segunda-feira, 1 de junho de 2015

Santos, um noroeste perdido


Fabrício Britto

Palmeiras imperiais, salgueiros chorosos, varandas nem tanto alegres e jardins exuberantes. São pequenos disfarces de uma província bem pequena banhada pelo mar, envolvida por velhos morros e que, embora seja muito importante para a sustentação de uma grande nação, foi esquecida pelo mundo. Província de povo simples e ignorante carinhosamente chamado de caiçara. Caiçaras d'alma, do comportamento e do espírito. 

Caiçaras sem sonhos. Sonhos roubados por comandantes e também estivadores corruptos e imponentes. Espertos. Atracam seus barcos todos os dias em um cais abandonado, sujo e completamente destruído. Embarcações que escondem grandes segredos e segredos que impossibilitam aos novos e velhos caiçaras da antiga província a chance de navegar pelo mundo dos sonhos, da modernidade, das descobertas e do progresso.

Vamos falar da burguesia caiçara?

Burguesia formada por atores amadores e vaidosos que tentam encenar diariamente o lirismo e a riqueza que nunca tiveram. Nem terão. Uma sociedade formada por aspirantes ao mais simples papel de um espetáculo sem beleza, coerência, sentimento e profundidade. Mas eles, os burgueses, se contentam com as repetidas e repetitivas transmissões do mais sofisticado colunismo social regional da Costa da Mata Atlântica.

De um lado palmeiras imperiais, de outro alagamentos monumentais. Salgueiros chorosos aos nobres burgueses e aridez, abandono e descaso aos pobres caiçaras de um noroeste perdido. Os pseudo-ricos não podem ser chamados de caiçaras. Os que vivem nos morros, esses nem caiçaras podem ser. São favelados, uma nomenclatura moderna criada pela corte. O que ninguém sabe é que nas veias dos favelados aglomerados nos morros corre o sangue da tradição da província poema e de ruas antigas. Nas saias de suas mães, os bordados da Madeira.

A nação se desenvolve. A modernidade chega. O progresso possibilita grandes navegações e a chegada de suntuosas embarcações envolvidas por vidros e elevadores panorâmicos. Embarcações monumentais. Internacionais. Novos comandantes. O cais, porém, continua abandonado, sujo e destruído. Os estivadores não existem mais. Faz-se de conta, mas na realidade não existem mais. A burguesia continua estúpida. E pasmem... Ela consegue se superar! Os políticos? Deixemos este tema para outra crônica.

A beleza do jardim exuberante perde a magia dando lugar à inércia de um povo que não deseja evoluir. É uma estagnação que contamina. Um vírus mais perigoso que o Aedes Aegypti, nosso amigo. É um vírus estacionário. A província virou tribo. Uma tribo sem índios. Índios são inteligentes e caiçaras também. Quem habita a província atualmente são os santistas. Eles gostam mesmo é da praia e do final de semana. Quando não tem jogo na Vila Belmiro.

Essa é a Santos que eu não gostaria de ver. Mas não sou cego e tenho que aprender a viver rodeado de varandas nem tanto alegres, caiçaras sem sonhos num cais abandonado.

Obs.: 4º texto a partir do curso "Escrita Criativa", ministrado no Espaço Certo, em Santos. 


Um comentário:

ricardo rugai disse...

Sinto Santos cada vez mais paulistana, um espécie de Jardins fake, de 2a categoria...