segunda-feira, 29 de junho de 2015

O ritual (Conversas com Beth # 2)



Marcus Vinicius Batista


Percorro os cinco quilômetros que separam minha casa do hospital duas vezes ao dia. O tempo de viagem, a intensidade do trânsito e os acompanhantes variam conforme o dia. Todos se parecem na ansiedade e na preocupação com o que vão encontrar na UTI. A sigla é sinônimo de más notícias, mas também carrega pequenos sinais de humanidade, daqueles que se perdem na mesquinharia de certas rotinas.

Visitar a UTI me provoca cansaço, como se minhas energias fossem sugadas a cada corredor decorado com painéis de funcionários felizes e slogans-clichês. Visitar a UTI é um exercício contínuo de paciência, que se põe de pé logo na entrada, quando um porteiro me avisa que ainda não, ainda não é hora de entrar.

A UTI é lugar de espera e frustração. Espera pelo crachá de plástico que protege um papel impessoal, um número que garante a autorização para subir. Para ganhar o “presente”, repito diariamente seu nome, Elizabeth Soares Evangelista. Com dois dias, seu último nome desaparece. Para quê, se o computador responde pelo resto? Após cinco dias, pronuncio apenas Elizabeth. Não tenho sonho algum sobre uma antecipação pelo olhar da recepcionista. Desejo é a sua saída, Beth!

Com o crachá pendurado, uma virada à direita, uma esquerda, outra à direita e os dois elevadores. Para os acompanhantes, cansei de repetir que meu pai, engenheiro civil, construiu o prédio onde caminhamos. Era uma conversa pré-elevador e uma maneira de derrubar as fantasias negativas sobre aquela UTI. O tempo me trouxe o silêncio de um andar mecânico.

No quarto andar, a espera reaparece. Na visita do final da manhã, a entrada é quase imediata. Na visita da noite, desaparecem o crachá e a velocidade para entrar na UTI. A sala de espera é a face da angústia, onde não se aguarda, apenas se mantém anestesiado.

Evito permanecer na sala de espera. Apenas a atravesso para tomar água ou usar o banheiro. Vejo que ninguém toca nas revistas de celebridades ou de capítulos de novela. A TV nunca funciona e derruba a alienação de oportunidade. Sobram as conversas a voz miúda, com trocas de experiências em torno de doenças, remédios, crises, melhoras.

Prefiro o corredor, onde posso cultivar a quietude, pensar em você, ver um cenário fixo (o balcão da UTI) e caminhar no espaço de cinco metros, ida e volta. Movimentos automáticos me ajudam a pensar e mover sem me lembrar de checar o relógio. Nada importante, só um preenchimento de estado mental com as imagens que devem prevalecer, suas imagens fora dali. Eventualmente, repasso o que preciso te falar.

Assusto-me ao ver que foge a muitos a ideia de que a UTI pode ser um intervalo no espaço-tempo. Corre-se para formar fila. Se ainda a porta fosse aberta para quem dispara pelos cinco metros rasos ... Sou a tartaruga que sempre alcança o coelho, me arrasto para entrar sem precisar parar e falar algo além de Elizabeth, palavra mágica para a pergunta óbvia: “Qual é o nome da paciente?”

Como seu quarto é o último do corredor, atravessá-lo é o segundo exercício de disciplina. Falho quase sempre. Não olhar para os lados, manter os olhos fixos no final do corredor. Olhar para outros pacientes talvez seja um instante de conforto, saber que você não está entubada ou sob risco agudo.

O quarto, por mais que eu tente, é uma luta perdida contra o relógio pendurado na parede. Meia hora parece ontem. Uma hora se perde em tempo real no passado. Tanto a dizer, muito a ouvir, trocar os fatos do dia, escutar seu diálogo com o visitante novo ou o parente de sempre.

Na visita do final da manhã, há a conversa com o médico. Esclarecimentos com termos técnicos que nós nos acostumamos. O sinal da familiaridade com o medicines ocorre quando me pego repetindo ciclofosfamida e corticóide para parentes e amigos. Dúvidas sobre a pequena melhora, os próximos passos, o pedido de previsão de alta, é impossível dimensionar o vocabulário dia após dia. Mínimas alterações no seu quadro de saúde, assim como nas palavras que ecoam ou competem com o seriado de momento na TV. A saída é compreender o boletim pelo contexto, projetar e retroceder três, cinco dias. Uma reflexão que conforta e renova a luta. Piadas sobre nossos gatos e seus desejos alimentares de consumo – com muito sal – refrescam.

