sábado, 28 de março de 2015

Uma carta de amor


Marcus Vinicius Batista

Querida Piracicabana
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Preciso declarar publicamente meus sentimentos por você. Não aguento mais tamanha injustiça de pessoas que mal te compreendem, que te julgam com soberba e vaidade. Mal suporto dividir espaço com aqueles que não absorveram a ideia de que você, acima de tudo, é uma aglutinadora de gente. Você, como dizem os gurus da autoajuda, agrega valores, mesmo os minguados que saltam dos cartões, ao nos espremer. Não fazemos amizades porque somos primitivos e, simultaneamente, devotos aos seus serviços.

Gosto tanto de você que me tornei uma pessoa mais paciente. Espero 35, 40 minutos pela sua chegada, ansioso para que me faça companhia até meus compromissos profissionais e pessoais. Você é a melhor e mais recorrente desculpa que poderia ter para meus atrasos. Todos são vítimas deles, mentindo ou não. Quase sempre é verdade e, assim, você se torna o assunto do dia. E isso se exibindo o mínimo pela cidade.

Aprendi que, olhando para os lados, não estou sozinho. Muitos como eu te admiram, te idolatram como única opção para que nossas vidas caminhem adiante em vias cada vez mais próximas de vielas. Quando te encontramos, deixamos pra lá sua instabilidade de comportamento; sequer enxergamos como defeitos. Você pode aparecer de roupa nova e justificar sua lentidão porque estava sendo maquiada. Aceitamos você ainda que esteja mal vestida, ainda que esteja acompanhada por seus empregados exaustos, estressados, ingratos e loucos para te abandonar na próxima esquina.

Fico profundamente irritado quando seus detratores te chamam de gananciosa. Sempre te perdoo quando me tomas 10 centavos emprestados em definitivo. É plausível o argumento de que faltam moedas por aí. Elas ficam, claro, nos bolsos mais pobres, jamais nos compartimentos das bolsas de grife. Eu falo para os levianos que eles deveriam ter consciência de que você não precisa das migalhas de seus admiradores. Ou seriam doadores?

Outro dia, diante da insistência de um amigo grosseiro, me recusei a fazer contas. Ele teve a pachorra de te acusar de sumir com os 10 centavos dele por 29 vezes e disse que poderia passear contigo de graça por conta desta mágica financeira. Pensei seriamente em nunca mais conversar com o sujeito, apagá-lo da minha rede social e talvez falar mal dele por aí. Foi quando me veio à cabeça o lema da minha cidade, terra da caridade e da liberdade.

Ora, ele é livre para andar com outras pessoas. Eu pedalo quando não posso ser seu súdito. Chego em 20 minutos ao meu trabalho. Com você, da última vez, levei uma hora. Este tempo de convivência renova nossa relação e a deixa mais sólida.

Você é solidária, preocupada com nosso bem-estar diário. Por causa da chuva, recebo a benção de conviver contigo até cinco dias por semana. Você me recebe, muitas vezes, com ares mais frios, que me refrescam da umidade dos verões a cada ano mais longos. Um choque térmico deve ser risco para gente fresca, que não soube se preparar para te aguardar. Aqueles 35, 40 minutos defumando ao Sol, sabe?

Sua generosidade te tornou comunicativa. Em muitas ocasiões, se seus servos murmuram algo próximo do bom dia, você é capaz de falar conosco virtualmente. Wi-Fi é seu jeito de nos amar. E você ainda nos estimula a conversar pendurado em barras de metal, sacudindo enquanto nos arrastamos pelo trânsito de hora do rush modelo 12 horas por dia. Percebi que são seus preceitos: não se acomode! Improvise sempre! Seja criativo!

Você monopolizou minha paixão. Só tenho olhos para você, minha Piracicabana. Até porque, nas ruas da minha cidade, não existem outras pretendentes. Você é única!

Com amor,

Um de seus milhares de fãs (nada) passageiros

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