segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O Feitiço de Áquila (Conversas com Beth # 15)

O açúcar e o sal
Marcus Vinicius Batista

Eu e você voltamos aos anos 80. Entre muitas adaptações no processo de recuperação de sua saúde, uma delas se faz presente todos os dias: a comida. Chegamos juntos à conclusão de que vivemos um remake gastronômico do filme Feitiço de Áquila, clássico pop da minha adolescência (e da sua infância).

No filme, Rutger Hauer e Michele Pfeiffer fazem um casal amaldiçoado na Idade Média. Ele se transforma num lobo quando anoitece. Ela, numa águia quando amanhece. Isso torna o amor impossível; andam juntos, mas sempre um na forma humana, outro como bicho.

Nosso feitiço implica em comermos juntos, mas nunca dividirmos o mesmo prato. Sua dieta, por conta da lúpus, é sal zero. Eu, por causa da diabetes, não posso comer açúcar.

É claro que há certo exagero neste enredo quase mexicano (melado como glicose), que finge levar às lágrimas (contém sal). Criamos informalmente regras, que inclui tréguas, cessar-fogo alimentar. E mudamos nossa relação com a comida.

Em primeiro lugar, a proibição de alimentos industrializados nos obrigou a cozinhar todos os dias. Conseguimos cozinhar juntos, saímos para comprar ingredientes e voltamos a visitar a feira aos sábados. Até caldo de cana reapareceu como figurante. Você tomou, claro. Eu só inalei o cheiro e recordei o sabor.

Passamos a fazer todas as refeições juntos e dividimos as tarefas na cozinha. Dividir é autovalorização de minha parte, pois sou mais um candidato à masterchef, enquanto você faz a jurada que conserta a obra de arte contemporânea (às vezes, bonita; muitas vezes, de difícil interpretação do significado).

Minha amizade com o sal se mantém intacta. Cuidamos da saúde, somos adeptos do bom prato (tanto a qualidade quanto o serviço mais barato), e nossos bolsos rejeitam a gourmetização. Imagina, pagar uma média com queijo em cima, chamada de pão gourmet. Culpamos a dupla carga de sal, claro.

Tentamos ser mais criativos nos temperos. Aposentamos os sazons da vida, transformamos manjericão, orégano, ervas e outras plantinhas dos potinhos em amigos diários. Até pózinhos indianos em tempos globalizados. Mas, ainda assim, certos pratos exigem o saleiro ao meu lado.

Cortamos as pizzas, as esfihas, as picanhas (mentira, essas foram arquivadas por falta de verba). De vez em quando, compro linguiças porque ninguém é de ferro (meu corpo precisa dele, uma questão nutricional). Aí, como isolado na cozinha para que você não passe vontade. O problema é o cheiro, rebelde ambulante.

Engana-se quem crê que poderíamos virar fãs das saladas. Gostamos delas, mas alimentos crus estão proibidos. Alfaces são coisa de museu alimentício. Como compensação, tomates viraram molhos, cebolas nos permitem chorar de alegria, cenouras e brócolis são parceiros das sopas aos complementos.

Prometi – e tento cumprir como político honesto; poxa, honesto – que cortaria os doces. Confesso que, de vez em quando, um traficante autorizado de cantina me vende um chocolate. Outras vezes, passo na farmácia e compro um zero. Comprar chocolate em farmácia é autoexplicativo para quem sofre de diabetes. Nada como deixar a alma calórica e vendê-la a um falso sacerdote.

Domingo é nossa data religiosa. Enquanto muitos rezam, nós pecamos pela gula. Dia de refrigerante, um pouco de comida com sal, até um cheese burger. Depois, monitoramento e pílulas anti-felicidade, se for o caso.

O feiticeiro que nos amaldiçoou falhou como no filme. Nunca estivemos tão juntos. O sal e o açúcar nos uniram, ainda como meias-verdades. Comer passou a ser um prazer, que havíamos perdido enquanto saudáveis.

O saldo é que você continua desinchando. Eu não perdi peso algum, mas penso como magro. É o que nossos pratos querem me fazer crer, sempre a partir de segunda-feira.

O beijo do metrô





Beatriz de Santana Almeida

Qual a cor de um beijo?

Aquele, com certeza, era transparente. Transparente é cor? Sim, se for embassado, como aquele beijo. Como ele foi parar ali eu não sei. Numa altura daquelas, não podia ser de criança. Era beijo apaixonado. Por quem? Por si mesmo? De homem ou mulher? Não sei.

Suponho que seja uma mulher, dando um adeus carinhoso a seu amado do lado de dentro. Na hora que ela ainda está saindo da estação, o amado jogou-lhe um beijo e colou ali, naquela janela do metrô. Ou foi o contrário? Ela que colou o beijo ali pra ele tocar com as pontas dos dedos?

Mil perguntas podem continuar sendo feitas e teremos apenas suposições de respostas. Como, dentro do transporte mais lotado e apressado da grande São Paulo, uma marca de boca em formato de beijo foi parar ali na janela? A sensação de encarar aquela marca é saber que ainda existem provas de amor na cidade cinza, que ainda existem pessoas que não se importam com olhares desaprovados e faz aquilo que se sente melhor em fazer.

Certa vez, uma mocinha entrou no ônibus, toda apaixonada com algumas flores em uma mão e um grande panetone na outra, sorria bobamente e parecia orgulhosa de que todos vissem sua alegria. Sentou-se do lado da janela, olhou pra fora e avistou o namoradinho.

Não deu outra, quando o ônibus estava tomando partida, tascou um beijo na janela, retribuído por beijos aéreos do moço. O ônibus foi beijado e a marca daquela boquinha ficou lá. Será que a pessoa responsável pela limpeza reparou e esfregou a marca também pensando no momento que aquilo aconteceu?

O beijo dado no metrô pode também ter sido um momento narcisista. Um homem acertou na roupa e no pentear do cabelo, olhando-se no reflexo da janela, deu-se um beijo, elogiando a si mesmo e sem se incomodar com pensamentos alheios. Como diz uma canção de Os Paralamas do Sucesso, cuide bem do seu amor, seja quem for, principalmente se for você mesmo.

Há quem diga que é nojento encostar os lábios em janela de transporte público assim. Você não sabe quem encostou ou que bicho por ali passou. Mas lava-se a boca com sabão e as bactérias não existirão mais. Coisas mais nojentas existem, como colar chiclete embaixo do banco ou tirar sujeira do nariz e colar na janela. Na mesma janela que alguém, por algum motivo, beijou.
No fundo, não precisamos saber quem beijou, podemos apenas sorrir dessas marcas e seguir em frente, para as saídas do metrô.


Obs.: Texto que nasceu do curso "Como escrever crônicas", na Universidade Católica de Santos (SP). 

domingo, 30 de agosto de 2015

Estátuas de sal, sabor de intolerância




Victória Silva*

Poucas coisas são tão desejadas por um estudante do Ensino Médio quanto à vida universitária. O combo faculdade acompanha maioridade, festas, permissão para dirigir e, em alguns casos tidos como de sorte, um status de relacionamento. No entanto, se tem uma coisa que não muda, é a alegria ao ser liberado da aula mais cedo.

Conciliar trabalho e estudo faz com que qualquer cinco minutinhos sejam motivo de glória e, por conta deles, o fretado é trocado por um ônibus, mesmo que lotado.

Foi numa dessas noites, de aventura e intermunicipal abarrotado, que me deparei com uma realidade que preferia acreditar ser real apenas em roteiros de novelas: um casal abraçado – como qualquer outro – a não ser pelo fato de serem duas garotas.

Educadamente, pedi para colocar minha mochila num canto e elas, também educadas, sorriram em aprovação. Fones no ouvido, planos para dormir mais cedo e o longo caminho até a minha cama. Lá vamos nós.

Aliás, lá íamos nós...

“PAREM AS MÁQUINAS!”, gritou um senhor grisalho e arrogante na mesma dimensão. Ele não podia ficar no mesmo veículo que as garotas que estavam abraçadas, assim como três ou quatro casais heteros que não o incomodaram nenhum pouco.

O discurso, cheio de ódio e rancor, dizia que a bíblia não permitia tal ato, citava estátuas de sal e o fim de uma “peste”. As garotas se mantiveram imóveis, atitude louvável, já que não pude fazer o mesmo.

O proclamador da bíblia me questionou sobre o fato e eu, tentando manter minha limitada educação, disse que não me importava. “As garotas tem o livre arbítrio de fazer o que desejam; todos temos, desde que isso não interfira na liberdade de ninguém, o que elas não estão fazendo”.

