terça-feira, 31 de março de 2015

Entre naturebas e xampus, um passeio na farmácia


Leonardo Marques Silva*

Como uma pessoa que, na maior parte do tempo, não se encontra doente, eu vou pouquíssimas vezes até farmácias. Talvez seja o caso da maioria das pessoas. Talvez? Com exceção dos funcionários das farmácias, e de alguns raros hipocondríacos, não consigo imaginar o porquê de se visitar tais estabelecimentos por muito tempo ou, então, com muita freqüência.

Entretanto, existem aqueles que se perdem dentro do local. A procura de um simples remédio contra alergia, uma pessoa, não familiarizada com o ambiente, parece se encontrar em uma selva. Desbravando as centenas (bem, não tantos assim) de corredores, rodeado por centenas de produtos, multicoloridos e com funções desconhecidas, esse tipo de gente consegue, com certo esforço, encontrar o tão sonhado medicamento.

E os naturebas? Creio que todos conhecemos pelo menos uma pessoa assim. Sabe? Aquele tipo de cliente que consome, exclusivamente, produtos considerados “verdes”, desde alimentos a cosméticos. Sim, extremamente magras.

O próximo tipo de gente são aqueles que invejam os naturebas. Não pela abdicação de boa parte da comida não saudável (e, sejamos sinceros, deliciosa), mas pelo resultado. São aquelas pessoas que vivem à procura de um remédio miraculoso, o Santo Graal da Medicina moderna. A cura de uma doença terminal? A busca interminável, porém, incessante, por uma forma de emagrecer sem esforço. Não creio que tal jornada dê algum resultado, mas devo admitir que sinto um pouco de inveja de tamanha perseverança.

Na seção de produtos de higiene, é possível encontrar dois tipos de consumidores. Temos aqueles (normalmente mulheres) que analisam, minuciosamente, cada informação da embalagem dos produtos, levando minutos para se decidir entre as dezenas de tipos de sabonetes, xampus, condicionadores e outros.

Sinceramente, não posso dar exemplos mais aprofundados porque faço parte do segundo grupo de pessoas: aqueles que não fazem ideia da diferença entre os produtos (normalmente homens). Nós raramente lemos qualquer coisa que esteja escrita nas embalagens. Nós mal sabemos diferenciar xampus de condicionadores. Nós, na maioria das vezes, escolhemos aquilo que é o mais barato. Sim, nós temos certeza que esse é o jeito certo.

Existem aqueles que entram com pressa, normalmente suando e, algumas vezes, com o rosto completamente pálido. O ponto em comum é o desespero para conseguir determinado produto. Há o “efeito surpresa”, agradável ou não, no meio da noite. Tal surpresa pode levar a uma compra apressada de preservativos ou de testes de gravidez. Um agradecimento às farmácias que funcionam 24 horas por dia.

Farmácias são, hoje, como supermercados. Diversidade de produtos, cores e finalidades. Mercadorias que pouco se parecem com remédios. Muitas vezes não o são. Farmácias, o playground de uma sociedade doente?

Obs.: 13º texto da série que nasceu do curso "Como escrever crônicas". 

segunda-feira, 30 de março de 2015

Um time dos céus




Este texto – em versão mais extensa – foi publicado originalmente na Revista Mirante, n.88 (janeiro-março/2015)

Marcus Vinicius Batista

Sempre admirei a relação duradoura – embora não tão estável por causa do preconceito de ambos os lados – entre futebol e cultura. De Nelson Rodrigues a Albert Camus, de Luiz Fernando Veríssimo a Vladimir Nabokov, de Bob Marley a Chico Buarque, grandes ícones adoram flertar com futebol, e divagar sobre o esporte, sem entrar no mérito das habilidades com a bola.

Pensando em perdas recentes da cultura santista, concluí como torcedor licenciado e leitor inveterado que poderia formar a minha seleção de personagens. Um time capaz de simbolizar a riqueza de seus legados artísticos. Todos nascidos ou radicados nestas terras.

No paraíso, futebol é um esporte misto, sem resquícios do machismo que permeia os mortais peladeiros. Por isso, o goleiro é Patrícia Galvão. A posição é cargo de confiança, que exige um líder que mobilize o resto da equipe. Pagú tem a agilidade de defender não apenas a si mesma, como toda a zaga. Mas cuidado: ela é uma goleira que não perdoa erros de posicionamento.

Nas laterais, escalaria Toninho Dantas e Wagner Parra. Laterais, hoje, são alas. Atacam e defendem quase que simultaneamente, sempre em velocidade. Precisam de preparo físico para suportar as críticas e a maledicência dos adversários.

