segunda-feira, 6 de julho de 2015

A raiva e os rins (Conversas com Beth # 6)


Marcus Vinicius Batista

A UTI é uma senhora silenciosa, mas capaz de te provocar a vontade de fazer alguns exercícios emocionais. Ela te dá duas saídas: ou você confronta o caldeirão de sentimentos que se misturam e fervem nesta fase ou você foge como criança e mergulha num grau impressionante de alienação.

Nós escolhemos a primeira opção e ficamos assustados ao testemunhar pessoas que escolheram escapar. O problema é que fugir não é exatamente um caminho. A ilusão do escapismo existe, sim, mas carregada de sofrimento, culpa e outras tranqueiras.

Nós decidimos, até porque é de nossa natureza, enfrentar o exército de lobos. De frente, como nunca aconteceu, com a mobilização máxima e o pacto de sermos incansáveis. Não dá para brincar de médico neste estágio, só nos resta brigar e nos apoiar em que estiver disposto a ter paciência, resignação e confiança.

No momento, o caldeirão de sentimentos exala o cheiro da raiva. Não tenho somente raiva da lúpus, que te tira de casa, que te aflige física e mentalmente, que se mostra capaz de fingir entorpecimento e retornar com a crueldade dos insensíveis, que sonha em reduzir o poder de seus sonhos.

Rego minha raiva todos os dias. E a adubo em silêncio. Não porque assim o deseje, mas porque – como você bem disse anteontem – é o momento do foda-se. Não há tempo para instantes ególatras, para exigências mesquinhas, para convenções sociais hipócritas, para omissões, para uso indevido da sua condição de saúde, para espectadores ávidos pelo show.

Tenho raiva daqueles que se apropriam de você para satisfazer suas curiosidades mórbidas. Não quero compaixão, misericórdia ou cara de choro. Também não desejo ouvir relatos de quem se apoia em ti para vomitar pequenas desgraças cotidianas, tão desinteressantes quanto à cor que finge dar ar de paz aos corredores do hospital.

A UTI, feliz ou infelizmente, é um termômetro da condição humana. Ali, há as relações de poder entre os homens e mulheres de branco. Para nós, um elemento de observação. Há os sujeitos de outras cores de tecido que elevam a voz pela pequenez das relações, como apertar o passo e lutar pelo primeiro lugar da fila como se estivesse saindo do semáforo que acabou de ficar verde. Na UTI, o “você sabe com quem está falando” vale tanto quanto a voz de um homem entubado.

Minha raiva cresceu contra os burocratas e os caga-regras (quase sempre a mesma pessoa). Não estou depondo em prol da desorganização e do jeitinho brasileiro, mas a favor da sensibilidade humana. Pedir um exame, aguardar por atendimento, visitar uma pessoa que se ama na UTI não é programa de domingo ou passeio no parque. É algo a ser feito, necessário porque ninguém em sã consciência deseja estar lá todos os dias. Entra-se com um pé e meio na saída, se possível com o paciente curado e a tiracolo.

Não perdoo, na atual condição, os que fingem se importar. O passado (muitas vezes) e as ações (definitivamente) ajudam a compreender o papel de cada um. O silêncio é o sintoma de que nós temos muito com o que se preocupar, em vez de dar trela para os oportunistas e os que acreditam ter pago ingresso para um show que nunca acontecerá.

Você, meu amor, precisa de privacidade e deve tê-la a qualquer preço. Tocamos o barco aqui fora. Reconheço que a UTI é uma ilha da fantasia, no sentido de alimentar imagens múltiplas entre as pessoas. De spa a purgatório, mas isso não dá a algumas delas o direito de invadir ou de se aproveitar de sua situação para obter ganhos secundários.

Reconheço também que a crise provocada pela lúpus nos aproximou de muita gente – mesmo que à distância ou por comunicações breves e virtuais – e, principalmente, nos fez ver quanto as pessoas podem ser surpreendentes, em termos positivos.

Amor, queria ter escrito este texto ontem. Se o fizesse, ele seria mais ácido e venenoso, mas representaria a contradição de uma lição que defendo: evite sempre que puder a escrita com o fígado. Eu o escrevi 24 horas depois, com os rins, que puderam a seu modo filtrar a raiva e transformá-la em indiferença. Parece mais saudável.

Até amanhã!

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