quinta-feira, 26 de março de 2015

Eu e as bostas




Marcus Vinicius Batista

O cabelo tingido de preto não servia mais para esconder a idade, esculpida nas rugas a uns cinco centímetros da última linha de fios. Não era uma questão de estética. Era uma forma de carinho a si mesma.

O andar curvado trazia o cartão de visitas dos 85 anos. Os resmungos manifestavam a ira curtida em cansaço do mesmo serviço desde o século passado. Trabalho que não conseguia abandonar. Temia ter que aguentar o marido em casa. Tinha pavor de ficar inútil como ele e morrer.

— Puta que pariu! Eu e as bostas!

Dona Nilva não se referia ao companheiro de moradia, embora o odiasse desde que aprontou feio com ela há duas décadas. Convivem porque a aposentadoria de ambos mantém a casa no morro de pé. O tempo fez com que o ódio mudasse de gente. O marido ganhou de bodas de ouro a indiferença. Elas, elas sim, são as sementes do cultivo diário do asco e da fúria. E seus frutos são a única forma de Dona Nilva se aproximar da vingança.

— Essas pombas, essas filhas da puta cagam todo santo dia! E eu tenho que limpar a bosta delas.

Dona Nilva nunca se preocupou em quantos eram os inimigos alados. Nem suas origens ou causas. Nunca capturou nenhum. Eles atiram suas bombas do alto do prédio de três andares, onde Dona Nilva chega religiosamente às 8h30 e sai às 16h30, como se carregasse o relógio da estação de trem.

A pontualidade britânica também se renova na hora de recolher os destroços do combate. Dona Nilva faz dois turnos, às 10 e às 15 horas. Ela vai ao fundo da garagem e apanha o carrinho, que carrega um latão de lixo e o kit de produtos químicos. É uma tortura, para quem vê; uma missão de fé, para quem esfrega o chão, um corredor de cerca de 40 metros de extensão.

As pombas não deixam suas marcas em todo o terreno de combate. Elas sabem, diabolicamente, que podem levar o exército de uma faxineira só à exaustão. Elas cagam nas pontas do corredor, o que obriga Dona Nilva a arrastar o carrinho pelo dobro do trajeto, a ida e a volta.

Limpar as trincheiras é bem mais complexo do que passar simplesmente a pá de lixo e jogar os estilhaços dentro do latão. É preciso aplicar o desinfetante, esfregar inúmeras vezes e passar o pano. Dona Nilva desistiu, com os anos, da última etapa: a secagem. Que fique o cheiro de podridão cadavérica para os moradores! A esperança ingênua de também se vingar das pombas com a própria arma química.

— Não aguento mais limpar essas bostas! Tenho 85 anos, 32 neste prédio.

Os anos marcados pelos números são o pedido de socorro, mas também de reconhecimento. Os dias de calor dão a impressão de que a crueldade das aves alcançará o limite. Dona Nilva pinga de suor enquanto esfrega e limpa as bostas. Talvez a fermentação do que restou das pombas, talvez o calor que mascare o trabalho, o fato é que a faxineira muda, com resignação, o tema da agenda.

— Filho, o calor tá de lascar! Não sei como eu aguento.

Nunca me canso de ouvi-la reclamar. Ela se sente viva. Eu me sinto capaz de vê-la e de tentar entendê-la e reforçar nossa amizade. Temo mais pela mudez e pela incompreensão alheia do que pelas pombas, que inevitavelmente virão amanhã e depois de amanhã.

Na semana passada, Dona Nilva xingava as pombas quando uma moradora passou por ela. De cabeça baixa, a faxineira se queixou sem saber quem era.

— Meu Deus, essas bostas, olha o Carnaval que fizeram aqui!

Sem reduzir a caminhada, sem troca de olhares, a moradora respondeu:

— Não, Dona Nilva, não foi Carnaval não! A bagunça foi o panelaço!

Do silêncio, veio apenas o sussurro da vassoura que espalhava desinfetante para envenenar as frentes inimigas. O cessar-fogo, de qualquer modo, acaba às 15 horas.


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