sexta-feira, 8 de maio de 2015

A casa do frei Sebastião


Igreja Matriz de Itanhaém (Foto: divulgação)

Luiz Antunes

São 5h30 e frei Sebastião já está de pé. O senhor de tantos anos esconde a vitalidade de um jovem sem tempo a perder. Ele pula da cama e calça as sandálias franciscanas. Os pés pesados se arrastam pelo piso de madeira, o que permite se escutar o estalar do chão rústico por todos os cômodos da casa.

A residência abriga ainda o padre Pelonha, também sempre ocupado e preocupado com a Igreja Matriz de Itanhaém, da qual é responsável. Pelonha quase não para no sobrado de seis cômodos, localizado na área central da cidade, por conta das missas diárias.

Frei Sebastião faz de tudo para manter a casa em ordem. De manhã, ele arruma a cozinha e limpa as pesadas e barulhentas panelas de ferro. À tarde, quando ninguém mais está em casa, ele cuida da agenda de Pelonha. Ajeita a mesa do escritório, organiza os documentos e marca as missas da semana. Durante o período noturno, o frei guarda um tempo para varrer e ilustrar as escadas da casa.

Certa noite, uma família do interior de São Paulo, amiga do padre, veio fazer uma visita e ficou hospedada na residência. Era um casal acompanhado da filha, que passou a madrugada inteira relembrando a amizade e o passado com Pelonha. A jovem, adoecida e cansada, dormiu no quarto do andar de cima, enquanto os pais ficaram no escritório, no térreo.

Ao amanhecer, a moça despertou de um sono mal dormido por causa dos ruídos e arrastar de pés. Ela perguntou para o pai, inconformada, o porquê do barulho de passos na última noite. Ele respondeu sem entender: “Passos? Mas não saíamos do escritório de Pelonha”. Os sons só podem ter saído de uma pessoa. Sebastião.

O frei sempre foi a mente viva na organização da Igreja Matriz. Isso ficou claro quando o pároco Pelonha ficou incapacitado de realizar uma cerimônia. A missa estava marcada para as 18 horas e o relógio da sala de estar apontava 18h45. É quando o telefone toca. Do outro lado da linha, uma senhora ansiosa pela chegada do padre:

— Alô? É da casa do padre Pelonha? A que horas ele chega para a missa?

— Mas que missa? Eu não marquei nenhuma uma missa.

A senhora coça a cabeça sem entender.

— Claro que marcou. Liguei mais cedo confirmando o horário. Falei com o frei Sebastião, que me atendeu super bem.

Assustado, o padre Pelonha arregala os olhos e rebate.

— Frei Sebastião? O único Sebastião que morou nesta casa morreu faz 60 anos.

Obs.: 2º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado no Gabinete de Leitura, em Itanhaém/SP. 

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