quarta-feira, 8 de abril de 2015

A dor do silêncio


Mary Botelho

Resgatei o papel e caneta para dividir um pouquinho da mudez que ronda o coração das mães. Não se trata de exemplificar dores físicas como as que incomodam na gravidez ou que beiram à loucura durante o trabalho de parto, mas de compartilhar a que carregamos dentro de nosso olhar.

Falo da dor que se aninha junto com a criança em colos confusos, cheios de incertezas, da dor que nos acompanha piamente nas noites mal dormidas, nas lágrimas que escorrem escondidinhas dentro do banheiro ou ao volante quando temos um pingo de certeza de que estamos sós.

Tenho uma amiga que, como eu, exerce este papel desafiador de se tornar mãe. Grazielle tem duas filhas, Samira (5 anos) e a Kalilah (3), é bailarina de dança do ventre e faxineira nas horas vagas.

Em nossos cafés da tarde ou conversas pelo WhatsApp, dividimos angústias e sonhos, mas sempre somos interrompidas por uma birra, queda, machucado ou choro. Nessa hora, assumimos o papel de bruxa má, damos broncas, chineladas e castigos.

Apesar de nos mostrarmos como um forte armado contra qualquer ataque, nos dói tomar tais atitudes, nos dói olhar ao redor e perceber que estamos presas no silêncio onde não nos é permitido gritar, espernear, chorar e pedir colo como os pequenos.



Dói também perder o brilho nos olhos, mesmo que por instantes, ao ver que nossos sonhos se sujeitam às críticas alheias, que a maternidade solitária nos exige fios de cabelos brancos, olheiras, calos, mãos judiadas, unhas por fazer e roupas bagunçadas.

Se pode doer mais? Pode! Quando bate desespero e dúvida sobre a educação, nos vem à consciência de que não se pode adoecer, sentir cansaço, ter vontade de ler, dançar, estudar sem precisar se lembrar da hora do banho, da refeição, da brincadeira, do soninho.

Naquelas horas em que a noite amedronta, os pensamentos transbordam, o espelho diz que poucos anos pesam como décadas, nossa sanidade é posta à prova e sentimos medos infantis como os de nossos filhos, a dor dilacera e permanece calada para dar segurança e colo a um choro doído de febre, cólica ou pesadelo.

Esta dor não tem remédio nem agenda para ser cuidada. Ela apenas existe!

Quantas de nós optam pela insignificância em favor do bem-estar da cria? Quantas são vistas apenas na hora em que as crianças não atendem a padrões de qualidade de educação (leia-se gritar no supermercado, se jogar no chão, chorar sem motivo ou mostrar a língua para um estranho)?

Antes dos julgamentos (pertinentes deste cargo), não digo que a maternidade é um fardo! Amo minha filha e não duvido nada do amor de minha amiga pelas suas. Entretanto, eu e ela somos apenas dois fragmentos invisíveis da realidade materna distorcida pelo romantismo apresentado nos comerciais de margarina e caminhamos no silêncio de nossas dores reconhecidas apenas por quem também as sofre.

Obs.: 16º texto a partir do curso "Como escrever crônicas". 

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