E lá se foi ele, rumo a outro ônibus, latindo meia dúzia de asneiras sobre a minha geração.

Teria evitado ser parte do cenário de uma novela global, sem cachê e glamour, apenas um ônibus lotado e uma mochila cheia de atividades atrasadas.


Obs.: Texto que nasceu do curso "Escrita Criativa", ministrado no Espaço Certo, em Santos (SP). 

sábado, 29 de agosto de 2015

Aquele amargo Alô




Victória Ramalho*

A noite. Como a noite é poética, não? Canções, serenatas, lamentações, dissertações e debates, todos sobre ela ou sob seu olhar. Mística, de uma maneira melancólica, depressiva e romântica. Até o momento em que a noite se torna trágica. Violência irrefreável, vulnerabilidade premeditada como uma fagulha que se espalha nos toldos de um circo sem portões. Circo esse que queima seus palhaços, dançarinas e leões num mesmo espaço, numa mesma hora, sem pedir licença ou perdão. Aquele Alô ao corpo de bombeiros!

Como ela sobe, a noite também cai. Dura um minuto ou uma vida inteira. Traz o interessante e também o vulgar, e é incrível como também considera transformar um no outro. A visão maniqueísta me obriga a separar o bonzinho do malvado, mas quando tudo está escuro, as folhas viram ratos. Alô galera da dedetização!

Livre, leve e solta, a culpa vaga pelas ruas bem devagar, batendo à porta de uns e entrando pela janela de outros. Ela nem sempre é recebida cordialmente como hóspede durante a noite, mas tem residência fixa, com caixa postal e relógio de luz, no famoso dia seguinte. Alô Sabesp! Ela chorou a noite inteira e a gente ficou sem água...

Afloram também os desejos, as paixões e a raiva. Juntando os três, viram um combo matador. O silêncio é uma tela em branco, você pinta da maneira que quiser, só que a sua paleta só possui cores em tons de preto e vermelho. Pretos da escuridão, do asfalto, do céu, da cor das suas intenções. Vermelhos da paixão, do batom, do sinaleiro, da cor de sangue. Alô psicanalista! Não acho o azul nos lápis de cor!

Tragédia, violência, vulnerabilidade, álcool, ciúme, desejo, culpa, raiva, noite, rua, revólver, más intenções, sangue. Alô, dona Katya? Alô, dona Rosângela? Aqui é da polícia...

Obs.: Texto que nasceu do curso "Escrita Criativa", ministrado no Espaço Certo, em Santos.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Um anjo do edifício Paraíso




Célia Regina Ignatios de Andrade*

Era linda como um anjo. Espalhava perfume e pureza por onde passava. Seu sorriso era contagiante, sua alegria disfarçava certo mistério no olhar. Não tinha amigos, embora todos do prédio a conhecessem.

Não recebia correspondências, exceto boletos de cobranças. Ninguém sabia por certo o que ela fazia. Saia sempre pela manhã e voltava altas horas da noite. Para onde ia... ninguém sabia.

Certa vez, desapareceu por um longo tempo. Os moradores do edifício perguntavam por ela. Nem o zelador tinha informações. Havia sumido já algum tempo. Numa tarde chuvosa, trajando um sobretudo cheirando a guardado, um boné com marcas do tempo, adentrou pelo prédio um rapaz com certo ar misterioso.

“Vim buscar os boletos da Cristal”, disse ao porteiro.

O homem, intrigado, pergunta ao rapaz qual o grau de parentesco que havia entre eles. O rapaz, sem sorrir, apenas respondeu: “Somos amigos de infância”.

Ainda mais curioso, o porteiro tentou continuar a conversa sem sucesso. Gentilmente, o rapaz apenas olha para o tal curioso, pega os envelopes e sai sem despedida.

Intrigado com a história, o porteiro não tardou a espalhar o fato a todos os moradores que por ali passaram. No final do expediente, como de costume, o porteiro costumava tomar uma cerveja na padaria da esquina. Qual sua surpresa ao enxergar numa mesa bem num canto o garoto sentado, perdido em seus pensamentos.

Ele se aproximou, puxou uma cadeira e se sentou com o amigo da moradora também misteriosa do edifício Paraíso.

“Quer uma cerveja?”, pergunta para puxar conversa.

Agora o rapaz parecia um pouco mais amigável. Deu um leve sorriso e respondeu que já havia tomado seu lanche.

O homem, não querendo perder a única oportunidade de questionar o tal rapaz, foi logo no assunto da amiga que havia desaparecido. O rapaz pouco falou. Falou pouco. Parecia querer esconder seu rosto.

Por trás do casaco preto, do boné desbotado, do rosto tímido, estava um ser tão delicado que por ora parecia lembrar Cristal. Parente? De onde vinham duas pessoas tão misteriosas, tão semelhantes, tão angelicais?

Por algum tempo, o rapaz foi visto rondando as proximidades do edifício. Um dia sumiu também.

Dias depois, Cristal voltou. Alegre e sorridente, parecendo um anjo.

“Seu amigo lhe procurou”, disse o porteiro, desconfiado.

Cristal nada respondeu. Virou as costas e sumiu pelo corredor escuro do prédio que, de Paraíso, só tinha o nome. O boato correu que Cristal havia voltado. O rapaz não fora mais visto.

Esse fato se repetiu outras vezes. Quando Cristal sumia, o garoto aparecia. Depois de algum tempo, Cristal fez as malas, entregou suas chaves ao porteiro e disse que iria embora. Ainda continuaram a ver o amigo dela por algumas vezes pelos cantos das esquinas.

Quem era aquela garota sorridente? Quem seria o rapaz sempre ausente?

Depois de muitas especulações, o fato esclarecido. Aquela bonita menina também era o garoto da esquina.

* Texto que nasceu do curso "Como escrever crônicas", ministrado no Gabinete de Leitura, em Itanhaém/SP.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A verdade




Ana Carolina Dias*

— Amiga, você acha que ele está apaixonado por mim?

— Não, acho que é só carinho.

— Amiga, o que você achou dessa calça?

— Te engordou, viu!?

Quem nunca passou por situações como essas não sabe o verdadeiro significado do silêncio, aquele seco, sabe !? Muito menos terá a noção da insatisfação estampada no rosto de alguém.

O que eu falei não era exatamente o que ela queria ouvir, acho não, tenho certeza, mas ela não pediu a minha opinião!? Ou será que era só um desabafo!? Ou uma palavra amiga para massagear o ego!?

Não tenho a resposta para essas perguntas...

Por falar em perguntas, não sou muito adepta a elas, porque sinto que nunca estou preparada para ouvir a resposta, correr o risco de escutar o que eu não quero, não é um dos meus hobbys favoritos. Se eu pergunto, é porque de fato quero saber, simples assim.

Mas, ultimamente, tenho repensado sobre as minhas respostas, as pessoas querem a verdade ao mesmo tempo que não querem, e eu não entendo. Não entendo também a fama de mal-educada e grossa que eu tenho. No mundo onde a verdade é omitida e a ilusão reina, deveriam dar mais valor para pessoas assim como eu. 




Perder tempo com ilusões de qualquer natureza não fazem parte da minha vida. Acredito que as pessoas que lidam melhor com a verdade sofrem menos e é por isso que eu fazia tanta questão de arriscar a minha sinceridade com quem eu amo.

Fazia, no passado. No mundo de gente grande, a verdade não é bem-vinda, prefiro ficar com as meias verdades, com as mentirinhas do bem, para me poupar mesmo, guardo minha língua na boca e minha opinião no coração.

Agora, as minhas verdades são para quem merece. Quem reconhece que o lado da verdade é sempre mais difícil do que o da mentira, pessoas que sabem que a verdade não é tão conveniente assim e que a chance de ganhar títulos e reações negativas aumenta. Ser sincero não é fácil, dá prejuízo.

Não sou a favor da mentira como solução de tudo; às vezes, é preciso soltar uma “mentirinha do bem” aqui, outra ali, em determinados momentos inapropriados para uma verdade. Também não sou a favor da verdade nua e crua, há uma grande diferença entre sinceridade e bom senso.

Eu não preciso me responsabilizar pelas escolhas de cada um, mesmo não sendo fácil para mim. Também não me importo mais com as desilusões dos meus amigos, pois - na verdade ou na mentira - estarei lá sempre que precisarem.

— Ah, já estava me esquecendo. Acho que no fundo ele está apaixonado por você, só não quer assumir e, mudando de assunto, aquela calça ficou perfeita em você.

