domingo, 31 de maio de 2015

Um caranguejo para meu irmão


Marcus Vinicius Batista

Estou com insônia. Escrevo durante a madrugada porque estou preocupado com um amigo. Mais do que um amigo, ele é o irmão que eu nunca tive. Em 21 anos de amizade, ele nunca falhou comigo. Hoje, por sinal, me ajudou a resolver um problema. Veio com a solução no mesmo dia.

Meu irmão sempre esteve presente, principalmente nas horas mais complicadas e dolorosas. É claro que pôde também testemunhar as vitórias e os avanços, mas irmão é aquele que te empurra adiante na hora da crise, com atos ou com as frases certas. É para quem eu telefonei nas perdas pessoais e nas encruzilhadas profissionais.

Meu irmão se chama André Rittes. Ele é, talvez, o sujeito mais íntegro que conheço, junto com meu pai. O André me relembra a importância e cultivo de sentimentos essenciais para seguir em frente e resistir quando as derrotas se acumulam. Brincamos, muitas vezes, que vivemos num filme em andamento, com os vilões tomando a dianteira. O problema, diz ele, é que demora para chegar a reviravolta.

O André jamais apontou o dedo, no sentido moralista das palavras professorais. Ele me ensinou por atitudes, por ações, mesmo quando desconhecia que eu estava olhando, mesmo quando estava raivoso pela falta de reconhecimento ou por uma injustiça que sofrera.

Este meu irmão soube demonstrar qualidades como a lealdade, a sinceridade, o poder da confidência entre pessoas próximas. O André é o sujeito mais humilde que já conheci. É incapaz de pedir algo para si próprio, de utilizar de seu lastro profissional ou algo que o valha para trocar favores, ainda que ingênuos. André apoia e orienta porque se importa com quem o cerca. Ele pode se esconder em piadas, na irreverência, na franqueza de uma brincadeira em sala de aula, mas ele sabe valorizar e se mobiliza para dar o ombro a alguém que merece.

André é um profissional brilhante, como poucos que conheci. Ele me apoiou e me orientou quando começava como professor, há 13 anos. Um professor iniciante com experiência profissional em redações, mas com dificuldades teóricas. André fez o que raros fazem: me cedeu aulas, me passou conteúdos, me presenteou com arquivos que me permitiram sobreviver ao primeiro ano de docência.

Conheci André no jornalismo diário. Trabalhamos juntos por dois anos, na TV Tribuna, em Santos, época em que nossa amizade se estreitou. Um gigantesco editor, de texto refinado, faro para novidades jornalísticas, sensibilidade para respeitar o público, ironia para impactar colegas com decisões daquelas que dois segundos de reflexão são muito tempo.

Estou preocupado com o André porque sei o quanto ele vem sofrendo para publicar seu primeiro livro de ficção. Vejo-o sofrer com as dificuldades de ser reconhecido pelo texto brilhante que possui. Não falo agora do jornalista. Refiro-me ao escritor, que nasceu antes do editor.

Eu o convenci a retirar seus escritos da gaveta, certo de que eles merecem um livro à altura. E estou disposto a editá-lo. Não vou publicar um livro dele porque André é meu irmão. Não poderia ser desleal ou desonesto com quem reluziu sinceridade quando mostrei meus textos. Com quem foi capaz de meu dizer que eu era melhor jornalista do que ele, sem hipocrisia ou média. Com quem apontou minhas fragilidades como escritor, minhas deficiências e qualidades como cronista.

Não vou publicar um livro dele por um gesto de amizade, pura e simplesmente. Seria cínico se negasse a proximidade entre nós como um fator que pesa na balança, mas vou publicar “Os Caranguejos” porque o texto é de primeiríssima qualidade, mas de um autor que não é celebridade, não faz marketing pessoal ou exagera na dimensão de seus feitos.

O problema é que não consigo lançar esse livro sozinho. Não tenho recursos financeiros para isso. Minha editora está no começo da estrada e depende de campanhas de financiamento coletivo (crowdfunding), na maioria das vezes, para colocar a literatura na rua.

Escrevo este texto porque preciso de ajuda. Preciso que você, que chegou até aqui nesta leitura, confie em mim, certo de que, ao apoiar o trabalho do André, receberá um livro que pode ser lido sem receios.

Criamos uma campanha, cujas doações variam entre R$ 15 e R$ 500. Este valor mais alto é para empresas, mas permite contribuições de pessoas físicas. No entanto, o que peço é que invista no livro Os Caranguejos, que custa R$ 35. Para existir, o livro precisa ser adquirido na pré-venda. Quanto mais próximos da meta, mais exemplares poderei imprimir.

Peço seu apoio, seu auxílio. Compartilhe o link da campanha, converse com seus amigos e parentes e me permita te lembrar diariamente, neste espaço de rede social, o quanto o André merece ter um livro de ficção publicado. Convença as pessoas assim como tento convencer você!

Tenho certeza de que viverei outras noites de insônia por causa do meu irmão André Rittes. Só espero que por preocupações distintas, minhas como editor, em relação ao autor.

Assim, poderei entregar ao André o que ele conquistou por méritos: o direito de estar sentado, atrás de uma mesa, autografando exemplares que seus leitores – podem apostar!!! – não se arrependerão de ter comprado, seja por antecipação, seja no dia do lançamento.

Perdoe-me, André, por publicar este depoimento sem te consultar.

Muito obrigado a todos!

sexta-feira, 29 de maio de 2015

A vila


Praia dos Pescadores, em Itanhaém

Maria Rita Paschalis

Outro dia, eu passeava pela praça e escutei um antigo morador dizer à esposa:

— Já que estamos aqui na vila, vamos resolver tudo.

As lembranças começaram a me encher de saudades daquela Itanhaém antiga, da época em que vim para cá morar, onde o centro da cidade era chamado de “vila”. Era uma cidade pequena, muito acolhedora e todos se conheciam.

Lembro-me das minhas amizades de escola, e que algumas o tempo se encarregou de solidificar. Como não me remeter ao passado e rever os famosos desfiles cívicos em homenagem aos artistas que se encantavam com Itanhaém e por aqui vinham pintá-la?

