quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A verdade




Ana Carolina Dias*

— Amiga, você acha que ele está apaixonado por mim?

— Não, acho que é só carinho.

— Amiga, o que você achou dessa calça?

— Te engordou, viu!?

Quem nunca passou por situações como essas não sabe o verdadeiro significado do silêncio, aquele seco, sabe !? Muito menos terá a noção da insatisfação estampada no rosto de alguém.

O que eu falei não era exatamente o que ela queria ouvir, acho não, tenho certeza, mas ela não pediu a minha opinião!? Ou será que era só um desabafo!? Ou uma palavra amiga para massagear o ego!?

Não tenho a resposta para essas perguntas...

Por falar em perguntas, não sou muito adepta a elas, porque sinto que nunca estou preparada para ouvir a resposta, correr o risco de escutar o que eu não quero, não é um dos meus hobbys favoritos. Se eu pergunto, é porque de fato quero saber, simples assim.

Mas, ultimamente, tenho repensado sobre as minhas respostas, as pessoas querem a verdade ao mesmo tempo que não querem, e eu não entendo. Não entendo também a fama de mal-educada e grossa que eu tenho. No mundo onde a verdade é omitida e a ilusão reina, deveriam dar mais valor para pessoas assim como eu. 




Perder tempo com ilusões de qualquer natureza não fazem parte da minha vida. Acredito que as pessoas que lidam melhor com a verdade sofrem menos e é por isso que eu fazia tanta questão de arriscar a minha sinceridade com quem eu amo.

Fazia, no passado. No mundo de gente grande, a verdade não é bem-vinda, prefiro ficar com as meias verdades, com as mentirinhas do bem, para me poupar mesmo, guardo minha língua na boca e minha opinião no coração.

Agora, as minhas verdades são para quem merece. Quem reconhece que o lado da verdade é sempre mais difícil do que o da mentira, pessoas que sabem que a verdade não é tão conveniente assim e que a chance de ganhar títulos e reações negativas aumenta. Ser sincero não é fácil, dá prejuízo.

Não sou a favor da mentira como solução de tudo; às vezes, é preciso soltar uma “mentirinha do bem” aqui, outra ali, em determinados momentos inapropriados para uma verdade. Também não sou a favor da verdade nua e crua, há uma grande diferença entre sinceridade e bom senso.

Eu não preciso me responsabilizar pelas escolhas de cada um, mesmo não sendo fácil para mim. Também não me importo mais com as desilusões dos meus amigos, pois - na verdade ou na mentira - estarei lá sempre que precisarem.

— Ah, já estava me esquecendo. Acho que no fundo ele está apaixonado por você, só não quer assumir e, mudando de assunto, aquela calça ficou perfeita em você.

* Texto que nasceu a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado na Universidade Católica de Santos (UNISANTOS). 

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