* Texto que nasceu a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado na Universidade Católica de Santos (UNISANTOS). 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

As máquinas nunca moeram Seu João




Ricardo Rugai

1993. Depois de alguns semestres em período integral no “semi-internato”, que era o curso técnico do SENAI, eu estava quase formado e relutante em encarar o tal “mercado de trabalho”. Me aguardavam seis obrigatórios meses de estágio para concluir o curso e, com sorte, ser efetivado na empresa.

Éramos oito moleques do SENAI na Merrel Lepetit, titã da indústria farmacêutica - que já pertencia a Dow Química - ali em Santo Amaro, próximo à Marginal e Ponte João Dias. Faziam pastilha Vicky, Descon e uma infinidade de porcarias que todos nós já tomamos um dia. Três salários mínimos, assistência médica e rango na firma com refrigerante à vontade.

Para uns caras na faixa dos 20 anos, parecia até bom. Da João Dias, onde morávamos numa República, até a empresa, era meia hora a pé. Parecia perto na época e economizava o vale-transporte.

No mundo do trabalho – que depois se tornaria objeto de estudo para mim – eu era reles objeto de sujeito oculto. A fábrica em ebulição, plena “reestruturação produtiva”. Seis meses antes de entrarmos, eram três mil funcionários que foram reduzidos a 1300. Palestras sobre “ISO 9000”, Segurança no Trabalho e palavras como “reengenharia” nos aporrinhavam no cotidiano com treinamentos enfadonhos que não faziam sentido para nós.

No primeiro dia, fomos divididos em dois grupos: operadores de máquinas, uniforme totalmente branco, e mecânicos de manutenção, macacão verde escuro. Caí no último grupo. A ficha corrida no RH entregava meu breve passado de mecânico de autos na Baixada Santista, só podia ser isso. Mas as geringonças que cuspiam drágeas e comprimidos não se pareciam com carros.

Os de branco pareciam ter se dado bem, alguns até sorriam maliciosamente para os de verde, como se tivessem subido um mísero degrau na hierarquia; afinal, “mecânico de manutenção” não rimava bem com “Técnico em Mecânica de Precisão”.

No mesmo dia, soubemos que os de branco eram “babá de máquina”: solitários num box claro com um trambolho rotativo de 3 metros de diâmetro que aspirava pó, prensava e cuspia remédio. Tudo que faziam era olhar. Oito horas terríveis, sozinhos, de pé para não dormir, olhando a máquina girar.

Além disso, trocavam os sacos de comprimidos cheios e avisavam quando a máquina desse pau, o que acontecia de vez em quando com aquelas velharias italianas.

O box era nebuloso. Parte do pó dos comprimidos que descia para as máquinas escapava, e o peão respirava aquela merda o dia todo, “protegido” por uma máscara “me engana que eu gosto”. O mesmo pó que era encapsulado porque só pode abrir no estômago da pessoa era respirado pelos “médicos”. Usar técnicos em mecânica de precisão do SENAI para isso era como matar formiga com tiro de canhão. O sentimento de idiotice era nítido, quatro anos para ficar essa merda. Só o salário poderia salvar. Mas não antes do estágio.

O detalhe mais sórdido era a ausência de bolso nos uniformes do operador de máquina. Segundo a empresa, era fruto de um estudo ergonômico: peão não podia por a mão no bolso para não se encostar e relaxar.

Outros que trampavam na seção das pastilhas Vick eram só pele e osso: 50 graus de temperatura o turno todo. Para os fiscais do Ministério do Trabalho, devidamente agraciados, tava tudo certo.

A vida dos mecânicos era um paraíso comparada a dos operadores. Nosso macacão tinha bolso, podíamos nos encostar. Era verde escuro, “demorava” uma semana pra sujar. A oficina era quase isolada dos corredores brancos da fábrica-hospital e não precisávamos usar aquelas máscaras de merda.

Não tinha chefe na oficina, eram nós, mecânicos, e só. E o melhor, só trabalhávamos de fato quando dava pau em alguma máquina. Metade do dia era arrumar ferramenta, fazer algum servicinho sem pressa e jogar dama. Até fumar cigarro numa farmacêutica podia, para revolta de muitos operadores. Tinha mecânico que nem fumava e punha cigarro na boca só para provocar. O ódio comia as entranhas de operador.

E tinha mais. Podíamos circular pela fábrica para consertar máquina, pegar peças, levar ferramentas e mesmo à toa. Nesse ambiente, a rivalidade entre operadores e mecânicos era antiga e, às vezes, virava treta. Mecânico parar na porta de um box de operador, por a mão no bolso e se encostar na parede era senha para porrada no meio da fábrica. Cantarolar “lava roupa todo dia, que agonia...” pros de branco dava merda e até assoviar essa melodia disparava olhares de ódio.

Quando chegamos à manutenção, tinha quatro mecânicos: dois deles na faixa dos 40, um na faixa dos 50 e o seu João, prá lá dos 60. Nós éramos quatro estagiários do SENAI cuja função era substituir os coroas. Aprenderíamos o trampo com eles enquanto a gerência os forçava a aceitar um PDV para economizar custo de demissão; afinal, 40% de multa em cima de 15, 20 e 30 anos não era pouca coisa. Na oficina a voz corrente era: “Essa facada não vão dar! Eles que demitam!”

Era uma corda bamba para eles: fazer o máximo de corpo mole para forçar a demissão sem dar motivo para uma justa causa.

Nesse mato sem cachorro da “reestruturação produtiva”, entramos nós. Se os coroas nos ensinassem direito o trampo, a chance de demissão aumentava. Mas os dias foram passando, os coroas nos testando e sacando que entre nós não tinha leva e traz de gerente. Até que a desconfiança se diluiu naquele mundo à parte.

Dois meses depois, tomávamos umas e outras juntos e sabíamos a história de vida de um por um, de cabo a rabo. O olhar do gerente sacou a proximidade e mostrava repulsa.

Seu João, o mais velho de todos, nos dava lições cotidianas de como ser um mecânico:

— Sem nóis a máquina não cospe, entendeu? Quando a máquina pará, vai ser um deus nos acuda, e essa oficina aqui vai parecer posto de bombeiro em dia de incêndio... Aí é a nossa hora!”

O véio não era chefe, mas tinha moral na oficina e ensinou a todos como levar o gerente ao desespero com uma receita que reunia um respeito rigoroso às normas da empresa, passo lento, silêncio, olhar perdido e falta de memória. Já fazia sentido a frase de porta de banheiro que todos repetiam nas conversas e brincadeiras: “Peão é a imagem do cão!”

Seu João dizia que, se a gente seguisse todas as normas e procedimentos, a empresa parava. O véio era o cão. Assistia atentamente a todos aqueles os cursos e treinamentos enfadonhos da Merrel. Até anotava coisas num caderninho.

Anos de curso da CIPA o ensinaram a jamais correr, sobretudo conduzindo o carrinho de ferramentas. Era uma cena bonita de ser ver: a máquina parada, o gerente desesperado, esbaforido, querendo apressar Seu João, impassível no caminhar lento e constante pelos longos corredores da oficina até a máquina.

Nosso barato era ficar de boa na oficina. O dele era o momento que a máquina quebrava. Sorria malicioso e aguardava o gerente pedir que viesse rápido. Fazia o pobre vir até à manutenção pessoalmente buscá-lo, andava lento, parava e explicava que dezenas e dezenas de treinamentos de segurança do trabalho ministrados pela própria empresa o ensinaram a jamais correr.

O gerente já espumava de ódio àquela altura, mas resistia em aceitar que estava completamente à mercê do mecânico e mantinha a empáfia. Seu João chegava ao box da máquina, tirava as tampas da geringonça vagarosamente e ficava longos segundos observando o maquinário em silêncio, completamente impassível.

— E aí, Seu João? Que foi dessa vez?

O velho demônio olhava séria e silenciosamente o rosto do gerente por alguns segundos e sem dizer uma palavra tornava a olhar para máquina, dessa vez enfiando a mão numa correia ou peça qualquer.

Deixado no vácuo, o gerente não se continha:

— Foi a bomba de óleo?

Sem se virar, Seu João fazia que não com a cabeça e resmungava:

— Nada a ver...