As aulas de música com a professora Vanda eram um deleite, pois me alegrava saber que havia tantas músicas lindas sobre a cidade, que havia poetas que retratavam a região.

Um dia, eu e uma amiga “bolamos” as aulas de Educação Física para assistir às gravações da novela “Mulheres de Areia”. Tudo era uma sedução e muito novo para essa adolescente paulistana.

Gravação da novela Mulheres de Areia, nos anos 70
O padre José de Anchieta passeou pelas praias e pela praça também, pois sua estátua viveu a aventura de ter sido mudada de lugar por alguns prefeitos que governaram.

Da época da colonização só sobraram a Igreja Matriz de Sant’Anna, o convento e a antiga cadeia. Todo o comércio em volta da praça, além do calçadão, teve sua arquitetura modernizada. É uma pena que não pensaram na preservação das fachadas originais do tempo da colonização.

Centro de Itanhaém, na atualidade
Há pessoas muito comprometidas com a religião e fazem de tudo para que a festa tradicional, em comemoração ao Divino Espírito Santo, continue. Os colonizadores trouxeram-na de Portugal, aproximadamente no século XIII, quando a rainha Isabel “abdicou da coroa em favor do Divino Espírito Santo”.

E hoje, vejo que muita coisa mudou com o progresso e quase não conhecemos mais as pessoas que por aqui moram. Itanhaém cresceu e não é mais a mesma de outrora, mas a bela topografia encanta a quem para cá vem passear ou morar, e a minha relação com a cidade e com as pessoas, me fizeram adotá-la como minha cidade.

Obs.: 6º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado no Gabinete de Leitura, em Itanhaém. 

O cara do Face



Maykon Souza

No shopping, puxei o livro da mochila e percebi que estava sendo observado. Mal virei a primeira página e ela se aproximou. Devia ter uns 20 anos. Ficou se contorcendo, tentando ler o nome que estava na capa. Conseguiu:

— Ai, que legal...

— O quê?

— Ele tem livro?

— Como assim?

— O Caio tem livro...

— Que Caio?

— Esse que você tá lendo...

— Tem... vários... um dos maiores escritores do Brasil...


Ela não acreditou muito.

— Caramba... achei que ele era só o cara do Face.

— Cara do... ?

— Face... Facebook... internet... cê tem, né?!

— Tenho, tenho...

— Ele também.

— Quem?

— O Caio... tem um perfil todo fofo... Ele escreve cada coisa bonita.

— O Caio?

— Claro, pô. Não é dele que a gente está falando?!

— É que é impossível ele ter perfil.

— Por quê?

— Ele morreu...

— Impossível ele ter morrido!


Chegamos num impasse. Ela virou para o outro lado, como que digerindo a informação. Depois de um tempo, indignada:

— E quem atualiza o perfil dele, então?

— Ele é que não é.

— Cê ta brincando... não deve ser o mesmo... morreu de quê?

— AIDS.

— AIDS??? Então, ele era velhão?

— Velhão?

— É, ué! AIDS não é aquele negócio que dava nos anos 80?


Novamente, um impasse. Dessa vez, eu é que virei para o outro lado para digerir a informação.

— Lê um pedaço aí pra mim.

— Qualquer um?

— É.

— Lá vai: “Aquele negrão, sabe aquele negrão de cabelo rastafári que fica sempre ali no Quênia’s Bar? Aquele que vende fumo, diz que tem vinte e cinco centímetros, já pensou? Isso não é uma jeba, é uma jibóia. Até vinte agüento numa boa, até o cabo. Vinte e cinco não sei, tenho até medo. Pode rasgar a gente por dentro, sei lá”. *

— Ele escreveu isso?

— Sim.

— O Caio?

— Claro, pô. Não é dele que a gente está falando?!


Ela se levantou, indignada:

— Ele escreve coisas fofas, não isso aí. Ele fala de amor, esperança, sorriso. Coisas pra valorizar a gente. Ele tem frases que se encaixam em todos os momentos da vida da gente.

— Isso é Minutos de Sabedoria, não Caio Fernando Abreu.

— Minutos de quê?

Reparei que outra garota tinha se aproximado. Resolveu entrar na conversa:

— Que foi?

— O cara aí tá dizendo que conhece o Caio.

— Que Caio?

— O do Face!

— Ah, tá... prefiro a Clarissa...

— Que Clarissa?

— Ah, sei lá. Acho que é Espectro.

— Não é Clarissa, é Clarice, sua burra!

Começaram a tirar sarro uma da outra e se foram sem dar tchau. Da próxima vez que estiver em público, puxo um Dostoiévski. Duvido que ele também tenha perfil fofo no Face.

* O trecho foi extraído de uma frase da personagem Jacyr, do livro Onde Andará Dulce Veiga?, publicado em 1990.

terça-feira, 19 de maio de 2015

O intendente




Joana Soares Merlin 

Da casa grande, na esquina da Rua Cunha Moreira, já não se ouvia o mar. O reboliço era grande. Médicos e enfermeiras entravam e saiam, os filhos mais velhos e Ursula, a esposa do intendente Isaías Cândido Soares. Ele ardia em febre e gemia de dores num leito estreito do quarto simples.

A filha menor, Iracema, chorava pelos cantos. Tinha seis anos. Quem a levaria à escola, do outro lado da vila, se o pai já não podia se levantar, a mãe nunca saia de casa, e os irmãos não tinham tempo para ela, ciumentos dessa filha temporã, a favorita do pai? Quanto tempo ficaria esse pai, jogado como um trapo no quarto escuro que cheirava a remédios caseiros?

Ouvia os adultos cochichando pelos cantos, perguntando-se quando retornaria o mensageiro enviado a Santos para buscar o remédio recomendado pelo médico, o único que poderia salvar seu pai. Um dia, dois? O mensageiro tinha ido a pé, por falta de uma estrada de ferro ou de meios de transporte mais rápidos.

O padre fora chamado, ainda que todos esperassem a melhora do doente. Fazia-se o tempo uma eternidade. Crescia o desespero à medida que o doente piorava. E o mensageiro não chegava! Quando voltou finalmente, era tarde demais.

Ao fechar os olhos para sempre, lembrou-se o moribundo de tudo que construíra, com tão pouco, pela vila que tanto amava. O novo traçado das ruas, o Gabinete de Leitura. E tanto mais!

