sexta-feira, 29 de maio de 2015

O cara do Face



Maykon Souza

No shopping, puxei o livro da mochila e percebi que estava sendo observado. Mal virei a primeira página e ela se aproximou. Devia ter uns 20 anos. Ficou se contorcendo, tentando ler o nome que estava na capa. Conseguiu:

— Ai, que legal...

— O quê?

— Ele tem livro?

— Como assim?

— O Caio tem livro...

— Que Caio?

— Esse que você tá lendo...

— Tem... vários... um dos maiores escritores do Brasil...


Ela não acreditou muito.

— Caramba... achei que ele era só o cara do Face.

— Cara do... ?

— Face... Facebook... internet... cê tem, né?!

— Tenho, tenho...

— Ele também.

— Quem?

— O Caio... tem um perfil todo fofo... Ele escreve cada coisa bonita.

— O Caio?

— Claro, pô. Não é dele que a gente está falando?!

— É que é impossível ele ter perfil.

— Por quê?

— Ele morreu...

— Impossível ele ter morrido!


Chegamos num impasse. Ela virou para o outro lado, como que digerindo a informação. Depois de um tempo, indignada:

— E quem atualiza o perfil dele, então?

— Ele é que não é.

— Cê ta brincando... não deve ser o mesmo... morreu de quê?

— AIDS.

— AIDS??? Então, ele era velhão?

— Velhão?

— É, ué! AIDS não é aquele negócio que dava nos anos 80?


Novamente, um impasse. Dessa vez, eu é que virei para o outro lado para digerir a informação.

— Lê um pedaço aí pra mim.

— Qualquer um?

— É.

— Lá vai: “Aquele negrão, sabe aquele negrão de cabelo rastafári que fica sempre ali no Quênia’s Bar? Aquele que vende fumo, diz que tem vinte e cinco centímetros, já pensou? Isso não é uma jeba, é uma jibóia. Até vinte agüento numa boa, até o cabo. Vinte e cinco não sei, tenho até medo. Pode rasgar a gente por dentro, sei lá”. *

— Ele escreveu isso?

— Sim.

— O Caio?

— Claro, pô. Não é dele que a gente está falando?!


Ela se levantou, indignada:

— Ele escreve coisas fofas, não isso aí. Ele fala de amor, esperança, sorriso. Coisas pra valorizar a gente. Ele tem frases que se encaixam em todos os momentos da vida da gente.

— Isso é Minutos de Sabedoria, não Caio Fernando Abreu.

— Minutos de quê?

Reparei que outra garota tinha se aproximado. Resolveu entrar na conversa:

— Que foi?

— O cara aí tá dizendo que conhece o Caio.

— Que Caio?

— O do Face!

— Ah, tá... prefiro a Clarissa...

— Que Clarissa?

— Ah, sei lá. Acho que é Espectro.

— Não é Clarissa, é Clarice, sua burra!

Começaram a tirar sarro uma da outra e se foram sem dar tchau. Da próxima vez que estiver em público, puxo um Dostoiévski. Duvido que ele também tenha perfil fofo no Face.

* O trecho foi extraído de uma frase da personagem Jacyr, do livro Onde Andará Dulce Veiga?, publicado em 1990.

Nenhum comentário: