quinta-feira, 30 de abril de 2015

Evolução ou morte?


Leonardo Marques Silva

O rock está morrendo. Como um fã do gênero, não faço ideia de quantas vezes ouvi isso. Será verdade? Novas bandas surgem a cada dia, com novas ideias. Considerar a música, feita por elas, boas ou não depende do gosto musical de cada um. Como o rock poderia estar morrendo? Como um estilo musical poderia estar morrendo?

Há aqueles que dizem que a essência foi perdida. Por quê? Muitos afirmam que aquilo que fez o estilo musical ser o que é fora abandonado. Os protestos contra as guerras. Contra a fome. Contra a violência em geral. Contra o próprio governo.

Todos esses problemas ainda persistem. Isso é fato. Por outro lado, novos problemas surgiram e, como conseqüência, certos problemas se tornaram menos importantes. Nada mais natural.

Guerras ainda acontecem e sempre acontecerão. Por quê? Porque á parte do comportamento humano. É uma forma de resolver um conflito de interesses. É uma forma de se exibir poder. É claro que ainda existem dezenas de conflitos menores no mundo, mas uma guerra de proporções mundiais? Não. Isso também é fato. A Guerra Fria já acabou. Com isso, o mundo vive um período de paz. Sob a mira de armas nucleares. Mas, mesmo assim, paz.

Vivemos na era da internet. Estamos cercados por formas de tecnologia inimagináveis para as pessoas de décadas atrás. E isso influencia muito o mundo e as pessoas. As prioridades são outras. Pense na relevância que computadores e celulares têm em sua vida, bem como as facilidades que eles trazem. Agora, pense nos novos problemas dessa era. Hackers e crackers. Cyberbullying. Cyberterrorismo. Roubo de dados pessoais e contas bancárias. Tudo tem prós e contras.

Logo, ocorreram mudanças também na área musical. A introdução de novos instrumentos. O uso de equipamentos tecnológicos mais avançados para se fazer música facilitou o processo. Agora, os chamados astros pop roubaram o espaço dos astros do rock.

Entretanto, algumas bandas aderiram, parcialmente, ao que é considerado pop. Uma banda que exemplifica bem o que quero dizer? Linkin Park. Com um misto de rap e rock, eles conquistaram lugar entre as bandas mais famosas dos últimos tempos. Gradualmente, com o passar dos anos e dos álbuns, eles foram adicionando elementos de música eletrônica. Assim, eles se mantiveram pop. Isso é bom? O sucesso deles diz que sim. 


Milhões e milhões de pessoas concordam. Eu ainda me lembro de estar discutindo, amigavelmente, música com mais três amigos. No geral, todos nós preferimos rock, em relação aos outros estilos musicais. Porém, quando um dos meus amigos disse que Linkin Park era uma das melhores bandas que ele já tinha ouvido, duas reações diferentes ocorreram. Eu e o terceiro amigo concordamos. O quarto respondeu com uma expressão quase de nojo no rosto.

Certo, não se pode agradar a todos. Talvez a maioria prefira ouvir música pop a rock. E bandas, como Linkin Park, conseguiram se adaptar bem às tendências. Então, nesse caso, uma evolução teria ocorrido, não? Nem sempre uma evolução é uma melhoria, mas sempre é uma adaptação. Então, o que estaria acontecendo com o rock? Estaria ele morrendo ou evoluindo?

Obs.: 26º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado na Realejo Livros, em Santos. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

O falcão peregrino


Sandra Silva

O falcão peregrino pediu abrigo em minha casa no domingo. Não qualquer domingo. O céu estava cinza, fechado com cara de bravo. Domingo triste e assombrado por dores, raivas e incertezas.

Aqui, a mesma rotina, com todas as movimentações típicas desse dia de almoço. O que acontecia no mundo, lá fora, não queria saber! Ali estava minha mãe na cozinha, as crianças inventando brincadeiras, as cachorras de banho tomado, eu na faxina da casa, minha irmã na casa dela com meu cunhado planejando a semana. Só a TV de minha sala permanecia desligada, diferente de outros domingos.

A única atenção para o mundo lá fora estava no telefone. Pedia que a notícia não chegasse. Pela conversa com a médica, a notícia não passaria do próximo domingo. Depois do almoço, fui ao quarto optar entre duas tarefas: enfrentar uma montanha de roupas que há duas semanas esperavam pelo ferro ou enfrentar aquela janela que me levaria para o mais cinza dos domingos? Dei ouvidos ao coração e enfrentei a janela do mais virtual de todos os mundos.

Imagens pipocavam sobre o mesmo assunto. Em minha mente, se misturaram com as de um passado ensanguentado, bílis negra.

Perdida nesse caleidoscópio de fatos e história, fui devolvida ao meu quintal pelas vozes agitadas das crianças: “tia, tia, um gavião... Corre!”. Automaticamente, o celular veio a minha mão, e não poderia perder a chance de fotografar um gavião aqui por perto.

Quando cheguei ao portão, lá estava ele, não no ar, mas enrolado em uma toalha nas mãos de meu cunhado. Olhar assustado, visivelmente machucado. Como poderíamos acalmá-lo? Naquela situação quem se acalmaria?

“Estava ali, encostado no muro. Vi algo se mexendo e cheguei perto. Ele se assustou e eu também. Aí ficou me olhando com esse olhão e eu olhando ele, até que chamei o Lima pra pegar o passarinho”. Minha mãe contava como encontrou o falcão peregrino, que até aquele momento nos parecia ser um gavião.

Enquanto o resgate não chegava, ele ficou em uma caixa de papelão coberta por uma toalha, bem quietinho. Apesar da curiosidade, fizemos um trato de não incomodá-lo e deixar a área silenciosa para que pudesse descansar da fuga e recobrar energia.

De minha janela, olhava a caixa de papelão e a movimentação ao redor dela; crianças aflitas para levantar a toalha e dar uma espiadinha, além de água, comida, bolacha, cenoura, tomate, chocolate. Da janela virtual, nem mais via a onda amarela biliar que crescia em número e ódio, sem proposta, sem ternura, sem afeto por aquilo que diziam defender.

Publiquei uma foto no Facebook e descobri se tratar de um falcão. O mais veloz de todos os pássaros conhecido, ali, em uma caixa de papelão coberta por uma toalha. Nada mais triste do que a falta de liberdade e aquela caixa lembrava que muitas prisões não são feitas de grades. Um falcão peregrino, com voo impedido. Uma pessoa presa a uma cama, cujo corpo não mais quer responder a vida.

O telefone tocou e o coração gelou. Do quintal, mais dois olhares aflitos em minha direção. Não era má notícia. A Polícia Ambiental informava que demoraria um pouco por causa de outra ocorrência.