Alheia a tudo, a menina chorava. Que consolo seria, para ela, a bandeira que mais tarde envolveria o simples caixão de madeira de seu pai? Que importava a banda que acompanhou o cortejo, seguido por tanta gente? Ele já não estaria lá, para mimá-la.

Assim foi o fim de Isaias, meu avô! Sua morte prematura causou dor e orgulho em minha mãe. Orgulho também, pois a vida dele foi curta, mas rica em experiência e exemplos. As pequenas sementes, plantadas por ele e seus contemporâneos, floresceram na Itanhaém de agora!

Obs.: 5º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado no Gabinete de Leitura, em Itanhaém.


segunda-feira, 18 de maio de 2015

A horrível que era linda


Ponte sobre o rio Itanhaém, há 30 anos

Henrique Net

Entre as décadas de 10 e 50, Itanhaém era linda. Não existiam as benfeitorias que os modernistas tanto amam, como o asfalto e altos prédios. Eu achava Itanhaém bela e formosa, mas ficou bem distante no passado.

Hoje, vejo Itanhaém com outros olhos, ela está horrorosa, acabada, não me lembra um balneário.

Quando Mongaguá e Peruíbe eram bairros de Itanhaém, esta cidade que não é cidade, e sim, um balneário, era linda por ter praias quase virgens, de areias brancas e dunas espalhadas em vários locais. Era linda sem as marcas da modernidade, ou seja, sem garrafas, fraldas descartáveis e tudo que é lixo.

No lugar do asfalto de hoje, bom para os condutores de veículos, existia a areia branca e suave, ótima para qualquer fotografia, mesmo sem ser colorida.

A Itanhaém de hoje nos mostra filas de bancos, pessoas agitadas com horários, pessoas correndo como se estivessem na capital. É a Itanhaém com costumes de metrópoles.

Antes, havia a travessia de um barqueiro para levar o povo ao outro lado da margem do rio. E as praias? As praias do Sonho e Peruíbe, que ganhou o nome de Cibratel, cujo nome foi alterado pelo capitalismo. A praia do Suarão, onde uma pessoa, em dia de sol, tirou o chapéu e esbravejou de calor: “ Minha nossa... Que Suarão”.

Travessia no rio Itanhaém
Quando eu caminhava na orla da praia, comumente avistava jundus e folhagens nativas. No rio, havia peixes enormes, em grandes cardumes. Os barcos eram talhados à mão. Canoas de um pau só, mas que faziam a alegria dos pescadores, quando subiam rio acima, para irem aos bailes distantes, espalhados por esta cidadezinha.

No inverno, pegavam-se tainhas apenas com uma canoa e um pedaço de madeira. Os pescadores remavam até o meio do rio, na calada da noite enluarada, davam uma paulada na borda da canoa, e os enormes cardumes de tainhas saltitavam enlouquecidos e caiam dentro dela. Às vezes, eles eram obrigados a devolver muitos peixes ao rio para a canoa não afundar.

Até mesmo no pocinho existiam peixes na maré alta, hoje nem na alta ou no mar. A modernidade levou os peixes consigo.

Os morros eram salpicados por centenas de espécies de aves; hoje, se avistarmos alguma, se torna um verdadeiro milagre. Na praça, existia um pelourinho, logo arrancado pela raiz.

Itanhaém era a cidade que mais produzia banana nessa nação; hoje nem de longe lembra os congestionamentos de chatas lotadas de bananas que vinham de sítios distantes. O congestionamento é de automóveis e pessoas.

Até o centro era mais bonito. Mesmo fotos em preto e branco mostram a beleza que a cidade não tem mais. Onde tudo tem piso e concreto, só imperava as areias brancas e a paisagem do mar.

Obs.: 4º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado no Gabinete de Leitura, em Itanhaém. 


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Envelhecendo ...




Marcus Vinicius Batista

A cidade envelheceu comigo. Não é apenas meu corpo que se arrasta com mais lentidão ou meus reflexos que respondem tardiamente. O mundo ao redor mudou e, com ele, imagens se enrugaram em lembranças.

Minha cidade, como qualquer outra, é dinâmica, que renasce pelos que chegam, pelos que a deixam por uma chance melhor, pelos que retornam em busca do que não retorna mais. A cidade se sacode pelo mito do progresso, pelas batalhas diárias entre o velho e o novo.

Minha cidade se desfaz com a demolição de símbolos de experiências, com a cegueira de edifícios parecidos com penitenciárias de luxo que me impedem de sentir o vento marítimo ou enxergar o outro lado de suas fronteiras.

Minha cidade ruiu quando vi a escola onde estudei por anos, por ironia no bairro de nome Pompéia, sobreviver em fotografias. Sua vizinha, a casa onde discursei na colação de grau, hoje é refém de torres pós-modernas, mas alicerçadas em velhos valores.

A casa onde amigos de infância me acolheram, no Boqueirão, sumiu em dias, para dar lugar – num futuro próximo – às gentes que escolhem entre o armário e a cama para habitar um quarto. A casa de reuniões de escola desapareceu como pela mágica quase infantil que um de seus moradores fazia durante as festas de aniversário.

O sequestro daquela casa abriu um buraco no Boqueirão, cada vez mais contraditório pela escassez de árvores por vezes esquartejadas, paradoxal pelo verde que cede ao cinza do concreto, a pintura cult dos imóveis vazios.

A cidade em que vivo caminha mais rápida e perversa do que meus olhos podem acompanhá-la. A cidade perde a doçura que alimentava, por exemplo, vários cantos do Gonzaga, o que o faziam parecer com uma pequena Viena, hoje afogada em luminosos, congestionamentos e preços nova-iorquinos.

Envelhecer é compreender que seu mundo também se apaga aos soluços. Dar lugar a outro cenário é fato, mas sem retirar o prazer de, ao menos, palpitar sobre ele. Conseguimos mensurar ou entender o que se passa? Ou apenas usufruímos, concordamos e pagamos a conta como fiéis e servis consumidores da trajetória decidida pelo alheio? Ou nós estamos alheios porque nos basta o entretenimento individual da vida que vem em combos?