Depois de alguns meses de convivência, confidenciou que o objetivo era “por o gerente em seu lugar”. Mostrar que ele não entendia nada da máquina. Às vezes, dizia ele:

— Eu vejo o defeito de cara, só de abrir a tampa, mas fico ali pensando na vida. Quando o gerente chuta, quase sempre erra, mas mesmo quando acerta, não tem certeza, eu digo que é outra coisa e ele acredita!” E ria: “acertar chutando não vale, né!?”

Depois de minutos intermináveis, era descoberto o defeito, o gerente sorria aliviado e pedia pra Seu João arrumar logo porque a máquina precisava rodar... já estava parada mais de uma hora. Mas o suplício do gerente estava longe do fim. Entrava em ação outra tática de Seu João: o esquecimento. Faltava uma ferramenta adequada. Ela estava bem longe, na oficina do outro lado da fábrica, que seria percorrida com o mesmo passo lento, na ida e na volta.

O gerente perdia as forças, sua pressa e ansiedade estavam nas cordas e o desânimo castigava sem dó. Dessa vez, o gerente deixou Seu João ir sozinho. Ele, claro, andou mais devagar ainda, aproveitando para falar com um e outro no caminho.

De volta à máquina, Seu João parecia até mais animado. Retirou a peça defeituosa e mostrou ao gerente o problema da máquina. O ânimo do gerente renascia e ele esboçava um sorriso no canto da boca:

— Seu João sabe das coisas! Só ele conhece os macetes dessas máquinas velhas! Bora por prá funcionar, Seu João!

— Não dá não, seu gerente. A gente não pode mais montar a peça desse jeito, fazer as gambiarras como antes. E vinha o nocaute: “Agora, essa tal de ISO 9000 que ensinaram no treinamento exige que troque a peça”.

O semblante do gerente desabava, digno de pena. O abatimento superava a raiva e ele entregava os pontos. Naquele tempo, trocar uma peça significava preencher requisições, pedir assinaturas de três chefias, levá-las ao almoxarifado e pegar uma fila até que o funcionário dissesse se havia ou não a peça disponível.

Antigamente, explicava Seu João, encontrava de monte, mas agora com esse Just-in-Time, a empresa quase não tem estoque. E, claro, precisaram solicitar a peça ao setor de compras, que precisou fazer cotação no mercado até que uma semana depois, enfim, a peça chegou e a máquina voltou a operar.

Nessa pegada, Seu João resistiu bravamente à porra do PDV e a empresa foi obrigada a demiti-lo com todos os direitos pagos. Quase aos 70 anos, o velho se aposentou com a direito a tudo, exceto a vida deixada em décadas de fábrica. Combalido, morreu 5 anos depois.

A Merrel, que já fora vendida para Dow Química, foi comprada pela Avents. O capital concentrado fechou a fábrica e abandonou a planta que segue esperando a especulação imobiliária transformá-la em condomínio (falta pouco agora em 2015...)

Eu – que nunca mais tomei Descon - saí de lá alguns meses depois para outra empresa, na horrível Vila das Belezas, levando comigo quatro ou cinco histórias que guardo, sei de cor e de vez em quando conto em mesa de bar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Relato de um viciado quando jovem



Vinny Scrouth


(Esta crônica nasceu de uma aula sobre Era da Informação e pós-modernidade, que o Marcus Vinicius Batista, meu professor de Teoria da Comunicação, deu na faculdade)

Sempre fui viciado em seriados gringos e em tutoriais de YouTube. Nessas férias, eu adquiri um novo vício: cursos online. Começou com um cara que me inspirou a entrar na área de Web Design (Bruno Avila), a partir de um vídeo no YouTube. Isso me levou a entrar para o curso de Produção Multimídia, pois era o que mais se aproximava da profissão que eu queria exercer.

No entanto, esta é uma área muito ampla, e o curso não tem como disponibilizar tudo isso em dois anos, pois não é uma área especifica de Web. Por isso, um dos professores, Alexandre Sobrino, me recomendou aprender por fora outras coisas importantes para se tornar um WebMaster.

Nas férias de julho, tomei coragem e comprei um dos cursos do tal Bruno Avila, que custava R$ 400. Fiquei apaixonado pelo método de ensino dele, do jeito como ele usa o humor junto à pedagogia para ensinar uma área tão chata, que é puro código (linguagens de programação). Logo após, acabei fazendo mais um de R$ 200 e mais um de R$ 600. No total, gastei R$ 1200 nestes primeiros cursos.

Logo após essa série de cursos, descobri outro rapaz muito famoso que também estava na área de cursos online há um tempo, e fiquei ansioso para fazer um curso dele sobre Marketing Digital, mas custava R$ 600. Estava sem grana no momento, então resolvi esperar mais um pouco, enquanto juntava dinheiro.

Quando consegui a grana, sentei no PC e pensei: “Agora aquele curso é meu”, mas reparei que havia esquecido o endereço do site. Joguei o nome do curso no Google, “Metodo 10x – Marketing Digital”. Foi quando me deparei com um link do Mercado Livre que oferecia este mesmo curso completo (links ilegais em nuvens para download completo das vídeo-aulas por curso). O curioso é que vinham junto mais 400 cursos online caríssimos por apenas R$ 12 (DOZE REAIS TUDO!!!). Sem pensar duas vezes, comprei na hora!

Quando o link chegou, fiquei abismado e comecei a querer aprender tudo de uma vez, me veio uma fome de aprendizado inimaginável e eu comecei a fazer vários cursos de áreas diferentes ao mesmo tempo. Além do curso que eu queria, havia diversos cursos, desde Empreendedorismo a Emagrecimento Rápido.

Comecei a ficar biruta, porque eu via três video-aulas de um, depois via uma video-aula de outro, depois quatro video-aulas de outro e assim por diante. Enfim, quando chegava no 4º curso, eu esquecia que aula estava no 3º, tudo que eu tinha aprendido no 2º e qual era mesmo o 1º curso?

Achei que estava ficando burro, ou que não tinha capacidade, passei a desanimar. Aí contei isso para um colega que me indicou outro curso (que ironia, não?). Mas o nome do curso me deixou curioso: “Produtividade Ninja”.

Segundo sua sinopse, ensinava como aprender a aprender, como focar em algo. Até porque em uma das aulas ele mostra um estudo sobre o cérebro de uma pessoa sem foco, que tenta fazer tudo ao mesmo tempo. O cérebro fica esgotado a ponto de ter a produtividade e capacidade de aprendizado reduzida a de um drogado.

Cheguei à conclusão que era impossível aprender tudo, e tinha que controlar essa ansiedade para não me render, apesar da tentação. Afinal, agora não precisava mais pagar valores enormes por cursos como estes, estava tudo ali, no meu HD. Era só sentar e assistir com meu caderninho de 10 matérias em mãos que comprei exclusivamente para isso, a querer saber de tudo, de uma só vez.

Passei a me focar mais em uma coisa de cada vez, desligar o celular, estabelecer horários para trabalhar e para estudar. E principalmente, fugir da perigosa time line. Tem dado ótimos resultados!

domingo, 16 de agosto de 2015

É dos carecas... (Conversas com Beth # 14)




Marcus Vinicius Batista

Depois da segunda sessão de quimioterapia, nós esperávamos que os cabelos caíssem de vez. Salvo as náuseas e um dia de fortes dores de cabeça, os efeitos colaterais foram menos agressivos. Pelo menos para mim, que procuro acompanhar bem de perto e insisto em perguntar se você está sentindo algo, se tudo anda bem.

Seus cabelos que restaram davam a impressão de seguir contra a corrente. Resolveram crescer e ficar esvoaçantes – dentro das limitações de centímetros – para indicar a resistência. Por isso, não fiquei surpreso quando você decidiu exterminá-los com a máquina zero. Eu havia notado sua preocupação descontraída, nos dias anteriores, com os penteados. Soava como uma rotina engraçada, já que os sobreviventes ficariam escondidos dentro de lenços e chapéus.

Na quinta-feira à tarde, quando você me chamou para ajudar, meus 25 anos de barba pouco adiantaram. Mal consegui te auxiliar, pois passar a máquina na sua cabeça me dava uma aflição que tornava minhas mãos trêmulas. Fiquei com medo de te cortar ou machucar teu couro cabeludo.

Descobrimos, em minutos, uma superfície branca, quase lunar, ainda mais bela. Um couro cabeludo nórdico, que poderia contradizer seu jeito latino, embora não tão moreno assim.

Era a hora de relembrar o trato. Acordo é acordo, cedo ou tarde. Deixar meus cabelos para o dia seguinte significava também o tempo para pensar melhor, para buscar outra máquina no seu pai e não perder o foco sobre sua novidade visual.