O produtor cultural Toninho Dantas fica na direita – não se trata de ideologia política -, mas por ser um coringa, que jogou em várias posições, como ator, diretor e produtor. Na esquerda, joga o DJ Parra. Apesar de nunca ter saído daqui, ele é um lateral globalizado, de olho em várias culturas. Parra é mestre da catimba, como todo bom atleta latino. Peita árbitros e reclama dos companheiros desatentos, sem jamais entregá-los aos dirigentes. Jogou várias vezes na carreira por amor à camisa. Os fãs deste atleta insistem que ele joga por música.

A zaga está em família. Pai e filho, com entrosamento de décadas. Serafim e Daniel Gonzalez, segundo os especialistas, se complementam. O pai é visto como um jogador clássico, que desfila pelo gramado. É capaz de interpretar vários tipos de zagueiros ao longo de uma partida. Serafim carrega nas chuteiras a imprevisibilidade dos atores.

O filho Daniel é mais cerebral. Adora pensar a partida, filosofando e relativizando as possibilidades que o jogo oferece. Um jogo de futebol, para ele, é o espetáculo das dúvidas e incertezas. Nunca se afoba e esculpe cada passo que dará até tomar a bola do adversário, sem entradas violentas.

O meio-campo é formado três poetas. A diferença (e maior mérito) é que eles confundem os adversários porque alternam posições. Não há o volante brucutu. Todos vivem pela criação de jogadas, de olho no gol.

Vicente de Carvalho, Rui Ribeiro Couto e Narciso de Andrade são de gerações diferentes. O que os une é a beleza poética da partida, a serenidade de colocar o jogo nos eixos quando os nervos parecem desandar. Nenhum deles pediu os holofotes. Todos abriram mão da camisa 10. 

Mesmo em um time de craques, alguém precisa envergar o manto mais desejado. Plínio Marcos é o atleta que veio do povo, o jogador marrento que provoca todos os envolvidos no espetáculo, sejam cartolas, técnicos, jornalistas e até os próprios companheiros de time. Plínio chuta com os dois pés, mas foi bastante perseguido pelas opiniões indignadas. Quase abandonou a carreira e, em muitos momentos, teve que atuar em clubes menores para sobreviver. Jogador politizado, também teve sua fase mística.

No ataque, dois jogadores irreverentes. Diferentes, mas preocupados com o gol como arte. Zéllus Machado e Evêncio da Quinta nasceram com o dom da artilharia. Gols de bico ou de bicicleta, o valor é o mesmo, o que importa é escutar as arquibancadas em êxtase, sejam aplausos ou vaias. O músico e ator Zéllus se expõe mais às botinadas dos zagueiros adversários. Ele apanha e sorri. Provoca o beque de fazenda e cantarola a próxima jogada, num jeito garrinchesco. O que o aproxima, aliás, de Zêgo – Evêncio nunca foi nome de jogador – é o humor e a teatralidade dos movimentos na grande área. Zêgo é o teatrólogo; Zéllus, o teatro em cena.

Peço desculpas porque me esqueci de outros nomes, mas toda a escolha é subjetiva. Tentei escalar uma equipe capaz de dar variações táticas ao treinador. Por uma questão de justiça, o técnico contratado é o escritor e roteirista José Roberto Torero, de quem me apropriei da ideia deste time.

Calma, Torero está vivíssimo e escrevendo como nunca. Ele foi “contratado” pela experiência e pela capacidade de misturar futebol e artes como ofício e como poesia. Deixo para ele a proposta de mexer na equipe e a você, leitor, de colaborar com o banco de reservas. Martins Fontes? Lydia Federici? Maurice Legeard?

Este time é o deleite de todos os profetas-comentaristas, porque permanecerá invicto sempre, independentemente de novas contratações.

Para que lado é a minha casa?


Edwar Fonseca

A gente sempre sabe o endereço do bar, mas sair de lá é um desafio. E não há nada mais desejável do que ir até a Meca das cervejas. Eu atendo o telefone e ouço: “Vamos naquele bar que tem um milhão e meio de cervejas diferentes?”. Resposta: “Vamos”.

Claro que é exagero dizer essa quantidade, mas que importa se tem 392, 294 ou 302 cervejas diferentes. O número exato não tem a menor serventia. O que interessa é que tem muita cerveja! E um milhão e meio é a forma mais digna, de se dizer que tem cerveja pra caramba, dá para beber o ano inteiro e não repetir uma sequer. Satisfazer todos os desejos. Milhares de sabores.

