sexta-feira, 31 de julho de 2015

Cabelos (Conversas com Beth # 12)


Marcus Vinicius Batista

Quando entramos no salão do João Lessa pela segunda vez, não sabia o que esperar. Não falo da obviedade em estar lá para cortar o cabelo, mas como seria feito. Nessas horas, só imaginava que seriam raspados a zero. Havíamos falado disso, até por inexperiência, no hospital.

Faltava, na melhor das hipóteses, descobrir qual número da máquina seria escolhido. Sabia também que eu seria o próximo, o imitador, num pacto que fizemos quando descobrimos que a quimioterapia entraria na nossa rotina pelos próximos dois anos. Nossa, porque a bomba explode sobre os minúsculos inimigos internos, mas também metralha os amigos com os estilhaços.

Depois que você explicou ao João o que precisava e ele te pediu para se sentar na cadeira, tentei ficar por algum tempo na recepção. Um bebê que me olhava com curiosidade e um menino que chupava pirulito foram incapazes de me segurar ali. Não tinha ouvido sua conversa com João e, independentemente disso, tinha que estar do seu lado.

Minutos antes, você me deixou mais tranquilo. Confirmou minha teoria de resignação, o passo substituto do medo, que te fez chorar no domingo. O cappuccino reduziu a ansiedade e a ausência momentânea do João na primeira visita, meia hora antes.

João trouxe experiência à sensibilidade daquele momento. Ele esculpiu seu novo corte na tesoura. Foi retirando os tufos e as partes que sustentavam cabelos já desgarrados com delicadeza, sem pressa, sem te expor em demasia à nova imagem. Eu mal notei parte do corte. Estava, confesso, mais preocupado com suas reações faciais. Tentava sorrir quando me observava, talvez dramatizando além da conta o que apenas parece – e jamais será – rotineiro.

Seu rosto sisudo me transmitia um incômodo, que só se dissipou quando você me garantiu que era sono. Olhava aqueles cabelos pelo chão do salão e tentava visualizar como você se sentiria depois de sairmos de lá. Caminharíamos até em casa, algumas quadras, sem lenço ou outro tipo de proteção visual.

Na rua, percebi que muita gente te olhava e rapidamente desviava o olhar. Após duas quadras, me esqueci. Nossas conversas e a decisão de visitar seus pais, desviando nosso caminho, derrubaram minha ideia de te defender da curiosidade alheia. Mas o que me fez esquecer dos outros olhos foi ter entendido, ali na calçada, em frente ao salão, que você permanecia linda, intocável.

Houve duas vantagens – melhor seria escrever fatos novos – nesse processo. A primeira delas é que não existia o fator surpresa. Temos ciência de todos os efeitos colaterais da quimioterapia, apesar de que a queda acentuada de cabelo deveria ocorrer a partir da segunda sessão, palavra dos médicos ou mau entendimento meu.

Além disso, os cabelos começaram a cair no chuveiro cinco dias antes. Já conversávamos sobre isso e tínhamos planejado o corte no João um dia antes. Aí o segundo fato novo. Como você voltou ao hospital, ficar mais um dia na UTI derrubou quaisquer expectativas. Cortar o cabelo não era mais essencial, era importante, porém secundário diante da necessidade de retornar de vez para casa.

O mais interessante é que o corte do cabelo virou motivo de novas experiências. A visita aos seus pais foi emotiva e fora do normal. Quase cortei meu cabelo por lá, mas optamos por resolver depois. Seu pai, que ainda estava na rua para dividir a alegria de te ver fora do hospital com os amigos, foi previsível na generosidade. Celebramos o novo corte com pastéis de meia dúzia de sabores. Você pôde experimentar um deles, e testemunhamos a conversa emocionada, franca e emocionante do Camarada. São aquelas aulas que seu pai nos dá sem marcar hora. Ouço com prazer porque ali nasce a hora em que ele põe ao chão as paredes da fortaleza do provedor.

À noite, em casa, passar a máquina na minha cabeça foi diferente das outras ocasiões. Não era uma questão estética ou de conter os piolhos e pulgas. Pedi que raspasse meus cabelos ao mínimo possível para que vivêssemos um pouco mais aquele rodapé de nossa história recente.

Ao som da máquina, conversamos sobre nós mesmos, sobre pessoas que nos rondam e nos ajudam, sobre a doença, compartilhamos as fofocas. Pensei em tirarmos uma foto, mas fiquei em silêncio. A decisão era sua e ela veio no dia seguinte. Lembrei que há muito tempo não tirávamos fotos juntos, só os dois, sem eventos sociais como motivo para o clique.

Saímos à noite para tomar um café. Tentar voltar ao normal, mudar o rumo da prosa, ver gente, rodear livros. No final, a canela do cappuccino: comprar um chapéu para você. Pude te ver sorrindo sem pressa de experimentar, trocando os modelos, incorporando de fato o novo design de cabelos mais curtos. Pela primeira vez, não me vi esperando para que você decidisse pela compra de um acessório.

O chapéu preto te deixou ainda mais charmosa. Ele te protege do frio, do sol que você não pode tomar, mas nos dá a fantasia parisiense de um objeto que, por quaisquer motivos, nunca fez parte do seu vestuário. Por outro lado, em tempos de dinheiro curto, não precisaremos comprar mais shampoo ou condicionador pelo restante do ano. Ironicamente, o único seu na prateleira do box é antiqueda.

