terça-feira, 10 de março de 2015

O arquiteto e a vaca


O arquiteto Adelino Gonçalves, na praia de Santos
Foto: Marcos Piffer
Marcus Vinicius Batista 

Texto publicado, originalmente, na revista Guaiaó, edição n.6.

Todo surfista que se preze tem duas lembranças. A primeira é a onda perfeita, o momento aventura em pontos paradisíacos. Mas a segunda lembrança é a que deixa cicatriz. Em outras palavras, todo surfista que se preze tem uma vaca, o famoso caldo, em seu caminho.

O arquiteto e perito judicial Adelino Gonçalves, de 63 anos, tem seu episódio bovino. Mesmo sendo um rato de praia, na definição dele mesmo, a vaca que o marcou não está no mar, mas no Vale do Ribeira, na década de 70.

Adelino era um soldado raso na Fortaleza de Itaipu, em Praia Grande, quando foi designado para auxiliar na perseguição a Carlos Lamarca. Numa noite de muita neblina, em Sete Barras, ele e mais dois militares estavam de tocaia em um jipe quando ouviram barulhos na mata.

Conforme o ruído se aproximava, os três tremiam de medo. “Você foi condicionado. Você só atira quando a vida está em risco.” Os dois colegas sumiram na neblina. Diante do silêncio aos vários pedidos de senha, Adelino subiu no jipe e acionou a metralhadora ponto 50.

Os disparos atraíram a atenção de outros colegas e dos oficiais de plantão. Adelino e os outros dois soldados receberam ordens para permanecer no jipe. “Quem dormia?”, conta o arquiteto. No dia seguinte, a descoberta: Adelino havia matado uma vaca, que se desgarrou do rebanho em um sítio.

O ex-soldado surfa desde moleque. Pertence a uma ordem de cavaleiros que inauguraram as ondas em Santos. Surfar está acima da competição, dos torneios, dos prêmios. Surfar é disputar um campeonato sem vencedor, que nunca termina. Construíam, inclusive, as próprias pranchas. “Nosso negócio era pegar onda. Sou um surfer free.”

Adelino vê as ondas como um arquiteto enxerga um edifício. Ele se comunica com o oceano pelas formas. Neste relacionamento de meio século, a prancha é como uma caneta que risca o papel-mar na construção de projetos que se desfazem à beira da praia.

A fascinação nasce pelo movimento das ondas, diferente da estática arquitetônica. É o efêmero que permite o desenho seguinte, na visão dele, sempre único. “É como se as ondas fossem paredes. E cada tipo de parede te dá uma resposta para a prancha.”

De 15 anos para cá, Adelino mudou para o longboard. “Não tem briga por causa de ponto nas ondas. É mais fraternal.” Seria um sinal de amadurecimento, que redesenha os traços de um casamento. “Prancha é uma segunda mulher.” Se o tamanho mudou, a devoção segue intacta. Antes de desenhar no mar, há o ritual que envolve a licença e a benção de Iemanjá.

A primeira mulher na vida de Adelino se chama Gisleine Gioia Ruffo Gonçalves, a Leninha, de 53 anos. Ela convive com a segunda esposa sem traumas. “Em viagens, ele guarda a prancha no quarto.” Tudo por conta de um furto, há 11 anos, em Florianópolis. O ladrão escalou até o segundo andar da pousada para levar o longboard que descansava na sacada. Adelino foi ressarcido pelo furto, mas desde então mantém a segunda mulher ao alcance dos olhos.

Leninha e Adelino até tentaram driblar a relação com o mar. Moraram um ano em Piracicaba logo depois do casamento. Vinham para Santos todos os finais de semana. Adelino pegava onda. Leninha o assistia na praia. “A gente sofria tanto”, justifica o arquiteto. 




         Ilha de Urubuqueçaba, na divisa entre
                    Santos e São Vicente.
                   Foto: Alan Bernardino

Três décadas se passaram para que Leninha deixasse de ser espectadora. Desde o ano passado, ela pratica stand-up paddle. A prancha, por enquanto, é emprestada, até porque há o risco de se transformar no segundo marido. Já as duas filhas do casal, Carina, de 28 anos, e Tatiana, de 25, moram em Londres. Um lugar coerente para quem não surfa.

As vacas ainda aparecem de vez em quando para Adelino, com o privilégio de unir as lembranças num lugar só. Para o arquiteto, o tal ponto paradisíaco não está na Austrália, onde surfou uma vez, em 1997. Tomar um caldo ou dançar nas melhores ondas acontece a 15 minutos de casa, na Ilha de Urubuqueçaba, ou na Pedra da Feiticeira, em São Vicente.

Mas e a vaca dos tempos da ditadura militar? “Não tenho ideia. Talvez tenha virado churrasco para os oficiais. Só sei que um japonês (agricultor local) ficou sem uma.”

Um comentário:

Anônimo disse...

Meu nome é Yukkio. Sinto informar que esta história apenas trouxe sofrimento e angústia para minha família.

Meu avô possuía uma fazenda na mesma região apresentada no relato. Como um agricultor local, não dispunha de grandes posses além das suas 5 vacas e seus maxuxeiros (plantação de chuchu).

A principal fonte de renda provinha do leite fornecido por uma das vacas (mimosa). Infelizmente, a mesma foi ASSASSINADA brutalmente com diversas perfurações.

A partir daí, começou a decadência. As outras vacas morreram de tristeza (afinal, sua líder foi assassinada), e meu avô perdeu tudo. Graças a muito esforço, conseguimos nos reerguer a partir de nossa criação de peixes-beta.

Fica aqui minha indignação perante esta história e a todos que a apreciaram.