Tenho medo da cidade que se desenha para mim. Temo a arrogância que esconde o provincianismo para encarecer ainda mais o que não se pode oferecer. Preocupa-me estar diante de um pai que não reconhece seus filhos porque a mentalidade caducou pela demência da ganância.

Se minha cidade perdeu a memória, ela não saberá quem foi, não terá a dimensão do que faz a si própria, tampouco poderá corrigir uma rota de colisão talvez suicida. Hoje, desconfio que minha cidade é incapaz de responder a mais básica pergunta: quem sou eu?

Santos, como quaisquer endereços, nasceu para a metamorfose. O problema não é o novo tempo, mas a urgência com que ele insiste em nos atropelar, sem intervalo para que se recupere o fôlego da adaptação. Uma cidade ajoelhada às promessas de desenvolvimento, volúvel a cada novo objeto de desejo pode virar um frankstein de si mesma, sem direção planejada.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Medo compartilhado




Célia Regina Ignatios de Andrade

Ela abriu a porta do apartamento e disse oi. Ele, com ressaca, nada respondeu. Estava caído no sofá, tentando esquecer a noite anterior, muito agitada. Drogas, sexo desconexo, pensamentos perplexos, estava sem reflexos.

Ela foi até a cozinha, abriu a geladeira, vazia como tudo em sua vida. Ele reclamou que a cerveja acabou. Ela gritou que estava com fome. Os dois se enlaçaram no sofá e esperaram o tempo passar.

O telefone tocou. Os dois estremeceram.

É para você, disse ele. Não, é para você, respondeu ela.

O telefone continuou tocando, tocando e tocando. Os dois se olharam. Seria ele?, ambos se perguntam.

“Como saberia o nosso telefone, não demos a ninguém. Foi engano.”

“Não, esse tipo de pessoa nunca se engana.”

O medo e o pânico tomaram conta das duas mentes conturbadas. Apavorados, se abraçam e choram compulsivamente. Ele diz que vai embora. Ela não tem para onde ir.

“O melhor que temos a fazer é atender e marcarmos um encontro.”

Não demora muito, o telefone toca novamente e, num sobressalto, ela atende com a voz e as mãos trêmulas.

Diz alô um tanto assustada e do outro lado da linha alguém responde:

“Boa tarde, aqui é da Vivo, gostaria de falar com o responsável pela linha.”

Ela desliga o telefone sorrindo, enquanto que do outro lado da linha só se escuta tu,tu,tu,tu....

Obs.: 3º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado no Gabinete de Leitura, em Itanhaém. 



quarta-feira, 13 de maio de 2015

O beijo (Primeiro Sexo #2)


Foto da Life Magazine, pós-Segunda
Guerra, um clássico
Paula Vinhedo

Sempre me assustei com algumas frases que ouço em salões de beleza. Primeiro, me recuso a chamar de clínica de estética e outras nomenclaturas de dondocas. Segundo, ainda me choco com pérolas românticas como: “por que tenho que beijar meu marido na boca quando transamos?” “Por que devo beijá-lo de língua se a paixão terminou?”

Os diálogos seguem com consultorias de banheiro, tagarelices cosméticas dignas das revistas que consumimos enquanto esperamos a próxima etapa do banho e tosa. Muitas de nós adoram receitas de conquistas, fórmulas para o beijo fatal e o sexo arrebatador. Nessas horas, prefiro não gastar meu dinheiro em clínica sentimental, só estou ali para melhorar a aparência.

Passo, às vezes, dois, três dias sem beijar meu marido na boca. Beijo de língua, quero dizer. Selinhos, são vários por dia, em situações triviais, chegadas, despedidas, de boa noite, de bom dia, cruzamentos no corredor, elogios, boas e más notícias. Beijo, para nós, é uma expressão cotidiana de afeto e de cumplicidade.

O beijo não precisa ser caliente. Deve atender à ocasião, deve nascer sem pedido do outro, com a espontaneidade do carinho de quem acolhe ou divide um fato, compartilha uma experiência. Vale até quando gritamos por atenção. Reduz a velocidade do outro, que tanto o aproxima da fadiga ou do stress. O beijo é a carta que referenda que estamos juntos, existimos porque ele e eu vivemos mais um dia, com o outro e conosco.

Sinto falta do beijo de língua. Faz mal à nossa saúde ficarmos sem ele. Isso não significa que o desejo diminuiu, a vontade acabou, o amor corre risco. A ausência de beijo de língua é a marca indelével de que precisamos fechar para balanço. Por segundos. Os dias andam corridos, as conversas entrecortadas pela solução de problemas, os carinhos são afagos de pequenas vitórias.

O beijo de língua não é, ao contrário das queixas das moçoilas do salão, um ritual pré-sexo. O sexo brota por outros motivos não combinados e resultam em um gôzo além da obrigação do prazer próprio. Sexo brota, não é item de agenda nem pauta de reunião corporativa. E há sexo bom sem beijo e ruim com muito beijo. Por aí, é claro, jamais em casa!

Eu e meu marido combinamos de, diariamente, nos beijarmos de língua. O tempo se encarregou de me mostrar que a estupidez vive em nós. Sempre à espera de uma ideia de jerico. Por dádiva divina, não deu certo. A proposta – confesso que partiu de mim – foi demolida no segundo dia. O ritmo de trabalho agiu como o mistério da fé.

Beijo não é matemática nem artigo de manual de etiqueta conjugal. Nós nos beijamos sem perceber que o fazemos. Não existe medidor de quantidade ou balança que estabelece a “gordura” do beijo. Assim o vivenciamos. Assim nos respeitamos. Assim o repetimos quando os olhos suplicam pelo toque seguinte.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Vingança é um copo que se bebe gelado




Edwar Fonseca

Cerveja é cerveja. Sempre foi.

Se parar para pensar e analisar friamente, a cerveja comum, bebida nos bares da vida é como água. Praticamente insípida, incolor e inodora. Todas as marcas são praticamente iguais. Diferem-se apenas por dar mais ou menos dor de cabeça no dia seguinte.

Bebo cerveja desde que minha mãe permitiu. Faz tempo. Mas cerveja sempre foi a mesma, amarela e super gelada. Tem bares que as servem a -5°. É o mesmo que lamber gelo. Sempre penso em como ficaria minha língua caso eu a encostasse em algo a esta temperatura negativa! Será que gruda?