A última terça-feira simbolizou o que tem sido nossos dias. É ilusório planejar a semana seguinte, o dia seguinte, enquanto a lúpus não adormecer novamente. Enquanto o lobo fechar apenas um dos olhos e rosnar, somos obrigados a pensar o que podemos fazer a cada dia. Vibramos com as pequenas boas notícias, comemoramos as vitórias provisórias. Tudo ganhou outra dimensão, incluindo as prioridades. E, como na última terça, a missão é o que fazer para que você fique confortável pelas próximas horas.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A enfermeira-padeiro (Conversas com Beth # 11)



Marcus Vinicius Batista*

Débora sempre gostou de hospital. Não sabe direito o porquê nem se lembra de quando visitou um pela primeira vez. Só se recorda de quando aprendeu o único sinônimo na escola: nosocômio. Sempre colocava a mão na boca, pois jurava que ali havia um palavrão em formação. Às vezes, acreditava que a professora de Português a enganava, pedindo que pronunciasse palavra feia para os moleques darem risada.

Quando chegou aos 18 anos, ouvia da mãe: “você precisa ser enfermeira-padrão. Sua tia e sua prima são. Você não pode ficar para trás.” Cursou a faculdade e, durante o estágio numa instituição em Santos, descobriu que o gosto por hospital era mais do que uma preferência de criança, como bombeiro e astronauta. Ela amava hospitais.

O amor era tão intenso que precisava se casar de vez, para não perder o pretendente. Casou-se com a UTI. Mas alerta: a vida lá fora existe, só a busca é mais difícil.

Eu a conheci ali, na UTI Cardiológica da Beneficência Portuguesa, nas entradas diárias no quarto para atender Beth, minha esposa, que sofria de um problema renal muito grave, provocada por uma nova batalha contra a lúpus.

Débora carregava o kit de sempre, mas trazia no cabelo um adereço que simbolizava um hábito herdado do pai. Ao contrário dos colegas, que carregavam suas canetas nos bolsos do jaleco, Débora dava uma segunda utilidade à caneta, que reforçava a presilha. Daí nasceu o apelido de padeira. “O pior é que meu pai não era português, não se chamava Manoel e nem tinha comércio”, tenta explicar, enquanto todos riem no quarto e se esquecem, por segundos, onde estão e quais são seus papéis.

Eu reencontrei Débora mais cedo do que esperava. Minha mulher voltou ao hospital. A lúpus, um adversário sem caráter, resolveu atacar as articulações da perna direita dela. Ao me ver atrás do vidro, Débora saltou no meio do corredor, balançou os braços e sorriu. Jurava ser uma visita de cortesia, já que não sabia de Beth na sala de repouso e que uma nova hospedagem na UTI aconteceria naquele mesmo dia.

Débora e Ademar, a versão masculina dela em simpatia, foram os primeiros a nos receber no mesmo quarto do hotel em que ninguém deseja dormir. Conversas sobre as comidas proibidas, as habilidades do pasteleiro da esquina, os canais de filmes abertos na TV e as piadas óbvias sobre o retorno inesperado.

Confesso que me senti confortável com esta acolhida, mas a lúpus poderia nos permitir encontrá-los em outro lugar, ainda que fosse na calçada, ao lado do pasteleiro, sentindo o aroma da carne seca, o sabor favorito do Ademar.

Confesso também que nunca perguntei à enfermeira-padeiro se ela se tornou enfermeira-padrão. Débora é apenas humana, com ou sem títulos. Numa UTI, é o mais eficiente dos medicamentos.

* Texto também publicado na revista do Conselho de Enfermagem do Estado de São Paulo, edição de agosto de 2015. 
 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

21º dia (Conversas com Beth # 10)


Ilustração: Edmilson Desenhos


Beth Soares

Fiquei 20 dias sem espelho. Não me importei muito no começo. Mas logo passei para a fase da necessidade de pentear os cabelos, que não chegou a ser exatamente solucionada, porque tive acesso – graças ao enorme esforço do meu marido - apenas a um pequeno espelho de bolsa, no qual só via um quadrante do rosto por vez.

Em alguns dias, a necessidade de me olhar por inteiro foi ficando cada vez mais insossa. Eu sentia que estava diferente. Tocava minhas costas, braços pernas e parecia outra pessoa. Mais de 30 quilos – ou litros – distanciavam-me do meu velho corpo. E, surpreendentemente, meu peso não era a prioridade.

Toda aquela vontade narcísica sucumbiu diante da minha vontade de vida. Não quero ser hipócrita e dizer que não me importo de estar feia ou bonita. Continuo, sim, a me importar. Mas, de repente, a beleza mudou um pouco de figura, com perdão do trocadilho. A beleza genuína, eu quero dizer, não a estética.

Sempre reclamei muito do meu corpo: pernas, barriga, formato do rosto, cabelo... procuro e acho mil defeitos. Já senti muita raiva do meu corpo. Por que ele tem que adoecer?

Mas agora, sem espelho, eu olhava meu corpo de um jeito diferente, e era esquisito. Tinha mais verdade. Eu o via de perto, de dentro, por todos os lados. Até que numa madrugada de insônia, eu percebi! Demorei mais de 30 anos, mas finalmente o vi. Cada movimento, cada respiração e batida do coração, cada guerra que trava silenciosa ou desesperadamente, cada esforço para se manter vivo, faz dele uma armadura mais forte. Meu corpo é foda! Desculpe, mas não há outra palavra agora. Pedi perdão a ele por todos os anos de injustiças.

No 21º dia, me olhei no espelho de novo. O que vi me surpreendeu. Me emocionou. Eu tinha um corpo de mãe. Eu era uma mulher recém-parida. Eu não estava mais tão inchada, mas o esticar da pele havia destacado todas as marcas e cicatrizes: de cirurgias, de brincadeiras da infância, de arranhões dos meus felinos pela vida.