Planejo a ida. Claro que não posso ir de carro, pois será impossível dirigir na volta. Ônibus para subir a serra, metrô para chegar próximo ao destino e depois a pé mesmo.

Ao chegar, olho para o pessoal da associação reunido do lado de fora, embaixo de um gazebo, fazendo cerveja ao vivo, ali na hora. Mas quero entrar e mergulhar de cabeça naquele rio de sabores.

A casa é toda aberta na frente, tem um deck com mesas para quem gosta da sensação de ar livre. Mas o que quero mesmo é ficar lá dentro, cercado por cerveja de todos os lados. As paredes são prateleiras intermináveis, do chão até o teto, com cervejas de todos os sabores e todos os lugares. Geladeiras na parte da frente entre o interior e o deck e outras tantas na parede do fundo. O enorme balcão vai desde a porta da entrada até a parede do fundo. 


De repente, conseguimos dois lugares bem ali. Praticamente como acertar na loteria. “Daqui não saio e daqui ninguém me tira”. Na nossa frente, 32 “bicos” de chope. Dava para abrir o bico e colocar a boca embaixo.

Pessoas sentam ao lado, bebem, come, levantam, vão embora, sentam outras, e continuamos ali. Chope atrás de chope. Cremosos, fortes, suaves, levemente ácidos, doces, bem amargos. Uma orgia de aromas e sabores.

Várias pessoas apostaram que horas liberaríamos os lugares. Outros bolavam um jeito de nos tirar dali. Mas não é sempre que a gente vai à Meca. Então, decidimos aproveitar até o fim.

“Amigo? Vê mais um! Agora aquele ali”.

Inenarrável.

Lembrei que ainda tinha que voltar para Santos!

Andar algumas quadras, metrô e depois ônibus para descer a serra. Quase fiquei sóbrio só de pensar nisso tudo. Mas estar embriagado neste momento é a cereja do bolo. Não estou bêbado. Estou deliciosamente embriagado por toda a magia do lugar, as pessoas, os sabores. Digo por mim.


Pagamos a conta. E agora? Andamos na direção de um aroma que me faz flutuar como em desenho animado. Hamburguer feito em grelha gengiskan, uma espécie de roda com leve formato de cone, que gira e assa no calor do carvão vários círculos suculentos de carne. Ah, aquilo me recompôs. Do cheiro até o deleite. Claro, tomei mais uma cerveja.

Trançando um pouco as pernas, fomos percorrendo o mesmo caminho da vinda, mas agora cantando, conversando com amigos imaginários, até chegar na poltrona do ônibus que nunca foi tão gostosa quanto agora. Dormi e acordei em Santos, renovado e pronto para outra.

Obs.: 12º texto da série a partir do curso "Como escrever crônicas". 

sábado, 28 de março de 2015

Uma carta de amor


Marcus Vinicius Batista

Querida Piracicabana
,

Preciso declarar publicamente meus sentimentos por você. Não aguento mais tamanha injustiça de pessoas que mal te compreendem, que te julgam com soberba e vaidade. Mal suporto dividir espaço com aqueles que não absorveram a ideia de que você, acima de tudo, é uma aglutinadora de gente. Você, como dizem os gurus da autoajuda, agrega valores, mesmo os minguados que saltam dos cartões, ao nos espremer. Não fazemos amizades porque somos primitivos e, simultaneamente, devotos aos seus serviços.

Gosto tanto de você que me tornei uma pessoa mais paciente. Espero 35, 40 minutos pela sua chegada, ansioso para que me faça companhia até meus compromissos profissionais e pessoais. Você é a melhor e mais recorrente desculpa que poderia ter para meus atrasos. Todos são vítimas deles, mentindo ou não. Quase sempre é verdade e, assim, você se torna o assunto do dia. E isso se exibindo o mínimo pela cidade.

Aprendi que, olhando para os lados, não estou sozinho. Muitos como eu te admiram, te idolatram como única opção para que nossas vidas caminhem adiante em vias cada vez mais próximas de vielas. Quando te encontramos, deixamos pra lá sua instabilidade de comportamento; sequer enxergamos como defeitos. Você pode aparecer de roupa nova e justificar sua lentidão porque estava sendo maquiada. Aceitamos você ainda que esteja mal vestida, ainda que esteja acompanhada por seus empregados exaustos, estressados, ingratos e loucos para te abandonar na próxima esquina.