Depois que eu participei de um curso e aprendi a fazer cerveja, minha vida mudou. Vi que existia vida fora daquela redoma virtual de amarelice e congelitude.

Como todo novato que devora livros e logo de cara acha que sabe tudo, fui ao restaurante com cervejas com todos os sabores e aromas possíveis. Amargas, doces, frutadas, sabor de ameixa, amêndoas, cítrico, ervas, cor de laranja, pretas, marrons, vermelhas, âmbar, quase brancas. Tudo o que eu queria.

Mas ela estava ali na minha frente, me desafiando, uma garrafinha de 355 ml, escura, com rótulo prateado, escrita com letras esquisitas. Não tentei traduzir o que estava escrito. Ela me provocava: “Quero ver se tu tem coragem”.

Decidi. Queria provar. Queria testar meu paladar preparado para os mais variados tipos de sabores. Eu li que tinha 14° de álcool contra os 5° das normaizinhas.

Avisei o garçom que queria uma, igual aquela, só que gelada, claro. De acordo com a literatura, deveria ser servida entre 8°C (temperatura de porta de geladeira) e 12°C. Não quente, mas também não -5°. Apenas fria.

Chegou o objeto do desejo. Mas estava trincando. Eu a segurava, para transferir calor da minha mão e, enquanto isso, me preparava para o que viria. Pensava em todas as possibilidades durante os poucos segundos que levaria da mesa até encostá-la no meu lábio.

Um gole suficiente. Pouco. Queria sentir o sabor. Degustar.

“Aaaafe, o que é isso?” Forte demais, doce demais, enjoativa, não gostei! Nunca imaginei que provaria uma cerveja para dizer: “Não gostei”. Arriscaria até a dizer: “Horrível. Não vou conseguir beber até o fim”.

Pensei: “Será que está estragada ou será que definitivamente eu ainda não estou preparado para entender esta cerveja?” Ninguém produziria algo tão ruim! Estava fora da minha compreensão.

Não consegui terminar a comida. Estragou o paladar. A cerveja ficou no copo. Fui vencido por ela.



Anos se passaram, cervejas e cervejas foram degustadas. Produzi várias dezenas de sabores e aromas diferentes. Das mais leves até as mais fortes, alcoólicas e as mais amargas possíveis. Tudo dentro do meu gosto.

Marcamos um encontro da confraria no mesmo restaurante. Para minha surpresa, meu amigo - sentado na cadeira ao lado - pede “ela”, a famigerada que estragou meu paladar anos atrás.

Vi ali a oportunidade da minha vingança. Podia acabar com a raça dela. Humilhar e rebaixá-la a nada. Balançar a garrafa e jorrar todo o líquido longe! Mas parei e pensei: “Esse cara é sommelier formado”. Então, ele deixou a cerveja ali, esquecida para que propositalmente esquentasse um pouco até atingir a temperatura ideal de consumo. Ela novamente me encarou.

Meu amigo serviu, virou para mim e disse: “Prova e me diz o que você sente!”. Quase falei de imediato: “Ódio”. Pensei: “O cara não manja e está querendo se aproveitar da minha opinião”. Ele provou e soltou um: “Pô, sacanagem”.

“Aha”, eu sabia que não estava errado! Eu iria alerta-lo. Não foi por mal.

Ele completou: “Que delicia! Sente o suave calor do álcool! Sente o sabor extra doce de frutas, como ameixa, para contrabalancear a forte presença do álcool”.

E, então, provei. Com calma, prestei atenção a cada detalhe. Eu é que era prepotente. De uma forma deliciosamente diferente, ela me venceu outra vez.

O homem-pantufa




Maykon Souza

Ela disse para eu não tirar a barba. Falou que estava bonito. Estranhei. Ela percebeu.

— Sério. Deixa, insistiu.

— Mas, você odeia...

— Odiava.

Ela não é dessas que muda de opinião tão facilmente. Ainda mais em um assunto como esse, quase um tabu. Não tenho barba, mas pentelhos faciais, como dizem alguns amigos, que já me viram abandonar de vez a gilete para ver se ganhava um ar mais machão.

Doce ilusão. Fios finos, desordenados, que me deixam mais parecido com um hesitante e tímido adolescente do que com um charmoso e másculo homem barbado. Mais para um virgem dos anos 90 do que para um macho alpha da novela das oito...

Já passei a gilete todo dia na esperança de ver um pelo cada vez mais espesso e escuro tomar o rosto. Disseram que cresceria rápido, uma barba bonita, cheia. Esfolei o rosto e, óbvio, nada de barba.

É fácil imaginar que, desde sempre, ela rejeitou meu visual Justin Bieber metido a rebelde. Traço toda essa anatomia da minha barba – ou da minha não-barba – para dizer que é muito estranho que ela, agora, de uma hora pra outra, diga que prefere que eu não tire esses pelinhos da cara.

— Tô começando a gostar dela.

— Assim, do nada?

— Não é do nada... ela foi me conquistando.

— Fala sério.

— É que quando ela tá crescendo, me espeta. Quando já tá grande, não. Se você fizer, vai crescer de novo e vai me incomodar. Se não fizer, não vai me incomodar.

Prática e objetiva. Didática até. Então, esse era o segredo. O lance era a comodidade. Ela tinha largado mão de ter um marido bem apessoado. Desejava mesmo o fim do espetar constante de uma barba sempre porvir. Do jeito que estava era feio, mas gostosinho.

Crise existencial! Das brabas.

Estaria eu virando uma espécie de homem-pantufa, bom para ficar em casa, confortável, gostosinho, mas que poucas pessoas têm coragem de convidar para sair na rua?

Pior: estaria ela topando sair de pantufas na rua, de vez em quando, em nome da comodidade? Em nome de nada lhe espetar as bochechas no meio de um beijo de boa noite?

Estaria na hora de colocar as barbas de molho e me acostumar também com a ideia de que, com o casamento, o relacionamento entrou no estágio do “é feio, mas é meu. E, pelo menos, não me espeta!”?