Apesar do trato, não resistimos e nos revezamos para ver como estava o hóspede. Levantar a ponta da toalha era como abrir a janela para o mais real dos mundos. O pássaro parecia mais tranquilo ou resignado, me olhava fixamente, sem medo.

Eram 23h39 quando chegaram para resgatar o falcão, agora chamado de Falquito. Seria levado para o Orquidário ou Parque Anilinas, em Cubatão, e quem sabe em breve ganharia a liberdade e o voo.

Apegados ao Falquito, o vimos sair pelo portão, havia tristeza pela despedida e alegria pela certeza do dever cumprido.

Quinze dias após aquele domingo, o céu continua cinza e chora. Na quarta-feira daquela semana, soube que o Falcão estava livre, voando pelos lados da Rio-Santos e, às 23h39, meu cunhado, irmão de coração, o Jr, aos 49 anos, se liberou de um corpo cujo fígado adoeceu.

Uma hepatite C levou a um câncer, que tornou a passagem dele entre nós bem mais breve do que poderia ser, porém amorosa e cheia de dignidade. Ele pegou carona nas asas do Falcão e foi tocar o seu baixo em uma festa no céu.

Obs.: 25º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado na Realejo Livros, em Santos. 

terça-feira, 28 de abril de 2015

Raiva e melancolia (Primeiro Sexo # 1)



Paula Vinhedo


Este é o texto de estreia da coluna Primeiro Sexo. Apenas um critério de escolha: a visão feminina de mundo!

Vivo cheia de raiva. Quase o tempo todo. Todos os dias. A raiva, para uma mulher de meia idade, sufoca com dores físicas, atazana com desconforto mental, traz cansaço de tudo e de quase todo mundo. E traz também uma melancolia, que se renova e reaparece pela manhã.

A melancolia só não renasce antes de dormir, quando paro por obrigação orgânica. Não renasce porque desmaio, entro em coma profundo segundos após encostar a cabeça no travesseiro. Quando isso não acontece, o escuro esconde as lágrimas de meu marido. Não é necessário preocupá-lo nesta hora. Ele está ciente do que me atormenta há meses e me protege no silêncio.

Tenho raiva de relacionamentos passados. São pessoas que poderiam ter desaparecido com o término de uma história. Poderiam ter compreendido que um cadáver enterrado é um corpo sepultado. Pontos finais podem não ser agradáveis, mas incluir terceiros, quartos e quintos em projetos pessoais de vingança soa sórdido demais até para quem se esconde no manto da santidade. Todos pecam, eu pequei, que se coma a hóstia e diga amém. Que se mude a página da Bíblia!

Espumo de raiva com meu trabalho. Depois que virei uma balzaquiana, percebi que poderia reinventar minha vida. A parte que depende de mim é o menor dos problemas. Sempre trabalhei duro, sempre acreditei que o esforço pode ser recompensado, sempre apostei no diálogo honesto com meus pares.

Não procuro o glamour, sucesso e outras palavrinhas babacas dos gurus corporativos. Desejo somente uma rotina confortável, que me possibilite trabalhar com prazer e amenizar os danos doentios de qualquer cotidiano profissional.

O problema é mais complexo do que reconhecimento, que massacra muitas da minha idade. É a percepção alheia – e que te atrasa – de que meu trabalho é menor, menos importante, que acompanhá-lo é um favor que me fazem. Arte não é favor. É um trabalho como outro qualquer, que exige talento, técnica, disciplina, dedicação e amor. A diferença, pelo que sinto, é que todos sabem fazer o que faço só porque conhecem o produto pronto e podem comprá-lo.

Tenho raiva de mim mesma. Cometi erros que me custam anos para consertar. Das finanças às encruzilhadas profissionais. Das dificuldades em dizer não para amigos e desafetos à valorização subdimensionada de quem eu amo no limite de sentir dor. Fiquei obcecada pela mudança, mas confesso que a fiz porque cheguei ao limite e arrastei pessoas queridas comigo. Hoje, vivo para consertar e construir ao mesmo tempo. Sofro porque raramente a estrada concede duas autorizações juntas.

Luto todas as manhãs para me levantar da cama. Por vezes, a luta dura uma hora ou um pouco mais. As manhãs expõem minhas falhas, meus fracassos, minha impaciência em não conseguir resolver algo que realmente demora meses para extinguir a chama.

Sinto-me paralisada até mesmo quando já me levantei. Vago pela casa, sem a capacidade de organizar quais passos serão dados naquele dia. Abro duas ou três frentes de batalha, dentro de casa mesmo. Opto por atividades mecânicas, como lavar a louça ou pendurar roupas no varal. Guardar as que secaram provocam o mesmo efeito curativo, embora paliativo. É como correr numa esteira, com a diferença de que não preciso pensar.

Nunca gostei ou fui dona-de-casa, mas hoje uma hora de serviço (meu marido possui outras atividades domésticas) age como aspirina para o espírito. Consigo, desta forma, me concentrar melhor no trabalho e anestesiar a melancolia. Os degraus ficam para baixo dos pés ao longo do dia, mas sei que amanhã terei a mesma escada diante de mim.

A raiva, por seu lado, sorri para a melancolia porque sempre está aqui dentro. A raiva se transforma em combustível, alimento para caminhar com as próprias pernas. Estar na meia idade significa, entre outras coisas, que existe outra meia idade a ser percorrida. E não posso virar peso para quem descansa ao meu lado todas as noites. Sorte que ele, em muitas madrugadas, apaga antes do que eu. E não sentirá a ponta do travesseiro se molhar de água salgada.


A hora




Edwar Fonseca

A hora chegou. Muita apreensão no ar. Não podemos desistir. Não há volta. Estamos nos preparando durante meses para encarar este momento. Em breve, estaremos com todos outros envolvidos.

Manter a calma, pensar em tudo o que nos foi ensinado. Pego as malas, a chave e o documento do carro, nossos documentos, tudo pronto.

É cedo ainda. Não temos muita pressa e nos movemos lentamente para não causar espanto nas pessoas que, por acaso, encontremos em nosso caminho. Descemos pelo elevador, entramos no carro sem falar com ninguém, temos um foco, um objetivo em mente.

O trânsito está normal, vamos com calma. Não há muito o que conversar. Apenas lembrar de tudo o que nos orientaram.

Chegamos. Estacionamos o carro. O silencio predomina. O lugar tem um clima bucólico, de paz. Árvores balançam levemente ao sabor do vento. Escadarias levam até a entrada. Muitas pessoas estão aqui, algumas com o mesmo objetivo, umas se conheciam e outras não.

Mal chegamos e já levaram minha esposa e disseram que em breve me chamariam. Tinha que ser um por vez. Estou levemente apreensivo. O que farão com ela que não pode ser na minha presença?

