quinta-feira, 2 de julho de 2015

A trincheira (Conversas com Beth # 4)


Marcus Vinicius Batista

Estamos em guerra há dez dias. O adversário, traiçoeiro por fama e retrospecto, atacou duas semanas antes, na surdina, sem tempo para diplomacia. Uma correção: adversário se respeita; inimigo, não. Este inimigo retornou mais experiente, com sinais de que aprendeu com as derrotas. Cinco, em 15 anos! Em outras crises, ele te atacava em várias frentes e, a exemplo de muitos tiranos, perdeu a guerra justamente pela ganância de se espalhar.

O inimigo, desta vez, investiu todo seu exército de lobos num alvo só. Causou estragos substanciais nos flancos e na cadeia de comando, prejuízos mascarados pela leitura especializada dos chefes de Estado; portanto, sem contexto, do cenário biopolítico. Um dos oficiais de branco, uma mulher, sentiu que a batalha começara. Encaminhou o SOS a outro oficial, que se recusou a crer que a guerra rasgava suas fronteiras. Este atraso quase te custou uma das capitais.

Depois de dez dias, você conseguiu conter o avanço do inimigo. Outros oficiais assumiram o controle das operações e compreenderam como a doença se move. Criaram barreiras de contenção, que seguraram as tropas. Restituíram as bases destruídas e paralisaram os sintomas de uma derrota que assustou como nunca. Os lobos nunca estiveram tão perto do quartel-general, nunca foram tão vorazes em dilacerar defesas sem fazer prisioneiros. Chegamos a ouvir que a rendição era uma hipótese, mas os bombardeios de vários calibres surtiram efeito.

Hoje é um dia decisivo. Os oficiais farão um mapeamento completo do pontos de combate, do tamanho das tropas, das perspectivas para os próximos dias nas trincheiras. Combater o exército de lobos é uma batalha de cem anos atrás. O inimigo prefere homem a homem, célula a célula, com muito armamento e equipamento em terra. É uma batalha de campo aberto, de soldados obcecados pela crueldade, que parecem não descansar.

Este mapeamento-biópsia permitirá encerrar a batalha em poucos dias. Com as informações sobre o alcance e poder de fogo inimigo, os oficiais pretendem apelar para uma bomba química, nunca utilizada na sua guerra particular, que arrasará quarteirões, com a meta de sobrevivência zero nas linhas dos lobos. Dizimar para sobreviver.

Ontem, estávamos tensos, nervosos com o que acontecerá fora de nossa trincheira. Você terá que sair dela para um terreno desconhecido. Está entre fronteiras vividas, mas em solo inédito.

Ontem pela manhã, houve a chance de cancelamento da ação. Tive que visitar a base de um dos aliados, que negou qualquer boato ou desinformação alheia. Para nós, diplomacia evita contar com a sorte. Não sabemos ainda a hora do movimento das tropas, talvez você já conheça a tática quando ler este texto.

Independentemente do mapa a ser estudado, seguimos entrincheirados, à espera da definição da data, dosagem e número de bombas químicas para enterrar o inimigo. Sabemos somente o local, o que, na atual situação, é detalhe. Os riscos e as consequências da bomba também são conhecidos, em teoria, e discutidos por nós mais de uma vez. Vamos vencer, sem misericórdia, inclusive conosco.

A trincheira é um endereço paradoxal nesta batalha. Aprendemos a viver em isolamento. Aprendemos e nos resignamos porque sabemos que a volta para casa representa a única alternativa de paz. Ou de cessar-fogo.

A trincheira nos coloca em espera, mas também nos fornece relativo conforto e proteção. Reuniões diárias com os oficiais, um olhar mais agudo sobre a zona de combates. Um olhar que nos poupa de testemunhar certos destroços. Os números chegam a cada 24 horas, balanços de mortos e feridos, perdas e ganhos de territórios nos fazem viver de pequenas notícias.

Eventualmente, um dos oficiais tenta nos transmitir um desenho mais otimista. Escaldados, procuramos o homem de patente superior, sujeito que não nos poupa dos danos. Melhores são as palavras francas do general.

Precisamos deixar logo a trincheira. Exemplos históricos nos apontam que muito tempo dentro dela provoca delírios, entre outros efeitos colaterais de comportamento. Não podemos nos acostumar com ela.

Hoje é um dia de esperança! Sabemos quem é o inimigo, mas temos que conhecer seu tamanho e seus limites. Hoje, ele cairá mais um pouco. É uma guerra que costuma adormecer. Sonhamos que possa acabar.

P.S.: Amor, sei que a comparação com a guerra é um clichê. Mas, como me disse um escritor, frases feitas foram feitas para serem usadas. É assim que me sinto: em guerra!

Um comentário:

Felipe Bunster disse...

Faça-me o favor de vencer esta guerra.

E depois trate de que outras neste mesmo cenário não retornem, é angustiante.

Força e Fé, fazem!

Forte abraço professor, estou contigo em leitura e oração.