segunda-feira, 18 de maio de 2015

A horrível que era linda


Ponte sobre o rio Itanhaém, há 30 anos

Henrique Net

Entre as décadas de 10 e 50, Itanhaém era linda. Não existiam as benfeitorias que os modernistas tanto amam, como o asfalto e altos prédios. Eu achava Itanhaém bela e formosa, mas ficou bem distante no passado.

Hoje, vejo Itanhaém com outros olhos, ela está horrorosa, acabada, não me lembra um balneário.

Quando Mongaguá e Peruíbe eram bairros de Itanhaém, esta cidade que não é cidade, e sim, um balneário, era linda por ter praias quase virgens, de areias brancas e dunas espalhadas em vários locais. Era linda sem as marcas da modernidade, ou seja, sem garrafas, fraldas descartáveis e tudo que é lixo.

No lugar do asfalto de hoje, bom para os condutores de veículos, existia a areia branca e suave, ótima para qualquer fotografia, mesmo sem ser colorida.

A Itanhaém de hoje nos mostra filas de bancos, pessoas agitadas com horários, pessoas correndo como se estivessem na capital. É a Itanhaém com costumes de metrópoles.

Antes, havia a travessia de um barqueiro para levar o povo ao outro lado da margem do rio. E as praias? As praias do Sonho e Peruíbe, que ganhou o nome de Cibratel, cujo nome foi alterado pelo capitalismo. A praia do Suarão, onde uma pessoa, em dia de sol, tirou o chapéu e esbravejou de calor: “ Minha nossa... Que Suarão”.

Travessia no rio Itanhaém
Quando eu caminhava na orla da praia, comumente avistava jundus e folhagens nativas. No rio, havia peixes enormes, em grandes cardumes. Os barcos eram talhados à mão. Canoas de um pau só, mas que faziam a alegria dos pescadores, quando subiam rio acima, para irem aos bailes distantes, espalhados por esta cidadezinha.

No inverno, pegavam-se tainhas apenas com uma canoa e um pedaço de madeira. Os pescadores remavam até o meio do rio, na calada da noite enluarada, davam uma paulada na borda da canoa, e os enormes cardumes de tainhas saltitavam enlouquecidos e caiam dentro dela. Às vezes, eles eram obrigados a devolver muitos peixes ao rio para a canoa não afundar.

Até mesmo no pocinho existiam peixes na maré alta, hoje nem na alta ou no mar. A modernidade levou os peixes consigo.

Os morros eram salpicados por centenas de espécies de aves; hoje, se avistarmos alguma, se torna um verdadeiro milagre. Na praça, existia um pelourinho, logo arrancado pela raiz.

Itanhaém era a cidade que mais produzia banana nessa nação; hoje nem de longe lembra os congestionamentos de chatas lotadas de bananas que vinham de sítios distantes. O congestionamento é de automóveis e pessoas.

Até o centro era mais bonito. Mesmo fotos em preto e branco mostram a beleza que a cidade não tem mais. Onde tudo tem piso e concreto, só imperava as areias brancas e a paisagem do mar.

Obs.: 4º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado no Gabinete de Leitura, em Itanhaém. 


Um comentário:

HENRIQUE NET disse...

OLÁ MARCUS...

FIQUEI EMOCIONADO POR ABRIR MEUS EMAILS E DAR DE CARA COM A SUA PUBLICAÇÃO.

COMO DISSE, JAMAIS HAVIA ESCRITO UMA CRÔNICA, E SÓ TOMEI A LIBERDADE EM ESCREVER, PARA PRESTIGIAR A SUA PALESTRA, ONDE VOCÊ DEMONSTROU O QUANTO É FÁCIL, MAS TAMBÉM É DIFÍCIL ESCREVER UMA CRÔNICA, PRINCIPALMENTE NO MOMENTO EM DAR UM TÍTULO ATRATIVO E ESCONDER AS PALAVRAS CERTAS E MÁGICAS PARA REVELAR O SURPRESA DO TEXTO, APENAS NO FINAL.

TENHO CERTEZA DE UMA COISA... VOCÊ ME TROUXE LEMBRANÇAS DOS MEUS ANTIGOS PROFESSORES DE ESCOLAS ESTADUAIS, ONDE DE UMA MANEIRA SIMPLES, MESMO SENDO COMPLEXA, ENSINAVAM OS ALUNOS COM MUITO MAIS CARINHO E DEDICAÇÃO, MUITO ANTES DAS LOUSAS DIGITAIS E DISPOSITIVOS MÓVEIS AO INVÉS DOS VELHOS LIVROS SURRADOS.

E ASSIM, COM AQUELES CADERNOS SEM BROCHURAS E LÁPIS APONTADOS HÁ QUASE TODO INSTANTE, FAZIAM SEUS ALUNOS PRESTAREM ATENÇÃO NAS AULAS, NÃO POR UMA TECNOLOGIA AS VEZES IMPRESTÁVEIS, MAS PELO NOSSO RESPEITO, EM RESPEITO AO AMOR DOS PROFESSORES PARA COM OS ALUNOS, QUE NOS FINAIS DAS AULAS, SEMPRE DAVAM UM SORRISO, E ERA COMUM TODOS ALUNOS SAÍREM DAS SALAS PARA IREM PARA SUAS CASAS, SEM PRECISAR ESTUDAR... AFINAL NEM ERA PRECISO, OS PROFESSORES DEPOSITAVAM EM NOSSAS CABEÇAS, O SABER SIMPLES SEM TANTA TECNOLOGIA.

E FOI DESSA MANEIRA QUE ME SENTI QUANDO ESTAVA FILMANDO SUA PALESTRA, PARA POSTERIORMENTE DISPONIBILIZÁ-LA NO BLOG DA POETISA LINA, E DE UMA MANEIRA BEM SIMPLES E CARISMÁTICA, NEM NOTEI O TEMPO DA FILMAGEM PASSAR.

NÃO SÓ FILMEI A SUA MANEIRA RARA DE ENSINAR AS PESSOAS, MAS SEM MESMO NOTAR, APRENDI COM ELA, SER CORAJOSO E ARRISCAR AS PALAVRAS, EM ALGO IMPENSÁVEL ANTES DESSE DIA, QUE SERIA ESCREVER UMA CRÔNICA.

VOCÊ SE MOSTROU AGRADECIDO. MAS EU ESTOU MUITO MAIS ME SENTINDO ASSIM, AFINAL... VOCÊ SEM SER E, SEM SE MOSTRAR AUTORITÁRIO, DISSE EM UM TOM DE DESAFIO, QUE EU SERIA CAPAZ DE ME ARRISCAR NAS LETRAS, MESMO NÃO TENDO INTIMIDADE COM ELAS, E DE UMA MANEIRA OU DE OUTRA, ME FORÇOU A ESCREVER, E DECIDI ATRAVÉS DO CURSOR E TECLADO DE UM CELULAR... CONTAR COMO ITANHAÉM ERA LINDA SEM O PROGRESSO, ONDE HOJE É ELA HORRÍVEL, ENFEITADA DE REGRESSO.

OBRIGADO MEU AMIGO... ACHO QUE POSSO LHE CHAMAR ASSIM.

HENRIQUE NET... CINEASTA BEM AMADOR, FILHO DA POETISA LINA.