quinta-feira, 12 de março de 2015

Leitores anônimos


Promessas de leitura?
Maykon Souza*

“Olá, amigos, hoje faz um mês que não compro um livro” – teria dito eu ao meu grupo de apoio, sob aplausos efusivos, se houvesse um grupo de apoio para compradores compulsivos de livros.

Se fizesse parte de um grupo de apoio, eu não estaria agora diante desse Rubem Fonseca tentando me fazer sucumbir à sua primeira página, como um garçom que oferece displicentemente o gole inaugural a um bêbado errante.

Tenho evitado entrar em livrarias como um dono de empreiteira corre da Polícia Federal. Esse é o primeiro passo para se livrar do vício: admiti-lo.

Sou um viciado! Compro pelo mais mundano prazer de comprar e, para isso, uso as mais esfarrapadas desculpas: “Esse exemplar é raríssimo” ou “era exatamente esse que eu estava procurando. É um sinal!”. Tudo balela. Quero mesmo é aumentar aquela pilha que se ergue ao lado da minha cama. Dá prazer fazer listas dos ‘próximos a serem lidos’ e, claro, não seguir nenhuma.

Cada novo livro adquirido – que garanto: leio na semana que vem – temo que seja o exemplar que vá colocar em risco a harmonia do lar, fazendo com que aquela montanha mágica de ilusões perdidas encostada na parede do quarto sucumba ao crime da ostentação e, como castigo, soterre este que vos escreve e sua indignada esposa. 

Pilha em reprodução espontânea
Criei algumas táticas para me controlar. A que mais deu certo até agora: quando sei que haverá uma livraria em meu caminho, meto um caderninho no bolso. Ao menor sinal de tentação, saco o bloquinho e anoto o nome do volume cobiçado. Não abro, não folheio, nem tiro da prateleira: apenas anoto.

Fui criando uma biblioteca só minha, preenchendo folhas de moleskines e bloquinhos genéricos com os livros que poderia ter comprado; um, dois, dez caderninhos, até que aconteceu o inesperado: me viciei em comprar caderninhos. Reparou na variedade que existe hoje? Mais opções que Havaianas. E, assim, as livrarias ganharam outro setor proibido. Além de literatura nacional e estrangeira, materiais para escritório.

E cá estava eu, me esgueirando entre prateleiras, tentando escapar às tentações, quando encontrei esse Rubem Fonseca. O primeiro romance. Abro e ameaço degustar a primeira linha. “O primeiro gole, não dê o primeiro gole”. Tarde demais.

Uma frase curtinha, concisa. Em três palavras, ele diz tanta coisa. No verso, os comentários: “A grande obra-prima do autor”. Puxo o bloquinho, tremo. Leio mais uma frase. Demais! Muito bem escrita! Eu tenho que levar pra casa. Não posso. Por que não posso? Anote, anote... Preciso desse livro. Anote. Evite o primeiro gole... Eu precisooooo...

Livros que seduzem 
A partir daí, só lembro de alguns flashes: uma fila, uma mulher com uma máquina nas mãos. “Crédito ou débito, senhor?”. Uma senha. Eu, em cima de uma escada, colocando no topo de uma pilha minha mais nova aquisição. 

Não deveria ter contado isso aqui. Devia ter guardado a confissão para os meus colegas do grupo, que entenderiam meu problema. Pena não ter um grupo. Que vergonha.



Obs.: Este é o segundo texto da série, a partir do curso "Como escrever crônicas".

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