quinta-feira, 26 de março de 2015

O canteiro que divide as lembranças

Avenida Dona Ana Costa. no Gonzaga, em Santos
Thiago Bellegarde Varella*

Aqueles segundos pareciam intermináveis, na medida em que a chuva repentina se encorpava. O vento encanado, devido à proximidade do mar, soprava forte e até ruidoso pela avenida Dona Ana Costa. A tal “faixa viva” não estava sendo respeitada naquela manhã de “quase frio”.

Em meio a esse cenário, eu estava lá, solitário e vacilante, como que prostrado no canteiro divisor das pistas daquela tradicional via pública. O olhar era atento, medindo os estreitos espaços compreendidos entre um veículo e outro, e outro, e outro, que passavam indiferentes àquela tragicômica situação na qual eu reinava soberano.

Subitamente, minha cabeça e ombros foram poupados da ação da intempérie. Então, notei que um senhor, empunhando cuidadosamente o guarda-chuva, me acolhera naquele tempestuoso instante.

— Vai, vai. Ele foi logo dizendo, enquanto sinalizava com uma das mãos.

Justamente, nos poucos segundos em que voltei minha atenção para aquele senhor, os carros sumiram, como que por encanto. Uma das entradas do Shopping Parque Balneário era o “destino seco” mais próximo, com uma pequena cobertura. Para lá nos dirigimos. Mal havíamos nos abrigado e o cortês octogenário perguntou para onde eu ia. Antes que pudesse responder, ele disse que estava esperando o shopping abrir, lamentando pelos 15 minutos faltantes.

Levemente constrangido, arrisquei comentar algo sobre o tempo, enaltecendo o caráter sui generis do clima, incompatível com a estação, pois ainda estávamos em março. Ignorando o comentário, o senhor perguntou meu nome, mas várias crianças cruzaram espalhafatosamente o canteiro central da avenida, montadas em suas bicicletas.

Enquanto avaliava a pertinência de uma nova pergunta, ele se pôs a falar com entusiasmo. Começou dizendo que aquele canteiro, no passado, era bem mais largo, devido ao insignificante fluxo de veículos que trafegavam no “leito carroçável”.

Em seguida, lembrou que bem à nossa frente, naquele mesmo canteiro, havia um pequeno comércio, uma espécie de cafeteria que servia lanches rápidos, pequenas guloseimas, refrescos e, obviamente, café. Tudo isso acontecia durante as breves paradas dos bondes, ocasiões em que os passageiros esticavam as mãos e eram rapidamente servidos.

Todos se conheciam, de modo que os atendentes deixavam os quitutes prontos para serem entregues ao gosto do freguês. Já os passageiros deixavam separados os “réis”, contados em seus bolsos para agilizar o “toma lá dá cá”. 


A mesma avenida, nos dias de hoje
O senhor tentava visualizar aquela coreografia tipicamente urbana: cumprimentos bombásticos, saudações conservadoras, acenos, curtas anedotas e gozações futebolísticas. Realmente, uma cena difícil de se conceber em tempos de “feicibuqui” e afins.

Contudo, a nostalgia despontou mesmo, quando ele se referiu carinhosamente a uma atendente da cafeteria, de nome “Domitila”. O abalo gerou uma longa pausa. Com efeito! Aquele meu protetor matinal perdera, definitivamente, o rebolado. Os pingos que deslizavam sobre o velho guarda-chuva retravavam o espírito que arrebatara toda aquela alegria.

A pausa se perpetuava e, com ela, meus devaneios. Sentia-me remetido a um passado que aponta para homens e mulheres que viveram em grande estilo, no charmoso bairro do Gonzaga, trabalhando, proseando, rindo, saboreando cafezinhos, guloseimas e vivendo suas paixões.

A partir daquela manhã especialíssima, tais lembranças passaram a ser minhas também, pois reivindiquei, como santista, o direito de sentir as mesmas emoções experimentadas por tantos. Construo agora a imagem daquele homem, pendurado no bonde, enquanto, com uma das mãos estendida, entrega duas ou três moedas à bela Domitila, juntamente com um envelope contendo, quiçá, uma declaração de amor.

* 11º texto a partir do curso "Como escrever crônicas".

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