados. Soava como uma rotina engraçada, já que os sobreviventes ficariam escondidos dentro de lenços e chapéus.

Na quinta-feira à tarde, quando você me chamou para ajudar, meus 25 anos de barba pouco adiantaram. Mal consegui te auxiliar, pois passar a máquina na sua cabeça me dava uma aflição que tornava minhas mãos trêmulas. Fiquei com medo de te cortar ou machucar teu couro cabeludo.

Descobrimos, em minutos, uma superfície branca, quase lunar, ainda mais bela. Um couro cabeludo nórdico, que poderia contradizer seu jeito latino, embora não tão moreno assim.

Era a hora de relembrar o trato. Acordo é acordo, cedo ou tarde. Deixar meus cabelos para o dia seguinte significava também o tempo para pensar melhor, para buscar outra máquina no seu pai e não perder o foco sobre sua novidade visual.

No dia seguinte, sexta-feira, os compromissos profissionais me impediram de ir no seu pai, mas desconfio que estava adiando uma decisão que representava honrar um compromisso simbólico e real. Voltei da universidade me pegando com uma das mãos na cabeça. Várias vezes. Raspar era uma decisão irrevogável, faltava escolher a arma. Apertava os cabelos para me convencer que a espessura e a altura eram compatíveis com a máquina da nossa casa. Três testes cegos e a certeza de que poderia encurtar o caminho e parar em casa mesmo.

Jantamos e corri para o banheiro. A máquina já estava carregada. Passei na cabeça e arranquei o primeiro tufo. Sábia medida, tudo em casa. O segundo tufo saiu em quatro movimentos. Fim. A máquina estava inválida, havia se aposentado de maneira compulsória. Só vinham uns cabelinhos. O caminho de rato estava oficialmente aberto ao público; ou para você.

Voltei para a sala e te mostrei a arte pop. Tentei outra vez com a máquina. Quando você saiu, apelei para a lâmina de barbear. Só mais um aparelho entupido. Começamos a discutir o que fazer. Meia- noite. Ah, vamos deixar para amanhã, você me disse. Eu mesma apanho a máquina lá no meu pai.

A vida na UTI me ensinou que, se houver a menor chance de solução que dependa somente de você e de pessoas próximas, tenho que me agarrar nela. E se no dia seguinte você não estivesse bem? Decidi: vamos ligar para a casa do teu pai. Teu irmão pode estar lá agora.

Fernando salvou a noite. Quinze minutos depois, a máquina estava em minhas mãos. Mais uns 10, a cabeça estava como nunca esteve: áspera como um capacho de porta, como uma lixa de obra.

Passei a manhã seguinte pensando em desculpas para justificar minha falsa careca. Ouvi elogios da faxineira do prédio e de uma vizinha. Sem perguntas, apenas a palavra positiva que respondia à coerência de quem as pronunciou.

Pensei em minha mãe, que cortou meu cabelo curto e passou vinagre para matar piolhos quando eu era criança. O cinismo na escola, jurando desconhecer de onde vinha aquele cheiro estranho. Pensei sobre a promoção de banho e tosa no Pet perto de casa, onde pensamos em levar os gatos, que vivem hospedando pulgas. Cuidar do animal, cuidar do dono dele. Pacote dois por um. Mas como justificar o resto do meu corpo, agora em contraste mais agudo em relação à cabeça.

Pensei em falar de resistência contra a indústria cultural, que propaga a moda dos lenhadores. Agora que muitos resolveram ser como eu fui por falta de opção biológica, serei do contra. Rumo à depilação a laser.

Pensei em alegar uns dias em detenção, mas não tive tanta criatividade que justificasse uma alegação de crime. Pensei em economia de shampoo, mas me pareceu um corte estúpido nas finanças, já que vamos gastar em protetor solar, bem mais caro. Pensei até no humor negro dos neonazistas, mas descartei a ideia diante da ironia das aulas sobre racismo, que tomaram parte da minha semana acadêmica.

Pensei, como resultado final, em justificar com esse texto, e para os menos avisados falar em piolhos ou nas pulgas. Eles não acreditarão, o que me permitirá mudar de assunto com mais rapidez.

Estar careca não pode ou deve ser um incômodo estético. Não gosto de bonés, chapéus me fazem suar. Acima de tudo, estar careca é mais um sintoma deste caminho que optamos por seguir juntos, contra um doença que integra nossa rotina e que, se não pode ir embora em definitivo, será colocada como coadjuvante, depois figurante, até sair à francesa para um purgatório de seu organismo.

Será uma relação inversamente proporcional. Enquanto nossos cabelos crescem, a lúpus encolhe e cai, num processo irreversível de calvície quimioterápica.

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