sexta-feira, 13 de março de 2015

Duas semanas, quatro anos




Ricardo Rugai*

Passada a ressaca de um amor frustrado, levou alguns meses até “pegar a embocadura” novamente. Não havia desaprendido, era como um jogador fora de ritmo, desacostumado a prestar atenção na vida e nas mulheres ao redor.

Trabalhar no Gonzaga ajudou. O velho escritório fechado da avenida João Pessoa ficou para trás. A nova sala era ampla e acomodava mais de dez funcionários, a maioria mulheres. As janelas ocupavam dois terços da altura, o sol entrava inclemente desde as primeiras horas da manhã e atraía o olhar para o desfile de gente nas calçadas. O estilo compenetrado dele logo despertou a curiosidade das funcionárias. E já que o tom misterioso seduzia deixou que a discrição falasse por ele.

Porém, o melhor da cidade estava nas ruas do Gonzaga para onde ele baixava na hora do almoço e, em duas ou três vezes, quando levava papéis num escritório a duas quadras. Tornou-se observador das roupas, perfumes, do andar, do rebolado das mulheres e, sobretudo, ouvinte dos fragmentos de conversa nas calçadas, pontos de ônibus e portas de lojas.

Em pouco tempo, ele passou do flerte sutil ao descarado e depois para algumas conversas promissoras. No escritório, o desprezo pelas belas funcionárias só aumentava o interesse e os boatos a respeito de sua vida amorosa, amplificados por cada uma que o via de conversa pela Ana Costa.

Até que um dia tudo começou. Ao passar pela galeria, a morena da loja de perfumes postou-se em seu caminho e de sorriso aberto ofereceu aquela fragrância terrivelmente adocicada. Sem pensar muito ele disparou:

— O perfume não, mas o cinema com você sim.

Sem jeito e surpresa, ela sorriu mais ainda o que valeu como um sim. Sentindo a ansiedade da morena, ele arrematou:

— Hoje não, amanhã ok! Passo na hora de sua saída...

Ainda perdida, ela moveu a cabeça concordando.

Ele voltou ao escritório esfuziante, com um sorriso indisfarçável que aguçou ainda mais a curiosidade feminina, mas não disse uma palavra. Sentia-se realmente apaixonado pela morena, como se redescobrisse vida dentro de si.

No dia seguinte, conferiu os horários e filmes em cartaz no Roxy, último cinema de rua sobrevivente nas ruas do Gonzaga. O filme não deveria ser muito bom a ponto de prender a atenção, nem muito ruim a ponto de incomodar. Afinal, o cinema era apenas um lugar escuro onde poderiam ficar a sós sem os constrangimentos da conversa inicial, sentir se havia realmente química entre eles. Nada muito além de alguns beijos e carícias, que só deveriam abrir o apetite.

Por volta das nove, saíram do cinema mais à vontade, fazendo do filme um coadjuvante. De passagem, um amigo o cumprimentou com sorriso malicioso no canto. A garota desconfiou do riso irônico e perguntou. Ele desconversou e seguiu para o próximo passo: parada para um papo regado à cerveja sem exageros e nada de comida. Manter a leveza ajudaria na noite e soltar algumas risadas fazia parte do rito dessa primeira noite de paixão, que seria ímpar.

Por duas semanas, viveram num êxtase apaixonado. Era mais que pele e sexo, era a descoberta, a conversa, o passado, os sonhos de um e de outro. Devoravam-se em todos os sentidos. 



Duas semanas e, de repente, sem que nada de extraordinário ocorresse, ele passou uma semana inteira sem pensar na morena. As mensagens e telefonemas tornaram-se obrigação, e a cobrança gerou repulsa e sepultou de vez a paixão.

Dali em diante, o ciclo passou a se repetir: flerte, conversa, convite, cinema, cerveja, uma noite de paixão, duas semanas e mais nada. Cada nova mulher fazia renascer mais vívida a paixão. O fim já não surpreendia tampouco impedia um novo começo. Duas semanas de paixão, duas semanas de volta ao tédio dos pobres mortais.

Após a terceira ou quarta vez, ele quis ver uma dádiva nisso. Convenceu-se que paixão era descoberta, novidade, que não resistia ao tempo e se contentou com o privilégio de viver metade da vida apaixonado, conhecendo mulheres diferentes. Mandou às favas a conversinha politicamente correta de se reapaixonar eternamente pela mesma mulher. 



Passaram-se quase três anos e o ciclo de paixões parecia se gastar. Sempre aquele roteiro, sempre aquele bairro, sempre aquele cinema, sempre as exatas duas semanas. A consciência do fim parecia enfraquecer o próprio começo e pela primeira vez passou a desejar algo diferente.

Um dia depois do trabalho, sentou-se só num antigo boteco do Gonzaga. Enquanto o rádio tocava clássicos de Nelson Gonçalves, pediu uma cerveja ao português e deixou o pensamento vagar. Lá se iam quatro anos de efêmeras paixões pelo bairro, constatou que seu antigo amor tinha passado e que no rádio Nelson cantava “teve amores, mas nunca teve amor” ... maldito verso que teimou sem solução em sua cabeça noite adentro.

Obs.: Terceiro texto da série a partir do curso "Como escrever crônicas".

Um comentário:

Thiago Patti disse...

Uma leitura que estimula o leitor a prosseguir, cada vez mais atento na expectativa de um desfecho difícil de adivinhar, mas que trata de um tema que pode se resumido na pouca vocação que o homem demonstra em se tratando de relacionamentos duradouros. Parabéns !
Thiago