sexta-feira, 21 de agosto de 2015

As máquinas nunca moeram Seu João




Ricardo Rugai

1993. Depois de alguns semestres em período integral no “semi-internato”, que era o curso técnico do SENAI, eu estava quase formado e relutante em encarar o tal “mercado de trabalho”. Me aguardavam seis obrigatórios meses de estágio para concluir o curso e, com sorte, ser efetivado na empresa.

Éramos oito moleques do SENAI na Merrel Lepetit, titã da indústria farmacêutica - que já pertencia a Dow Química - ali em Santo Amaro, próximo à Marginal e Ponte João Dias. Faziam pastilha Vicky, Descon e uma infinidade de porcarias que todos nós já tomamos um dia. Três salários mínimos, assistência médica e rango na firma com refrigerante à vontade.

Para uns caras na faixa dos 20 anos, parecia até bom. Da João Dias, onde morávamos numa República, até a empresa, era meia hora a pé. Parecia perto na época e economizava o vale-transporte.

No mundo do trabalho – que depois se tornaria objeto de estudo para mim – eu era reles objeto de sujeito oculto. A fábrica em ebulição, plena “reestruturação produtiva”. Seis meses antes de entrarmos, eram três mil funcionários que foram reduzidos a 1300. Palestras sobre “ISO 9000”, Segurança no Trabalho e palavras como “reengenharia” nos aporrinhavam no cotidiano com treinamentos enfadonhos que não faziam sentido para nós.

No primeiro dia, fomos divididos em dois grupos: operadores de máquinas, uniforme totalmente branco, e mecânicos de manutenção, macacão verde escuro. Caí no último grupo. A ficha corrida no RH entregava meu breve passado de mecânico de autos na Baixada Santista, só podia ser isso. Mas as geringonças que cuspiam drágeas e comprimidos não se pareciam com carros.

Os de branco pareciam ter se dado bem, alguns até sorriam maliciosamente para os de verde, como se tivessem subido um mísero degrau na hierarquia; afinal, “mecânico de manutenção” não rimava bem com “Técnico em Mecânica de Precisão”.

No mesmo dia, soubemos que os de branco eram “babá de máquina”: solitários num box claro com um trambolho rotativo de 3 metros de diâmetro que aspirava pó, prensava e cuspia remédio. Tudo que faziam era olhar. Oito horas terríveis, sozinhos, de pé para não dormir, olhando a máquina girar.

Além disso, trocavam os sacos de comprimidos cheios e avisavam quando a máquina desse pau, o que acontecia de vez em quando com aquelas velharias italianas.

O box era nebuloso. Parte do pó dos comprimidos que descia para as máquinas escapava, e o peão respirava aquela merda o dia todo, “protegido” por uma máscara “me engana que eu gosto”. O mesmo pó que era encapsulado porque só pode abrir no estômago da pessoa era respirado pelos “médicos”. Usar técnicos em mecânica de precisão do SENAI para isso era como matar formiga com tiro de canhão. O sentimento de idiotice era nítido, quatro anos para ficar essa merda. Só o salário poderia salvar. Mas não antes do estágio.

O detalhe mais sórdido era a ausência de bolso nos uniformes do operador de máquina. Segundo a empresa, era fruto de um estudo ergonômico: peão não podia por a mão no bolso para não se encostar e relaxar.

Outros que trampavam na seção das pastilhas Vick eram só pele e osso: 50 graus de temperatura o turno todo. Para os fiscais do Ministério do Trabalho, devidamente agraciados, tava tudo certo.

A vida dos mecânicos era um paraíso comparada a dos operadores. Nosso macacão tinha bolso, podíamos nos encostar. Era verde escuro, “demorava” uma semana pra sujar. A oficina era quase isolada dos corredores brancos da fábrica-hospital e não precisávamos usar aquelas máscaras de merda.

Não tinha chefe na oficina, eram nós, mecânicos, e só. E o melhor, só trabalhávamos de fato quando dava pau em alguma máquina. Metade do dia era arrumar ferramenta, fazer algum servicinho sem pressa e jogar dama. Até fumar cigarro numa farmacêutica podia, para revolta de muitos operadores. Tinha mecânico que nem fumava e punha cigarro na boca só para provocar. O ódio comia as entranhas de operador.

E tinha mais. Podíamos circular pela fábrica para consertar máquina, pegar peças, levar ferramentas e mesmo à toa. Nesse ambiente, a rivalidade entre operadores e mecânicos era antiga e, às vezes, virava treta. Mecânico parar na porta de um box de operador, por a mão no bolso e se encostar na parede era senha para porrada no meio da fábrica. Cantarolar “lava roupa todo dia, que agonia...” pros de branco dava merda e até assoviar essa melodia disparava olhares de ódio.

Quando chegamos à manutenção, tinha quatro mecânicos: dois deles na faixa dos 40, um na faixa dos 50 e o seu João, prá lá dos 60. Nós éramos quatro estagiários do SENAI cuja função era substituir os coroas. Aprenderíamos o trampo com eles enquanto a gerência os forçava a aceitar um PDV para economizar custo de demissão; afinal, 40% de multa em cima de 15, 20 e 30 anos não era pouca coisa. Na oficina a voz corrente era: “Essa facada não vão dar! Eles que demitam!”

Era uma corda bamba para eles: fazer o máximo de corpo mole para forçar a demissão sem dar motivo para uma justa causa.

Nesse mato sem cachorro da “reestruturação produtiva”, entramos nós. Se os coroas nos ensinassem direito o trampo, a chance de demissão aumentava. Mas os dias foram passando, os coroas nos testando e sacando que entre nós não tinha leva e traz de gerente. Até que a desconfiança se diluiu naquele mundo à parte.

