sábado, 14 de março de 2015

Os virgens sem livros

Cine Iporanga (extinto), no Gonzaga, em Santos
Foto: Novo Milênio
Marcus Vinicius Batista* 

Éramos dois virgens. Dois profissionais que passavam por aquela experiência pela primeira vez. Isso explicava porque andávamos de um lado para o outro em frente à livraria. Tentávamos amenizar a expectativa e o atraso do visitante com piadas, sorrisos, conversas com outros clientes e papos de boteco – mesmo sem cerveja – sobre futebol.

Eu era um jornalista com meia dúzia de anos de carreira. José Luiz Tahan era o dono da livraria Iporanga e, portanto, o sujeito que havia me contratado. A livraria ficava no Gonzaga, bairro nobre de Santos, no litoral de São Paulo.

José Luiz também organizava um evento com escritores pela primeira vez e sonhava com voos mais elevados no mercado editorial. De funcionário da Iporanga, passou a sócio. Naquele momento, em 2000, ele já aspirava atrair escritores para um dia transformar seu estabelecimento também em editora.

José Luiz, amigo desde a adolescência por conta das peladas nas praias de Santos, havia feito parceria com uma sala de cinema, também chamada Iporanga, que ficava acima da livraria. Eram três salas, sobreviventes do antigo modelo de cinema de bairro, extinto neste século por conta das salas modernas de shopping.

A proposta era convencional: o escritor seria entrevistado por mim durante uma hora. Depois, perguntas do público. No último capítulo da noite, os autógrafos do autor e a venda de alguns (ou muitos) exemplares.

A ideia, para mim, era perfeita. Além de conhecer escritores, trabalharia no meu cinema preferido. O Iporanga 3 era o menor dos irmãos, com feições de sala de casa, e tinha lugar cativo na minha memória afetiva cinematográfica. Foi lá que, aos 10 anos, vi um filme sozinho pela primeira vez. Assisti ao Superman 3, num domingo pela manhã. Minha avó Norvina, que morava do outro lado da avenida Ana Costa, onde ficava o cinema, acompanhou até a compra do ingresso pela janela do 501.

O meu pagamento para conversar com escritores era uma permuta coerente com a ocasião. Eu ganhava livros, o que era excelente, pois me poupava o trabalho de gastar a maior parte do dinheiro no mesmo lugar ou na concorrência. Além disso, recebia de presente o livro do autor a ser entrevistado para que me preparasse. Em tese. 

O escritor Ferréz. Foto: site do autor

A chuva apertava e deixava a sexta-feira mais friorenta. O autor estava atrasado meia hora. José Luiz falava do tráfego, tentava reduzir a ansiedade com conversas entrecortadas com diversos clientes; muito deles estavam ali para conhecer Ferréz, autor de Capão Pecado. O visitante era um escritor de primeira viagem, festejado no mercado, representante da periferia de São Paulo, com texto impregnado de crítica social de qualidade. Como ainda não era um ícone literário, personalizava o convidado perfeito para começar o projeto.

Após quase uma hora, José Luiz pediu que as pessoas se acomodassem na sala de cinema. Pouco mais de 15 pessoas subiram o único lance de escadas e ocuparam lugares próximos ao palco. Estava com jeito de pocket show literário.

Mais meia hora e aparece um sujeito magro, na casa dos 35, 40 anos, de camisa e calça social e barba feita. Não parecia com o Ferréz da foto da orelha do livro ou das imagens divulgadas pela imprensa. Na verdade, era oposto. Ele se aproximou de nós, logo na entrada da livraria. Estendeu a mão direita e se identificou como editor. Peço desculpas por não me lembrar do nome dele. Talvez seja o trauma literário.

O rosto do José Luiz deu sinais de alívio. Na sequência, a pergunta óbvia:

— Cadê o Ferréz?

— Não vem.

— Como não vêm?, perguntamos quase juntos, com olhos arregalados.

— Não vem. Teve um problema em São Paulo.

Eu e Zeca nos olhamos. Ele respirou fundo e fez outra pergunta, procurando alguma coisa nas mãos do editor.

— E os livros? Onde estão?

— Não trouxe. Não conseguimos exemplares extras para trazer para cá.

— Porra, e agora? O povo tá lá em cima!, disse Zeca, em tom que me pareceu mais de resignação do que de fúria.

Todos se olharam e não sei quem tomou a decisão. Provavelmente o José Luiz.

— Vamos entrevistar o editor.

Subimos os três, entramos na sala de cinema e José Luiz deu as explicações de praxe para o público. 

Não sei se a noite fria e chuvosa provocou receio nas 15 testemunhas ou se todos estavam encaixados nas cadeiras estofadas e confortáveis do Iporanga 3. Ninguém arredou pé e a entrevista com o editor seguiu por uma hora. O assunto, claro, foi o autor que não estava lá e o livro Capão Pecado, que também era uma abstração naquela sexta-feira, em Santos.

Infelizmente, não tenho como dar mais detalhes da conversa. Não a gravei. Não houve reportagem sobre o encontro. Não tinha cabimento escrever sobre alguém que falava sobre outra pessoa, diante daquelas circunstâncias particulares. Não me lembro do que aconteceu depois, como o editor foi embora ou da despedida. Na embriaguez saudosista, só consigo me recordar do antes.

O projeto da extinta Iporanga durou mais uns dois anos. Pude entrevistar, por exemplo, Fernando Moraes pela primeira vez, que lançava Corações Sujos. O projeto cresceu e hoje é um festival literário, com cinco anos de vida.

José Luiz fechou a livraria Iporanga, abriu outra, a Realejo, e virou editor. Os cinemas foram fechados e o prédio, demolido, deu lugar a um shopping center de mesmo nome voltado para as classes A e B, além de um flat e quatro salas de cinema com filmes não tão comerciais.

Eu continuo a entrevistar escritores, inclusive no festival literário que mencionei, e tento me tornar um deles. O livro Capão Pecado, que ganhei duas semanas depois da estreia, segue ali, na terceira prateleira de uma das minhas estantes, entre José Roberto Torero e João Gilberto Noll.

Nunca encontrei Ferréz. Até hoje, desconheço o porquê.

Obs.: Texto publicado na revista Super pedido, n.51, edição novembro-dezembro/2014, p. 42-43. A revista é destinada aos donos e funcionários de livrarias. 

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