quarta-feira, 22 de abril de 2015

As cerejas que lembram John Travolta




Maria Goretti

2 de março de 2015, segunda-feira, 32º.graus, 16:23 horas. Talvez chova. Santos, Gonzaga. Sentada na Sorveteria Itanhaém, volto aos 15 anos quando minha mãe sempre me chamava de volúvel. Naquela época, um namorado que adorava o suco de tomate me apresentou ao sorvete de cereja.

Amei de cara a fruta que servia de enfeites a doces requintados e que nunca estava disponível para mim. Foi inesquecível sentir a explosão na boca, que inundou a língua com sua calda viva e viciante.

Mais tarde, veio o namorado que, depois de comer o hamburguer da Sumatra e os docinhos da Viena, assobiava “Do that to me one more time”. Depois, outro que não vivia sem a torta de banana do Sevilha e era apaixonado pela vitamina mista da Casa das Vitaminas e os livros da Martins Fontes, mas que me obrigava a ver filmes na sala de fumantes do Iporanga.

Por fim, um rapaz que amava passar na Kauffmann, na Pap´s Sport e na Pant´s Jeans para ver as novidades e seguia para a Farmácia Iporanga - suspeito que na época tivesse outro nome. Em cima, havia um relógio digital de fundo preto e numerais vermelhos. Na farmácia, ele se abastecia de antigripais, antitérmicos e, claro, os inseparáveis analgésicos, apenas para prevenção, dizia. Será que ele morreu de cirrose hepática?

Os namorados foram vários, e alguns encontros foram registrados por um fotógrafo da Foto Space, uma espécie remota de paparazzi dos anônimos - que nos metia o flash na cara assim que nos flagrava saindo dos cinemas – Atlântico, Alhambra, Roxy, Indaiá, Praia Palace. Ou das domingueiras do Sírio e ou da AABB, e nos dava apressadamente um papelzinho com o número do negativo.

Depois de pago, ganhávamos a foto que eternizava risos, mãos entrelaçadas, beijos e até bocejos - o filme deve ter sido chato. Em uma das fotos, estou equilibrando a casquinha com as três bolas do meu sorvete preferido. Aliás, essa coisa de sorvete a peso é prática da década de 90, trazida à cidade por uma sorveteria que abriu ali pela Azevedo Sodré, de vida curta, mas deixou como legado a balança.

Agora, a moda da vez são as paletas mexicanas, sucessoras dos sorvetes de iogurte, servidos até o último verão em casas coloridas que pareciam caixinhas de chicletes. Eu continuo com o meu de cereja, não sou tão volúvel quanto pensava minha mãe.

Sei que daqui a anos, muitos espero, tenha que dobrar a dose de insulina, mas pedirei meu sorvete de cereja, rasparei as bordas devagar, cavocarei para pegar uma fruta e levarei a colher à boca. Na primeira explosão, voltarei a ser a moça de 15 anos - sardenta, de riso fácil, apaixonada, queimada de sol, cabelos compridos e fã do John Travolta.

Obs.: 21º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado na Realejo Livros, em Santos. 

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