Histórias contadas em traços, riscos e rabiscos que só eu tenho. As marcas da minha vida estavam ali, escritas na pele nos mais diversos idiomas, emoções e sentidos. Olhei para minhas mãos e vi os calos nos meus dedos. Tenho calo por pegar errado na caneta para escrever. Até esse meu detalhe eu amei.

Amo ter as marcas que simbolizam os momentos que me trouxeram até aqui. Novas e velhas cicatrizes, fechadas, abertas, gritando e exigindo atenção. Achei tudo lindo! E achei estranho achar isso.

Me vi, por fim, mãe de mim mesma. O tratamento me impede de gerar um filho, mas não me impediu de ser mãe, porque meu corpo quis assim. Ele quis parir. E pariu a mim pela primeira, sexta ou enésima vez.

Sou uma nova pessoa, sem precisar abandonar os antigos lugares que me abrigaram até aqui. Meu abrigo, meu corpo é lindo.

domingo, 12 de julho de 2015

Nem tudo são lobos (Conversas com Beth # 9)


Beth Soares

Num desses dias de descanso forçado, nos quais o Telecine tem sido um aliado importante contra as doses cavalares de monotonia, revi o filme As aventuras de Pi.

Chorei, óbvio, não só porque sou manteiga derretida assumida, mas porque havia uma coincidência interessante: eu estava em companhia do meu próprio Richard Parker, um amigo em forma de tigre-de-bengala, que há alguns dias decidiu aparecer aqui no quarto. Fique livre para julgar se o que escrevo é ficção ou realidade. Não me importo, honestamente.

Comecei a pensar no quanto é curioso que as pessoas se pareçam tanto com certos bichos. Não, não, sem ofensa a uns ou outros. As características simplesmente existem e se aproximam, não depreciam perfis. Ao contrário, tornam os tipos ainda mais interessantes.

Eu tenho uma amiga tartaruga. Esqueça os clichês, por favor. Não tem qualquer relação com lentidão. É capaz de fazer e pensar mil coisas ao mesmo tempo sem desperdiçar energia em movimentos desnecessários – nem físicos nem mentais – o que lhe dá uma serenidade notável. Ela não tem preguiça das pessoas, como eu, confesso, tenho com frequência cada vez maior.

Com a firmeza de quem já teve que caminhar por muita areia antes de nadar no mar, essa tartaruga dá show de paciência comigo e com o resto do mundo de reles mortais que, com sorte, alcançarão o 70º aniversário. Sem dúvida, será multicentenária, pois sempre tem os pés no presente. Ela é um presente tempo, é substantivo com laço de fita, mas principalmente é o ato ou efeito de estar sempre perto de mim, seja numa grande festa carnavalesca na Bahia, seja numa cama de hospital.

Tenho amiga bem-te-vi. Faz voz, andar e voar de passarinho. Criatura meio etérea, não se adaptou totalmente a esse mundo. Sabe fazer palavras bonitas com letras e silêncios. De vez em quando, dá rasantes por meu mar, de onde sempre volta com água e sal nos olhos. Então me compra um doce, na tentativa desesperada de trazer algum néctar que me lembre um pouco o paraíso perdido do qual sentimos falta. Eu não desisti de procurar. Acho que ela também não.

Tenho duas amigas-esquilos. Miudezas que enchem qualquer ambiente de gargalhadas – UTIs, inclusive. São meus próprios Tico e Teco, personagens que parecem sempre terem feito parte da minha história. Gigantes de 1,60 m e menos de 50 Kg, com um talento incrível para buscar a felicidade na próxima noz, ainda que as árvores e os sonhos juvenis desabem. Sempre próximas. Sempre “nóis”!

Tenho amiga coruja, que parece já saber todas as respostas antes de me fazer as perguntas. Diante de seus olhos de rapina, meu corpo conta todos os segredos, até os que esconde de mim. Fico tentando traduzir sentimentos e pensamentos em frases compridas para explicar os caminhos desatinados da minha mente, aí vem ela, com duas ou três palavras, e explica tudo. É impressionante como leva a sério o compromisso de trazer de volta meu amor-próprio em apenas três tapas na cara!

Tenho amigo beija-flor, que chega sem aviso, rapidinho, manda eu ficar boa e voa.

Amiga-pata, que abre as asas e me aconchega, dissolvendo na lagoa da voz de pluma todo o medo que eu achei que não tinha.

Tenho casal de amigos-caranguejos, que quando aparecem deixam tudo com cara de férias, e me lembram que ainda tem um monte de coisa boa no mundo para eu fazer.

Amigo coelho, que sai da toca para perguntar o que eu preciso. Eu digo: “quero rir”! Ele nem pestaneja, me entrega de bate-pronto, não só uma, mas duas gargalhadas, numa velocidade recorde!

Cunhada-amiga, que sacode a crina enquanto me ajuda a preparar as ferraduras, me mandando desembestar livre das rédeas das culpas alheias.

Sogro-vaga-lume, que dá bronca para eu parar com a mania de deixar de brilhar.

Irmã-leoa, que esquece das mil tarefas, dos filhotes, da dureza cotidiana da selva lá fora, para me dar doses diárias de força, alegria e coragem, sem olhar de piedade. Todo dia ela me faz realmente feliz por meia-hora que valem 24.

Pai-cão-fiel, amigo leal de toda caçada, toda prova, toda guerra, toda vida.

Mãe-cordeiro, que chora escondida guardando a dor maior de todas, que é a minha, mas é mais dela.

Eu? Sou bicho ainda em metamorfose. Tenho dias de selvageria, de garras na jugular – na minha própria, quase sempre. Tenho dias de docilidade (ou preguiça), nos quais a crisálida parece impossível de ser rompida.

No fundo, sonho ser um híbrido de todos esses bichos que admiro. Presunção? E daí? Duvido que você nunca tenha parado para admirar um pavão.