Dois meses depois, tomávamos umas e outras juntos e sabíamos a história de vida de um por um, de cabo a rabo. O olhar do gerente sacou a proximidade e mostrava repulsa.

Seu João, o mais velho de todos, nos dava lições cotidianas de como ser um mecânico:

— Sem nóis a máquina não cospe, entendeu? Quando a máquina pará, vai ser um deus nos acuda, e essa oficina aqui vai parecer posto de bombeiro em dia de incêndio... Aí é a nossa hora!”

O véio não era chefe, mas tinha moral na oficina e ensinou a todos como levar o gerente ao desespero com uma receita que reunia um respeito rigoroso às normas da empresa, passo lento, silêncio, olhar perdido e falta de memória. Já fazia sentido a frase de porta de banheiro que todos repetiam nas conversas e brincadeiras: “Peão é a imagem do cão!”

Seu João dizia que, se a gente seguisse todas as normas e procedimentos, a empresa parava. O véio era o cão. Assistia atentamente a todos aqueles os cursos e treinamentos enfadonhos da Merrel. Até anotava coisas num caderninho.

Anos de curso da CIPA o ensinaram a jamais correr, sobretudo conduzindo o carrinho de ferramentas. Era uma cena bonita de ser ver: a máquina parada, o gerente desesperado, esbaforido, querendo apressar Seu João, impassível no caminhar lento e constante pelos longos corredores da oficina até a máquina.

Nosso barato era ficar de boa na oficina. O dele era o momento que a máquina quebrava. Sorria malicioso e aguardava o gerente pedir que viesse rápido. Fazia o pobre vir até à manutenção pessoalmente buscá-lo, andava lento, parava e explicava que dezenas e dezenas de treinamentos de segurança do trabalho ministrados pela própria empresa o ensinaram a jamais correr.

O gerente já espumava de ódio àquela altura, mas resistia em aceitar que estava completamente à mercê do mecânico e mantinha a empáfia. Seu João chegava ao box da máquina, tirava as tampas da geringonça vagarosamente e ficava longos segundos observando o maquinário em silêncio, completamente impassível.

— E aí, Seu João? Que foi dessa vez?

O velho demônio olhava séria e silenciosamente o rosto do gerente por alguns segundos e sem dizer uma palavra tornava a olhar para máquina, dessa vez enfiando a mão numa correia ou peça qualquer.

Deixado no vácuo, o gerente não se continha:

— Foi a bomba de óleo?

Sem se virar, Seu João fazia que não com a cabeça e resmungava:

— Nada a ver...

Depois de alguns meses de convivência, confidenciou que o objetivo era “por o gerente em seu lugar”. Mostrar que ele não entendia nada da máquina. Às vezes, dizia ele:

— Eu vejo o defeito de cara, só de abrir a tampa, mas fico ali pensando na vida. Quando o gerente chuta, quase sempre erra, mas mesmo quando acerta, não tem certeza, eu digo que é outra coisa e ele acredita!” E ria: “acertar chutando não vale, né!?”

Depois de minutos intermináveis, era descoberto o defeito, o gerente sorria aliviado e pedia pra Seu João arrumar logo porque a máquina precisava rodar... já estava parada mais de uma hora. Mas o suplício do gerente estava longe do fim. Entrava em ação outra tática de Seu João: o esquecimento. Faltava uma ferramenta adequada. Ela estava bem longe, na oficina do outro lado da fábrica, que seria percorrida com o mesmo passo lento, na ida e na volta.

O gerente perdia as forças, sua pressa e ansiedade estavam nas cordas e o desânimo castigava sem dó. Dessa vez, o gerente deixou Seu João ir sozinho. Ele, claro, andou mais devagar ainda, aproveitando para falar com um e outro no caminho.

De volta à máquina, Seu João parecia até mais animado. Retirou a peça defeituosa e mostrou ao gerente o problema da máquina. O ânimo do gerente renascia e ele esboçava um sorriso no canto da boca:

— Seu João sabe das coisas! Só ele conhece os macetes dessas máquinas velhas! Bora por prá funcionar, Seu João!

— Não dá não, seu gerente. A gente não pode mais montar a peça desse jeito, fazer as gambiarras como antes. E vinha o nocaute: “Agora, essa tal de ISO 9000 que ensinaram no treinamento exige que troque a peça”.

O semblante do gerente desabava, digno de pena. O abatimento superava a raiva e ele entregava os pontos. Naquele tempo, trocar uma peça significava preencher requisições, pedir assinaturas de três chefias, levá-las ao almoxarifado e pegar uma fila até que o funcionário dissesse se havia ou não a peça disponível.

Antigamente, explicava Seu João, encontrava de monte, mas agora com esse Just-in-Time, a empresa quase não tem estoque. E, claro, precisaram solicitar a peça ao setor de compras, que precisou fazer cotação no mercado até que uma semana depois, enfim, a peça chegou e a máquina voltou a operar.

Nessa pegada, Seu João resistiu bravamente à porra do PDV e a empresa foi obrigada a demiti-lo com todos os direitos pagos. Quase aos 70 anos, o velho se aposentou com a direito a tudo, exceto a vida deixada em décadas de fábrica. Combalido, morreu 5 anos depois.

A Merrel, que já fora vendida para Dow Química, foi comprada pela Avents. O capital concentrado fechou a fábrica e abandonou a planta que segue esperando a especulação imobiliária transformá-la em condomínio (falta pouco agora em 2015...)

Eu – que nunca mais tomei Descon - saí de lá alguns meses depois para outra empresa, na horrível Vila das Belezas, levando comigo quatro ou cinco histórias que guardo, sei de cor e de vez em quando conto em mesa de bar.

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