sexta-feira, 15 de maio de 2015

Envelhecendo ...




Marcus Vinicius Batista

A cidade envelheceu comigo. Não é apenas meu corpo que se arrasta com mais lentidão ou meus reflexos que respondem tardiamente. O mundo ao redor mudou e, com ele, imagens se enrugaram em lembranças.

Minha cidade, como qualquer outra, é dinâmica, que renasce pelos que chegam, pelos que a deixam por uma chance melhor, pelos que retornam em busca do que não retorna mais. A cidade se sacode pelo mito do progresso, pelas batalhas diárias entre o velho e o novo.

Minha cidade se desfaz com a demolição de símbolos de experiências, com a cegueira de edifícios parecidos com penitenciárias de luxo que me impedem de sentir o vento marítimo ou enxergar o outro lado de suas fronteiras.

Minha cidade ruiu quando vi a escola onde estudei por anos, por ironia no bairro de nome Pompéia, sobreviver em fotografias. Sua vizinha, a casa onde discursei na colação de grau, hoje é refém de torres pós-modernas, mas alicerçadas em velhos valores.

A casa onde amigos de infância me acolheram, no Boqueirão, sumiu em dias, para dar lugar – num futuro próximo – às gentes que escolhem entre o armário e a cama para habitar um quarto. A casa de reuniões de escola desapareceu como pela mágica quase infantil que um de seus moradores fazia durante as festas de aniversário.

O sequestro daquela casa abriu um buraco no Boqueirão, cada vez mais contraditório pela escassez de árvores por vezes esquartejadas, paradoxal pelo verde que cede ao cinza do concreto, a pintura cult dos imóveis vazios.

A cidade em que vivo caminha mais rápida e perversa do que meus olhos podem acompanhá-la. A cidade perde a doçura que alimentava, por exemplo, vários cantos do Gonzaga, o que o faziam parecer com uma pequena Viena, hoje afogada em luminosos, congestionamentos e preços nova-iorquinos.

Envelhecer é compreender que seu mundo também se apaga aos soluços. Dar lugar a outro cenário é fato, mas sem retirar o prazer de, ao menos, palpitar sobre ele. Conseguimos mensurar ou entender o que se passa? Ou apenas usufruímos, concordamos e pagamos a conta como fiéis e servis consumidores da trajetória decidida pelo alheio? Ou nós estamos alheios porque nos basta o entretenimento individual da vida que vem em combos?

Tenho medo da cidade que se desenha para mim. Temo a arrogância que esconde o provincianismo para encarecer ainda mais o que não se pode oferecer. Preocupa-me estar diante de um pai que não reconhece seus filhos porque a mentalidade caducou pela demência da ganância.

Se minha cidade perdeu a memória, ela não saberá quem foi, não terá a dimensão do que faz a si própria, tampouco poderá corrigir uma rota de colisão talvez suicida. Hoje, desconfio que minha cidade é incapaz de responder a mais básica pergunta: quem sou eu?

Santos, como quaisquer endereços, nasceu para a metamorfose. O problema não é o novo tempo, mas a urgência com que ele insiste em nos atropelar, sem intervalo para que se recupere o fôlego da adaptação. Uma cidade ajoelhada às promessas de desenvolvimento, volúvel a cada novo objeto de desejo pode virar um frankstein de si mesma, sem direção planejada.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muita beleza, MARCUS: talento literário a que se junta o poder
de filosofar.

Da minha parte eu sou grato a Santos por aqui ter recomeçado
a minha vida já nos meus 28 anos!

Peço-lhe uma vez mais que continue a nos brindar com essas
suas qualidades.

Abraço!

Mozar Costa de Oliveira