Ah, e tem também um urso panda. Mas aí é outra história ...


sábado, 11 de julho de 2015

Resistente (Conversas com Beth # 8)


Marcus Vinicius Batista
Sempre admirei pessoas esforçadas e dedicadas. Daquelas que viram as costas para o discurso “Oh, vida; oh, azar”. E você é a pessoa mais resistente que conheci. Como qualquer um, há dias que você se irrita, atira para os lados e parece que vai desistir. Eu curo os estilhaços, nós brigamos e enterramos o fantasma do passo em falso. O dia seguinte e uma noite de sono, mal dormida mesmo, e às vezes alguns minutos de reflexão te fazem levantar mais uma vez e encarar a porta aberta.

Admiro-te por inúmeras razões, todas elas ditas numa distância menor do que 30 centímetros entre nós. Só não te falei – e peço perdão – que te amo também pela sua capacidade de sobreviver aos estelionatos que teu corpo insiste em te aplicar. Você aceita a sentença por um crime na qual é vítima, cumpre a pena, assina o alvará de soltura e segue adiante. O duro é que a condicional se mostra perpétua.

Não tenho como compreender sua dor física e mental nesta nova crise de lúpus. Tento não te atrapalhar, te deixar mais confortável, atrair quem te preza, te ajudar nas pequenas coisas que diminuem a dureza do dia e a substituem pelo mínimo prazer.

Sempre acreditei, pelo passado de atleta de competição, que seria resistente à dor. Posso até ser – ainda jogo com dor, mais pela velhice do corpo e pelo peso em excesso -, mas entendi que a minha dor não é somente única, é também diferente e deveras risível.

Você não pediu para ter essas dores. Elas não te avisam quando se aproximam, atropelam sem misericórdia. É quase utópico, ao contrário do meu caso, estabelecer uma relação óbvia de causa e consequência. A lúpus é suja, ataca pelas costas, não faz barulho na largada, não negocia prisioneiros ou constrói acordos diplomáticos.

Admiro-te pela resistência em suportar a UTI. Você tem a metade da idade de todos os outros pacientes. Os riscos são meias palavras para bons entendedores. São 18 dias. Estive aí em todos eles e, embora haja limitação de tempo de visita, saio exausto, sugado, irritado. Você permanece, acompanhada de TV, livros e revistas, pouco diante da solitária-cárcere-privado, das injeções, dos comprimidos, das medições, dos exames, do inchaço que insiste em te torturar.

Faço um esforço para te poupar das dificuldades do mundo lá fora. Quer dizer ... soa leviano falar em dificuldades quando entro no quarto em que você está e te observo sorrir. Eventualmente, o sorriso mente para camuflar o olhar. Tento sorrir de volta, só dar boas notícias, falar em soluções quando é essencial mencionar problemas. Procuro te ouvir, dividir as peripécias do Vini, da Rafaella, da Mari. Qualquer rodapé de página precisa se transformar em capítulo primeiro.

Sei, em parte, o que é enfrentar dores quando olho para você. Aprendo que reclamações nascem de vez em quando, mas da boca para fora. Você permanecerá firme para mais dois anos de tratamento, para a rotina de medicamentos, de exames periódicos, consultas e (a partir de agora) injeções arrasa-quarteirão.

Sua resistência me ensina quando pedimos aos médicos que não nos poupem. Não dá para reduzir o nível da água da enchente enquanto chove. É vital recolher os destroços e construir tudo novamente. Fazer novos calços nas portas. Subir os muros. Tirar a lama na vassoura.

Demos, em várias ocasiões, as mãos sem perceber para ouvir um boletim médico. Quando um dos homens de branco tentou amenizar o cenário, partimos juntos – como entrevista coletiva – para as perguntas mais inquisitórias. Queríamos pegar contradições para comentar depois: “olha como ele falhou no discurso. Olha como somos fortes”. Você me deixa tirar as dúvidas, tomar a dianteira como um rito de passagem para o mundo mais profundo da lúpus.

Enfermeiros e médicos não cansam de te elogiar como paciente exemplar, que nunca se queixa, que não grita, que sorri quando sua pele é perfurada pela enésima vez porque até as veias jogaram a toalha. Não estava ao seu lado quando você trocou uma injeção na veia por uma intramuscular. Suportou uma hora de escavações arqueológicas em seus braços. Uma hora! Não me atrevo a imaginar a cena. Contento-me com sua descrição dos fatos e faço campanha para que você receba o título de doutor honoris causa.

Confesso que tenho tentado permanecer algum tempo sozinho. Viagens de ônibus ajudam (gente ao lado, claro, não significa companhia), madrugadas lendo ou escrevendo, caminhadas e outros exercícios mecânicos como lavar louça, pendurar e guardar roupas servem para me preparar para o dia seguinte. E torço para que nos auxiliem a enfrentar os próximos dois anos.

Como te disse no mês passado, no começo desta crise, eu me tornei incansável. Não tenho o direito nem vou diminuir o passo ou desistir além de um pensamento eventual. Os 42 km de maratona terminam logo ali.

Olha, amor, esta foi nossa conversa mais difícil até agora. Duas paradas nos boxes para suprir o combustível emocional. Agora entendi porque fugi deste texto por alguns dias. Tinha a ilusão de que estava escaldado, mas a água veio gelada demais. Até amanhã!


quarta-feira, 8 de julho de 2015

Os gatos e os sinais (Conversas com Beth # 7)


Na ponta do sofá-cama (na visão dele)

Marcus Vinicius Batista

Quando o vi pela terceira madrugada seguida no mesmo lugar, percebi que era a hora de tocar no assunto com você. Ele me entregava de bandeja mais um sinal de que sente a sua falta. Felino resolveu dormir entre a segunda e a terceira almofada do sofá da sala, exatamente no lugar onde você se senta todos os dias, seja para ler, seja para ver TV ou apenas para conversarmos ou comermos juntos.