Fico profundamente irritado quando seus detratores te chamam de gananciosa. Sempre te perdoo quando me tomas 10 centavos emprestados em definitivo. É plausível o argumento de que faltam moedas por aí. Elas ficam, claro, nos bolsos mais pobres, jamais nos compartimentos das bolsas de grife. Eu falo para os levianos que eles deveriam ter consciência de que você não precisa das migalhas de seus admiradores. Ou seriam doadores?

Outro dia, diante da insistência de um amigo grosseiro, me recusei a fazer contas. Ele teve a pachorra de te acusar de sumir com os 10 centavos dele por 29 vezes e disse que poderia passear contigo de graça por conta desta mágica financeira. Pensei seriamente em nunca mais conversar com o sujeito, apagá-lo da minha rede social e talvez falar mal dele por aí. Foi quando me veio à cabeça o lema da minha cidade, terra da caridade e da liberdade.

Ora, ele é livre para andar com outras pessoas. Eu pedalo quando não posso ser seu súdito. Chego em 20 minutos ao meu trabalho. Com você, da última vez, levei uma hora. Este tempo de convivência renova nossa relação e a deixa mais sólida.

Você é solidária, preocupada com nosso bem-estar diário. Por causa da chuva, recebo a benção de conviver contigo até cinco dias por semana. Você me recebe, muitas vezes, com ares mais frios, que me refrescam da umidade dos verões a cada ano mais longos. Um choque térmico deve ser risco para gente fresca, que não soube se preparar para te aguardar. Aqueles 35, 40 minutos defumando ao Sol, sabe?

Sua generosidade te tornou comunicativa. Em muitas ocasiões, se seus servos murmuram algo próximo do bom dia, você é capaz de falar conosco virtualmente. Wi-Fi é seu jeito de nos amar. E você ainda nos estimula a conversar pendurado em barras de metal, sacudindo enquanto nos arrastamos pelo trânsito de hora do rush modelo 12 horas por dia. Percebi que são seus preceitos: não se acomode! Improvise sempre! Seja criativo!

Você monopolizou minha paixão. Só tenho olhos para você, minha Piracicabana. Até porque, nas ruas da minha cidade, não existem outras pretendentes. Você é única!

Com amor,

Um de seus milhares de fãs (nada) passageiros

quinta-feira, 26 de março de 2015

Eu e as bostas




Marcus Vinicius Batista

O cabelo tingido de preto não servia mais para esconder a idade, esculpida nas rugas a uns cinco centímetros da última linha de fios. Não era uma questão de estética. Era uma forma de carinho a si mesma.

O andar curvado trazia o cartão de visitas dos 85 anos. Os resmungos manifestavam a ira curtida em cansaço do mesmo serviço desde o século passado. Trabalho que não conseguia abandonar. Temia ter que aguentar o marido em casa. Tinha pavor de ficar inútil como ele e morrer.

— Puta que pariu! Eu e as bostas!

Dona Nilva não se referia ao companheiro de moradia, embora o odiasse desde que aprontou feio com ela há duas décadas. Convivem porque a aposentadoria de ambos mantém a casa no morro de pé. O tempo fez com que o ódio mudasse de gente. O marido ganhou de bodas de ouro a indiferença. Elas, elas sim, são as sementes do cultivo diário do asco e da fúria. E seus frutos são a única forma de Dona Nilva se aproximar da vingança.

— Essas pombas, essas filhas da puta cagam todo santo dia! E eu tenho que limpar a bosta delas.

Dona Nilva nunca se preocupou em quantos eram os inimigos alados. Nem suas origens ou causas. Nunca capturou nenhum. Eles atiram suas bombas do alto do prédio de três andares, onde Dona Nilva chega religiosamente às 8h30 e sai às 16h30, como se carregasse o relógio da estação de trem.

A pontualidade britânica também se renova na hora de recolher os destroços do combate. Dona Nilva faz dois turnos, às 10 e às 15 horas. Ela vai ao fundo da garagem e apanha o carrinho, que carrega um latão de lixo e o kit de produtos químicos. É uma tortura, para quem vê; uma missão de fé, para quem esfrega o chão, um corredor de cerca de 40 metros de extensão.

As pombas não deixam suas marcas em todo o terreno de combate. Elas sabem, diabolicamente, que podem levar o exército de uma faxineira só à exaustão. Elas cagam nas pontas do corredor, o que obriga Dona Nilva a arrastar o carrinho pelo dobro do trajeto, a ida e a volta.

Limpar as trincheiras é bem mais complexo do que passar simplesmente a pá de lixo e jogar os estilhaços dentro do latão. É preciso aplicar o desinfetante, esfregar inúmeras vezes e passar o pano. Dona Nilva desistiu, com os anos, da última etapa: a secagem. Que fique o cheiro de podridão cadavérica para os moradores! A esperança ingênua de também se vingar das pombas com a própria arma química.