A cada porta que abre, meus olhos viajam ao relógio. O porteiro com o aviso? Uma enfermeira para medir a pressão, uma atendente para recolher o jantar, uma auxiliar para checar a medicação. 13h30, 20h30, com a lambuja de um ou dois minutos. A porta entreabre e porteiro proclama: “A visita acabou!”

Beijo de despedida que se repete algumas vezes. Uma palavra de amor, uma panorâmica pelo quarto para ver se não me esqueci de nada. Um recado que esconde minha impotência, minha tristeza e o retorno pelo caminho de volta.

Da última vez, o ritual ganhou lágrimas no final. O filme na TV contribuiu, mas foi um instante em que deixei de pensar. Racionalidade é medicamento útil em UTI. A hora é fugir daquele prédio, paradoxalmente avaliando por que não consegui ficar no quarto com você mais um minuto, enrolar mais 30 segundos.

O acompanhante me espera. Sem saber, me empurra em frente para estar no dia seguinte, ao seu lado, pelo prazer de estar contigo por uma hora ou 30 minutos, duas vezes ao dia. A UTI, hoje, é essencial no meu cotidiano, duas vezes ao dia.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A primeira noite (Conversas com Beth # texto 1)


Você, árvore rara
Marcus Vinicius Batista

Desaprendi a dormir sozinho. Desaprendi a andar rápido para chegar em casa no final da noite. Desaprendi a ocupar todo o espaço da cama. Desaprendi a esquentar menos comida para uma boca só. Desaprendi a me deitar em silêncio, sem ter com quem dividir o dia, os últimos problemas, as soluções mais recentes. Até os gatos, na sabedoria da casa escura, se recolheram na primeira noite. Sua primeira noite no hospital.

O dia foi duro, tenso, cortante como navalha cega que insiste abrir fendas em nossa pele. Saímos cedo para uma consulta médica, terminamos a noite separados por uma internação em Centro de Terapia Intensiva. Sabíamos que uma crise se avizinhava, mas não podíamos imaginar o capítulo mais urgente dela. Paciência.

Deixei você no hospital, tomei um ônibus, respondi as últimas mensagens de pessoas que, em diferentes graus, percebem que você é rara. Conversei com sua família, repassei as notícias como um jornalista deve fazer, no sentido mais informativo do termo. O genro saiu de cena para reduzir o envolvimento emocional, que daria a vaga à racionalidade.

Era a hora de editar, o instante de dar o fato principal e, com responsabilidade, segurar os detalhes que ainda necessitam de apuração e contexto. Alarmar é o primeiro remédio possível. Alimenta especulação, cria incêndios, costura fantasias desnecessárias e, por vezes, nocivas para quem as elabora e para quem se torna o paciente delas. A bola precisa estar no chão para que se derrote um adversário que pediu revanche, sua doença.

Arrastei-me até chegar em casa. Imaginava o que me esperava, tinha certeza de quem não me aguardava. Nossos amigos felinos sentem o que se passa. Abordaram-me com cautela, como se entendessem sua ausência temporária. Evitaram brigas e correrias, como se me poupassem do desgaste das broncas. Nem me pediram comida, pelo menos naquela hora.

Sentei-me com o macarrão requentado – nossa última refeição antes do hospital -, acompanhado pelo filé de frango recém-descongelado. O cansaço mental me impediu de ler, a melhor terapia que posso ministrar a mim mesmo. Procurei a TV. Ali, encontrei duas surpresas: uma entrevista com José Roberto Torero, das melhores dele que já vi, na TV Gazeta. E o melhor programa até agora do Papo de Segunda, na GNT. Ah, neste tempo, Magriça e Felino, em tempos diferentes, lamberam o prato. Meu prato. Ambos em silêncio, na ordem de chegada à nossa casa.