Confesso que não assino embaixo na sua crença, mas sei juntar as peças, ainda mais de tanto ouvir sobre os poderes dos gatos. Até a revista Superinteressante que te dei no mês passado serviu para você tentar me convencer – a título de prova “científica” - da capacidade extra-sensorial deles. Mais um argumento que se soma à história (Egito Antigo) e à espiritualidade (the cats see dead people).

O primeiro sinal veio na primeira noite pós-internação. Felino dormiu no seu lado da cama, mesmo comigo deitado lá. Não dei tanta atenção assim, fora o fato que ele foi o companheiro perfeito, até porque as crianças não haviam chegado em Santos. Precisava de silêncio e ele, com a coerência dos gatos, o fez.

Ele repetiu o local umas três noites, mesmo tendo Vini e Mari como novos hóspedes da cama de casal. Eu me mudei para a cama de solteiro do escritório, que me permite trabalhar, ler ou escrever durante a madrugada, como agora.

Não prestei tanta atenção nele nos dias seguintes. As crianças são o centro do palco, claro, aqui dentro de casa. E você, o pensamento constante mais as visitas ao hospital. Magriça, a gata visitante-temporário-definitiva, adotou o Vini como dono. E ele a intitulou “meu bichinho de estimação”. Aproveitei também para ensiná-lo a cuidar dos gatos, como dar comida e água, guardar a ração. Interação, respeito com os bichos e um ponto a menos para solucionar. Mantenho para mim a função ingrata da caixa de areia e suas heranças biológicas.

Por falar nisso, o gato é acusado – inclusive corroborando teoria sua – de parir um rastro no nosso quarto. 50 por cento de chance, mas o cocô foi interpretado como o segundo sinal, tese reforçada porque parte da merda estava sobre seu chinelo. As havaianas já passaram por banho de desinfetante, processo de desintoxicação e lavagem com água sanitária. Quebrei, claro, os recordes de prova de amor e outros sentimentos correlatos.

Anteontem, veio o que julgo ser o terceiro comunicado. Os miados mais altos na cozinha, em outros momentos, significariam fome. Olhei para as tigelas, ambas cheias. Poderia ser água? Me senti como aquele que tenta ler o simbolismo do choro do bebê (essa fase já deveria ter passado!). E você sabe que, para mim, bicho não é filho!

Entrei na área de serviço, pois poderia ser a caixa de areia. O amiguinho queria ir ao banheiro. Caixa limpa. O pensamento seguinte foi que ele poderia estar pedindo um prato especial de jantar. Dois dias antes, eu tinha esquentado o atum de envelope e colocado no prato. Magriça, gata de rua é sempre mais esperta que gato leite-com-pêra, comeu tudo.

Fiz a vontade do Felino (para os desavisados, a letra maiúscula confirma: este é o nome dele! Optei pelo óbvio). Esquentei o atum e coloquei no lugar de sempre. Ele cheirou, voltou para a cozinha e tornou a miar. Num sinal de loucura em curso, perguntei o que era. Outro miado, minha lucidez de volta. Não aguentei a chatice, fui para a sala, peguei um romance na mesa e me sentei no sofá, no meu lado de sempre.

Felino veio atrás, se esfregou na minha perna, olhou para mim, miou, subiu no sofá, encostou a cabeça sobre a minha coxa e se deitou. Inédito. Li algumas páginas com ele ali, dormindo exatamente no lugar descrito no primeiro parágrafo.

No dia seguinte, romance novo, enredo repetido. Rigorosamente igual, com a diferença de que não tateie hipóteses desta vez. Fui direto ao meu posto de escada para o ator principal.

O quarto sinal acontece neste instante em que escrevo. Ele dorme à sua espera, espero!

Este gato mudou minha relação com animais de estimação, especialmente ... os gatos. Quando chegou a dois anos, era o filhote que morria de medo da imitação de dinossauro do Vini. Hoje, é o Vini quem corre dele e ele, atrás da Magriça.

Como você sabe, sou adepto do benefício da dúvida. Lembre-se de que, dois dias antes de você ser internada, ele dormiu sobre as minhas costas, bem no ponto onde o músculo estava lesionado. A dor passou! Na noite anterior, Magriça dormiu sobre sua barriga. Ontem, ela se deitou sobre a minha barriga, incomodada com a má digestão, por conta do sono irregular e do cansaço.

Em tempos de sensibilidade fragilizada, gatos e crianças salvam o nosso dia pelas mínimas coisas e atitudes. Mas só te peço um favor: volte logo para casa. Não aguento mais limpar a caixa de areia. São dois, agora.


segunda-feira, 6 de julho de 2015

A raiva e os rins (Conversas com Beth # 6)


Marcus Vinicius Batista

A UTI é uma senhora silenciosa, mas capaz de te provocar a vontade de fazer alguns exercícios emocionais. Ela te dá duas saídas: ou você confronta o caldeirão de sentimentos que se misturam e fervem nesta fase ou você foge como criança e mergulha num grau impressionante de alienação.

Nós escolhemos a primeira opção e ficamos assustados ao testemunhar pessoas que escolheram escapar. O problema é que fugir não é exatamente um caminho. A ilusão do escapismo existe, sim, mas carregada de sofrimento, culpa e outras tranqueiras.

Nós decidimos, até porque é de nossa natureza, enfrentar o exército de lobos. De frente, como nunca aconteceu, com a mobilização máxima e o pacto de sermos incansáveis. Não dá para brincar de médico neste estágio, só nos resta brigar e nos apoiar em que estiver disposto a ter paciência, resignação e confiança.