Se houvesse um índice capaz de medir o nível de pantufalização de um casamento, certamente a barba por fazer – especialmente quando não há barba de macho alpha, mas pentelhos a la Macaulain Culkin – está entre as infrações que mais somam pontos. Ao lado da calcinha bege confortável e da samba-canção sem elástico.

Corro para o banheiro: não à pantufalização!

Amor, por você, faço a barba todo dia. Assim, ela nunca estará por fazer. Não estando por fazer, não te espetará. Não te espetando, viveremos felizes para sempre! Gilete, espuma para barbear e lá vou eu: a primeira faz tchã, a segunda faz tchum e a terceira... machuca, arranha.

Amor, por você, faria a barba sempre que você pedisse. Mais sensato assim. Paro, olho para o espelho. No todo, até que a coisa não é tão feia. Mas, não sou quem decide isso.

— Amor, você acha que tá legal mesmo? - grito para o quarto, sem tirar os olhos do espelho.

Os fios estão mais revoltosos, prestes a liderar uma rebelião bem no meio da minha cara. O bando que ataca pela bochecha direita é mais volumoso. O outro, mais esparso, com alguns soldados ruivos avançando descoordenadamente na direção do nariz.

— Claro, amor, prefiro assim, grita ela lá de dentro, já meio sonolenta. “Tá bonito até”.

Assim, um homem-pantufa feliz enxagua o rosto, mete um sorriso satisfeito na cara e pula na cama, pronto para um suave beijo de boa noite!

domingo, 10 de maio de 2015

A bruxa


Marcus Vinicius Batista

Minha mãe era uma bruxa. Sem hipocrisia, sem fazer média, sem parecer agradável em dias comemorativos, ela fazia questão de prejudicar quem estava à sua frente, quem atrapalhava seus interesses. Ela morreu há quase dois anos e, com as cicatrizes do tempo, me sinto mais confortável para te contar sobre o que ela foi capaz de fazer.

Nos últimos tempos, ela tinha problemas com uma amiga. Na verdade, falsa amiga, pois minha mãe não a via como tal. Passava-se por pessoa próxima para manipulá-la, para prejudicá-la. Achava-a insuportável e nada merecedora do que possuía. Sentia que apenas devolvia na mesma moeda. Como podia ter uma vida melhor? Como podia ser mais amada? Como podia receber tudo de mão beijada, enquanto ela – mais inteligente e perspicaz – lutara, lutara e não saíra do lugar?

Minha mãe fazia o mal sem duvidar. Só duvidava de que era mal. Era justiça social, era retribuição para livrar o mundo de quem falava em pausas, com serenidade quase infantil. Retribuição, na minha perspectiva, poderia ser traduzida como exercício de poder. Querer – e somente por desejar – o que o outro tinha ou ganhara por dom, talento ou mérito.

A amiga assumia o papel de alvo ideal. Ingênua, insegura, frágil, via em minha mãe um porto para ancorar suas dúvidas. Minha mãe era explícita pelas costas. Dúvidas, que nada! Teatrinho para conseguir atenção. Por que os fracos recebem tanto?

Minha mãe acabou consumida pela inveja. Mobilizou a vida cotidiana em torno de uma vingança sem outro lado da moeda. Construiu alianças de ocasião, fomentadas e alicerçadas pelos mesmos sentimentos, nobres para ela, perversos para os idiotas da honestidade.

A cada desgraça desta última vítima, o sorriso brotava nos cantos da boca. O choro alheio era a gargalhada de horas depois, com os aliados ou solitária, sem perceber que poderia ser ouvida. Sempre desconfiei que ela clamava por ser vista e as risadas a traziam aos holofotes. Só perdia para a voz rouca e sem vida de outra amiga, ela que também teria sua dose de rancor em tempos que não puderam ser vividos.

Naquela tarde, minha mãe representou a melhor bruxa que poderia ser. Azucrinou outros personagens, se aliou a outros escroques, despejou o texto conforme a pouca experiência para que Feiurinha se machucasse, se desse mal. A peça O Fantástico Mistério de Feiurinha, de Pedro Bandeira, foi a única apresentação de minha mãe como atriz, uma vilã clássica da dramaturgia infantil. 


Aquela tarde pariu o clímax de uma história que durou três anos, período que frequentou a Universidade Aberta da Terceira Idade. Uma etapa que a modificou, com a profundidade que os papéis simples exigem. Muito mais do que o ano e meio em que tive prazer de (fingir) dar aulas para ela.

sábado, 9 de maio de 2015

Fluxo perfeito



Matheus Doncev

Ela magra, de baixa estatura e extrovertida. Ele magro, baixo e extrovertido. Por amigos em comum, se encontraram em um show de rock, aqui na Baixada Santista. Logo ele percebeu algo diferente de todas as outras garotas que estavam na roda de amigos: a vontade de ser quem realmente é. Curtiu, pulou, dançou. Passaram horas conjuntas conversando até combinarem algo para o dia seguinte, um sábado.

O tempo sobrava para conversas que tornaram a amizade maior. Como alguns amigos costumam dizer, ela era uma brother de peitos. Partilhavam histórias diferentes sobre suas vidas particulares, que causavam risos.

Ela é bem inteligente, reservada, determinada. Ninguém atrapalha sua vontade. Ela quer, ela vai ter. Se você não quer ter com ela, vaza! Ela o acalmava. Sempre esquentado, ele se perdia em sangue quente para que depois fosse desabafar com ela. Geralmente conversas sobre as mulheres dele.

Ficaram mais próximos. Quando ela o apresentou à família, ele quebrou o clima com uma brincadeira de que não era amizade e que haveria uma lua de mel em Paris.

“E se...¿”, ele pesou.

O final de ano foi turbulento para ambos, cheio de reviravoltas. As coisas mudaram. O “e se tudo mudasse” estava acontecendo. As pessoas não os viam mais como um simples casal de amigos, mas sim um casal. Estava explícita na forma de andar de mãos dadas. Em uma noite, depois de tantos dias de espera, um beijo aconteceu.

A brother de peitos virou polícia. Digo, namorada. Ela dizia que era para ser única, mostrava o desejo em estar ao lado. Mostrou um lado diferente. Chefona, teimosa, amorosa. Não pede, manda. E ai de você se sair da linha... Demorar para responder mensagem é uma passagem para o mundo da suas negas. A não satisfação do sumiço se resume em “estava com as suas negas”. Usa o passado a seu favor, mostra que com ela não tem boi.