Então me chamaram. Minha esposa não está mais ali. Porque ela não está ali? Me deram uma roupa e obviamente está subentendido que é para eu vesti-la. Estou sozinho, vestido estranhamente, me olhando no espelho, espremendo os dedos, pensando no nada, andando de um lado para outro, rangendo levemente os dentes. Vamos, me chamem!

Passaram os intermináveis 5 minutos, eu ouço: “Pode vir. Entre na segunda sala à direita.” Não havia praticamente ninguém no corredor, mas eu ouvia vozes. Cheguei na porta da sala. Vejo aquele rosto, calmo, responsável, de quem faz aquela atividade há muitos anos com muito amor e prazer; não havia qualquer receio em entregar a ela a vida das duas pessoas que mais me importam neste momento. Minha esposa e minha filha, que estava chegando ao mundo.

Não sei o que fazer direito, se olho para a barriga aberta, se fico do lado da doutora, se seguro a mão da minha esposa, se ligo a máquina fotográfica. Dou um beijo na minha esposa para mostrar que estou ali ao lado dela. Tento acalmá-la, segurando sua mão. Ela se sente mais confiante.

Faz muito calor na sala. A doutora sua a cada movimento que faz. O suor é limpo pela assistente. Minha esposa pediu que desligasse o ar condicionado, ela estava com frio.

Estou atrás do pano que dividia minha esposa ao meio. Parecia um boneco. A cabeça e os braços se mexiam, mas da cintura para baixo, estático. Vejo o esforço da doutora, mexendo daqui e dali, enfiando a mão dentro da barriga da minha esposa.

Não sai da minha cabeça: algo errado? Não era para ser mais simples? Porque a maca balança tanto? Pingou suor da doutora dentro da barriga da minha esposa?

Então, um berro! Minha filha saiu lavando a sala com xixi. Ficou ali na maca lateral com as perninhas arreganhadas, toda vermelhinha, berrando e eu pensando: o que eu faço? Vou ali, fico aqui, tiro foto?

Fico olhando para ver se colocam o nome dela no braço. Sim, está ali. Tiro foto da fita com o nome. A doutora diz que foi tudo ótimo. A pediatra diz que o teste do primeiro minuto está ótimo. Mas eu não ouço nada, não vejo mais nada, estou apenas inerte, com vontade de chorar.

Meu relógio interno parou, exatamente naquela hora, nada mais tinha importância do que aquele momento que seria eterno. Uma hora eterna. Infinita.

Obs.: 24º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado na Realejo Livros, em Santos. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O celular que nos rouba




Ted Sartori

A moça entra no ônibus, senta em um dos últimos lugares, próximo à porta de saída, liga o celular e tenta passar de fase em um daqueles viciantes joguinhos. Não me conformo como aquela telinha pode ser tão mais interessante do que a enorme janela com a paisagem que se descortina rapidamente logo ao lado.

Não perguntei isso para a moça, mas certamente a resposta seria que tudo é igual diariamente e, por isso, não há porque ficar olhando sempre. Eu rebateria, sem cerimônia: não é! Quando você menos percebe, uma casa dá lugar a um prédio. Aquela residência tão bonita, notada pelos detalhes e guardada naquela caixinha do inconsciente, passa a não existir mais fisicamente. Apenas nas lembranças.

A atenção ao celular e às curtidas no Facebook fazem a moça se esquecer que, logo depois, um tradicional restaurante foi derrubado e o terreno está vazio. Lá espera, resignado, o tal progresso implacável, disposto sempre a encurtar nossas recordações e a nos fazer conjugar o verbo no passado, algo que eu detesto. Se virou pó, pelo menos fica a lembrança.

Em uma conversa no futuro, daquelas de bar, alguém vai inquirir a moça sobre aquele restaurante. Ela dirá não mais se recordar. E a casa também virá à baila. Nada, nenhum registro. Isso é tão vil para o coração quanto uma apunhalada. O papo teria que mudar de direção. Sem dó nem piedade.

O ônibus segue o rumo e a moça desce no destino, sem largar o aparelho. Eu continuo olhando a janela. Meu celular nem internet tem. Observo a rua e as pessoas. Tecnologia é boa quando estamos em casa. Ainda que acessando a grande rede no computador, vivo cercado por um mundo particular de objetos, cada qual com sua história.

Um aparelhinho tão pequeno não poderia ter o condão de nos levar algo tão grande: a vida.

Obs.: 23º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", realizado na Realejo Livros, em Santos. 

A nova orla




Betty Watanabe

Os blocos de foliões da Terceira Idade apareceram para confirmar a nova atração do Carnaval. Para completar o cortejo, a turma da APAE. A passarela “informal” do samba foi a nova orla. E não foi um amor que se desfaz na quarta-feira de Cinzas ou que derrete como chocolate depois da Páscoa.

A nova orla nunca foi tão visitada e admirada como agora, tanto pelos moradores como pelos turistas. Não que antes não era apreciada, tinha o encanto de naturalidade.

Havia um calçadão em frente às residências de uns seis metros de largura. Muitos moradores plantaram coqueiros, outros fizeram pequenos jardins cercados no meio, tudo que impossibilitasse o estacionamento de veículos sobre o calçadão.

Com a modernização da orla da praia, que ainda não está totalmente concluída, tivemos uma grande mudança. A avenida recebeu novo piso todo avermelhado, com uma ciclovia e uma faixa para pedestres, fora a nova iluminação, que a deixou mais segura por causa da claridade.

As pessoas mudaram. Elas usufruem desse novo espaço, desde o amanhecer até altas horas da noite, de todas as idades, praticando várias atividades físicas, caminhando, andando de bicicleta, de skate, de patins. Amigos que não se viam – pela correria diária - agora se encontram e batem papo. A presença de cadeirantes também se tornou frequente.

A orla da praia, oficialmente chamada de Avenida Presidente Vargas, virou o mais novo Cartão Postal da cidade de Itanhaém.

Obs.: Este é 22º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", na Realejo Livros, em Santos. 

domingo, 26 de abril de 2015

O senhor mutilado


Marcus Vinicius Batista

Com quase 100 anos, ele testemunhou as mudanças da cidade. Acompanhou a troca dos cavalos pelos bondes, das ruas de terra pelos paralelepípedos e, depois, pelo asfalto impermeável. Das casas em estilo português pelos prédios de três andares e, então, pelos espigões de ferro e concreto que aprisionam o vento e distribuem calor.

O senhor se instalou quase na esquina da rua Oswaldo Cruz com a avenida Epitácio Pessoa, numa época em que ruas e avenidas não tinham esses nomes. Ele estava ali, firme e enraizado no Boqueirão, numa época em que Oswaldo acabara de vencer uma epidemia e Epitácio provavelmente ainda ocupava a Presidência da República.