No momento, o caldeirão de sentimentos exala o cheiro da raiva. Não tenho somente raiva da lúpus, que te tira de casa, que te aflige física e mentalmente, que se mostra capaz de fingir entorpecimento e retornar com a crueldade dos insensíveis, que sonha em reduzir o poder de seus sonhos.

Rego minha raiva todos os dias. E a adubo em silêncio. Não porque assim o deseje, mas porque – como você bem disse anteontem – é o momento do foda-se. Não há tempo para instantes ególatras, para exigências mesquinhas, para convenções sociais hipócritas, para omissões, para uso indevido da sua condição de saúde, para espectadores ávidos pelo show.

Tenho raiva daqueles que se apropriam de você para satisfazer suas curiosidades mórbidas. Não quero compaixão, misericórdia ou cara de choro. Também não desejo ouvir relatos de quem se apoia em ti para vomitar pequenas desgraças cotidianas, tão desinteressantes quanto à cor que finge dar ar de paz aos corredores do hospital.

A UTI, feliz ou infelizmente, é um termômetro da condição humana. Ali, há as relações de poder entre os homens e mulheres de branco. Para nós, um elemento de observação. Há os sujeitos de outras cores de tecido que elevam a voz pela pequenez das relações, como apertar o passo e lutar pelo primeiro lugar da fila como se estivesse saindo do semáforo que acabou de ficar verde. Na UTI, o “você sabe com quem está falando” vale tanto quanto a voz de um homem entubado.

Minha raiva cresceu contra os burocratas e os caga-regras (quase sempre a mesma pessoa). Não estou depondo em prol da desorganização e do jeitinho brasileiro, mas a favor da sensibilidade humana. Pedir um exame, aguardar por atendimento, visitar uma pessoa que se ama na UTI não é programa de domingo ou passeio no parque. É algo a ser feito, necessário porque ninguém em sã consciência deseja estar lá todos os dias. Entra-se com um pé e meio na saída, se possível com o paciente curado e a tiracolo.

Não perdoo, na atual condição, os que fingem se importar. O passado (muitas vezes) e as ações (definitivamente) ajudam a compreender o papel de cada um. O silêncio é o sintoma de que nós temos muito com o que se preocupar, em vez de dar trela para os oportunistas e os que acreditam ter pago ingresso para um show que nunca acontecerá.

Você, meu amor, precisa de privacidade e deve tê-la a qualquer preço. Tocamos o barco aqui fora. Reconheço que a UTI é uma ilha da fantasia, no sentido de alimentar imagens múltiplas entre as pessoas. De spa a purgatório, mas isso não dá a algumas delas o direito de invadir ou de se aproveitar de sua situação para obter ganhos secundários.

Reconheço também que a crise provocada pela lúpus nos aproximou de muita gente – mesmo que à distância ou por comunicações breves e virtuais – e, principalmente, nos fez ver quanto as pessoas podem ser surpreendentes, em termos positivos.

Amor, queria ter escrito este texto ontem. Se o fizesse, ele seria mais ácido e venenoso, mas representaria a contradição de uma lição que defendo: evite sempre que puder a escrita com o fígado. Eu o escrevi 24 horas depois, com os rins, que puderam a seu modo filtrar a raiva e transformá-la em indiferença. Parece mais saudável.

Até amanhã!

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Calcinhas de velha (Conversas com Beth # 5)


Marcus Vinicius Batista

Depois de um dia de armadilhas da burocracia hospitalar e resolução de problemas de outras naturezas, sai da casa do meu sogro e da minha sogra com a última missão do dia: comprar calcinhas. Eu e meus filhos, Mariana e Vinicius, entramos na única porta aberta depois das 22 horas. A tarefa era importante demais para adiar para amanhã.

O supermercado Carrefour não era a fina flor das lingeries, mas teria certamente peças que contornassem minha falha. E me pouparia pensar também no café da manhã minutos antes dele acontecer.

Você havia me pedido pilhas palito, lenços, blusas e calcinhas para te entregar durante a visita da noite. Na pressa, peguei dois shorts e me esqueci das calcinhas. Achei complicada a sugestão de que eu passaria na casa da Priscilla para apanhar as calcinhas que ela havia comprado para você. Não sabemos a que horas será realizada a biópsia, amanhã, e seria fora de mão ir à casa da sua irmã antes do hospital.

O Carrefour era a resposta rápida e única para a missão íntima. Sabia que, por conta do inchaço provocado pela medicação, pelo rins em recuperação e pelo tempo de hospital, teria que comprar calcinhas mais largas, de número maior.

Além disso, a UTI é um endereço onde prevalecem a moral e os bons costumes. Nada das peças que apimentam casamento ou as que são coerentes com uma mulher linda como você. Seu bom gosto nesta área é de altíssimo nível. Você não merece uma roupa que talvez, talvez coubesse em ti em 2060.

Mandei um torpedo para confirmar a missão em andamento. Você me disse que não precisava. Pensei, na hora, que mulheres costumam – em certas ocasiões – dizer algo que significa justamente o contrário. Tinha que comprar as calcinhas. Entregar a mercadoria, não importa o aspecto visual ou a metragem dela. Mas não imaginava que, naquela ponderação sua, houvesse nas entrelinhas uma premonição, uma clarividência ou uma mandinga contra as calcinhas de velha.

Concordávamos em um ponto: as calcinhas eram “de velha”. Aquelas peças íntimas que condizem com atrizes americanas de biquíni em seriados dos anos 80. Aquelas calcinhas de cor branca, bege ou preta, jamais vermelhas e com rendas. As lingeries de velha são a contradição do que Fernando Gabeira definiu como biquíni. Como mostrar tudo e esconder o essencial se o tudo a que ele se refere não só foi encoberto e lacrado como se transformou na bermuda do Nerso da Capetinga?