Ele virou um bobo apaixonado. O jeito explosivo causou desandadas no relacionamento. Teimosia dos dois lados faz cabeças duras colidirem. Tudo ficou cinza, normal. Términos e voltas, amores e ódios, sorrisos e lágrimas. Um relacionamento que prova que amar não é simples. Mas se é por alguém que vale a pena, ainda assim é um fluxo perfeito.

Obs.: 3º texto a partir do curso "Escrita Criativa", ministrado no Espaço Certo, em Santos/SP. 


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Bem geladinho (A vida começa nos anos 80 - # 3)




Ricardo Rugai

Não era mendigo e muito menos um dos vários bêbados que andavam pelo Saboó, em Santos. Era um biscateiro, como se dizia, vivia de bicos, ora consertando um encanamento, ora ajudando numa obra, sem paradeiro profissional. A vida toda fora assim, preferia isso a ter emprego fixo, trabalhar todo dia e ter patrão.

Pagava um preço. Às vezes, enchia o bolso numa semana e antes de chegar o domingo o dinheiro lhe escapava entre os dedos. Juntar jamais, comprar algo para garantir o futuro nunca. Tinha casa, sem escritura, sem papel, sem aluguel, conta de luz ou água.

Apesar da pobreza, nunca dispensou a cerveja. Encostava no balcão e o braço com vida própria logo pousava perto de um copo. Cultivava um calo junto ao cotovelo pelo movimento repetido por anos. Ele sempre pedia Brahma, que julgava superior. Acostumou-se a isso e dizia ao dono do boteco:

— Bem geladinha! E devolvia irritado as mal geladas.

Vivia assim desde moleque. Estava com 47. Sem mulher, sem saber dos quatro filhos que fizera pelo mundo. O trabalho não aparecia como antes. No passado, até fugia do trampo, mentia dizendo que tinha outro serviço na frente e passava dias, até semana toda, curtindo praia.

Agora a coisa era outra. Além do trabalho não dar as caras, ele não tinha ânimo de procurá-lo. Estava velho demais para mudar, era o que dizia. Sem trabalho, comia um dia na casa de um, visitava um amigo no outro. Não tinha gastos. Mas faltava o da cerveja...

— Dinheiro... dinheiro não tem ... a frase era cada vez mais ouvida pelos bares do Saboó e Chico de Paula.

Como sempre parava nos botecos, encostava no balcão e com a eterna naturalidade pedia – Uma Brahma! ... Bem geladinha! A garrafa vinha, bem geladinha, ele sorvia o primeiro gole com aquele prazer que somente os bons bebedores conhecem, aquele primeiro gole em dia de calor. Bebia uma, às vezes duas ou três, mas não passava disso. Não bebia cachaça. Depois, saia caminhando devagar.

Não pagava mais.

Nas primeiras vezes, os donos de boteco da área pensaram que era esquecimento, mas já entortavam a cara. Xaíco chegava e mandava a letra:

— Uma Brahma! Bem geladinha!

Ela vinha, ele bebia e ia saindo, sem mais nem menos, nem pedia prá pendurar, como se beber umas cervejas fosse uma espécie de direito inerente que constava na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Os botequeiros da área se enfezavam:

— E aí, Xaíco? Não vai pagar de novo?

Ele olhava e respondia tranquilamente:

— Dinheiro não tem... e saía caminhando em passo lento. Um ou outro perguntava se ele queria pendurar, mas Xaíco só respondia:

— Não adianta porque... dinheiro não tem...

Os chapéus de Xaíco duraram quatro meses. Sempre revezando o prejuízo nos botecos, cada dia bebia num diferente, mas não deixava de ir a cada um do bairro pelo menos uma vez na semana.

Um dia, Xaíco sumiu. Acharam o corpo dele peneirado por 11 balas de uma pistola ponto quarenta. Diz a lenda que antes de morrer não suplicou, não correu e nem prometeu pagar. Só pediu ao “encarregado” uma última vez:

— Uma Brahma! Bem geladinha!

E avisou antes:

— Dinheiro não tem...

Antes de executar a missão, o sujeito esperou pacientemente que ele bebesse os 600 ml da garrafa, conferiu o pente, destravou e fez o serviço. Saiu tranquilo, pensando na metade do pagamento que faltava e na Brahma “Bem geladinha!” que iria beber ali perto mesmo.

O cadáver de Xaíco foi despejado ali mesmo, no IML do Saboó, atrás da favela do Pantanal. Na chegada, um dos funcionários berrou:

— Chegou mais um presunto!

O parceiro, vendo que era o Xaíco, gritou de volta:

— Bem geladinho? Caíram na gargalhada e decidiram tomar uma em nome dele após o trabalho.

A casa do frei Sebastião


Igreja Matriz de Itanhaém (Foto: divulgação)

Luiz Antunes

São 5h30 e frei Sebastião já está de pé. O senhor de tantos anos esconde a vitalidade de um jovem sem tempo a perder. Ele pula da cama e calça as sandálias franciscanas. Os pés pesados se arrastam pelo piso de madeira, o que permite se escutar o estalar do chão rústico por todos os cômodos da casa.

A residência abriga ainda o padre Pelonha, também sempre ocupado e preocupado com a Igreja Matriz de Itanhaém, da qual é responsável. Pelonha quase não para no sobrado de seis cômodos, localizado na área central da cidade, por conta das missas diárias.

Frei Sebastião faz de tudo para manter a casa em ordem. De manhã, ele arruma a cozinha e limpa as pesadas e barulhentas panelas de ferro. À tarde, quando ninguém mais está em casa, ele cuida da agenda de Pelonha. Ajeita a mesa do escritório, organiza os documentos e marca as missas da semana. Durante o período noturno, o frei guarda um tempo para varrer e ilustrar as escadas da casa.

Certa noite, uma família do interior de São Paulo, amiga do padre, veio fazer uma visita e ficou hospedada na residência. Era um casal acompanhado da filha, que passou a madrugada inteira relembrando a amizade e o passado com Pelonha. A jovem, adoecida e cansada, dormiu no quarto do andar de cima, enquanto os pais ficaram no escritório, no térreo.