O senhor quase centenário, de nome Ingazeiro, se transformou – pouco a pouco – em um daqueles personagens anônimos da rotina da cidade. Ele era – para muitos moradores ou meros passantes – uma respiração contra o bafo quente e a umidade. Para um camelô de tantos anos, ele significava a cobertura da loja a céu aberto, a engenharia natural para manhãs de chuva e tardes friorentas.

O Ingazeiro, hoje, é um cadáver numa esquina qualquer. Serviu como isca para uma armadilha da política. Ele foi acusado de atrapalhar a rede elétrica - aliás, chegou antes dela – e recebeu o convite para “conversar” com as autoridades. Um diálogo de uma só voz que o convenceu de que seria essencial aparar as arestas, cortar as pontas, desfazer um mal entendido.

O senhor quase centenário acreditou que seriam cortados apenas os cabelos, fazer a franja que incomodava uma farmácia de esquina, que se multiplica mais rápido que o crescimento de galhos e folhas. No último dia 20 de abril, o Ingazeiro recebeu de braços abertos e cabeça erguida visitantes armados, em seu papel de todos os dias.

Talvez como comemoração antecipada e macabra do Dia de Tiradentes, o Ingazeiro foi condenado à pena de morte por esquartejamento. As máquinas sem cérebro de comando o executaram. De saída, mutilaram os braços do senhor centenário. Com a trilha sonora das motosserras, o decapitaram até a base do pescoço.

Como Tiradentes, o Ingazeiro agonizou e assim ficou em praça pública (opa, numa esquina) para que os inconfidentes soubessem até onde os carrascos podem chegar caso seus interesses sejam contestados.

O recado e a tortura duraram três dias. No dia 23, um caminhão encostou para a retirada do corpo. Aí veio a contraordem dos moradores em luto. “O corpo fica onde está! Acreditamos no milagre da ressurreição!” Mesmo que o senhor centenário não sorria de novo, sua anatomia servirá de estudos de cidadania.

O tronco que restou poderá florescer como ícone de uma Santos que optou – no mais rasteiro provincianismo travestido de progresso – mudar de verde para cinza. Uma descoloração lenta, gradual e irrestrita, no linguajar autoritário.

O corpo segue inerte diante da fachada farmacêutica em laranja e azul. Na mesma calçada, os chapéus-de-sol sobrevivem e mascaram a rede elétrica. A sorte deles é que não há choques de interesses ou de realidade. Até quando?

A Prefeitura alega que a Farma Conde participa do Programa Adote uma Praça. Como um ferreiro que carrega o espeto de pau, não se importou com quem morava ao lado de casa. A farmácia prometeu doar 10 árvores, que seria o dobro do habitual neste tipo de acordo. É como prometer a concepção de dez bebês em troca de um assassinato. Olho por olho, poda por plantio.

O Ingazeiro, árvore-testemunha-ocular da Santos que trocou de roupa, perdeu a Semana Santa, sem milagres. Hoje, o senhor esfria morto como símbolo urgente do modo de vida do poder.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

As cerejas que lembram John Travolta




Maria Goretti

2 de março de 2015, segunda-feira, 32º.graus, 16:23 horas. Talvez chova. Santos, Gonzaga. Sentada na Sorveteria Itanhaém, volto aos 15 anos quando minha mãe sempre me chamava de volúvel. Naquela época, um namorado que adorava o suco de tomate me apresentou ao sorvete de cereja.

Amei de cara a fruta que servia de enfeites a doces requintados e que nunca estava disponível para mim. Foi inesquecível sentir a explosão na boca, que inundou a língua com sua calda viva e viciante.

Mais tarde, veio o namorado que, depois de comer o hamburguer da Sumatra e os docinhos da Viena, assobiava “Do that to me one more time”. Depois, outro que não vivia sem a torta de banana do Sevilha e era apaixonado pela vitamina mista da Casa das Vitaminas e os livros da Martins Fontes, mas que me obrigava a ver filmes na sala de fumantes do Iporanga.

Por fim, um rapaz que amava passar na Kauffmann, na Pap´s Sport e na Pant´s Jeans para ver as novidades e seguia para a Farmácia Iporanga - suspeito que na época tivesse outro nome. Em cima, havia um relógio digital de fundo preto e numerais vermelhos. Na farmácia, ele se abastecia de antigripais, antitérmicos e, claro, os inseparáveis analgésicos, apenas para prevenção, dizia. Será que ele morreu de cirrose hepática?

Os namorados foram vários, e alguns encontros foram registrados por um fotógrafo da Foto Space, uma espécie remota de paparazzi dos anônimos - que nos metia o flash na cara assim que nos flagrava saindo dos cinemas – Atlântico, Alhambra, Roxy, Indaiá, Praia Palace. Ou das domingueiras do Sírio e ou da AABB, e nos dava apressadamente um papelzinho com o número do negativo.

Depois de pago, ganhávamos a foto que eternizava risos, mãos entrelaçadas, beijos e até bocejos - o filme deve ter sido chato. Em uma das fotos, estou equilibrando a casquinha com as três bolas do meu sorvete preferido. Aliás, essa coisa de sorvete a peso é prática da década de 90, trazida à cidade por uma sorveteria que abriu ali pela Azevedo Sodré, de vida curta, mas deixou como legado a balança.

Agora, a moda da vez são as paletas mexicanas, sucessoras dos sorvetes de iogurte, servidos até o último verão em casas coloridas que pareciam caixinhas de chicletes. Eu continuo com o meu de cereja, não sou tão volúvel quanto pensava minha mãe.

Sei que daqui a anos, muitos espero, tenha que dobrar a dose de insulina, mas pedirei meu sorvete de cereja, rasparei as bordas devagar, cavocarei para pegar uma fruta e levarei a colher à boca. Na primeira explosão, voltarei a ser a moça de 15 anos - sardenta, de riso fácil, apaixonada, queimada de sol, cabelos compridos e fã do John Travolta.

Obs.: 21º texto a partir do curso "Como escrever crônicas", ministrado na Realejo Livros, em Santos. 

De peito aberto


Érika Rodriguez

Aos 42, Maria já não tinha ilusões sobre a vida amorosa. Não por sua aparência, já que mantinha o corpo esguio e o rosto com o viço da juventude, mas pelo desastre sentimental, que incluía alguns namoros e um longo noivado, que durou 12 anos e terminou com uma dolorosa traição por parte do noivo.

Sem nenhum trauma, ela ainda morava com os pais, levava uma pacata vida de professora de inglês e tinha nos romances e filmes açucarados a cura para os raros momentos de solidão. Era segunda-feira e ela enfrentava a fila na agência bancária lendo um de seus livros, quando sentiu a mão em seu ombro. Virou-se para trás e deu de cara com Pedro, um namoradinho da época de escola que não via há 25 anos.

