sexta-feira, 17 de abril de 2015

Vem Kafka comigo!


Maykon Souza

Reparei nela de longe, veio meio que escondida entre a prateleira de bestsellers e a de livros espíritas e chamou a outra quase sussurrando.

— Mãe.

Sem resposta. A outra continuou procurando algo na seção de autoajuda. Insistiu:

— Mãããããããe.

— Ooooi – respondeu a mulher quase gritando, sem virar o pescoço.

— Descobri um negócio – continuou a sussurrar a primeira.

— O quê?

Olhou para os lados, deu uns dois passos à frente e soltou:

— Kafka é o nome do autor, não o nome do livro.

Mesmo falando baixinho, não teve jeito. Umas três pessoas olharam pra ela querendo rir. A mãe fez uma cara inenarrável de deboche, que só a arrogância senil é capaz de produzir. Na careta, ela disse: “você não tem noção da besteira que está falando sua idiota quando você está indo eu já estou voltando e agora tenho que ficar aqui ouvindo essas besteiras de uma analfabeta feito você”. Assim, tudo junto mesmo. Sem ponto ou vírgula. Numa careta só.

Embora a mãe tivesse lançado mão de um clássico no mundo das caretas, a filha não entendeu.

— O que foi?

— Você tá louca?

— Por quê?

— Nome do autor?

— É!

— Eu vi muito bem. Não sou burra. Sei ler muito bem. Já li muito mais livros do que qualquer um aqui...

— Não tô falando isso.

— Então, dá licença.

E saiu em busca de um atendente.

— Ô, mocinho.

— Pois não.

— Eu estou procurando um livro, você pode me ajudar?

— Claro. Qual o nome dele?

— É Kafka.

— Certo. Qual deles?

— Como assim, qual deles? Tem vários livros com o mesmo nome?

— Não, digo qual livro do Kafka a senhora quer? – E soltou uma risada um tanto nervosa, como que esperando confusão.

— Acho que você não entendeu direito: quero um livro chamado Kafka. Um romance!

— Perdão, minha senhora, mas Kafka é o nome de um escritor, e não do livro. Temos até um livro chamado Kafka, mas não é um romance. É um ensaio sobre a obra do escritor Kafka.

— Escritor? Ensaio? Impossível. Quero que você me chame o gerente agora.

— Mas, por quê?

— Por favor... O gerente...


Ele virou para dentro da loja e fez um sinal para chamarem o superior.

Enquanto o gerente não vinha, foi escutando um pouco da larga experiência da cliente.

— Você sabe quantos livros eu leio por mês, rapaz? Leio um por semana, garoto. Você sabe ler?

— Sei sim, senhora.

— Sabe nada. Já leu Violetas na Janela? Já leu Verônika Decide Morrer? Lê e depois vem falar comigo... Essa juventude de hoje precisa aprender a respeitar os nossos cabelos brancos. Bom mesmo era no meu tempo, que os jovens liam. Todos liam. Agora, alguém da minha idade não vai saber o que é o nome do autor e o nome do livro. Li lá na capa do livro: “Kafka”

Aparece o gerente.

— Ah, que bom que o senhor chegou. Queria fazer uma reclamação contra esse mocinho aqui.

— O que aconteceu?

— Ele me ofendeu.

— O que ele fez?

— Me chamou de ignorante.

— Só falei pra ela que Kafka era o nome de um escritor, e não de um livro.

— Impossível, meu rapaz. Eu não sou idiota. Li muito bem na capa do livro: “Kafka”.

— Perdão, minha senhora. Ele está certo, Kafka é o nome do autor.

— Mas, será possível?!... Estão achando que sou idiota. Não tem ninguém mais experiente pra falar comigo, não?

O gerente logo sacou um livro e mostrou a ela a ficha técnica.

— Veja aqui esse livro, minha senhora. O título dele é O Processo. O nome do autor é Kafka. Franz Kafka.

— Kafka?

— Sim. Kafka.

Muita gente de olho na cena. Parou e procurou a filha. Nada. Há muito tempo estava na calçada, torcendo pra ninguém ter visto as duas juntas. A mulher nem agradeceu. Deu às costas ao gerente, ao atendente, ao Processo, ao Kafka, e foi andando calmamente, sem mostrar nem um pingo de vergonha. Talvez, no fundo, no fundo, ainda achando que estava certa.

Cabeça erguida, olhar no horizonte. Murmurava alguma coisa. Na porta, viu uma daquelas estantes giratórias com vários livros de bolso. Não é que lá estava A Metamorfose, do mesmo Kafka?! Parecia que estava lá pra tirar sarro dela. Reduziu o passo e olhou firme.

— Kafka... Kafka... Isso lá é nome de gente.

E num gesto rápido e certeiro se vingou. Puxou o Kafka pela orelha e jogou-o no chão, mostrando todo o ódio que sentia por essa juventude burra e iletrada. E saiu da loja pisando firme, quase marchando.

Obs.: 20º texto a partir do curso "Como escrever crônicas". 

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