— Não aguento mais limpar essas bostas! Tenho 85 anos, 32 neste prédio.

Os anos marcados pelos números são o pedido de socorro, mas também de reconhecimento. Os dias de calor dão a impressão de que a crueldade das aves alcançará o limite. Dona Nilva pinga de suor enquanto esfrega e limpa as bostas. Talvez a fermentação do que restou das pombas, talvez o calor que mascare o trabalho, o fato é que a faxineira muda, com resignação, o tema da agenda.

— Filho, o calor tá de lascar! Não sei como eu aguento.

Nunca me canso de ouvi-la reclamar. Ela se sente viva. Eu me sinto capaz de vê-la e de tentar entendê-la e reforçar nossa amizade. Temo mais pela mudez e pela incompreensão alheia do que pelas pombas, que inevitavelmente virão amanhã e depois de amanhã.

Na semana passada, Dona Nilva xingava as pombas quando uma moradora passou por ela. De cabeça baixa, a faxineira se queixou sem saber quem era.

— Meu Deus, essas bostas, olha o Carnaval que fizeram aqui!

Sem reduzir a caminhada, sem troca de olhares, a moradora respondeu:

— Não, Dona Nilva, não foi Carnaval não! A bagunça foi o panelaço!

Do silêncio, veio apenas o sussurro da vassoura que espalhava desinfetante para envenenar as frentes inimigas. O cessar-fogo, de qualquer modo, acaba às 15 horas.


O canteiro que divide as lembranças

Avenida Dona Ana Costa. no Gonzaga, em Santos
Thiago Bellegarde Varella*

Aqueles segundos pareciam intermináveis, na medida em que a chuva repentina se encorpava. O vento encanado, devido à proximidade do mar, soprava forte e até ruidoso pela avenida Dona Ana Costa. A tal “faixa viva” não estava sendo respeitada naquela manhã de “quase frio”.

Em meio a esse cenário, eu estava lá, solitário e vacilante, como que prostrado no canteiro divisor das pistas daquela tradicional via pública. O olhar era atento, medindo os estreitos espaços compreendidos entre um veículo e outro, e outro, e outro, que passavam indiferentes àquela tragicômica situação na qual eu reinava soberano.

Subitamente, minha cabeça e ombros foram poupados da ação da intempérie. Então, notei que um senhor, empunhando cuidadosamente o guarda-chuva, me acolhera naquele tempestuoso instante.

— Vai, vai. Ele foi logo dizendo, enquanto sinalizava com uma das mãos.

Justamente, nos poucos segundos em que voltei minha atenção para aquele senhor, os carros sumiram, como que por encanto. Uma das entradas do Shopping Parque Balneário era o “destino seco” mais próximo, com uma pequena cobertura. Para lá nos dirigimos. Mal havíamos nos abrigado e o cortês octogenário perguntou para onde eu ia. Antes que pudesse responder, ele disse que estava esperando o shopping abrir, lamentando pelos 15 minutos faltantes.

Levemente constrangido, arrisquei comentar algo sobre o tempo, enaltecendo o caráter sui generis do clima, incompatível com a estação, pois ainda estávamos em março. Ignorando o comentário, o senhor perguntou meu nome, mas várias crianças cruzaram espalhafatosamente o canteiro central da avenida, montadas em suas bicicletas.

Enquanto avaliava a pertinência de uma nova pergunta, ele se pôs a falar com entusiasmo. Começou dizendo que aquele canteiro, no passado, era bem mais largo, devido ao insignificante fluxo de veículos que trafegavam no “leito carroçável”.

Em seguida, lembrou que bem à nossa frente, naquele mesmo canteiro, havia um pequeno comércio, uma espécie de cafeteria que servia lanches rápidos, pequenas guloseimas, refrescos e, obviamente, café. Tudo isso acontecia durante as breves paradas dos bondes, ocasiões em que os passageiros esticavam as mãos e eram rapidamente servidos.

Todos se conheciam, de modo que os atendentes deixavam os quitutes prontos para serem entregues ao gosto do freguês. Já os passageiros deixavam separados os “réis”, contados em seus bolsos para agilizar o “toma lá dá cá”. 


A mesma avenida, nos dias de hoje
O senhor tentava visualizar aquela coreografia tipicamente urbana: cumprimentos bombásticos, saudações conservadoras, acenos, curtas anedotas e gozações futebolísticas. Realmente, uma cena difícil de se conceber em tempos de “feicibuqui” e afins.