No dia seguinte, sexta-feira, os compromissos profissionais me impediram de ir no seu pai, mas desconfio que estava adiando uma decisão que representava honrar um compromisso simbólico e real. Voltei da universidade me pegando com uma das mãos na cabeça. Várias vezes. Raspar era uma decisão irrevogável, faltava escolher a arma. Apertava os cabelos para me convencer que a espessura e a altura eram compatíveis com a máquina da nossa casa. Três testes cegos e a certeza de que poderia encurtar o caminho e parar em casa mesmo.

Jantamos e corri para o banheiro. A máquina já estava carregada. Passei na cabeça e arranquei o primeiro tufo. Sábia medida, tudo em casa. O segundo tufo saiu em quatro movimentos. Fim. A máquina estava inválida, havia se aposentado de maneira compulsória. Só vinham uns cabelinhos. O caminho de rato estava oficialmente aberto ao público; ou para você.

Voltei para a sala e te mostrei a arte pop. Tentei outra vez com a máquina. Quando você saiu, apelei para a lâmina de barbear. Só mais um aparelho entupido. Começamos a discutir o que fazer. Meia- noite. Ah, vamos deixar para amanhã, você me disse. Eu mesma apanho a máquina lá no meu pai.

A vida na UTI me ensinou que, se houver a menor chance de solução que dependa somente de você e de pessoas próximas, tenho que me agarrar nela. E se no dia seguinte você não estivesse bem? Decidi: vamos ligar para a casa do teu pai. Teu irmão pode estar lá agora.

Fernando salvou a noite. Quinze minutos depois, a máquina estava em minhas mãos. Mais uns 10, a cabeça estava como nunca esteve: áspera como um capacho de porta, como uma lixa de obra.

Passei a manhã seguinte pensando em desculpas para justificar minha falsa careca. Ouvi elogios da faxineira do prédio e de uma vizinha. Sem perguntas, apenas a palavra positiva que respondia à coerência de quem as pronunciou.

Pensei em minha mãe, que cortou meu cabelo curto e passou vinagre para matar piolhos quando eu era criança. O cinismo na escola, jurando desconhecer de onde vinha aquele cheiro estranho. Pensei sobre a promoção de banho e tosa no Pet perto de casa, onde pensamos em levar os gatos, que vivem hospedando pulgas. Cuidar do animal, cuidar do dono dele. Pacote dois por um. Mas como justificar o resto do meu corpo, agora em contraste mais agudo em relação à cabeça.

Pensei em falar de resistência contra a indústria cultural, que propaga a moda dos lenhadores. Agora que muitos resolveram ser como eu fui por falta de opção biológica, serei do contra. Rumo à depilação a laser.

Pensei em alegar uns dias em detenção, mas não tive tanta criatividade que justificasse uma alegação de crime. Pensei em economia de shampoo, mas me pareceu um corte estúpido nas finanças, já que vamos gastar em protetor solar, bem mais caro. Pensei até no humor negro dos neonazistas, mas descartei a ideia diante da ironia das aulas sobre racismo, que tomaram parte da minha semana acadêmica.

Pensei, como resultado final, em justificar com esse texto, e para os menos avisados falar em piolhos ou nas pulgas. Eles não acreditarão, o que me permitirá mudar de assunto com mais rapidez.

Estar careca não pode ou deve ser um incômodo estético. Não gosto de bonés, chapéus me fazem suar. Acima de tudo, estar careca é mais um sintoma deste caminho que optamos por seguir juntos, contra um doença que integra nossa rotina e que, se não pode ir embora em definitivo, será colocada como coadjuvante, depois figurante, até sair à francesa para um purgatório de seu organismo.

Será uma relação inversamente proporcional. Enquanto nossos cabelos crescem, a lúpus encolhe e cai, num processo irreversível de calvície quimioterápica.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Cheques voadores



Ricardo Rugai

O talão de cheques dormiu intocável na loja por vários dias, convenientemente omitido do patrão. Perturbado por anjos e demônios, o Tacape não decidia o destino do dito cujo, até que se encheu do zero a zero e convocou o Pescoço para desempatar.

— Animal, vem cá! Dá uma olhada no que deixaram na loja. Faz quase uma semana e o dono nem veio buscar.

O pescoço emendou de primeira:

— Então foda-se, não deve fazer falta pra ele, senão tinha voltado pra perguntar, nem deve se lembrar que deixou aqui.

E assim, depois de segurar o empate até os 44 do segundo tempo, o anjinho perdeu o jogo. Entraram em campo o salário mínimo, os clientes arrogantes e esbanjadores e os desejos de consumo reprimidos. Todos seriam vingados por cada uma daquelas vinte folhas de cheque. Era coisa pensada: o talão era deles, era apenas “justiça social”, repetiam para si mesmos entre o riso e nenhuma certeza.

Só que passar cheques era bem diferente de arrebentar vidraças, jogar lixo, tocar campainha ou passar merda em maçanetas de carro, as zueiras e catarses noturnas pela rua. Os dois se preparavam para um ramo mais adulto que, como tal, exigia certa calma, mais frieza e uma bela dose de hipocrisia.

Foi duro, mas eles resistiram aos impulsos adolescentes e maquinaram por dias de que forma aqueles cheques voariam. Treinaram uma bela assinatura “de adulto” e inventaram um pai correntista cujos filhos pediam aos comerciantes que preenchessem o cheque no valor exato. Coisa pensada, restava ir às compras.

É difícil acreditar, mas pizza no final dos anos 80 era coisa para ocasiões especiais na maioria das famílias e, por isso mesmo, foi o primeiro alvo: uma de frango com catupiry e outra de quatro queijos. Pizza pedida, chegou a hora do pagamento. Educadamente mostraram o cheque assinado a um senhor bigodudo atrás do caixa:

— Meu pai pediu pro senhor preencher pra gente.

A resposta veio sorridente, acompanhada de um sotaque português carregado. Todo solícito, ele escreveu no cheque um valor bem acima do preço, enquanto sorria malandramente. A espera interminável foi recompensada com duas belas pizzas.

Seguraram a vontade de cair na risada e disparar com os embrulhos pela rua. Mal dobraram a esquina, aceleraram o passo por duas ou três quadras antes de parar, sempre seguidos pela molecada da rua. Ali mesmo destruíram a embalagem e meteram a mão na massa, se fartando com catupiry e adrenalina.

A noite ainda foi coroada pela alegria de ferrar a ganância do portuga “malandro” em cima de “crianças”. Imaginar a cara de merda do gajo descobrindo o borrachudo era o melhor de tudo para eles. O português limpou a alma da dupla de qualquer culpa, foi o empurrão que faltava.

Dali para frente, eles pegaram a manha e “fizeram a feira”, comprando peça de bicicleta, sanduíche no Pitel (é gente, não tinha McDonalds não), livros de mecânica, lanche “completo” no CPE, relógio de parede para o dia das mães e mais pizza. Foi um mês de alegria na rua. Em alguns dias, o Tacape e o Pescoço bancavam Papai Noel e já chegavam jogando Suflair e Toblerone para o alto. Alegria da molecada.

Andavam em quatro ou cinco moleques e estava mole demais. Mas a história terminou em outra pizzaria. Repetiriam o mesmo esquema, só que dessa vez o caixa demorou para conferir a assinatura, foi verificar o telefone, levou o cheque, cochichava no ouvido de outro funcionário e nada.

Eram mais de dez minutos naquele impasse até que um olhou para a cara do outro e sem dizer uma palavra combinaram que era hora de correr. Até hoje não sabem se a casa ia realmente cair ou se a pizza viria em mais um minuto, não quiseram pagar para ver, até porque só tinham cheque...

Depois desse dia, deram um tempo. O instinto dizia que estavam perto de passar do ponto ou talvez fosse apenas falta de apetite. Pensaram até em jogar o que restava dos cheques fora, mas aí já seria demais.

Nesse ponto, entra o Tuto na história. Nascido e criado na favela do Caldeirão do Diabo, ali na Senador, ele manjava das paradas, já era de maior e bem mais malandro que a dupla. Jogaram o talão na mão dele e com a promessa de “agrado”, caso o Tuto se desse bem.

Em menos de uma semana, o negão já andava coberto com roupa de marca dos pés à cabeça. Não tinha a menor cerimônia de entrar no Shopping Miramar, fazer a limpa nas lojas de playboy e sair carregado de sacolas. Não era de levar desaforo para casa e seguiu firme nesse rumo.