Um pouco constrangidos, os dois se abraçaram e resumiram em algumas frases os caminhos que haviam trilhado até então. Depois de se formar no colegial, Pedro se mudou para os Estados Unidos, de onde voltara há pouco mais de um mês. Continuava solteiro. “Como está bonito!”, pensou ela, com o coração acelerado.

— Para você, os anos não passam! -, arriscou ele.

Eles resolveram marcar um encontro para matar as saudades e contar os detalhes de uma vida inteira separados. Escolheram uma tradicional cantina da cidade, onde o nhoque à carbonara era a especialidade da casa.

Ansiosa, Maria chegou ao restaurante antes do horário e escolheu uma mesa próxima à varanda envidraçada. Como estava adiantada, ela decidiu ir ao banheiro retocar o batom, pois queria causar boa impressão.

Ao se olhar no espelho, achou o vestido tubinho preto, de mangas longas de chifon e laçarotes do mesmo tecido na gola, um tanto antiquado. “Estou parecendo uma velha, meu Deus!”

Num ato instintivo, Maria arrancou as mangas e a gola e só então percebeu que, sem eles, as alças de seu sutiã cor-de-rosa ficavam à mostra. Sem pensar duas vezes, Maria entrou no reservado e tirou a peça íntima, em noite de estreia. A imagem que viu no espelho lhe agradou, o colo bonito valorizou o decote, sem mostrar demais os seios.

Ela pensou em guardar o sutiã na bolsa, mas o celular vibrou com a mensagem de Pedro, que chegou ao restaurante.

— Uau, você está linda!

A conversa de velhos amigos virou jantar romântico quando Pedro segurou a mão de Maria. E o encontro terminou na casa do rapaz, onde ela despertou no dia seguinte com a sensação de que estava se esquecendo de alguma coisa. Contou a ele o que aconteceu, e os dois se acabaram de tanto rir, imaginando a cara de quem encontrasse o inusitado objeto.

— Será que alguém sabe quem é a dona?

— Claro que não! Vamos deixar o causo para a galeria dos mistérios sem solução da cantina!

Maria e Pedro continuam a frequentar o local, pedem sempre o mesmo nhoque e guardam, no peito, as lembranças do primeiro jantar.

Obs.: Este conto foi baseado em fatos reais. É o primeiro texto a partir do curso de Escrita Criativa, realizado em Santos. 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Vem Kafka comigo!


Maykon Souza

Reparei nela de longe, veio meio que escondida entre a prateleira de bestsellers e a de livros espíritas e chamou a outra quase sussurrando.

— Mãe.

Sem resposta. A outra continuou procurando algo na seção de autoajuda. Insistiu:

— Mãããããããe.

— Ooooi – respondeu a mulher quase gritando, sem virar o pescoço.

— Descobri um negócio – continuou a sussurrar a primeira.

— O quê?

Olhou para os lados, deu uns dois passos à frente e soltou:

— Kafka é o nome do autor, não o nome do livro.

Mesmo falando baixinho, não teve jeito. Umas três pessoas olharam pra ela querendo rir. A mãe fez uma cara inenarrável de deboche, que só a arrogância senil é capaz de produzir. Na careta, ela disse: “você não tem noção da besteira que está falando sua idiota quando você está indo eu já estou voltando e agora tenho que ficar aqui ouvindo essas besteiras de uma analfabeta feito você”. Assim, tudo junto mesmo. Sem ponto ou vírgula. Numa careta só.

Embora a mãe tivesse lançado mão de um clássico no mundo das caretas, a filha não entendeu.

— O que foi?

— Você tá louca?

— Por quê?

— Nome do autor?

— É!

— Eu vi muito bem. Não sou burra. Sei ler muito bem. Já li muito mais livros do que qualquer um aqui...

— Não tô falando isso.

— Então, dá licença.

E saiu em busca de um atendente.

— Ô, mocinho.

— Pois não.

— Eu estou procurando um livro, você pode me ajudar?

— Claro. Qual o nome dele?

— É Kafka.

— Certo. Qual deles?

— Como assim, qual deles? Tem vários livros com o mesmo nome?

— Não, digo qual livro do Kafka a senhora quer? – E soltou uma risada um tanto nervosa, como que esperando confusão.

— Acho que você não entendeu direito: quero um livro chamado Kafka. Um romance!

— Perdão, minha senhora, mas Kafka é o nome de um escritor, e não do livro. Temos até um livro chamado Kafka, mas não é um romance. É um ensaio sobre a obra do escritor Kafka.

— Escritor? Ensaio? Impossível. Quero que você me chame o gerente agora.

— Mas, por quê?

— Por favor... O gerente...


Ele virou para dentro da loja e fez um sinal para chamarem o superior.

Enquanto o gerente não vinha, foi escutando um pouco da larga experiência da cliente.

— Você sabe quantos livros eu leio por mês, rapaz? Leio um por semana, garoto. Você sabe ler?

— Sei sim, senhora.

— Sabe nada. Já leu Violetas na Janela? Já leu Verônika Decide Morrer? Lê e depois vem falar comigo... Essa juventude de hoje precisa aprender a respeitar os nossos cabelos brancos. Bom mesmo era no meu tempo, que os jovens liam. Todos liam. Agora, alguém da minha idade não vai saber o que é o nome do autor e o nome do livro. Li lá na capa do livro: “Kafka”

Aparece o gerente.

— Ah, que bom que o senhor chegou. Queria fazer uma reclamação contra esse mocinho aqui.

— O que aconteceu?

— Ele me ofendeu.

— O que ele fez?

— Me chamou de ignorante.

— Só falei pra ela que Kafka era o nome de um escritor, e não de um livro.

— Impossível, meu rapaz. Eu não sou idiota. Li muito bem na capa do livro: “Kafka”.

— Perdão, minha senhora. Ele está certo, Kafka é o nome do autor.

— Mas, será possível?!... Estão achando que sou idiota. Não tem ninguém mais experiente pra falar comigo, não?

O gerente logo sacou um livro e mostrou a ela a ficha técnica.

— Veja aqui esse livro, minha senhora. O título dele é O Processo. O nome do autor é Kafka. Franz Kafka.

— Kafka?

— Sim. Kafka.

Muita gente de olho na cena. Parou e procurou a filha. Nada. Há muito tempo estava na calçada, torcendo pra ninguém ter visto as duas juntas. A mulher nem agradeceu. Deu às costas ao gerente, ao atendente, ao Processo, ao Kafka, e foi andando calmamente, sem mostrar nem um pingo de vergonha. Talvez, no fundo, no fundo, ainda achando que estava certa.

Cabeça erguida, olhar no horizonte. Murmurava alguma coisa. Na porta, viu uma daquelas estantes giratórias com vários livros de bolso. Não é que lá estava A Metamorfose, do mesmo Kafka?! Parecia que estava lá pra tirar sarro dela. Reduziu o passo e olhou firme.

— Kafka... Kafka... Isso lá é nome de gente.

