segunda-feira, 27 de abril de 2015

O celular que nos rouba




Ted Sartori

A moça entra no ônibus, senta em um dos últimos lugares, próximo à porta de saída, liga o celular e tenta passar de fase em um daqueles viciantes joguinhos. Não me conformo como aquela telinha pode ser tão mais interessante do que a enorme janela com a paisagem que se descortina rapidamente logo ao lado.

Não perguntei isso para a moça, mas certamente a resposta seria que tudo é igual diariamente e, por isso, não há porque ficar olhando sempre. Eu rebateria, sem cerimônia: não é! Quando você menos percebe, uma casa dá lugar a um prédio. Aquela residência tão bonita, notada pelos detalhes e guardada naquela caixinha do inconsciente, passa a não existir mais fisicamente. Apenas nas lembranças.

A atenção ao celular e às curtidas no Facebook fazem a moça se esquecer que, logo depois, um tradicional restaurante foi derrubado e o terreno está vazio. Lá espera, resignado, o tal progresso implacável, disposto sempre a encurtar nossas recordações e a nos fazer conjugar o verbo no passado, algo que eu detesto. Se virou pó, pelo menos fica a lembrança.

Em uma conversa no futuro, daquelas de bar, alguém vai inquirir a moça sobre aquele restaurante. Ela dirá não mais se recordar. E a casa também virá à baila. Nada, nenhum registro. Isso é tão vil para o coração quanto uma apunhalada. O papo teria que mudar de direção. Sem dó nem piedade.

O ônibus segue o rumo e a moça desce no destino, sem largar o aparelho. Eu continuo olhando a janela. Meu celular nem internet tem. Observo a rua e as pessoas. Tecnologia é boa quando estamos em casa. Ainda que acessando a grande rede no computador, vivo cercado por um mundo particular de objetos, cada qual com sua história.

Um aparelhinho tão pequeno não poderia ter o condão de nos levar algo tão grande: a vida.

Obs.: 23º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", realizado na Realejo Livros, em Santos. 

Um comentário:

alano alexandre disse...

Brilhante Mestre!