Volta e meia, se sabia notícia do Tuto, sempre algum enrosco. Pelos idos de 2008, numa treta de bar lá no fim na Ana Costa, soltou um direto no gogó de um sujeito que foi comer capim pela raiz. Era um PM à paisana. Meses depois, morreu com nove tiros no meio da cara.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

As dúvidas



Marcus Vinicius Batista

Ao virar no corredor, meia dúzia de alunos já o esperavam. O carnaval morreu ali. Silêncio de velório. Suicídio coletivo ou a morte do exército de um homem só, armado de envelope de provas e caneta para lousa branca? Em vidas alternativas no mesmo prédio, seria giz.

Os seis entraram na sala de aula e os olhares denunciaram: ele chegou! Todos amontoados como se aquele pedaço de sala fosse uma micareta. O que sobrava de sala era terra arrasada, com população zero.

O professor foi taxativo: “gente, vocês já sabem! Fileira sim, fileira não; carteira sim, carteira não”. Na universidade, os testes eram os de sempre, dos anos de Ensino Médio. Vai que o professor deixe que dessa vez a classe vire poleiro humano.

No minuto seguinte, os únicos sons eram os pés em batidas apressadas e o arrastar de mesas e cadeiras. Em menos de um minuto, todos sentados. O professor, com o envelope embaixo de um dos braços, olhou para a sala e fez a pergunta previsível:

— Alguma dúvida, antes da prova?

Um cara lá atrás levanta o braço direito.

— Professor, a prova é em dupla ou individual?

— Em dupla ...

Aquele segundo de choque, mas antes do grito de gol, as reticências se completaram.

— Em dupla, você e seu cérebro.

— É com consulta?

— Você e ele.

— Quem?

— Você e seu cérebro.

Começa a distribuição das provas. Enquanto caminha entre as fileiras, o professor explica:

— São cinco questões. Vocês podem responder na ordem que quiserem, podem rasurar a folha de perguntas, mas todas as respostas devem ser à caneta. A prova vale 10.

Quando faltavam três provas para entregar, uma garota perguntou:

— Fessô, precisa responder ar questões na ordem?

— Não!

Outra voz:

— Prof, as respostas devem ser à caneta?

— Sim.

Provas entregues. O professor encostou na mesa e esperou. Um minuto depois, um rapaz levantou a cabeça e disparou:

— Pro, posso fazer um rascunho na folha de questões?

O professor pensou que as letras de seu ofício desapareceriam a cada pergunta. Ele imaginava o que viria depois do P solitário. Quando esboçou a resposta, foi atropelado por um dos alunos.

— Porra, o cara já disse que pode rasurar. Dá até para desenhar nas questões.

Depois de 15 minutos de prova, um sujeito entrou esbaforido, se desculpou pelo atraso, apanhou a prova e se sentou na cadeira mais próxima. Deixou o estojo cair, desculpou-se novamente, sorriu amarelo e começou a avaliação. Mal escreveu o nome, olhou para o professor e fez sinal para que o professor se aproximasse. Ouviu que bastaria perguntar. Na lata, a dúvida:

— Professor, qual é o nome da matéria mesmo?

— Corte e costura. (gargalhada geral)

Meia hora depois, a primeira aluna terminou a prova. Arrumou a mochila. Levantou-se, entregou a prova e pediu ao professor.

— Prof, corrige com carinho.

Ele sorriu. Ela andou dois passos, deu meia volta e perguntou:

— Prof, para quem não passar, o que cairá no exame?

Muitos levantaram a cabeça, colaborando em silêncio com a maior das dúvidas da noite.

— Lágrimas.


Obs.: Texto escrito em 7 de julho de 2015 e publicado na revista eletrônica Sanatório Geral. Tema: Fome de educação

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Retrato em preto e branco



Lucas Musetti

Onze da noite de sexta-feira, 7 de agosto. Eu me preparava para levantar, dar sinal e descer no ponto mais próximo da minha casa, quando um jovem – negro, roupa suja e segurando um saco com poucas latinhas – entrou no ônibus pela porta do meio.

Eu e mais meia dúzia de passageiros seguramos firme o que tínhamos nas mãos. O “intruso” olhou em volta e correu para frente do carro, para perto do motorista. Apreensão. Ele pulou a catraca enquanto eu pensava em como evitá-lo. Foi quando a cena que não sai da minha mente aconteceu.

O motorista recebeu um abraço forte, como em um reencontro. “Boa, pai. Gosto de andar com o senhor, pois você não enrola. Dirige rapidinho”. Eu, surpreso, já me arrependia de ter julgado o rapaz pelo que vestia e segurava nas mãos. Naquele momento, eu já tinha perdido o local onde sempre desço. “Ah, filho. Eu quero chegar logo no ponto final. Mas, me conta, você tá bem? Onde vai descer?”.

Eu pensava no meu pai, me martirizava por cair no preconceito que eu achava lutar contra todos os dias. Olhava em volta e sentia não estar sozinho. Todos viraram espectadores. “Tô bem. Me deixa na pracinha, vou dormir lá. Ah, pai... eu juntei muitas latinhas hoje. Acho que vou conseguir comprar um presente pro senhor até domingo!”.

Eu chorava. Passei a pensar em possíveis motivos para separar os dois. Como deixar o filho dormir na rua? Mas será que não é a vontade dele? “Pôxa, filhão. Não se preocupa! Você sabe que não precisa. Passa lá em casa, já será um ótimo presente”.

Chegamos à pracinha. Eu desci junto. Só consegui desejar boa noite. Era realmente o pai dele ou uma figura paterna na vida difícil que leva? Faz diferença? O rapaz dormirá bem? Será que o pai conseguirá dormir bem sabendo que o filho está na rua? Não sei. Não sei nem o nome deles. Mas quero saber. Vou saber.

Por enquanto, como resposta para tantas perguntas ainda não respondidas, ficou a lição. A vontade de abraçar forte meu pai não passou, e espero que nunca passe. Agradecido por presenciar esta cena, eu pude comemorar o Dia dos Pais ao lado de quem me criou. E espero muito que o morador de rua tenha ido à casa do motorista-pai.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Lenços, seus documentos (Conversas com Beth # 13)



Marcus Vinicius Batista

Hoje é dia de quimioterapia. Segunda sessão, a primeira depois da internação na UTI. Passamos a semana, de certa forma, em torno disso. Conversas sobre as mudanças na dinâmica da casa pós-sessão, três visitas ao hospital, dribles na burocracia, consulta médica, hemograma, o cardápio que nos prepara para o desconhecido.

Sabemos como serão as injeções, uma parte deve ser via oral, os intervalos entre elas, mas ainda não decoramos as combinações de medicamentos. Não nos soou necessário. É como tentar decifrar o composto químico de uma bomba cujo timer se aproxima do zero. Nada grave até porque nos acostumamos com o aplicativo com despertador que nos lembra de tantas pílulas em tempos tão distintos ao longo do dia.

Embora o adversário seja a lúpus, as armas químicas para combatê-la ficam na oncologia. Já nos acostumamos com o olhar de surpresa quando se lê ou ouve a palavra quimioterapia. Seria sinônimo de câncer, que vem seguido da dúvida: mas por que quimio? Não era lúpus? Viramos aqueles professores dos antigos cursos por correspondência, capazes de dar um panorama geral de tudo, mas sem se aprofundar em nada.

Estar na oncologia é como estar na cidade das mulheres grávidas, quando a sua é gestante, claro. Quero dizer é que lá vejo com maior frequência mulheres como a minha. Mulheres e seus lenços na cabeça. Com o perdão da obviedade, seu novo visual, além de manter sua beleza com outro desenho, atraiu minha atenção para as mulheres com lenços. Vi várias até agora, como se elas sempre estivessem por perto, mas eu era cego ou egocêntrico demais para enxergá-las.

A segunda sessão de quimioterapia, fora os efeitos colaterais no aparelho digestivo, deve espantar de vez seus cabelos. E daí? O que me importa é como você se sente, e os sinais que você me dá me alegram, se o assunto são os cabelos. Na prática, é um problema secundário, que reduz minha tensão diante de quaisquer expectativas de sofrimento.

Começamos nossa história capilar com uma echarpe improvisada como lenço até que compramos um chapéu preto, numa loja de departamentos. Situação divertida e que permaneceu assim com o contato de outras pessoas. Elas reagiram com animação, você foi chamada de charmosa e o acessório te deixou mais elegante. Aqui, freio meu rompante de comentarista de moda. Você ficaria linda até com camiseta de candidato a vereador, de qualquer partido.