E num gesto rápido e certeiro se vingou. Puxou o Kafka pela orelha e jogou-o no chão, mostrando todo o ódio que sentia por essa juventude burra e iletrada. E saiu da loja pisando firme, quase marchando.

Obs.: 20º texto a partir do curso "Como escrever crônicas". 

terça-feira, 14 de abril de 2015

Meu amigo traficante



Paulo Montenegro

Em julho de 2014, participei de um treinamento. Em um determinado momento, recebi uma carta de quem me deu o curso e, até aquele momento, ele não era meu amigo. Após uma série de palavras, e outra série de lágrimas, descobri que alguém que eu mal tinha contato se importava comigo, admirava e queria me ver feliz.

Acabei de reler essa carta, e ainda me impressiono como existem pessoas que gostam de nós, mas são invisíveis. Infelizmente, não consegui encontrá-lo para agradecer pessoalmente pela carta; então, meu abraço foi por inbox, visualizado e respondido. Descobri que meu camarada havia saído da faculdade, uma pena, tinha futuro na área.

Senhor K (acho que esse nome combina bem com sua personalidade) é bem diferente das pessoas que normalmente estão em meu círculo social.
Extremamente educado, daqueles que, quando bate o dedão em uma quina qualquer, solta um sonoro “DROGA”, chega a ser fofo.

Ele não fuma, não bebe, pratica esportes, é jovem, e homossexual assumido. Casado. Mora no morro, em uma casa maravilhosa, tem um belo carro, Iphone, já visitou o exterior diversas vezes, uma realidade bem diferente da minha.

Poucas semanas após a notícia de que ele havia desistido da faculdade, chegou uma notícia mais surpreendente: Senhor K estava vendendo drogas.
Logo a notícia se espalhou, disseram que esse era o motivo de sua saída do curso superior, e que ele estava se dando bem em seu novo “negócio”.

Imediatamente, aquele cara doce e carismático virou motivo de chacota, indignação e até revolta de pessoas que antes o idolatravam. Questionei sobre quais “produtos” ele estava comercializando devido a meu preconceito inicial. Imaginei ser maconha; afinal, é uma das drogas que mais circulam entre os jovens, muito fácil de vender e com rentabilidade interessante.

Para minha surpresa, era algo pior, meu querido amigo estava vendendo doce. Uma droga altamente viciante, cara, e que já levou milhares de vidas, por ser altamente viciante e prazerosa para o usuário. Como sou um cético incurável, não comprei de cara o que todos estavam dizendo, então fui descobrir até onde seguia a tal verdade. Não precisei ir muito longe.

Como um tapa, apareceu um post dele dentro de um desses duvidáveis grupos de Venda/Troca do Facebook, onde meia volta aparecem armas, celulares roubados e, sim, drogas. Não tinha como negar, a verdade estava registrada e disponível para quem quisesse ver.

Eu sou contra o crime, acredito que todos aqueles que tiram proveito da inocência de outros, que causam o mal, devem ser processados, julgados e punidos. Mas nesse caso, não havia muito o que eu poderia fazer, eles eram meus amigos também.

Até o presente momento, não existe lei que condene um grupo de fofoqueiros à cadeia, ou a serviços comunitários, que seja.

O Senhor K passa bem e o negócio de docinhos para festas, também.

Obs.: 19º texto a partir do curso "Como escrever crônicas."

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O truque do braço




Maria Carolina Ramos

Garotas orgulhosas da sua beleza, realçada pelos vestidos e pela maquiagem impecável, sorriam para a foto feita com um celular. As que estavam na ponta do grupo pousavam a mão suavemente na cintura, formando uma charmosa letra V com o braço e o antebraço.

O salão de festa escolhido para comemorar a conquista dos formandos estava cheio e, lá, no outro canto, mais um grupo se formava para fazer mais fotos digitais. Dessa vez, com diferentes meninos e meninas que, no entanto, mantinham posição de braço igual a das amigas.

Posar assim deixa a silhueta esbelta e elegante porque a coluna fica mais ereta e o antebraço, firme. É um recurso bem-vindo para deixar o registro elogiável. Afinal, uma foto tem lembranças.

Mas quem guarda suas fotos hoje em dia? Aquelas produzidas por profissionais nas cerimônias de formatura, casamento e batizado talvez sejam uma exceção e ganhem formato impresso e um álbum bonito.

De forma geral, as imagens são produzidas com os celulares e publicadas em alguma mídia social. São as selfie-service: “consuma-me nesta foto instantânea em apenas dois segundos. Esse é o tempo que você deterá a atenção em mim, antes de passar para o próximo prato rápido” é a legenda nas entrelinhas.


Podemos deixar de prestar atenção na vida e só fazer esforço para sair bem na foto. É como os turistas que, em Paris, ficam durante alguns minutos em frente à Torre Eiffel, tempo suficiente apenas para fazer algumas fotos, e depois seguem adiante para outro ponto turístico, para fazer mais fotos. Eles não sobem até o último andar da torre e assim, não apreciam a vista da cidade. 

Da mesma forma, meninas e meninos podem não curtir a festa porque sua maior preocupação é fazer a melhor pose para a foto. E para a outra...e para a outra...

Obs.: 18º texto que nasceu do curso "Como escrever crônicas". 

Operação Lava-Jato, no traço de Osvaldo DaCosta


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Eu quero chocolate!




Antônio Taveira

A música veio à mente, a boca começou a salivar. Só vou sossegar quando sentir aquele sabor. VÍCIO, eu sei, mas é mais forte do que eu. Esse desejo incontrolável quando bate, começa uma caça desesperada pela casa, e nada.

Angústia! Nenhuma barrinha, nenhum quadradinho. Terei que sair para comprar. Mas e a chuva, parece que está desabando o mundo, mas não quero saber, pego o carro e vou ao Shopping.

Meu Deus, isso é doença? Síndrome de abstinência? Compulsão? Preciso procurar um médico? Um psicólogo?

Não, não, não! É apenas uma vontade forte, que passa assim que sorver uma bela barra de chocolate. E essa vontade não tenho todo dia. É, não tenho problemas, não.

Acredito que existam pessoas viciadas, compulsivas, que passam mal sem chocolate, talvez isso já seja uma doença, e todos males que advém dessa possessão: diabetes, colesterol alto, obesidade.

Espero que essas pessoas se tratem; afinal, o chocolate é somente um dos prazeres da vida, temos tantos outros, como... Depois eu penso nisso, cheguei.

Agora, meu foco é minha loja preferida, vou tomar um café, e já ganho uma gotinha de chocolate e saboreio uma ou umas barrinhas!

A loja está bem cheia. Todos são viciados como eu? Aquela mulher de branco procura com avidez por algum formato; aquela outra com aquele vestido gozado, que vontade hein? As crianças mexem em todos os produtos para saber qual escolher. E olha aquele homem! Está “devorando” uma Nhá Benta com os olhos esbugalhados, e já está um pouco gordinho; perto dele, ainda estou bem.