Ao amanhecer, a moça despertou de um sono mal dormido por causa dos ruídos e arrastar de pés. Ela perguntou para o pai, inconformada, o porquê do barulho de passos na última noite. Ele respondeu sem entender: “Passos? Mas não saíamos do escritório de Pelonha”. Os sons só podem ter saído de uma pessoa. Sebastião.

O frei sempre foi a mente viva na organização da Igreja Matriz. Isso ficou claro quando o pároco Pelonha ficou incapacitado de realizar uma cerimônia. A missa estava marcada para as 18 horas e o relógio da sala de estar apontava 18h45. É quando o telefone toca. Do outro lado da linha, uma senhora ansiosa pela chegada do padre:

— Alô? É da casa do padre Pelonha? A que horas ele chega para a missa?

— Mas que missa? Eu não marquei nenhuma uma missa.

A senhora coça a cabeça sem entender.

— Claro que marcou. Liguei mais cedo confirmando o horário. Falei com o frei Sebastião, que me atendeu super bem.

Assustado, o padre Pelonha arregala os olhos e rebate.

— Frei Sebastião? O único Sebastião que morou nesta casa morreu faz 60 anos.

Obs.: 2º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado no Gabinete de Leitura, em Itanhaém/SP. 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Os sons do progresso


Beatriz Franco

Mariana deita na cama para dormir. Já passa da meia-noite e o dia foi cheio. Tudo o que quer é o silêncio característico de sua terra para descansar. Foram mais de quatro anos morando em São Paulo; primeiro perto do Masp; depois, ao lado da Paulista até chegar ao lado da Avenida Bandeirantes. Por isso, mesmo depois de vários meses de volta à Santos, o silêncio até nas principais avenidas da cidade ainda a espanta.

Sempre soou estranha (com o perdão do trocadilho) a normalidade com a qual os paulistanos lidavam com o caos sonoro da capital. Pensava como era possível se manter equilibrado sem um minuto de silêncio. Mas isso passou.

Adormecendo, naquela fase em que não se sabe se é sonho ou realidade, a garota escuta o barulho de um caminhão acelerado. Depois outro. E mais outro. Essa rua sempre foi tão calma e o vizinho caminhoneiro nunca chega de madrugada. Na sequência, o barulho é da voz da linha azul do metrô: “Próxima estação: Conceição”.

Mariana senta na cama num pulo, exatamente como aquelas cenas de pesadelos dos filmes, e olha em volta. O quarto é o mesmo, no apartamento onde cresceu no Marapé, mas os sons não combinam com o ambiente. Tudo bem, os tempos mudaram, agora aqui em volta já tem o Aquaplay, o Bossa Nova, o Way, todos condomínios enormes.

Os carros também triplicaram, a quantidade de pessoas reservadas e/ou mal educadas também tem chamado a atenção, nada parecido com os anos anteriores, quando conhecia todos do prédio e muitos vizinhos da rua, mas... Não! Para!

A garota se revolta, levanta da cama e abre a janela. Subitamente, o quarto é invadido por buzinas, pessoas brigando, cheiro de cigarro e freadas violentas de caminhões. De repente, uma rajada do abafado vento noroeste - típico da cidade - bate na janela e Mariana acorda. Dessa vez, de verdade. Respira, respira, olha para os lados. Agora somente os sons do motor da geladeira na cozinha e do vento nas árvores lá fora.

O Aquaplay, o Bossa Nova e o Way continuam ali, ameaçando a calmaria do bairro antes simples e, cheio de casas, mas ainda estão semivazios. Existe esperança. Pelo menos por esta noite, apenas os sons do vento e da chuva fina que começa a cair acompanham o silêncio tão característico da vida caiçara. Boa noite.

Obs.: 2º texto a partir do curso "Escrita Criativa", ministrado no Espaço Certo, em Santos/SP.

sábado, 2 de maio de 2015

Rugas e lembranças da velha senhora

Katya Regina

Envelhecer é carregar a bagagem da história e, ao mesmo tempo, se tornar menino em muitas realizações físicas não mais possíveis. Somos como as pedras da antiga cidade que, resilientes, perdem o viço. Não somos mais os mesmos, mas trazemos a memória presente em nossas marcas do tempo vivido.

Vejo em cada rosto a história estampada em rugas, umas doces, outras amargas, mas em todos muito sentimento no olhar. Lembro-me do brilho nos olhos azuis de minha vó, enquanto seu rosto com o tempo envelhecia. Achava fascinante o fato do olhar não seguir o mesmo ritmo de envelhecimento do corpo; ao contrário, a cada ternura alcançada, a cada alegria, recebia um brilho mais jovem e mais forte.

Itanhaém faz 483 anos, uma velha senhora com rugas nas rochas. O futuro te oprime, te apressa, mas suas pedras do passado ainda cantam pra trazer identidade ao teu nome, tua rotina é verbo e teu olhar ainda jovem e verde, uma resposta ao tempo.

Meninos do teu legado ainda brincam em tuas praias para encantar olhos de quem ainda sonha com dias menos duros, mais bem cuidados , noites mais tutelares.

A gaivota ao teu bairro dá nome, tua praia sonha, o oásis na terra batida sente o lamento dos teus filhos e tudo se mistura entre pedras e pessoas no satélite que capta teus sinais.

Itanhaém conhece nosso olhar. Sei que meus olhos não vão ficar mais verdes pelas tuas matas, mas a cada dia se tornam mais claros e mais limpos pelo desejo te ver melhor. Enxergar a vida em macro nos faz mais organizados, mais chatos talvez, mas com a certeza de que ter objetivos e trabalhar pra que eles aconteçam é o que nos torna mais fortes.

Envelhecemos juntos no balé de memória e espaço, somos teus filhos que afagam suas tradições e o sal da tua terra que empurra os tijolos opressores, dançando como marionetes da esperança que também envelheceu.

A cidade “é”, nós sentimos, na rebentação do mar a expressão do teu acontecer diário, minha vida rabiscada em tuas pedras não mais me pertence .

Itanhaém! Tu moras em mim...

Obs.: 1º texto a partir do curso "Como escrever crônicas, ministrado no Gabinete de Leitura, em Itanhaém/SP.