No último domingo, duas visitas, vários presentes. A primeira delas tinha um cheiro de redundância. O almoço seria na casa do meu pai e chegamos a comentar, brevemente, sobre os vários chapéus que minha mãe possuía. Mal sentamos na sala e meu pai apareceu com diversos chapéus, de cowboy ao panamá, da praia ao patrocinado. Você escolheu alguns e o experimenta-experimenta foi a pitada de humor antes do almoço. Voltou de chapéu “novo” para casa.

No final da tarde, fiquei feliz em conhecer uma colega sua de trabalho, a Denise. Ela teve câncer há uns 10 anos e resolveu nos visitar. Trouxe uma surpresa: vários lenços e gorros, alguns do tempo em que se curou da doença. Depois da quimioterapia, os cabelos dela nasceram brancos e a loteria em torno do futuro dos cabelos se transformou numa pauta divertida.

Os lenços venceram os chapéus e ganharam as ruas nos exames de segunda e na consulta de terça. Vimos, no hospital, outras mulheres como você, que carregam no lenço o símbolo de uma disputa que será vencida, só não sabemos quando.

O lenço é o cartão de visita de sua nova identidade, sempre em metamorfose, mas agora dirigida pelo imponderável biológico. O lenço é o recado para qualquer doença, de que não se abaixa a cabeça, apenas se cobre parte dela, justamente para se preservar uma vida antes da enfermidade, que acena como o tratamento é transitório.

Estar de lenço é ser vista na rua. Ser vista na rua significa que a vaidade e a estética são de outra natureza. O lenço representa a revolta contra o isolamento em casa, contra o estigma de quem seria menos porque atravessa a trilha espinhosa dos remédios e seus efeitos colaterais.

Olho para você de lenço, gorro ou chapéu e reafirmo a certeza de que não se ajoelhará diante do lobo. Cada modelo me indica que existe uma fauna de adereços, coloridos como a resposta a uma crise de saúde deve ser. Usá-los é abrir a porta para a vida pública. Usá-los é se expor como alguém que não abdicou da própria identidade; pelo contrário, você assume – pelo tecido que cobre sua cabeça raspada ou com mínimo cabelo – que identidade é adaptação, que a metamorfose jamais será estática, numa cama ou num quarto de hospital.

O lenço, nesta sexta-feira, é a fantasia da visita mensal à oncologia. Pode ser seu documento de entrada para um mundo nada saboroso, mas carrega a solidariedade com e de seus pares perante um passo a se dar com firmeza e sem pressa. Trata-se, se possível, uma só vez. E o lenço, como te presenteou Denise, será a arqueologia de uma cultura que se esvaiu e se refez depois de meses.

Esperarei, com a paciência que os tempos de hoje desenvolveram, a cor e o formato do novo cabelo. Seu sonho é que eles nasçam vermelhos, o que creio ser utópico. Na certeza do novo cabelo, meu conselho: um desejo que pode ser resolvido com uma visita ao cabelereiro; desta vez, com o poder da escolha e com outro tipo de química.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Poema de quem não lê jornal



Isabella Narcizo*

Eu realmente tenho de saber as histórias de papel higiênico
Da real política da terra de Santa Cruz

Tenho de ler cada palavra suja e sangrenta
De terras não muito distantes
Daqui

Tenho de analisar as retas dos gráficos
Diagramas de Venn
E uma gama de intempéries estatísticas
Que gritam:
És burra e és cega

- Concordo.
Sou burra e cega pelas mãos de vós
E Pelas mãos de vós minha voz se enrouquece
De pavor da ignorância

"Você sabia?"
Não, eu não sabia.
"Você já leu?"
Não, eu não li.

Tudo o que eu podia eu fiz
Não sujei o mundo
Não violei pessoas
Nem fiz cara feia
Disse as palavras mágicas
E distribui sorrisos e flores
Vocês sabiam? Não?
Vocês fizeram? Não?

Vive-se o cortiço e vive-se
Urinetown

Respira-se mijo e mija-se óleo

Enquanto na bolsalândia
Come-se gente

"Fulano de tal e fulano de til
Investigados por x
Ainda em andamento
Processo parado devido a"

"Cicrano de tal morto em
Tiro perdido
Fogo
Lista e passo-a-passo da mais nova dieta detox"

"Casamento de Bil e Bal
Término de Xiu e Xau
Nascimento de
Atraso nas entregas
Juros correção monetária preço do pastel
Novo processo aberto"

- Vão pra porra

Nas lousas
Um alimento pobre

Nos prédios e bares, gente
Vazia em todos os lugares.

(O céu sabe do chacoalho do chão
O mar sabe do galope do vento
E tudo avisa: pelo amor de vós, parem
Mas céu e mar e chão e vento sobreviverão
Para assistir cada reta e diagrama
Nos engolirem por inteiro
E nem darem a descarga)

* Embora seja um poema, este texto nasceu a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado na Universidade Católica de Santos (UNISANTOS), em maio deste ano. Isabella é estudante de Letras. 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A força de Yoda

Marcus Vinicius Batista

Serei direto, como ele gostaria que fosse. Wagner Tavares é um cinegrafista de Santos que sofre de câncer no estômago, com metástase no fígado. Ele luta contra a doença desde o início de 2013 e já passou por seis tipos diferentes de quimioterapia. Houve melhora no início do tratamento, mas, desde então, a doença só se agravou.

Wagner não desiste. Ele colocou no ar, nos últimos dias, um site chamado “Desafio: Cure o Yoda”. Yoda, aquele Jedi verdinho do Star Wars que fala ao contrário, é o apelido dele há mais de duas décadas. No site, Wagner trabalha com as armas que melhor maneja. Expõe informação detalhada, utiliza imagens, comunica-se de forma clara, objetiva e contextualizada. Coerente com sua caminhada como cinegrafista e estudante de Jornalismo. Wagner se forma este ano pela Universidade Santa Cecília e, provavelmente, receberá aquela medalha tradicional de melhor aluno da turma.

O site é talvez a última fronteira para alguém que não deixou o câncer paralisar a própria vida e das pessoas próximas. Wagner só deixou de cumprir algum compromisso quando o corpo estava combalido pelas bombas químicas. Mesmo assim, retornava à rotina universitária o mais rápido possível. A universidade e seus jornais, sites e programas eram um dos combustíveis contra a doença.

Wagner criou o site porque precisa de informação. Novidades sobre tratamentos, grupos de pesquisa, novos medicamentos, outras experiências são princípios ativos e bem-vindos nesta altura da guerra.

Eu o conheci no começo da minha vida como jornalista, lá na primeira metade da década de 90. Tenho orgulho de dizer que produzi, ao lado dele e do repórter Guilherme Marcondes, uma matéria especial sobre Aids para a extinta Rede Manchete, na época em que a doença estava impregnada de estereótipos como “Mal Gay” e outras baboseiras moralistas.

Em 2013 e no ano passado, fui professor dele na Universidade. Professor é termo relativo porque, entre outros pontos, tinha que “ensinar” a ele elementos básicos do Telejornalismo. Sem hipocrisia, em muitos momentos, diálogo é a melhor palavra para definir aquela relação em sala de aula. Wagner já combatia o câncer e nunca se escorou na doença.

No início deste ano, tivemos uma longa conversa sobre Jornalismo e o momento da profissão. Wagner não fazia planos para si mesmo ou sonhava com metas utópicas. Ele também estava preocupado com a qualidade de ensino que o filho recebia na escola. Sempre se disse realista. Aqui, discordo dele. Só um otimista é capaz de encarar o câncer com trabalho e estudo, além de virar a bússola para os mais próximos, sem arrastá-los para um mar de desesperança.

Com este retrospecto, me sinto confortável em escrever sobre algumas coisas que o Wagner não quer neste momento. Ele se recusa a fazer ou testemunhar cara de choro, olhar de piedade, batidinhas de ombro de compaixão ou perguntas que o coloquem como vítima. Ele precisa dar o passo seguinte, com firmeza, porque nas palavras dele, tem que “ajudar na carreira da mulher e na educação do filho adolescente para a vida”.

Wagner também não quer orações. Ele é ateu e, como escreveu, respeita os religiosos, mas não as religiões. Ele compreende a “benevolência incontestável” da religião como objeto científico, mas espera entendimento sobre sua crença. Antes de ser ateu, é humano, com o perdão da obviedade para aqueles que poderiam associá-lo a alguma postura imoral, pervertida ou indigna de solidariedade.