Já tomei meu café, comi minha gotinha acompanhada de duas barrinhas de chocolate e estou me sentindo muito bem. Vou embora, mas antes vou dar uma passada no Supermercado e comprar umas barras para deixar em casa, vai que vício ataca novamente!

Obs.: 17º texto a partir do curso "Como escrever crônicas."

quarta-feira, 8 de abril de 2015

A dor do silêncio


Mary Botelho

Resgatei o papel e caneta para dividir um pouquinho da mudez que ronda o coração das mães. Não se trata de exemplificar dores físicas como as que incomodam na gravidez ou que beiram à loucura durante o trabalho de parto, mas de compartilhar a que carregamos dentro de nosso olhar.

Falo da dor que se aninha junto com a criança em colos confusos, cheios de incertezas, da dor que nos acompanha piamente nas noites mal dormidas, nas lágrimas que escorrem escondidinhas dentro do banheiro ou ao volante quando temos um pingo de certeza de que estamos sós.

Tenho uma amiga que, como eu, exerce este papel desafiador de se tornar mãe. Grazielle tem duas filhas, Samira (5 anos) e a Kalilah (3), é bailarina de dança do ventre e faxineira nas horas vagas.

Em nossos cafés da tarde ou conversas pelo WhatsApp, dividimos angústias e sonhos, mas sempre somos interrompidas por uma birra, queda, machucado ou choro. Nessa hora, assumimos o papel de bruxa má, damos broncas, chineladas e castigos.

Apesar de nos mostrarmos como um forte armado contra qualquer ataque, nos dói tomar tais atitudes, nos dói olhar ao redor e perceber que estamos presas no silêncio onde não nos é permitido gritar, espernear, chorar e pedir colo como os pequenos.



Dói também perder o brilho nos olhos, mesmo que por instantes, ao ver que nossos sonhos se sujeitam às críticas alheias, que a maternidade solitária nos exige fios de cabelos brancos, olheiras, calos, mãos judiadas, unhas por fazer e roupas bagunçadas.

Se pode doer mais? Pode! Quando bate desespero e dúvida sobre a educação, nos vem à consciência de que não se pode adoecer, sentir cansaço, ter vontade de ler, dançar, estudar sem precisar se lembrar da hora do banho, da refeição, da brincadeira, do soninho.

Naquelas horas em que a noite amedronta, os pensamentos transbordam, o espelho diz que poucos anos pesam como décadas, nossa sanidade é posta à prova e sentimos medos infantis como os de nossos filhos, a dor dilacera e permanece calada para dar segurança e colo a um choro doído de febre, cólica ou pesadelo.

Esta dor não tem remédio nem agenda para ser cuidada. Ela apenas existe!

Quantas de nós optam pela insignificância em favor do bem-estar da cria? Quantas são vistas apenas na hora em que as crianças não atendem a padrões de qualidade de educação (leia-se gritar no supermercado, se jogar no chão, chorar sem motivo ou mostrar a língua para um estranho)?

Antes dos julgamentos (pertinentes deste cargo), não digo que a maternidade é um fardo! Amo minha filha e não duvido nada do amor de minha amiga pelas suas. Entretanto, eu e ela somos apenas dois fragmentos invisíveis da realidade materna distorcida pelo romantismo apresentado nos comerciais de margarina e caminhamos no silêncio de nossas dores reconhecidas apenas por quem também as sofre.

Obs.: 16º texto a partir do curso "Como escrever crônicas". 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

O orelhão e a boca aberta (A vida começa nos anos 80 - nº 2)

Dois orelhões, alvos de moleques de 14 anos
Ricardo Rugai

Eu passava o dia naquele SENAI da Ponta da Praia que nem existe mais; de manhã, sala de aula; de tarde, oficina mecânica. A libertação era às cinco em ponto, dali para uma rápida escala em casa, sem tempo para banho, e rua. Trombei o Tacape que, pelo fim da tarde, fechava a loja do patrão no SuperCentro Boqueirão e, dali pra frente, caçávamos zueira pela rua.

Nesse dia, sem muita criatividade, aproveitamos que os dois estavam meio gripados pra repetir pela enésima vez algo que era garantia de boas risadas: catarrar até não mais poder no orelhão, no buraco de saída das fichas e no bocal onde se falava. E só valia catarro verdão bem viscoso, que gruda mesmo quando se balança a mão.

Para o azar do próximo usuário do orelhão, nós dois estávamos naquela fase de gripe perfeita, catarro “maduro”, dos bons, daqueles que a gente sente subir quando puxa como se fosse sair um pedaço do pulmão. Era lindo de nojento.

Serviço feito, ficamos por ali para conferir o primeiro otário. Melhor do que fazer era ver a criatura se lambuzando sem conseguir se livrar do pegajoso. Sentávamos ali no balcão do Cook’s, pedíamos um refri - nem cerveja a gente bebia ainda - e ficávamos sacando os vacilos e se mijando de tanto rir. 


A dupla riu tanto até que a ficha caiu ...
 O primeiro foi um coroa com seus 40 e poucos anos, calça jeans, camisa social, meio barrigudo, polchete preta atravessada no peito. Todo confiante, ele lambrecou a cara no catarro, bateu o telefone para devolver a ficha e, na sequência, meteu a mão no melado. Viramos de costas para rir e não dar na vista.


Mas o filho da puta veio se sentar bem do nosso lado no balcão e aí deu merda, porque o Tacape tinha um grave defeito: ele ria sem parar até quase se mijar – e às vezes se mijava mesmo. Como era contagiante, eu também caía na risada. Não precisava ser gênio para desconfiar da gente e, depois de alguns minutos, o sujeito começou nos intimar.

— Tá rindo do que moleque?!

Eu até tentei desconversar, mas o cara insistiu e o Tacape mandou essa:

— Tamo rindo da tua cara de trouxa todo catarrado...

E cascava o bico com nós dois já chorando de tanto rir. Pior, os balconistas do Cook’s e pessoas em volta também começavam a rir com o canto da boca e a humilhação do sujeito só aumentava, até que ele perdeu a estribeira.

Puxou uma identificação de Polícia Civil e sacou um 38 às seis da tarde em pleno SuperCentro. Nós tentamos correr, eu escapei, o Tacape foi pego. O policial saiu caminhando pela rua segurando-o pelo pescoço, com a boca da arma encostada na cabeça e exigindo a caguetagem do fugitivo.


Crime e castigo? 
Juntava gente de todo lado na rua, principalmente a molecada que andava com a gente. Eu me entoquei em casa e fiquei da janela espiando a covardia e torcendo pelo Tacape. A gente só tinha 14 anos, não gostava de polícia e caguetagem era o pior dos pecados. Nas diabruras noturnas, sempre repetíamos:

— Não pegou no flagra? Tem prova? Da nossa boca não saía uma palavra!