Contudo, a nostalgia despontou mesmo, quando ele se referiu carinhosamente a uma atendente da cafeteria, de nome “Domitila”. O abalo gerou uma longa pausa. Com efeito! Aquele meu protetor matinal perdera, definitivamente, o rebolado. Os pingos que deslizavam sobre o velho guarda-chuva retravavam o espírito que arrebatara toda aquela alegria.

A pausa se perpetuava e, com ela, meus devaneios. Sentia-me remetido a um passado que aponta para homens e mulheres que viveram em grande estilo, no charmoso bairro do Gonzaga, trabalhando, proseando, rindo, saboreando cafezinhos, guloseimas e vivendo suas paixões.

A partir daquela manhã especialíssima, tais lembranças passaram a ser minhas também, pois reivindiquei, como santista, o direito de sentir as mesmas emoções experimentadas por tantos. Construo agora a imagem daquele homem, pendurado no bonde, enquanto, com uma das mãos estendida, entrega duas ou três moedas à bela Domitila, juntamente com um envelope contendo, quiçá, uma declaração de amor.

* 11º texto a partir do curso "Como escrever crônicas".

quarta-feira, 25 de março de 2015

As viajantes, os humoristas e outras gentes


Tamiris Vieira*

O despertador toca às 7 horas. Eu me levanto da cama, me arrumo e saio para trabalhar. Fico por volta de 40 minutos no ponto de ônibus porque eu nunca consigo pegar o “bendito” a tempo.

Depois do trabalho, vou para faculdade pensando que ficarei mais 30 minutos no ponto, e mais 30 dentro do ônibus. Começo a lamentar. À noite, eu saio da faculdade e lá se vai mais uma hora e meia perdida.

Final de semana chegando, quanta alegria, só mesmo em pensamento, pois a realidade continua com idas e voltas de cursos e a mesma quantidade de horas perdidas em um ponto de ônibus.

Ô mania a minha de dramatizar, certo?

– Não!

Esses dias, eu me peguei pensando nas amizades e inimizades que foram feitas enquanto esperava um ônibus e a diversidade de pessoas que conheci nestas horas de paralisia. Um local que pode ter de um homem engravatado a um de bermudão. Da patricinha com o seu salto 15 centímetros à roqueira de cabelo pink. De uma pessoa muito dócil e legal àquela mala sem alça. Do cantor ao ator, do estudante de medicina ao atendente de telemarketing. Pessoas com vidas e universos diferentes bem ali do seu lado.


É também um local das conversas paralelas. Você acaba por dentro de qual foi a morte do dia, que a Xuxa foi para a Record, que o Lula manipula a Dilma, que o PSDB é bom e o PT é mau – assunto do momento. Todo mundo politizado!

Você ainda pode saber da vida alheia - o que aconteceu na intimidade de fulano e beltrano. Isso tudo detalhado e sem conhecer a pessoa. Parentes e amigos estão aqui para isso.

É também um lugar de muitos risos. Tem aquela senhora que começa falar dos netos, da mulher que pergunta as horas e depois começa narrar sua história de vida, do bêbado que quer socializar e começa a falar e cantar em inglês.

Há os piadistas que somos obrigados a aturar e soltamos um sorriso para não deixá-los constrangidos, as rixas que começam para ver quem entrará no ônibus primeiro para sentar, tem os mal-humorados que reclamam do atraso, do motorista, do horário, do tempo, da vida.

Um dia desses conheci duas senhoras que só queriam passear pela cidade, não tinham um destino certo, adoravam fazer amizades. Elas são as viajantes.

Já conheci um senhor que perdeu toda a família, do outro que trabalhava para o Santos Futebol Clube na época do Pelé, da outra que viveu na época da Ditadura e é contra a Dilma.

Unindo os prós e contras, uma coisa é fato: vivo uma relação de amor e ódio com a minha rotina e o “ponto de ônibus”.

Obs.: 10º texto da série que nasceu do curso "Como escrever crônicas". 

terça-feira, 24 de março de 2015

Os malandros, os otários e as bacias


Rua General Câmara, no Centro de Santos, em foto antiga
Ricardo Rugai

Este texto abre a série de crônicas "A vida começa nos (anos) 80". 

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Era dia de pagamento e o Tacape recebeu a bufunfa, uma em cima da outra, dava até gosto de ver. Para dois moleques de 14 anos, aquele salário mínimo parecia uma fortuna nos idos de 1988. Mas a grana tinha destino certo: as contas da casa que ele praticamente sustentava há quatro anos.