O desgaste deste dia me tirou o sono. Sabe quando você está exausto e não consegue dormir? Mas a TV me entorpeceu a uma da manhã. Sem perceber, fui para o quarto, me deitei do seu lado da cama, em seus travesseiros. A cama nunca foi tão espaçosa. Jamais houve uma área tão inútil quanto o resto da cama. Os gatos, companheiros de sempre e sábios como nunca, não vieram me acompanhar na madrugada. A prova de que eles estão ali por você.

Escrever para ti estava maturando aqui dentro desde ontem. Você conhece minha forma de esculpir as palavras e como elas me exorcizam. Mas precisava estar inteiro para o dia seguinte. Sabe que sou incansável nas crises, mas não posso brincar com certos limites. Não tinha fôlego para escrever ontem e pensar num tempo tão futuro quanto hoje de manhã.

Já ultrapassamos uma crise anterior e enxotamos o lobo (lúpus). Faremos de novo. Ele voltou com garras mais afiadas; só que – por conhecê-lo – criamos novas estratégias e armas. Ele cairá novamente, como o fez cinco vezes em 15 anos.

Até amanhã!


terça-feira, 16 de junho de 2015

Ela, minha igreja. Elas, minhas amantes



Edwar Fonseca

Ela nasceu em uma garagem. Pequenina e tímida, mas promissora, com um longo e desafiador futuro. Ninguém sabia o que aconteceria, mas projetava felicidade para ela. Aos poucos, ela cresceu, fez amigos e trouxe alegria. Todos queriam que ela chegasse para tornar a semana mais suave, mais divertida. Ela era esperada, desejada e celebrada.

Com ela, o tempo parece voar, e todos pedem ao relógio que faça mágica e ande um pouquinho mais devagar. Ninguém quer ir embora, querem ficar ali, enquanto ela deixar. E ela deixa, ela pede, ela permite, ela convida.

Quando ela chega, todos estão preparados, pensando em transformar desejos em aromas e sabores. Não tem cerimônia, ou privilégios, tudo é de todos e para todos.

Hoje é seu dia. Alguns já chegaram e estão celebrando. Outros virão mais tarde. Todos têm clareza no propósito de sempre encontrar algo novo e desafiador aos sentidos.

Uma convidada, a gostosa e bela Santibinha chegou com uma roupa especial nesta noite. Ela é diferente das outras, flerta com todos os presentes e aumenta o desejo dos apressadinhos. Senti falta das amigas delas, sempre juntas, as irmãs da família Alvarez e as irmãs da família Caiçara, perfeitas em seus detalhes. Adoro vê-las e tê-las. E elas adoram também, eu sei.

Várias outras amigas estavam lá. O lugar não é grande, mas faz com que todas fiquem ao alcance do olhar, elas e nós. Estamos ao ar livre. O calor de hoje está pedindo para variar de uma para outra. Sei que parece leviano, sou casado, mas e daí?

Quero pegá-las, e elas querem ser pegas. O dia aguça o desejo, sem ser vulgar. Prazer. Prazer total. Suave, delicado, para ser esgotado aos pouquinhos. A essência de cada uma completa os momentos com sensações especiais e únicas.

No ar, som de violão, dedilhado com carinho de quem tem nesse companheiro muitas histórias para contar, músicas eternas que alguns sabem a letra inteira ou pelo menos partes. Outros acompanham com la-la-la, hmm-hmm-hmm, mas que fazem um fundo musical para a harmonização completa.

A grande estrela da noite. Ela chegou? Sim, faz tempo. Quinta-SIM. Esse é o seu nome de batismo. O sobrenome SIM é de família. Tem muitas outras “SIM” por aí, a prole é grande. E todas são deliciosas.

Como passou da meia noite, é 12 de junho, Dia dos Namorados, um dia mais para dizer sem meias palavras, : Quinta-SIM, sua gostosa, nós tem amamos!

A noite está acabando e você vai embora com a promessa de voltar daqui uma semana. Já estamos com saudade de você. Volte o mais rápido que puder.

SIM. Vem rápido Quinta-SIM. Vem.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Você

Marcus Vinicius Batista

Nunca acreditei em amor eterno. Também não creio em múltiplos amores. Minha crença, baseada em tropeços e saltos adiante, se sustenta na renovação do amor. No cultivo constante, na adaptação contínua de quem muda com a experiência, com as desavenças, com a história individual e a história escrita em conjunto. A dois.