O polícia caminhou com ele até o fim da rua onde eu morava. Quase nessa hora, minha mãe estava para descer e, aí sim, eu tive medo, porque era a única pessoa no mundo que eu respeitava e temia: polícia, diretor de escola e patrão eram fichinha. Para minha sorte, ela saiu segundos antes da muvuca estacionar em frente ao prédio e, na sequência, eu fui caguetado, não pelo Tacape, claro, mas pelo Marreco.

Talvez ele tenha ficado comovido de ver o Tacape – que continuava rindo do policial - com uma arma da cabeça, mas acho que ele se vingou. O marreco era mó paga-sapo, metido a andar de roupa de marca, ser comedor e surfista. Só que no futebol de praia ele sofria na minha mão, eu driblava até não poder mais, parava para ele levantar e levar outro; levava a bola para beira d´água, esquecia do jogo e ficava ali driblando até a molecada chiar.

Ele conseguia me bater, mas nesse dia o Marreco foi à forra, abriu o bico, meu interfone disparou e me mandaram descer. O polícia nos arrastou, cada um por uma orelha, por toda rua e fez a gente limpar o orelhão sendo zuado pela molecada incrédula; enfim, os que sempre se safavam rodaram! Muitas de nossas “vítimas” tiveram ali sua vingança.

Para nós, não mudou muita coisa. A zueira continuou mais forte do que nunca, aumentou a bronca de polícia, e o ódio de cagueta.

Dias depois, em frente ao prédio do Marreco, apareceu pichado no asfalto em amarelo: “pato viado” “pato cagueta”. A tinta, surrupiada da Prefeitura, que pintava sarjetas pelo bairro, pegou bonito no asfalto e, durante alguns anos, o Marreco teve que explicar aquela história.

Era uma história engraçada, nos divertíamos lembrando e recontando. Hoje já sei... uma arma engatilhada na cabeça de moleques de 14 anos? Um tropeço, um reflexo ou uma “boca dura” a mais e talvez no lugar dessa crônica sobre violência existisse apenas mais sangue num passado de violência crônica.


A praça que nos convoca


Por que esta praça nunca nos convida? 

Maria Goretti

A praça não é convidativa, pois se você deseja um descanso antes de seguir a caminhada nesse calor de mais de 30 graus, aconselho que procure pausa em outras bandas. Nela não há árvores frondosas e gentis com caules tatuados por corações flechados e com as iniciais dos apaixonados.

Também não há avós orgulhosos ensinando netos a andar de velotrol ou mães cuidadosas assoprando o joelho ralado do filho e garantindo-lhe que vai sarar. Tampouco há crianças ensaiando as primeiras pedaladas sem rodinhas e pais exibindo habilidades com a bola ou no manejo com as pipas. As babás que enaltecem as posses das patroas ou seus defeitos também não são avistadas.

Nela sequer há bancos. Já pensou uma praça sem bancos? E sem bancos não há mendigos. Faltam casais beijoqueiros jurando “o para sempre” e não são vistas as entrelaçadas mãos magrinhas e manchadas pelo sol, com veias saltadas e que usam as alianças das bodas de ouro. Andam longe dessa praça as mãos ligeiras que jogam dominó e os patins são afastados pelo piso de mosaico português.

É uma praça redonda – contorno ideal para a linha 20 de ônibus - e bem barulhenta, que corta uma linda avenida de palmeiras imperiais e que somente por isso ganhou as suas, sete no total e milimetricamente plantadas em canteiros redondos e gramados. Na última reforma, a praça foi enfeitada por quatro espelhos d´agua em semicírculos e decorados nas pontas por discretas flores, único colorido.

As palmeiras cercam os espelhos d´agua que emolduram o Monumento à Independência com sua Deusa esplendorosa de roupas esvoaçantes, seios fartos, pose de triunfo e que eternamente abre suas asas sobre nós.

Às vezes, não lembramos que é um tributo aos Irmãos Andradas - José, Martim e Antônio –, gente da terra, mas o que nunca se esquece e nem se é indiferente é ao seu chamado, somente lançado quando os sentimentos se extrapolam, não cabem mais em cada um e nem em outro lugar e precisam ser agasalhados por asas audazes. 

Torcedores comemoram bicampeonato paulista do
Santos, em 2011 (Foto: Ivan Storti)
O chamado se dá em finais de campeonato, em quedas de regimes, em lutas por sonhadas mudanças, em manifestações, em resultados de eleições... e é atendido por santistas que seguem em sua direção, instintivamente - quase como tartaruguinhas que procuram o mar – e escalam suas esculturas, beijam bandeiras, chacoalham camisetas, gritam, cantam, pintam as caras, suam e não à toa consagram uma praça quase gélida, como o Coração da Cidade – pulsante!

A Praça da Independência, no Gonzaga, em Santos, nunca foi uma praça convidativa, e sim uma praça convocatória

Obs.: 15º texto da série a partir do curso "Como escrever crônicas".

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Amigos e o vício do café




Cícero Luiz*

Quatro da tarde. Discretamente deixo minha escrivaninha. Um aceno de cabeça e dois companheiros de sala me acompanham. O destino é o Café que fica na esquina. Vai começar mais uma reunião informal de quase todos os dias.

Os pedidos raramente mudam: um puro, um com leite e o terceiro com uma “coroa” de espuma. Nunca consegui definir se um vício nos move ou simplesmente a necessidade do “break” no meio da tarde. O fato é que todos os assuntos são permitidos nessa roda, menos os relacionados ao trabalho.

Essa ligação com o café vem de longe. Ainda me lembro dos meus seis anos de idade, quando minha mãe me levava a Santos para algumas compras ou a passeio (ainda não existiam shoppings com seus corredores assépticos). O cheiro da torrefação invadia as ruas do Centro. Naquela época, meu café era acompanhado por leite, pois se ingerido puro faria “mal aos nervos” das crianças como eu.

A adolescência com o primeiro emprego me lançou em um novo patamar. Fui admitido nas rodas de café junto com os funcionários mais velhos. Era uma espécie de mascote no meio dos adultos. As malandragens, fofocas, discussões e aventuras (verdadeiras ou não) eram divididas entre todos democraticamente.

Mais maduro, busquei voos mais altos. Provei cappuccinos, cafés especiais e até café gelado. Descobri que aquele copinho com água gaseificada que alguns lugares oferecem serve para “limpar” as papilas gustativas, permitindo assim uma melhor degustação.

Para mim, não importa o momento do dia, se estamos sós ou muito bem acompanhados, fatos importantes sempre envolvem um café.

Obs.: 14º texto a partir do curso "Como escrever crônicas".