O primeiro sinal de que eu estava em terreno perigoso foi a dificuldade em localizar a seção de roupas íntimas femininas. Seus anjos protetores estava ali para me desnortear, para desviar para os doces, as bebidas alcoólicas ou até os produtos de limpeza.

Mari, talvez por experiência, descobriu o local. Lá, comecei a procura, com certos critérios, não exatamente nessa ordem de importância: 1) preço (quanto vale uma calcinha?); 2) tamanho (tinha que ser um número acima); 3) cor (perto do seu tom e menos próximo dos 50 tons). A união dos fatores me permitiria comprar um presente que daria para minha avô, mas sem o constrangimento de gerar inveja na minha bisavô.

Depois de uns cinco minutos e sugestões dos meus filhos, cheguei a duas calcinhas compatíveis com o ambiente hospitalar. E que seriam incineradas assim que você tivesse alta e chegasse em casa. Calcinha não se doa e me recuso a afligir alguém com crueldade estética.

Ao colocar as calcinhas no carrinho do supermercado, olhei para minha filha e vi o ar de reprovação dela. Senti que comprava peças do Brasil Império. Tirei as peças do carrinho e troquei por duas tão balzaquianas quanto as anteriores, mas com jeito de século 20, pelo menos.

Penduramos as calcinhas no braço do carrinho para evitar que sujassem. Besteira porque seriam lavadas antes da entrega à você, nossa paciente. Fizemos o restante das compras, pagamos, embalamos tudo e seguimos para casa.

Na cozinha, em casa, descarregamos tudo, abrimos e fechamos geladeira e armários. No final, olhei para Mariana e perguntei: “filha, cadê as calcinhas?”

“Pai, você não tirou do carrinho?”

“Ih, filha, ficou no braço do carrinho!”

Seu santo é forte até daí, do hospital. Antes de te visitar nesta sexta, vou à casa da sua irmã. Nestas horas, só consultando uma especialista e seguindo as orientações espirituais.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A trincheira (Conversas com Beth # 4)


Marcus Vinicius Batista

Estamos em guerra há dez dias. O adversário, traiçoeiro por fama e retrospecto, atacou duas semanas antes, na surdina, sem tempo para diplomacia. Uma correção: adversário se respeita; inimigo, não. Este inimigo retornou mais experiente, com sinais de que aprendeu com as derrotas. Cinco, em 15 anos! Em outras crises, ele te atacava em várias frentes e, a exemplo de muitos tiranos, perdeu a guerra justamente pela ganância de se espalhar.

O inimigo, desta vez, investiu todo seu exército de lobos num alvo só. Causou estragos substanciais nos flancos e na cadeia de comando, prejuízos mascarados pela leitura especializada dos chefes de Estado; portanto, sem contexto, do cenário biopolítico. Um dos oficiais de branco, uma mulher, sentiu que a batalha começara. Encaminhou o SOS a outro oficial, que se recusou a crer que a guerra rasgava suas fronteiras. Este atraso quase te custou uma das capitais.

Depois de dez dias, você conseguiu conter o avanço do inimigo. Outros oficiais assumiram o controle das operações e compreenderam como a doença se move. Criaram barreiras de contenção, que seguraram as tropas. Restituíram as bases destruídas e paralisaram os sintomas de uma derrota que assustou como nunca. Os lobos nunca estiveram tão perto do quartel-general, nunca foram tão vorazes em dilacerar defesas sem fazer prisioneiros. Chegamos a ouvir que a rendição era uma hipótese, mas os bombardeios de vários calibres surtiram efeito.

Hoje é um dia decisivo. Os oficiais farão um mapeamento completo do pontos de combate, do tamanho das tropas, das perspectivas para os próximos dias nas trincheiras. Combater o exército de lobos é uma batalha de cem anos atrás. O inimigo prefere homem a homem, célula a célula, com muito armamento e equipamento em terra. É uma batalha de campo aberto, de soldados obcecados pela crueldade, que parecem não descansar.

Este mapeamento-biópsia permitirá encerrar a batalha em poucos dias. Com as informações sobre o alcance e poder de fogo inimigo, os oficiais pretendem apelar para uma bomba química, nunca utilizada na sua guerra particular, que arrasará quarteirões, com a meta de sobrevivência zero nas linhas dos lobos. Dizimar para sobreviver.

Ontem, estávamos tensos, nervosos com o que acontecerá fora de nossa trincheira. Você terá que sair dela para um terreno desconhecido. Está entre fronteiras vividas, mas em solo inédito.

Ontem pela manhã, houve a chance de cancelamento da ação. Tive que visitar a base de um dos aliados, que negou qualquer boato ou desinformação alheia. Para nós, diplomacia evita contar com a sorte. Não sabemos ainda a hora do movimento das tropas, talvez você já conheça a tática quando ler este texto.

Independentemente do mapa a ser estudado, seguimos entrincheirados, à espera da definição da data, dosagem e número de bombas químicas para enterrar o inimigo. Sabemos somente o local, o que, na atual situação, é detalhe. Os riscos e as consequências da bomba também são conhecidos, em teoria, e discutidos por nós mais de uma vez. Vamos vencer, sem misericórdia, inclusive conosco.

A trincheira é um endereço paradoxal nesta batalha. Aprendemos a viver em isolamento. Aprendemos e nos resignamos porque sabemos que a volta para casa representa a única alternativa de paz. Ou de cessar-fogo.

