quarta-feira, 11 de março de 2015

O próximo sorvete


Sandra Silva*

Sempre que vou ao Gonzaga com minha mãe, o sorvete faz parte do roteiro, algo que chamaria de retribuição de filha. O que difere é o tipo do sorvete. Quanto mais perto de receber meu salário mais chances de ser uma casquinha do Mc Donald´s; umas moedinhas pagam. A perfeição é no dia em que o esperado cai na conta... aí, a Dona Rute faz a festa lá na Sorveteria Itanhaém. 

Sorveteria Itanhaém, na Praça da Independência, em Santos
Quando sentamos naquela mesa, o mais delicioso não é o meu sorvete, mas vê-la saboreando delicadamente cada uma daquelas cores do pote. Bem devagarinho, degusta cada colherada como se estivesse a catalogar todos os detalhes em seu paladar.

Nessas horas, penso na mudança de papel que o tempo nos impõe. Fico ali a lhe satisfazer o desejo do sorvete como ela satisfez o meu em um tempo bem distante. Aquele simples ato se enche de significado com cheiros e sabores de Natal.

Era início dos anos 70 e os doces bonitos que eu e minhas irmãs mais víamos estavam desenhados em um jogo chamado “No País do Açúcar”, onde os dados nos levavam por um caminho tortuoso com idas e vindas entre brigadeiros, pirulitos, sorvetes e outras guloseimas coloridas, mas sem sabor ou cheiro.

Com rara exceção, nossos sorvetes sempre eram os picolés das forminhas do congelador, feitos com Ki-suco e espetados com palitos de dente. Mas teve um ano em que apareceu em nossas vidas a tal de Banana Split.

Durante todo aquele ano, não cansávamos de perguntar como era aquela maravilha do mundo dos sorvetes. Nossa mãe, geralmente com pouca paciência, explicava que “colocam banana cortada ao meio, depois tem uma bola de morango, outra de creme e outra de chocolate. Aí, colocam por cima calda de chocolate, chantilly, castanha e mais umas coisas e, se perguntarem de novo, não levo mais nas Americanas no Natal, entenderam?”.

Eu e minhas irmãs escutávamos atentamente, olhávamos uma para a outra de rabo de olho como a sugerir: “bico fechado”. Não podíamos correr o risco de perder o passeio de Natal e o sorvete tão sonhado.


Mesmo assim, a pergunta surgiu outras mil vezes, e a Banana Split foi mais esperada que o Papai Noel.

Dezembro finalmente chegou. A cidade colorida, lojas enfeitadas e gente se esbarrando pelas ruas e prateleiras. A Americanas exalava cheiro de cachorro quente; o mais perfeito de todos e de todos os tempos, porém fora do nosso cardápio. Era uma coisa ou outra. Quem sabe em outro Natal seriam os dois?

As duas Bananas Split que dividiríamos finalmente estavam materializadas em nossa frente... Era muito sorvete!!! Era lindo!!! Perfeito!!! Tinha chantilly!!! Pareciam de um filme colorido de cinema. Ficamos a admirar e sem saber por onde começar, até que veio a ordem: “Comam logo meninas!!! Tá cheio de gente querendo lugar e vocês ficam olhando o sorvete?”.

Rindo, ela elegantemente comeu a primeira colherada, como ainda hoje faz ao saborear aquele potinho colorido da Itanhaém. Nós, obedientes, a seguimos, mas longe de sua elegância nos lambuzamos e saímos com nossas blusinhas brancas, coloridas e saborosas.

“Mãe!!! O que tinha naquela taça da mulher de roupa vermelha?”, perguntou minha irmã Célia ao sairmos da loja. “Milk Shake.”, respondeu nossa mãe. Cruzamos os olhares e um sorriso desejoso surgiu em nossas bocas ainda melecadas.

Obs.: Esta crônica abre a série de textos que nasceram do curso "Como escrever crônicas". O curso aconteceu na Realejo Livros, em Santos.

Um comentário:

Thiago Patti disse...

É um texto literalmente "gostoso" de se ler. Como eterno saudosista, não poderia deixar de apreciar uma história que nos remonta ao um passado conhecido, ainda mais quando a narração é bem articulada e cativa a nossa atenção. Parabéns!!
thiago