segunda-feira, 6 de abril de 2015

O orelhão e a boca aberta (A vida começa nos anos 80 - nº 2)

Dois orelhões, alvos de moleques de 14 anos
Ricardo Rugai

Eu passava o dia naquele SENAI da Ponta da Praia que nem existe mais; de manhã, sala de aula; de tarde, oficina mecânica. A libertação era às cinco em ponto, dali para uma rápida escala em casa, sem tempo para banho, e rua. Trombei o Tacape que, pelo fim da tarde, fechava a loja do patrão no SuperCentro Boqueirão e, dali pra frente, caçávamos zueira pela rua.

Nesse dia, sem muita criatividade, aproveitamos que os dois estavam meio gripados pra repetir pela enésima vez algo que era garantia de boas risadas: catarrar até não mais poder no orelhão, no buraco de saída das fichas e no bocal onde se falava. E só valia catarro verdão bem viscoso, que gruda mesmo quando se balança a mão.

Para o azar do próximo usuário do orelhão, nós dois estávamos naquela fase de gripe perfeita, catarro “maduro”, dos bons, daqueles que a gente sente subir quando puxa como se fosse sair um pedaço do pulmão. Era lindo de nojento.

Serviço feito, ficamos por ali para conferir o primeiro otário. Melhor do que fazer era ver a criatura se lambuzando sem conseguir se livrar do pegajoso. Sentávamos ali no balcão do Cook’s, pedíamos um refri - nem cerveja a gente bebia ainda - e ficávamos sacando os vacilos e se mijando de tanto rir. 


A dupla riu tanto até que a ficha caiu ...
 O primeiro foi um coroa com seus 40 e poucos anos, calça jeans, camisa social, meio barrigudo, polchete preta atravessada no peito. Todo confiante, ele lambrecou a cara no catarro, bateu o telefone para devolver a ficha e, na sequência, meteu a mão no melado. Viramos de costas para rir e não dar na vista.


Mas o filho da puta veio se sentar bem do nosso lado no balcão e aí deu merda, porque o Tacape tinha um grave defeito: ele ria sem parar até quase se mijar – e às vezes se mijava mesmo. Como era contagiante, eu também caía na risada. Não precisava ser gênio para desconfiar da gente e, depois de alguns minutos, o sujeito começou nos intimar.

— Tá rindo do que moleque?!

Eu até tentei desconversar, mas o cara insistiu e o Tacape mandou essa:

— Tamo rindo da tua cara de trouxa todo catarrado...

E cascava o bico com nós dois já chorando de tanto rir. Pior, os balconistas do Cook’s e pessoas em volta também começavam a rir com o canto da boca e a humilhação do sujeito só aumentava, até que ele perdeu a estribeira.

Puxou uma identificação de Polícia Civil e sacou um 38 às seis da tarde em pleno SuperCentro. Nós tentamos correr, eu escapei, o Tacape foi pego. O policial saiu caminhando pela rua segurando-o pelo pescoço, com a boca da arma encostada na cabeça e exigindo a caguetagem do fugitivo.


Crime e castigo? 
Juntava gente de todo lado na rua, principalmente a molecada que andava com a gente. Eu me entoquei em casa e fiquei da janela espiando a covardia e torcendo pelo Tacape. A gente só tinha 14 anos, não gostava de polícia e caguetagem era o pior dos pecados. Nas diabruras noturnas, sempre repetíamos:

— Não pegou no flagra? Tem prova? Da nossa boca não saía uma palavra!

O polícia caminhou com ele até o fim da rua onde eu morava. Quase nessa hora, minha mãe estava para descer e, aí sim, eu tive medo, porque era a única pessoa no mundo que eu respeitava e temia: polícia, diretor de escola e patrão eram fichinha. Para minha sorte, ela saiu segundos antes da muvuca estacionar em frente ao prédio e, na sequência, eu fui caguetado, não pelo Tacape, claro, mas pelo Marreco.

Talvez ele tenha ficado comovido de ver o Tacape – que continuava rindo do policial - com uma arma da cabeça, mas acho que ele se vingou. O marreco era mó paga-sapo, metido a andar de roupa de marca, ser comedor e surfista. Só que no futebol de praia ele sofria na minha mão, eu driblava até não poder mais, parava para ele levantar e levar outro; levava a bola para beira d´água, esquecia do jogo e ficava ali driblando até a molecada chiar.

Ele conseguia me bater, mas nesse dia o Marreco foi à forra, abriu o bico, meu interfone disparou e me mandaram descer. O polícia nos arrastou, cada um por uma orelha, por toda rua e fez a gente limpar o orelhão sendo zuado pela molecada incrédula; enfim, os que sempre se safavam rodaram! Muitas de nossas “vítimas” tiveram ali sua vingança.

Para nós, não mudou muita coisa. A zueira continuou mais forte do que nunca, aumentou a bronca de polícia, e o ódio de cagueta.

Dias depois, em frente ao prédio do Marreco, apareceu pichado no asfalto em amarelo: “pato viado” “pato cagueta”. A tinta, surrupiada da Prefeitura, que pintava sarjetas pelo bairro, pegou bonito no asfalto e, durante alguns anos, o Marreco teve que explicar aquela história.

Era uma história engraçada, nos divertíamos lembrando e recontando. Hoje já sei... uma arma engatilhada na cabeça de moleques de 14 anos? Um tropeço, um reflexo ou uma “boca dura” a mais e talvez no lugar dessa crônica sobre violência existisse apenas mais sangue num passado de violência crônica.


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