A trincheira nos coloca em espera, mas também nos fornece relativo conforto e proteção. Reuniões diárias com os oficiais, um olhar mais agudo sobre a zona de combates. Um olhar que nos poupa de testemunhar certos destroços. Os números chegam a cada 24 horas, balanços de mortos e feridos, perdas e ganhos de territórios nos fazem viver de pequenas notícias.

Eventualmente, um dos oficiais tenta nos transmitir um desenho mais otimista. Escaldados, procuramos o homem de patente superior, sujeito que não nos poupa dos danos. Melhores são as palavras francas do general.

Precisamos deixar logo a trincheira. Exemplos históricos nos apontam que muito tempo dentro dela provoca delírios, entre outros efeitos colaterais de comportamento. Não podemos nos acostumar com ela.

Hoje é um dia de esperança! Sabemos quem é o inimigo, mas temos que conhecer seu tamanho e seus limites. Hoje, ele cairá mais um pouco. É uma guerra que costuma adormecer. Sonhamos que possa acabar.

P.S.: Amor, sei que a comparação com a guerra é um clichê. Mas, como me disse um escritor, frases feitas foram feitas para serem usadas. É assim que me sinto: em guerra!

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A metamorfose (Conversas com Beth # 3)



Marcus Vinicius Batista

A UTI te transforma e te machuca. Para suportar ver alguém que você ama dentro dela, é preciso aceitar a metamorfose e se curva diante das lambadas. Não falo daquelas alterações que aconteceram quando enfrentamos uma crise conjugal ou quando meus filhos ficaram ausentes por cinco meses. São pontos de ruptura, também dolorosos, mas que aprendi a absorver e me refazer, até certo nível de racionalização, na rotina diária. No fundo, situações assim me permitiram redirecionar caminhos e administrar sentimentos com o poder do livre arbítrio. E, claro, da vida prática.

A UTI não te dá escolhas. Vivemos, eu e você, lições que engolimos na marra. Há dois anos quase cravados, atravessei a rotina de uma UTI, em outro contexto, por 45 dias. Outro hospital, outro cenário, outras condições de saúde, um enfarto que veio numa mesa de lanche sem sinais. Corrigindo ... sinais não detectados. Agora, completei a primeira semana de um segundo tempo cujo jogo não recomendo nem para os desafetos. UTI é uma partida na qual seu controle beira zero.

Em 2013, você me apoiou com bravura, serenidade e compreensão quando minha mãe padeceu numa Unidade de Terapia Intensiva. Acompanhou, como testemunha ocular, a repetição do looping no qual o paciente parece que melhorará para depois tombar em definitivo. Nunca esquecerei o que fez por mim, sempre serei grato por saber que suportou além da conta para estar ao meu lado no momento da perda. Sinto-me idiotizado ao recordar bobagens que falei, sendo injusto, inadequado e – por que não? - infantil.

Sua vida na UTI – essa primeira semana de pacote de viagem – reforçou minha visão de que este lugar nos força a aprender para continuar. A UTI é antítese da vida cotidiana. Isolados, damos um passo por vez agarrados na concretude dos fatos. Cansados, sonhamos sem delirar e abdicando da mania de grandeza. Preocupados, valorizamos mais os amigos e pessoas próximas – aquelas que brotam e criam raízes em tempos de crise – do que a velocidade pela conquista em forma de miragem e crédito de juros assaltantes.

A UTI é a aula perfeita de pontualidade. Nunca me atraso, pois não há compensação ou adiamento. Nunca pensei que poderia ser a última vez que te veria. Penso, na verdade, que é vital aproveitar a hora, hora e meia diária para estar ao seu lado, conversar sobre o que é relevante (certas futilidades são agradáveis e revigorantes), ouvir suas necessidades e desejos, entender – e contar até dez, às vezes – que as reações diversas às minhas são naturais e parte do contexto, além de tentar sorrir ainda que seja preciso moer a mandíbula para tirá-la da rigidez da angústia. Manter a postura, me perdoe, é foda!

A UTI incinera a urgência do que é falsamente irrelevante. Pessoas, coisas, lugares, compromissos que entopem as veias com aborrecimentos e mesquinharias, que alimentam a própria vaidade e a de outros, a soberba que nos faz fingir como independentes. A urgência é quase sempre tão frágil quanto à vida editada de uma rede social.

A urgência me diz respeito para que precise estar contigo, te apoiando na travessia e na estadia nesta trincheira, em uma guerra isolada de velhas armas e estratégias híbridas de uma doença de idas e vindas.

Você me ensinou muito em quatro anos. Cursos que registrei em outros escritos ou em diálogos ao pé do ouvido. Esta última semana me trouxe lembranças de velhos cadernos recheados de ensinamentos clássicos. E me mostrou que ainda faltam quilômetros para a serenidade, para a calmaria que nos permite enfrentar com total eficiência a matilha lupina.

Nunca estive tão nervoso. Nunca estive tão atento. Nunca jantei minha própria exaustão para chegar ao café da manhã do dia seguinte. Nunca fui tão pouco jornalista ao escrever para você.

Virei uma máquina de resolução de problemas. Não me queixo. É preciso estar em pé. É, acima de tudo, minha gratidão, minha responsabilidade, meu amor por você, nossa cumplicidade na linha de tiro. A missão de levá-la para nossa casa.

A UTI nos transforma realmente? Provavelmente sim, mas ela é também capaz de nos revelar endereços que jurávamos desconhecer. Achei objetos no baú que não acreditava ter escondido lá.

Espero por você aqui fora, mesmo que veja você todos os dias dentro do quarto 404. Ele é provisório, talvez seja minha única certeza. Uma cela com bela vista, mas imprecisa e ocupada pela pessoa errada. Até amanhã!