segunda-feira, 30 de março de 2015

Para que lado é a minha casa?


Edwar Fonseca

A gente sempre sabe o endereço do bar, mas sair de lá é um desafio. E não há nada mais desejável do que ir até a Meca das cervejas. Eu atendo o telefone e ouço: “Vamos naquele bar que tem um milhão e meio de cervejas diferentes?”. Resposta: “Vamos”.

Claro que é exagero dizer essa quantidade, mas que importa se tem 392, 294 ou 302 cervejas diferentes. O número exato não tem a menor serventia. O que interessa é que tem muita cerveja! E um milhão e meio é a forma mais digna, de se dizer que tem cerveja pra caramba, dá para beber o ano inteiro e não repetir uma sequer. Satisfazer todos os desejos. Milhares de sabores.

Planejo a ida. Claro que não posso ir de carro, pois será impossível dirigir na volta. Ônibus para subir a serra, metrô para chegar próximo ao destino e depois a pé mesmo.

Ao chegar, olho para o pessoal da associação reunido do lado de fora, embaixo de um gazebo, fazendo cerveja ao vivo, ali na hora. Mas quero entrar e mergulhar de cabeça naquele rio de sabores.

A casa é toda aberta na frente, tem um deck com mesas para quem gosta da sensação de ar livre. Mas o que quero mesmo é ficar lá dentro, cercado por cerveja de todos os lados. As paredes são prateleiras intermináveis, do chão até o teto, com cervejas de todos os sabores e todos os lugares. Geladeiras na parte da frente entre o interior e o deck e outras tantas na parede do fundo. O enorme balcão vai desde a porta da entrada até a parede do fundo. 


De repente, conseguimos dois lugares bem ali. Praticamente como acertar na loteria. “Daqui não saio e daqui ninguém me tira”. Na nossa frente, 32 “bicos” de chope. Dava para abrir o bico e colocar a boca embaixo.

Pessoas sentam ao lado, bebem, come, levantam, vão embora, sentam outras, e continuamos ali. Chope atrás de chope. Cremosos, fortes, suaves, levemente ácidos, doces, bem amargos. Uma orgia de aromas e sabores.

Várias pessoas apostaram que horas liberaríamos os lugares. Outros bolavam um jeito de nos tirar dali. Mas não é sempre que a gente vai à Meca. Então, decidimos aproveitar até o fim.

“Amigo? Vê mais um! Agora aquele ali”.

Inenarrável.

Lembrei que ainda tinha que voltar para Santos!

Andar algumas quadras, metrô e depois ônibus para descer a serra. Quase fiquei sóbrio só de pensar nisso tudo. Mas estar embriagado neste momento é a cereja do bolo. Não estou bêbado. Estou deliciosamente embriagado por toda a magia do lugar, as pessoas, os sabores. Digo por mim.


Pagamos a conta. E agora? Andamos na direção de um aroma que me faz flutuar como em desenho animado. Hamburguer feito em grelha gengiskan, uma espécie de roda com leve formato de cone, que gira e assa no calor do carvão vários círculos suculentos de carne. Ah, aquilo me recompôs. Do cheiro até o deleite. Claro, tomei mais uma cerveja.

Trançando um pouco as pernas, fomos percorrendo o mesmo caminho da vinda, mas agora cantando, conversando com amigos imaginários, até chegar na poltrona do ônibus que nunca foi tão gostosa quanto agora. Dormi e acordei em Santos, renovado e pronto para outra.

Obs.: 12º texto da série a partir do curso "Como escrever crônicas". 

Um comentário:

FELIPE ALVAREZ disse...

Sensacional e agora está profissional...