Você me ensinou estas lições sem querer, como fazem os melhores professores. Você me deixou construir um relacionamento sem impor o rumo, sem estabelecer o caminho, sem definir a intensidade do aprendizado.

A primeira delas foi a cumplicidade. Dividir derrotas, compartilhar vitórias. Respeitar os desejos e sonhos individuais, lutar para edificar as vontades geradas por nós dois. O cúmplice, você me mostrou, não é aquele que vê no outro uma válvula de escape para repartir o fracasso. O cúmplice é aquele com quem nos importamos e – dependendo do caso – nos sacrificamos sem cobrar nada depois. Sem reforçar o auxílio para saboreá-lo e se sentir melhor por conta disso.

A segunda lição – desconfio que esta nasceu sem pai ou mãe definidos – é o diálogo como alimento. Uma vez, ouvimos de alguém que nós passávamos a impressão de nunca brigar. Apenas sorrimos diante de tamanha distância do mundo real. Nós brigamos, mas lutamos para não carregar destroços de guerra. Aliás, sequer transformar em conflito bélico.

Você me mostrou a necessidade de usar o silêncio somente quando necessário. Falar sobre o que se sente, ainda que sob código ou pseudônimo. Expor quando se está descontente. Conversar para resolver, jamais para marcar uma reunião burocrática. Não cabe aqui enumerar as sessões de boxe verbal, apenas no instante em que se pode rir sobre elas ou, quem sabe?, aprender com elas.

Sinto-me orgulhoso de, na maioria esmagadora dos casos, conseguir solucionar uma crise em 24 horas. As mais profundas não fogem às conversas, com a consciência de que as palavras refletem a injustiça de uma cabeça quente ou de um muro de longo prazo que não é tratado no tempo certo.

Você é mestre em confirmar minhas teorias, todas sem valor científico, mas completas na afetividade. Você confirma a tese de que só podemos saber que uma mulher é linda realmente quando ela acorda. Você passou na minha banca quando defendeu com louvor a ideia de que sexo com amor é demasiado profundo para quaisquer racionalizações.

Você se doutorou ao provar que um amor se constrói também com o perdão, com a vontade concreta de se começar outra vez se a casa ameaça ruir. Você é PHD na teoria de que maternidade nada tem a ver com biologia, mas com sentimentos, compreensão, atitudes cotidianas sem a reflexão de que os dividendos ou a resposta do outro serão imediatas.

Escrever para você no Dia dos Namorados é, para nós, uma justificativa quase inexistente. Nós nos expomos um diante do outro no dia a dia e escrevemos ao sentirmos que se faz urgente. O Dia dos Namorados seria, para o leitor desconhecido, o motivo. Não, ele é mais um motivo.

Sempre desconfiei da obrigação social de dar presentes exclusivamente nas datas comemorativas. É claro que o faço porque você também se preocupa com elas e pelo fato de que temos inoculadas em nós as expectativas construídas pelo alheio. Aproveitamos a oportunidade para reforçar o que nos une. Você me indicou assim!

Como você mesma me disse, encaro essas situações com mais naturalidade, sem certos pudores alicerçados nas convenções sociais. De fato, entendo que os presentes nascem para as pessoas e assim ajo diante de você. O presente aparece para mim e se oferta para que seja levado a ti. É a sua cara, imagino. Errei algumas vezes, mas o tempo – deixando de lado o orgulho que emburrece os teimosos – se encarregou de melhorar minha margem de acertos.

Este texto é um dos meus presentes! Combina com você! Tomara que aceite e goste!

terça-feira, 2 de junho de 2015

Uma caminhada por Itanhaém




Poetisa Lina

Acordo com o sol entrando pela janela, ainda é cedo, e os pássaros cantam no meu jardim.

Fico deitada, com preguiça de levantar, espreguiço e vou tomar uma ducha, coloco o penhoar e desço as escadas para preparar meu café. Ligo a cafeteira e vou dar comida para o Mikkei e para os gatinhos. A Bombom foi a primeira a receber a ração. Ela desce a escada comigo, miando baixinho pedindo comida. Todos servidos, entro, vou arrumar a mesa, ponho minha xícara, os talheres, o pão vai ser aquecido, fervo o leite, tudo pronto.