Só que o destino foi driblado dessa vez, e a linha reta para casa entortou para o centro da cidade. No fim de expediente, aquele pedaço maldito de Santos começava a ser tomado por personagens avessos à luz do dia. Para nós, andarmos por ali era como ir a um parque de diversões. Ruas escuras, luzes coloridas, mulheres sorridentes e bebida. Não tinha viagem perdida, cada dia era aventura, cada aventura uma história para contar e recontar.

Por ali, e por qualquer lugar naquela época, andávamos destemidos e folgados, certos de que na corrida ninguém nos pegava, desprezando bala como quem tem peito de aço. O fato é ninguém ali pela zona mexia com a gente, mesmo quando merecíamos. Talvez alguns perdoassem a pouca idade, outros suspeitassem que tamanha folga deveria ter costa quente ou que a gente era muito zica mesmo. Tudo isso estava para acabar naquele dia.

Quando me viu na rua no final de tarde, o Tacape já saiu gritando:

– Pescoço, hoje nós vamos zuar! Bora pra zona!

Com o pouco de razão que restava em mim, insisti para ele deixar a grana em casa antes.

— Não adianta, animal. Hoje nós vamos zuar!

Passar em casa era tudo que ele não queria, era risco de por tristeza naquela alegria. Assim que caiu a noite, subimos no trólebus rumo à cidade e, claro, descemos por trás uns dois pontos antes do final. 



O foda era que o Tacape curtia jogar e, andando pela General Câmara, paramos num pequena aglomeração de gente. Seis ou oito pessoas em volta de um sujeito atrás de uns caixotes de feira empilhados, em cima três bacias e uma bolinha macia bem pequena. O sujeito falava mais rápido que narrador de rádio e repetia:

– Olha a bola, olha a bola, o dobro ou nada, pra direita, pra esquerda, olha a bola, cadê a bola, onde tá?

Pouca gente jogava até que um sujeito se encoraja e saca uma nota de 10, acerta e dobra, joga os 20 e dobra de novo. O dono da banca faz cara de bravo, quer ir embora, os otários se animam e entram na brincadeira, uns ganham outros perdem, a maioria dança, claro.

O primeiro corajoso mantém a sorte ao seu lado e atiça os demais:

— Vamos casar o dinheiro? 10 teu, 10 meu, a gente ganha 40!

O que dava nos mesmos 20 pra cada, mas ali naquele falatório, naquele caldeirão, a matemática primária e o que sobrava de razão no povo sucumbiam à ganância e à necessidade de grana.

Lá pelas tantas, o Tacape não resistiu e entrou com 10, prometendo para mim que eram só os 10. Ganhou 20 e se empolgou, ganhou 40 e mexeu no bolo do salário sacando mais 40. Dali pra frente, foi só bica, a carteira esvaziando e um mês de salário sumindo na nossa cara.

O Tacape não parava por nada, certo de que ia recuperar a grana em algum momento. O pior é que a certeza da bolinha estar na bacia era tanta que ele ia seco, e eu acreditava. Quando a tragédia já se consumava, eu saquei o lance, a gente acertava a bacia, mas na fração de segundo em que o Tacape puxava a nota da carteira os dedos ágeis do malaco invertiam a parada e a gente rodava.

Saímos dali com cara de merda, eu vendo meu amigo desolado e o suor de um mês de trampo indo pro saco. Para mim, era a tristeza por ele. Para ele, uma mãe e um irmão mais novo esperando um salário que se evaporou diante de nossos olhos. Para os dois, a dura realidade dos otários. E assim cada um passou a noite em claro pensando na pancada e numa saída.

Rua General Câmara, no dia do "troco"
No dia seguinte, estávamos refeitos e com sangue nos óios. Nos encontramos no trampo com a coisa pensada. Era simples. A gente não era lerdo como uns tiozinhos que nem viam onde estava a bolinha. A gente acertava, mas o fila da puta mudava a porra da bacia na velocidade da luz. Com 10 mangos emprestados, voltamos dispostos a recuperar tudo.

Rodamos pela zona e rapidinho achamos a banca. Estava um pouco mais vazia e o maluco que atiçava os otários para casar a grana ali, na mesma função. O vacilo da noite anterior foi simples, a solução mais ainda: o Tacape apontava a bacia, eu segurava na sequência, enquanto ele sacava a grana.

O malandro da banca apostou a agilidade de seus dedos contra o olho do Tacape e nem criou caso com nosso “método”. Ganhamos a primeira, veio a segunda, a terceira, a quarta, até que o salário todo foi recuperado. A felicidade explodia por dentro.

