quarta-feira, 24 de junho de 2015

A primeira noite (Conversas com Beth # texto 1)


Você, árvore rara
Marcus Vinicius Batista

Desaprendi a dormir sozinho. Desaprendi a andar rápido para chegar em casa no final da noite. Desaprendi a ocupar todo o espaço da cama. Desaprendi a esquentar menos comida para uma boca só. Desaprendi a me deitar em silêncio, sem ter com quem dividir o dia, os últimos problemas, as soluções mais recentes. Até os gatos, na sabedoria da casa escura, se recolheram na primeira noite. Sua primeira noite no hospital.

O dia foi duro, tenso, cortante como navalha cega que insiste abrir fendas em nossa pele. Saímos cedo para uma consulta médica, terminamos a noite separados por uma internação em Centro de Terapia Intensiva. Sabíamos que uma crise se avizinhava, mas não podíamos imaginar o capítulo mais urgente dela. Paciência.

Deixei você no hospital, tomei um ônibus, respondi as últimas mensagens de pessoas que, em diferentes graus, percebem que você é rara. Conversei com sua família, repassei as notícias como um jornalista deve fazer, no sentido mais informativo do termo. O genro saiu de cena para reduzir o envolvimento emocional, que daria a vaga à racionalidade.

Era a hora de editar, o instante de dar o fato principal e, com responsabilidade, segurar os detalhes que ainda necessitam de apuração e contexto. Alarmar é o primeiro remédio possível. Alimenta especulação, cria incêndios, costura fantasias desnecessárias e, por vezes, nocivas para quem as elabora e para quem se torna o paciente delas. A bola precisa estar no chão para que se derrote um adversário que pediu revanche, sua doença.

Arrastei-me até chegar em casa. Imaginava o que me esperava, tinha certeza de quem não me aguardava. Nossos amigos felinos sentem o que se passa. Abordaram-me com cautela, como se entendessem sua ausência temporária. Evitaram brigas e correrias, como se me poupassem do desgaste das broncas. Nem me pediram comida, pelo menos naquela hora.

Sentei-me com o macarrão requentado – nossa última refeição antes do hospital -, acompanhado pelo filé de frango recém-descongelado. O cansaço mental me impediu de ler, a melhor terapia que posso ministrar a mim mesmo. Procurei a TV. Ali, encontrei duas surpresas: uma entrevista com José Roberto Torero, das melhores dele que já vi, na TV Gazeta. E o melhor programa até agora do Papo de Segunda, na GNT. Ah, neste tempo, Magriça e Felino, em tempos diferentes, lamberam o prato. Meu prato. Ambos em silêncio, na ordem de chegada à nossa casa.

O desgaste deste dia me tirou o sono. Sabe quando você está exausto e não consegue dormir? Mas a TV me entorpeceu a uma da manhã. Sem perceber, fui para o quarto, me deitei do seu lado da cama, em seus travesseiros. A cama nunca foi tão espaçosa. Jamais houve uma área tão inútil quanto o resto da cama. Os gatos, companheiros de sempre e sábios como nunca, não vieram me acompanhar na madrugada. A prova de que eles estão ali por você.

Escrever para ti estava maturando aqui dentro desde ontem. Você conhece minha forma de esculpir as palavras e como elas me exorcizam. Mas precisava estar inteiro para o dia seguinte. Sabe que sou incansável nas crises, mas não posso brincar com certos limites. Não tinha fôlego para escrever ontem e pensar num tempo tão futuro quanto hoje de manhã.

Já ultrapassamos uma crise anterior e enxotamos o lobo (lúpus). Faremos de novo. Ele voltou com garras mais afiadas; só que – por conhecê-lo – criamos novas estratégias e armas. Ele cairá novamente, como o fez cinco vezes em 15 anos.

Até amanhã!


Um comentário:

Elizabeth Cury Bechir Watanabe disse...

Me emocionei lendo esse seu texto, calou fundo em meu coração.
E acredito que esse seu amor, que se fortalece ainda mais nesse momento, os ajudará para juntos conseguirem a vitória da cura. Um grande abraço