terça-feira, 24 de março de 2015

Sem rua, sem calçada


Gonzaga: a pé, pedalando ou de carro?

Paulo Montenegro*

Hoje, precisei ir até o Gonzaga e me peguei pensando no dilema: a pé, de ônibus ou de carro? Antes de discorrer sobre o assunto, vamos estabelecer um parâmetro importante: o Gonzaga é o centro de Santos. É o bairro onde você resolve boa parte dos seus problemas, se diverte, namora e, no meu caso, se irrita.

Conforme os anos se acumulam em nossas costas, queremos deixar a vida mais fácil, mais leve, e não falo sobre aquela baboseira sobre estar cansado, ou não ter a energia dos jovens. É uma questão de evolução.

Com 16 anos, eu não iria dirigindo, porque é proibido e irresponsável (além de não ter dinheiro para comprar meu próprio veículo). No auge dos meus 28, não quero ir de ônibus e deixar o carro na garagem. Comprei para isso, não foi? Mas a memória me bate e eu rapidamente mudo de ideia, lembro-me de um episódio que ocorreu no ano passado.

Peguei o carro e fui até o Cine Roxy assistir a algum filme que não me lembro, depois comi no Mc Donald´s e fui retirar o carro no estacionamento. R$ 30 para deixar o carro parado por cerca de 4 horas, sem direito a ducha nem beijo.

Sabendo que eu tenho um Uno 1.0, que eu moro no Boqueirão e que mesmo com a gasolina cara eu não gasto mais do que dois litros para ir e voltar, não é de querer matar todo mundo?

“Mas você pode parar na rua!” – Sério? É mais fácil encontrar uma agulha num palheiro com uma venda nos olhos e sem usar as mãos do que encontrar uma vaga no Gonzaga. Fora a irritação de tentar estacionar, entre semáforos completamente ignorados pelos pedestres e motoristas que entram em pânico e surram suas buzinas ao ver um carro parado enquanto o semáforo está verde.

Ônibus é uma opção viável, mas indesejável. Eu poderia escrever uma crônica ou uma dúzia sobre nossa querida Viação Piracicabana, mas aqui vou fazer apenas um breve recorte.

Tenho virtualmente sete opções: o 40 que faz uma rota burra, o 13 e 77 que me deixam na praia e passam pouquíssimas vezes durante o dia, o 155 que vai mais lotado que o Magazine Luiza em dia de Black Friday ou os 02, 934 EX e 944 que são intermunicipais, caros, sujos e lotados, uma maravilha que me custa em torno de R$ 6 e R$ 8 e um bronzeamento forçado enquanto aguardo.

Avenida Ana Costa, em 1979. Foto: Novo Milênio
Eu desconsidero a opção bicicleta, primeiro porque a minha última foi roubada dentro do meu prédio (pelo síndico, acredite se quiser). Segundo, porque o Bike Santos está sucateado e não foi implantado em proporção adequada para a cidade. Apenas essa fadiga já me desestimula.

Não leve a mal, eu adoro andar pelo Gonzaga, e não sou tão crítico quanto pareço. Mas esses dilemas me atingem todas as vezes que preciso/quero ir até lá, me deixa impressionado que o centro comercial e de entretenimento da cidade invista tanto na qualidade do asfalto e das calçadas e tão pouco seja feito para que as pessoas possam utilizá-las em sua graça e plenitude.

O Gonzaga é vítima de seu próprio sucesso, crescimento desenfreado e orgânico. Eu vou seguir amando esse bairro, com todas as suas particularidades, mas hoje eu decidi ir a pé.

Obs.: 9º texto a partir do curso "Como escrever crônicas".

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