segunda-feira, 30 de março de 2015

Um time dos céus




Este texto – em versão mais extensa – foi publicado originalmente na Revista Mirante, n.88 (janeiro-março/2015)

Marcus Vinicius Batista

Sempre admirei a relação duradoura – embora não tão estável por causa do preconceito de ambos os lados – entre futebol e cultura. De Nelson Rodrigues a Albert Camus, de Luiz Fernando Veríssimo a Vladimir Nabokov, de Bob Marley a Chico Buarque, grandes ícones adoram flertar com futebol, e divagar sobre o esporte, sem entrar no mérito das habilidades com a bola.

Pensando em perdas recentes da cultura santista, concluí como torcedor licenciado e leitor inveterado que poderia formar a minha seleção de personagens. Um time capaz de simbolizar a riqueza de seus legados artísticos. Todos nascidos ou radicados nestas terras.

No paraíso, futebol é um esporte misto, sem resquícios do machismo que permeia os mortais peladeiros. Por isso, o goleiro é Patrícia Galvão. A posição é cargo de confiança, que exige um líder que mobilize o resto da equipe. Pagú tem a agilidade de defender não apenas a si mesma, como toda a zaga. Mas cuidado: ela é uma goleira que não perdoa erros de posicionamento.

Nas laterais, escalaria Toninho Dantas e Wagner Parra. Laterais, hoje, são alas. Atacam e defendem quase que simultaneamente, sempre em velocidade. Precisam de preparo físico para suportar as críticas e a maledicência dos adversários.

O produtor cultural Toninho Dantas fica na direita – não se trata de ideologia política -, mas por ser um coringa, que jogou em várias posições, como ator, diretor e produtor. Na esquerda, joga o DJ Parra. Apesar de nunca ter saído daqui, ele é um lateral globalizado, de olho em várias culturas. Parra é mestre da catimba, como todo bom atleta latino. Peita árbitros e reclama dos companheiros desatentos, sem jamais entregá-los aos dirigentes. Jogou várias vezes na carreira por amor à camisa. Os fãs deste atleta insistem que ele joga por música.

A zaga está em família. Pai e filho, com entrosamento de décadas. Serafim e Daniel Gonzalez, segundo os especialistas, se complementam. O pai é visto como um jogador clássico, que desfila pelo gramado. É capaz de interpretar vários tipos de zagueiros ao longo de uma partida. Serafim carrega nas chuteiras a imprevisibilidade dos atores.

O filho Daniel é mais cerebral. Adora pensar a partida, filosofando e relativizando as possibilidades que o jogo oferece. Um jogo de futebol, para ele, é o espetáculo das dúvidas e incertezas. Nunca se afoba e esculpe cada passo que dará até tomar a bola do adversário, sem entradas violentas.

O meio-campo é formado três poetas. A diferença (e maior mérito) é que eles confundem os adversários porque alternam posições. Não há o volante brucutu. Todos vivem pela criação de jogadas, de olho no gol.

Vicente de Carvalho, Rui Ribeiro Couto e Narciso de Andrade são de gerações diferentes. O que os une é a beleza poética da partida, a serenidade de colocar o jogo nos eixos quando os nervos parecem desandar. Nenhum deles pediu os holofotes. Todos abriram mão da camisa 10. 

Mesmo em um time de craques, alguém precisa envergar o manto mais desejado. Plínio Marcos é o atleta que veio do povo, o jogador marrento que provoca todos os envolvidos no espetáculo, sejam cartolas, técnicos, jornalistas e até os próprios companheiros de time. Plínio chuta com os dois pés, mas foi bastante perseguido pelas opiniões indignadas. Quase abandonou a carreira e, em muitos momentos, teve que atuar em clubes menores para sobreviver. Jogador politizado, também teve sua fase mística.

No ataque, dois jogadores irreverentes. Diferentes, mas preocupados com o gol como arte. Zéllus Machado e Evêncio da Quinta nasceram com o dom da artilharia. Gols de bico ou de bicicleta, o valor é o mesmo, o que importa é escutar as arquibancadas em êxtase, sejam aplausos ou vaias. O músico e ator Zéllus se expõe mais às botinadas dos zagueiros adversários. Ele apanha e sorri. Provoca o beque de fazenda e cantarola a próxima jogada, num jeito garrinchesco. O que o aproxima, aliás, de Zêgo – Evêncio nunca foi nome de jogador – é o humor e a teatralidade dos movimentos na grande área. Zêgo é o teatrólogo; Zéllus, o teatro em cena.

Peço desculpas porque me esqueci de outros nomes, mas toda a escolha é subjetiva. Tentei escalar uma equipe capaz de dar variações táticas ao treinador. Por uma questão de justiça, o técnico contratado é o escritor e roteirista José Roberto Torero, de quem me apropriei da ideia deste time.

Calma, Torero está vivíssimo e escrevendo como nunca. Ele foi “contratado” pela experiência e pela capacidade de misturar futebol e artes como ofício e como poesia. Deixo para ele a proposta de mexer na equipe e a você, leitor, de colaborar com o banco de reservas. Martins Fontes? Lydia Federici? Maurice Legeard?

Este time é o deleite de todos os profetas-comentaristas, porque permanecerá invicto sempre, independentemente de novas contratações.

Um comentário:

Sandra Silva disse...

Um time difícil de ser escalado, mas nunca deixaria o Maurice Legeard na reserva. É chute certeiro, reto e direto. Podia não ser bom de drible, porém, tinha um olhar aguçado que antecipava as jogadas. Não catimbava o jogo, nem tinha muita pena dos adversários, talvez ai estivesse o perigo, quando tinha que derrubar, era sem dó.