Tomo o café, ao terminar subo, vou arrumar minha cama, abro a janela do quarto e o vento agita a cortina. Depois de tudo em ordem, vou colocar o maiô, desço as escadas, preparada para fazer minha caminhada. O sol está gostoso, coloco o chapéu e os óculos.

Piso na areia fofa. As ondas molham meus pés com doçura. O mar arremessa as ondas, com suas espumas muito brancas desenhando as areias com rendas de crochê.

Caminho devagar, olhando o céu e o mar, sentindo os meus pés beijados pelas ondas, que vão beijar as areias desta praia de Itanhaém, recanto de tanta beleza e de paz. Assim é minha Itanhaém, onde encontro momentos de encanto e beleza, onde encontro inspiração para escrever sobre minha Itanhaém de todo o dia.

O sol se pondo atrás das serras distantes, o rio passando tranquilamente, indo ao encontro do mar, num abraço fraterno de amigos que se encontram todos os dias.

Aos poucos, as nuvens são mescladas por vários matizes e o sol, último espetáculo dourando as águas do rio e, como a mãe natureza, espalha o perfume da dama da noite, surge a lua. Acendem-se as luzes deixando a cidade com ar de encanto.

Uma magia desta minha Itanhaém de todo dia, sempre uma magia e encantamento!!!

Obs.: 7º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado em abril, no Gabinete de Leitura, em Itanhaém.

O aniversário


Gabriel Ferreira

Acordo cedo. Meu cabelo desgrenhado, meus olhos remelentos e aquele bafo matinal. Era domingo. Minha mãe entrou em meu quarto aos gritos, preocupada com o horário, com o medo de se atrasar e causar má impressão. Pulei da cama tirando as roupas amassadas e correndo em disparada ao banheiro.

Tomei meu banho de gato, escovei meus dentes e penteei meu cabelo, tudo em menos de dez minutos. Volto ao meu quarto e sobre a cama está uma roupa muito bem passada. Visto-a sem reclamar, mesmo odiando aquelas peças. Com meu pai gritando na rua, calço meu All Star preto apressadamente. Acabei trocando os pés. No caminho do carro, senti umas pedrinhas desconfortáveis dentro do tênis.

O percurso durou quase uma hora e não foi agradável. Meus pais não pararam de brigar e falar mal de umas pessoas cujos nomes eram familiares, literalmente. Após a cansativa viagem, parece que finalmente chegamos. Meu pai estacionou em frente a uma casa de portão branco e muros cor de laranja. Uma casa aparentemente boa, ao contrário da rua.

O local parecia estar morto, tive a impressão que não passava uma alma ali há séculos. As ruas esburacadas e as calçadas quebradas, com pedaços de grama perdidos por todos os lados. Toquei a campainha e uma voz feminina perguntou meu nome; então, respondi da maneira mais casual que consegui: “é o Vinicius, ué!''

A voz feminina em resposta disse que logo viria ao meu encontro. Ao abrir a porta, uma legião de mulheres de meia idade e pais de família veio me cumprimentar e dizer coisas que eu estranhei um pouco. Todos falavam as mesmas coisas: ''Como você cresceu, hein?”, ''Olha como ele já está grande!'', ''Ele já um moço'' e ''Daqui a pouco já está namorando''. Eles devem ser loucos, mal completei seis anos e já estão dizendo que estou grande?

Entrei na casa e passei rapidamente pelos cômodos, sala de estar, corredor, cozinha e, finalmente, a porta para o quintal dos fundos. Certamente não era uma das minhas paisagens prediletas, por algum motivo me lembrou o interior de uma indústria, mesmo nunca tendo entrado em uma.

As paredes pintadas de cinza, o piso de ardósia, as cadeiras de madeiras e sem falar no céu nublado para concluir o sentimento de melancolia. Os adultos bebiam cerveja e comiam churrasco em meio a histórias de pescador (grande parte dos meus parentes trabalham em barcos). A maior parte das mulheres via TV ou vendia roupas e sapatos dentro da casa. As crianças e os idosos, na piscina, e é claro que foi lá onde passei quase o dia inteiro, brincando com bola ou os famosos macarrões de piscina.

