terça-feira, 3 de março de 2015

O turista acidental


Vista da região de Viñales, em Cuba
Ricardo Rugai

*** Este é a quinta e última de uma série de cinco crônicas sobre Cuba ***

A passagem foi comprada em março do ano passado, de supetão, graças ao telefonema de um amigo a quem serei eternamente grato.

Passagem comprada, viagem esquecida. Os nove meses até o embarque transcorreram sem que eu tivesse tempo de me “preparar”. Foi impossível ler o noticiário sobre país, livros de história, assistir a filmes e pesquisar pontos turísticos; enfim, tudo que um professor gostaria de fazer antes de viajar.

Na verdade, me informei sobre uma única coisa dias antes da viagem: os charutos e a cultura do tabaco na região de Viñales. 2014 não deixou espaço para pensar em Cuba. Sua lembrança ocasional funcionou como uma miragem que anima a travessia do deserto. E assim fui driblando contratempos e “contragentes” até os 45 minutos do segundo tempo. Sentar no avião foi um alívio.

Mural de 180 metros de extensão, em Viñales
(Fotos: Ricardo Rugai)
Felizmente, um dos que viajou conosco fez um roteiro. Passamos cinco diais iniciais em Havana. De lá, rodamos 900 km para chegar a Santiago de Cuba, no oriente da Ilha, de onde percorremos o litoral e interior por 10 dias. Viñales ficava para o ocidente, fora do roteiro.

Uma viagem dessas exige atenção para entender a língua, contas com o câmbio e os gastos, decifrar as comidas incomuns, pensar nos roteiros prioritários. São descobertas prazerosas, mas é inegável que deixam nossa mente em estado de atenção e creio que lá pelo 15º dia bateram cansaço e saudade de casa.

No mundo ideal, eu voltaria por três dias para curtir um pouco minha casa, rever as pessoas que gosto, comer uma bela feijoada e retomaria a viagem do ponto onde parei por mais 15 dias. Ainda tínhamos cinco dias em Havana. Abandonei minha lista de lugares a visitar, desacelerei e me deixei vagar ao léu pela capital. Assim, conheci pessoas e lugares inesperados até que veio o fatídico momento: restava apenas mais um dia na viagem.

Misturavam-se a saudade antecipada e o desejo de visitar mais lugares, concorriam com o cansaço e a falta de tempo. Foi então que Viñales ressurgiu na forma de um pacote turístico que partia cedo de Havana e voltava no mesmo dia pela noite. O preço não era dos melhores e certamente seria possível gastar menos indo por conta, mas isso exigiria pesquisar linhas de ônibus, taxistas, preços, horários, deslocamentos na região, etc, etc, etc, fardo que ninguém queria àquela altura. O pacote era a opção mais cômoda.

Folhas verdes de tabaco secam ao sol
E assim, no último dia, optamos pela primeira vez na viagem pelo esquemão turístico clássico para gringos. Era um dia realmente atípico, pegamos a única chuva em Cuba ao longo de 20 dias, e o mar de ressaca estourava em ondas na murada do Mallecón por onde andava nosso ônibus. Corrigindo, era um comboio de três ônibus recolhendo gringos pelos principais hotéis de Havana antes pegar a estrada.

Alguns mexicanos, dois colombianos, nós brasileiros e uma maioria de europeus, na qual sobressaía um bando de italianos chatos gralhando nas poltronas da frente. No meio de todos, o guia cubano insistia em atrapalhar nosso sono matinal com piadinhas terrivelmente sem graça. Ele mesmo sorria amarelo. Ali tive a certeza: todos os guias turísticos do mundo se formam numa secreta escola internacional da CVC. Enfim, começamos a “pagar” pela nossa opção preguiçosa antes mesmo de cairmos na estrada.

Na primeira parada, as coisas “evoluíram”. Era uma pequena fábrica de licor de frutas à base de rum, nada de mais. Mas o que havia de interessante ali sumia em meio à aglomeração de gente disputando espaço para fotografar, sempre com destaque para os italianos-malas se acotovelando e furando fila sem cerimônia. E havia o toque final: a indefectível lojinha pra turista onde a maioria, sem ligar para os preços exorbitantes, comprava sem cerimônia e saía carregada de sacolas.

Na mesma parada, encontramos amigos do nosso grupo, que sofriam ainda mais noutro ônibus com um guia que falava alto e ininterruptamente. Resignados a encarar um dia de passeio nesse esquema, voltamos ao ônibus e tentamos ignorar o guia e os italianos admirando as belas paisagens pela janela. E assim transcorreu o passeio: um roteiro corrido, uma região belíssima, mais tempo para compras do que para contemplação. 

Choupana de sacagem de tabaco
Chega a dar tristeza ver tanta gente reduzindo sua viagem ao consumo de mercadorias e paisagens. Admiram a vista apenas o tempo suficiente para o disparo frenético de seus cliques, como gafanhotos devorando imagens. É como se viajassem no ritmo de trabalho. Que pena dos parentes e amigos que serão submetidos às sessões de exibição de fotografias intermináveis que interessam apenas a quem viajou.

Durante o almoço um senhor tocava músicas cubanas e latinas em seu violão. Foi a única ocasião em toda a viagem que ouvi Hasta Siempre Comandante Che Guevara, quase um hino da esquerda simpática à Revolução Cubana. Que sentido tinha aquela música naquele contexto?

No meio da tarde, chegamos numa plantação de tabaco. Mais do que comprar os charutos, minha expectativa era conhecer o plantio, a secagem, a seleção, o preparo; ouvir histórias e conversar com quem trabalha nessa cultura. Mas a turistada se aglomera, disputa o melhor ângulo para as fotos, faz as compras e dá por encerrado esse capítulo da viagem. Alguns adentram o ônibus e pressionam o guia para partir rápido, eles se cansaram.

Tabaquero prepara charutos, cercado
por turistas 

Aguardei a dispersão dos gafanhotos e puxei conversa com o senhor que nos mostrava o preparo do tabaco e dos charutos. Bastaram duas ou três perguntas e um comentário sobre os charutos baianos para que ele me interrompesse perguntando:

— Você está sozinho ou com a excursão?

Diante da resposta, acenou com a cabeça e lamentou pelo meu pouco tempo, deixando a certeza que ali eu passaria uma bela tarde ouvindo alguém me contar de charutos, de seu trabalho e de como é a vida por lá. Não havia tempo para isso, fotos tiradas e compras feitas, a partida era iminente.

Debaixo do sol quente, deixei a bela paisagem daquele vale tabaqueiro, imaginando uma volta. E assim tivemos um último dia atípico, talvez pra lembrar do quanto foram bons os 19 anteriores vividos de outra forma, em outro ritmo.

Retornamos à Havana ao entardecer. Do fundo do ônibus, enquanto o sol se punha e a noite caía, a viagem já se convertia em saudade e passava como um filme no qual fotos e compras não passam de figurantes, e os atores principais são gente de carne e osso. Afinal, “o mundo não é feito de átomos, o mundo é feito de histórias” (citado por Eduardo Galeano no vídeo Es tiempo de vivir sin miedo) .

O melhor de Cuba, assim como as histórias, é uma sociabilidade muito humana, fácil de reconhecer para quem vem de um Brasil onde ela se perde mais a cada dia, fracasso quase garantido quando tento traduzir em palavras.

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