sábado, 11 de julho de 2015

Resistente (Conversas com Beth # 8)


Marcus Vinicius Batista
Sempre admirei pessoas esforçadas e dedicadas. Daquelas que viram as costas para o discurso “Oh, vida; oh, azar”. E você é a pessoa mais resistente que conheci. Como qualquer um, há dias que você se irrita, atira para os lados e parece que vai desistir. Eu curo os estilhaços, nós brigamos e enterramos o fantasma do passo em falso. O dia seguinte e uma noite de sono, mal dormida mesmo, e às vezes alguns minutos de reflexão te fazem levantar mais uma vez e encarar a porta aberta.

Admiro-te por inúmeras razões, todas elas ditas numa distância menor do que 30 centímetros entre nós. Só não te falei – e peço perdão – que te amo também pela sua capacidade de sobreviver aos estelionatos que teu corpo insiste em te aplicar. Você aceita a sentença por um crime na qual é vítima, cumpre a pena, assina o alvará de soltura e segue adiante. O duro é que a condicional se mostra perpétua.

Não tenho como compreender sua dor física e mental nesta nova crise de lúpus. Tento não te atrapalhar, te deixar mais confortável, atrair quem te preza, te ajudar nas pequenas coisas que diminuem a dureza do dia e a substituem pelo mínimo prazer.

Sempre acreditei, pelo passado de atleta de competição, que seria resistente à dor. Posso até ser – ainda jogo com dor, mais pela velhice do corpo e pelo peso em excesso -, mas entendi que a minha dor não é somente única, é também diferente e deveras risível.

Você não pediu para ter essas dores. Elas não te avisam quando se aproximam, atropelam sem misericórdia. É quase utópico, ao contrário do meu caso, estabelecer uma relação óbvia de causa e consequência. A lúpus é suja, ataca pelas costas, não faz barulho na largada, não negocia prisioneiros ou constrói acordos diplomáticos.

Admiro-te pela resistência em suportar a UTI. Você tem a metade da idade de todos os outros pacientes. Os riscos são meias palavras para bons entendedores. São 18 dias. Estive aí em todos eles e, embora haja limitação de tempo de visita, saio exausto, sugado, irritado. Você permanece, acompanhada de TV, livros e revistas, pouco diante da solitária-cárcere-privado, das injeções, dos comprimidos, das medições, dos exames, do inchaço que insiste em te torturar.

Faço um esforço para te poupar das dificuldades do mundo lá fora. Quer dizer ... soa leviano falar em dificuldades quando entro no quarto em que você está e te observo sorrir. Eventualmente, o sorriso mente para camuflar o olhar. Tento sorrir de volta, só dar boas notícias, falar em soluções quando é essencial mencionar problemas. Procuro te ouvir, dividir as peripécias do Vini, da Rafaella, da Mari. Qualquer rodapé de página precisa se transformar em capítulo primeiro.

Sei, em parte, o que é enfrentar dores quando olho para você. Aprendo que reclamações nascem de vez em quando, mas da boca para fora. Você permanecerá firme para mais dois anos de tratamento, para a rotina de medicamentos, de exames periódicos, consultas e (a partir de agora) injeções arrasa-quarteirão.

Sua resistência me ensina quando pedimos aos médicos que não nos poupem. Não dá para reduzir o nível da água da enchente enquanto chove. É vital recolher os destroços e construir tudo novamente. Fazer novos calços nas portas. Subir os muros. Tirar a lama na vassoura.

Demos, em várias ocasiões, as mãos sem perceber para ouvir um boletim médico. Quando um dos homens de branco tentou amenizar o cenário, partimos juntos – como entrevista coletiva – para as perguntas mais inquisitórias. Queríamos pegar contradições para comentar depois: “olha como ele falhou no discurso. Olha como somos fortes”. Você me deixa tirar as dúvidas, tomar a dianteira como um rito de passagem para o mundo mais profundo da lúpus.

Enfermeiros e médicos não cansam de te elogiar como paciente exemplar, que nunca se queixa, que não grita, que sorri quando sua pele é perfurada pela enésima vez porque até as veias jogaram a toalha. Não estava ao seu lado quando você trocou uma injeção na veia por uma intramuscular. Suportou uma hora de escavações arqueológicas em seus braços. Uma hora! Não me atrevo a imaginar a cena. Contento-me com sua descrição dos fatos e faço campanha para que você receba o título de doutor honoris causa.

Confesso que tenho tentado permanecer algum tempo sozinho. Viagens de ônibus ajudam (gente ao lado, claro, não significa companhia), madrugadas lendo ou escrevendo, caminhadas e outros exercícios mecânicos como lavar louça, pendurar e guardar roupas servem para me preparar para o dia seguinte. E torço para que nos auxiliem a enfrentar os próximos dois anos.

Como te disse no mês passado, no começo desta crise, eu me tornei incansável. Não tenho o direito nem vou diminuir o passo ou desistir além de um pensamento eventual. Os 42 km de maratona terminam logo ali.

Olha, amor, esta foi nossa conversa mais difícil até agora. Duas paradas nos boxes para suprir o combustível emocional. Agora entendi porque fugi deste texto por alguns dias. Tinha a ilusão de que estava escaldado, mas a água veio gelada demais. Até amanhã!


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