No final do dia, quase ao anoitecer, as pessoas se reuniram em volta de uma mesa para cantar os parabéns, era o aniversário da minha tia, eu acho. O bolo era muito ruim, tinha uns pedaços de abacaxi e outras frutas que não sei dizer o nome. Eu estava muito cansado e cochilei em um dos quartos de visita.

Acordei algumas horas depois na cama de minha casa como se fosse mágica. Perguntei aos meus pais o que havia ocorrido, responderam-me que até tentaram me acordar, mas eu estava realmente exausto.

Hoje, embora eu ainda seja muito jovem, sinto saudade e recordo com gosto da infância. Fico matutando se isso não ocorre justamente por ser criança, em que tudo é uma descoberta, uma nova aventura. Tenho certeza de que atualmente eu reclamaria muito de ir numa festa de aniversário da minha tia, ainda mais sem conhecer ninguém e é muito provável que eu nem compareceria.

Com o tempo, a maioria de nós perde o prazer das pequenas coisas, criança só quer se divertir e tenta fazer com que isso ocorra em qualquer momento.

Obs.: 1º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado em maio na Universidade Católica de Santos. 


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Santos, um noroeste perdido


Fabrício Britto

Palmeiras imperiais, salgueiros chorosos, varandas nem tanto alegres e jardins exuberantes. São pequenos disfarces de uma província bem pequena banhada pelo mar, envolvida por velhos morros e que, embora seja muito importante para a sustentação de uma grande nação, foi esquecida pelo mundo. Província de povo simples e ignorante carinhosamente chamado de caiçara. Caiçaras d'alma, do comportamento e do espírito. 

Caiçaras sem sonhos. Sonhos roubados por comandantes e também estivadores corruptos e imponentes. Espertos. Atracam seus barcos todos os dias em um cais abandonado, sujo e completamente destruído. Embarcações que escondem grandes segredos e segredos que impossibilitam aos novos e velhos caiçaras da antiga província a chance de navegar pelo mundo dos sonhos, da modernidade, das descobertas e do progresso.

Vamos falar da burguesia caiçara?

Burguesia formada por atores amadores e vaidosos que tentam encenar diariamente o lirismo e a riqueza que nunca tiveram. Nem terão. Uma sociedade formada por aspirantes ao mais simples papel de um espetáculo sem beleza, coerência, sentimento e profundidade. Mas eles, os burgueses, se contentam com as repetidas e repetitivas transmissões do mais sofisticado colunismo social regional da Costa da Mata Atlântica.

De um lado palmeiras imperiais, de outro alagamentos monumentais. Salgueiros chorosos aos nobres burgueses e aridez, abandono e descaso aos pobres caiçaras de um noroeste perdido. Os pseudo-ricos não podem ser chamados de caiçaras. Os que vivem nos morros, esses nem caiçaras podem ser. São favelados, uma nomenclatura moderna criada pela corte. O que ninguém sabe é que nas veias dos favelados aglomerados nos morros corre o sangue da tradição da província poema e de ruas antigas. Nas saias de suas mães, os bordados da Madeira.

A nação se desenvolve. A modernidade chega. O progresso possibilita grandes navegações e a chegada de suntuosas embarcações envolvidas por vidros e elevadores panorâmicos. Embarcações monumentais. Internacionais. Novos comandantes. O cais, porém, continua abandonado, sujo e destruído. Os estivadores não existem mais. Faz-se de conta, mas na realidade não existem mais. A burguesia continua estúpida. E pasmem... Ela consegue se superar! Os políticos? Deixemos este tema para outra crônica.

A beleza do jardim exuberante perde a magia dando lugar à inércia de um povo que não deseja evoluir. É uma estagnação que contamina. Um vírus mais perigoso que o Aedes Aegypti, nosso amigo. É um vírus estacionário. A província virou tribo. Uma tribo sem índios. Índios são inteligentes e caiçaras também. Quem habita a província atualmente são os santistas. Eles gostam mesmo é da praia e do final de semana. Quando não tem jogo na Vila Belmiro.

Essa é a Santos que eu não gostaria de ver. Mas não sou cego e tenho que aprender a viver rodeado de varandas nem tanto alegres, caiçaras sem sonhos num cais abandonado.

Obs.: 4º texto a partir do curso "Escrita Criativa", ministrado no Espaço Certo, em Santos.