Wagner não quer se tornar mártir, herói ou arauto do combate ao câncer. Wagner quer a cura, simples assim. Não há ilusões, elucubrações ou pavores sobre a morte. A palavra que todos querem manter mais distante possível do câncer é posta por ele, às vezes, na mesma frase. O Yoda quer viver, mas sem cortinas de fumaça sobre um dos pontos de chegada. Realista.

Sem saber, Wagner me ensinou muito e reforçou velhos – mas não obsoletos - conceitos. Perseverança, ausência de vitimização, a importância do trabalho duro e da informação, entre outros comportamentos.

Seus ensinamentos, antes elementos retóricos em nossos diálogos, se transformaram em vida prática. Minha mulher, Beth, esteve internada numa UTI por duas vezes no último mês, por conta da reativação da lúpus, uma doença autoimune. Numa delas, ganhou de presente uma sessão de quimioterapia. Na próxima semana, haverá outra. Serão, no mínimo, nove sessões. Dois anos a percorrer, com om pragmatismo de enterrar o lobo debaixo dos braços.

Ninguém sabe por quanto tempo durará a batalha do Wagner nem qual será o resultado final. No momento, o jogo está difícil. O que aposto – e agora falo de fé mesmo, o único remédio contra a incerteza – é que verei Wagner no começo de 2016 recebendo o diploma de Jornalista. Será somente um ritual, pois Wagner é jornalista desde o começo dos anos 90, mas como rituais existem justamente para reforçar – simbolicamente – o esforço de uma trajetória, ele tem que estar lá.

Wagner, um exemplo. Yoda, a força já está com você!

domingo, 2 de agosto de 2015

Zoraide, a baiana




Joana Merlin Scholtes*

Blocos de carnaval de cidade pequena tentam imitar em brilho e pompa, os da capital. Sem sucesso, é claro, pois seus recursos são infinitamente menores. Mas ao tomar a avenida, a ansiedade no coração de seus integrantes, o desejo de brilhar, de mostrar a todos a perfeita cadência do samba, igualam-se em todos os povoados desse Brasil afora.

Entre os figurantes daquela pequena escola de samba itanhaense, o bloco mais animado é o das baianas! Algumas, nota-se logo pela falta de gingado, nem baianas são! Mas não há como confundir Zoraide, pele de mel queimado, traços afro brasileiros, fantasia que assenta como luva num corpo já entrado em anos, mas ainda exuberante. E seu sorriso, então? Brilham seus dentes mais do que as lantejoulas de sua fantasia.

Quem vê cara não vê coração, diz o ditado. Hoje, porém, alegra-se o coração de Zoraide! Seu desejo, seu sonho realizados: economizou o suficiente para comprar a fantasia e desfilar em mais um carnaval! Rebolando ao som da batucada da modesta bateria, Zoraide esquece suas dores e até mesmo seus amores: os filhos e netos que o destino lhe legou. Ou que ela, incauta, não soube evitar.

Que vida a sua! Segundo ano incompleto, mal sabe ler! Seis filhos com cinco pais! Nenhum daqueles que nela implantara sua semente permaneceu a seu lado para apoiá-la na aventura de criá-los.

O primeiro, que ela teve bem jovem, fora deixado na Bahia e criado pela avó até a adolescência. Zoraide veio para São Paulo com um alemão por quem se apaixonara, a quem deu dois filhos, fortes e claros como o pai. Deu, literalmente, pois este os levou ainda bebês, ao retornar à Europa. Não lamentou! Como poderia alimentá-los se nem um teto tinha? Em seu coração, permaneceu a mágoa daquela perda!

Deveria ter aprendido a lição: mas não. Com outro caso, produziu mais um filho, o qual, adulto, viria a dar dores de cabeça. E depois de mais um namoro, veio a única menina, hoje mãe solteira como ela. E finalmente, o mais novinho, epilético, atualmente cuidado pelo irmão mais velho, aquele que ela abandonara e que hoje é o que mais a ajuda.

Com o correr dos anos, trabalhou em pousadas, hospitais, restaurantes. Sofreu o pão que o diabo amassou, tendo até sido estuprada! Mas agarrou-se aos filhos, mudou-se para Itanhaém e tentou, por bem ou por mal, mantê-los na escola e fazer deles pessoas de bem. Nem sempre foi fácil: os mais velhos cuidavam dos menores, não havia uniformes novos nem comida farta.

Às vezes, quando faltava emprego, só havia no prato os peixes que Zoraide conseguira pescar no Costão. Aos trancos e barrancos, as crianças cresceram e tomaram seus humildes rumos.

Há alguns anos, o segundo filho havia se ligado, em São Paulo com uma moça que se drogava. Zoraide encarregou-se da filha deles, sua neta mais velha. A segunda criança foi vendida pela mãe, por dez reais, para comprar crack e usada por três anos para pedir esmola na rua.

Ao descobrir o paradeiro da família, a justiça obrigou a avó a recebê-lo, já que os pais não tinham condições de criá-lo! Zoraide aceitou mais essa carga!

Hoje, excelente cozinheira e relativamente bem empregada, ocupa-se dos netos, jovens adolescentes e ajuda a cuidar da filha de sua filha. A pobreza ainda impera. A situação continua difícil, mas menos crítica. Zoraide aceita tudo com resignação, culpa-se pelos maus passos e não se revolta contra a sorte nem contra a falta de apoio do sistema social.

A vida que teve não a amargurou: permanece meiga e afável, exibe um sorriso franco e diz que está bem, à vista do que já passou! E, no fundo, entre outros anseios, espera, no próximo carnaval, poder outra vez exibir-se e mostrar a todos o que a baiana tem!

Obs.: 8. texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado em abril, no Gabinete de Leitura, em Itanhaém. 


sábado, 1 de agosto de 2015

O presente que não se dá



Paulo Montenegro

Antes de uma data ser especial, era apenas uma data. Vejo nos últimos anos algumas datas perderem força e, por vezes, me peguei criticando algumas delas, e você com certeza já fez o mesmo.

Aniversários talvez sejam as datas mais controversas, pelo menos para mim. Ao longo do tempo, parei de esperar por esse dia, parei de comemorar, e o dia mais mágico do mundo se tornou apenas mais um dia. Por quê?

Não acredito que seja apenas por ter envelhecido e ficado chato, ou porque agora toda festa saia do meu próprio bolso. Hoje eu me questiono: o que realmente estamos comemorando?
Você é um acidente. Por mais que você tenha sido planejado com todo cuidado, e que o médico que atendeu sua mãe disse a exata hora da sua cesárea, se precisou desse artifício, é que houve alguma complicação.

E o plano original foi mudado. Antes desse momento, em que mãos humanas te seguraram pela primeira vez, e o registro da sua vida se iniciou, aquela data era apenas mais uma data.
Ainda assim, aquela foi apenas a primeira oportunidade que o mundo teve para te tocar.

Você estava vivo bem antes disso. E nos próximos 10, 20 anos, o que você receberá serão “parabéns” (por ter sido arrancado da barriga da minha mãe, ou por ter conseguido a proeza de viver mais um ano? Não entendi, amigo), presentes e comidas hipercalóricas.

O cara que criou a comemoração de aniversário deve ter sido dono de salão de festas ou seguro de vida, só pode. Os presentes então, só deixam tudo mais confuso. Alguns vêm carregados de segundas intenções, outros são completamente desconexos com a sua identidade e, na minoria, vêm os que realmente mudam tudo.

Um presente de aniversário deveria ser uma forma de mostrar uma simples coisa: eu estou presente em sua vida. Eu vejo em todos os dias do ano seu sofrimento, sua alegria, suas vitórias e seus sonhos, e eu quero que você viva mais, que você sonhe e realize mais ainda.

Sou feliz por ser testemunha da sua passagem na Terra, e de fato, desejo sua felicidade.
E o que traz mais felicidade do que realizar um sonho? Por isso hoje, na margem dos meus 30 anos, dou parabéns para as pessoas que não tenho lá muita empatia, me julgue.
Não é o seu caso.

Desde que nos conhecemos, você me disse sete vezes que sonha em quebrar pratos e copos durante uma briga e, em todas as vezes, você sorria com certa euforia.
Sim, eu contei.

Por isso, essa noite vou te irritar de propósito, e vamos quebrar alguns pratos e copos, madrugada adentro. E você que está lendo isso e não entendeu, não se preocupe. Basta que tenha compreendido que, no dia do seu aniversário, ou em qualquer outro dia, mais feliz é aquele que realiza.