Mas o Tacape não queria parar e já não controlava a risada. O dono da banca perdia a grana e a moral dele na área para dois moleques de 14 anos. O clima começou a pesar, chegava mais gente, o malandro da banca encrencou com a segurada da bacia, virou discussão, bate-boca, alguns falavam para gente se mandar e nós ali querendo mais jogo.

De repente, uma bicuda faz o caixote voar longe. Do nada, duas peixeiras passaram lambendo nossa cara, a muvuca se desfez em meio a xingamentos e correria. Nós disparamos sem olhar para onde nem para trás, fomos parar no cemitério do Paquetá, ofegando e rindo de alegria. 

Não me lembro se depois dessa ficamos mais na manha ou mais petulantes ainda, só sei que dali em diante amizade foi se tornando irmandade.


Sem rua, sem calçada


Gonzaga: a pé, pedalando ou de carro?

Paulo Montenegro*

Hoje, precisei ir até o Gonzaga e me peguei pensando no dilema: a pé, de ônibus ou de carro? Antes de discorrer sobre o assunto, vamos estabelecer um parâmetro importante: o Gonzaga é o centro de Santos. É o bairro onde você resolve boa parte dos seus problemas, se diverte, namora e, no meu caso, se irrita.

Conforme os anos se acumulam em nossas costas, queremos deixar a vida mais fácil, mais leve, e não falo sobre aquela baboseira sobre estar cansado, ou não ter a energia dos jovens. É uma questão de evolução.

Com 16 anos, eu não iria dirigindo, porque é proibido e irresponsável (além de não ter dinheiro para comprar meu próprio veículo). No auge dos meus 28, não quero ir de ônibus e deixar o carro na garagem. Comprei para isso, não foi? Mas a memória me bate e eu rapidamente mudo de ideia, lembro-me de um episódio que ocorreu no ano passado.

Peguei o carro e fui até o Cine Roxy assistir a algum filme que não me lembro, depois comi no Mc Donald´s e fui retirar o carro no estacionamento. R$ 30 para deixar o carro parado por cerca de 4 horas, sem direito a ducha nem beijo.

Sabendo que eu tenho um Uno 1.0, que eu moro no Boqueirão e que mesmo com a gasolina cara eu não gasto mais do que dois litros para ir e voltar, não é de querer matar todo mundo?

“Mas você pode parar na rua!” – Sério? É mais fácil encontrar uma agulha num palheiro com uma venda nos olhos e sem usar as mãos do que encontrar uma vaga no Gonzaga. Fora a irritação de tentar estacionar, entre semáforos completamente ignorados pelos pedestres e motoristas que entram em pânico e surram suas buzinas ao ver um carro parado enquanto o semáforo está verde.

Ônibus é uma opção viável, mas indesejável. Eu poderia escrever uma crônica ou uma dúzia sobre nossa querida Viação Piracicabana, mas aqui vou fazer apenas um breve recorte.

Tenho virtualmente sete opções: o 40 que faz uma rota burra, o 13 e 77 que me deixam na praia e passam pouquíssimas vezes durante o dia, o 155 que vai mais lotado que o Magazine Luiza em dia de Black Friday ou os 02, 934 EX e 944 que são intermunicipais, caros, sujos e lotados, uma maravilha que me custa em torno de R$ 6 e R$ 8 e um bronzeamento forçado enquanto aguardo.

Avenida Ana Costa, em 1979. Foto: Novo Milênio
Eu desconsidero a opção bicicleta, primeiro porque a minha última foi roubada dentro do meu prédio (pelo síndico, acredite se quiser). Segundo, porque o Bike Santos está sucateado e não foi implantado em proporção adequada para a cidade. Apenas essa fadiga já me desestimula.

Não leve a mal, eu adoro andar pelo Gonzaga, e não sou tão crítico quanto pareço. Mas esses dilemas me atingem todas as vezes que preciso/quero ir até lá, me deixa impressionado que o centro comercial e de entretenimento da cidade invista tanto na qualidade do asfalto e das calçadas e tão pouco seja feito para que as pessoas possam utilizá-las em sua graça e plenitude.

O Gonzaga é vítima de seu próprio sucesso, crescimento desenfreado e orgânico. Eu vou seguir amando esse bairro, com todas as suas particularidades, mas hoje eu decidi ir a pé.

Obs.: 9º texto a partir do curso "Como escrever crônicas".

domingo, 22 de março de 2015

Qual é a minha praça?


Centro Histórico de Itanhaém
Betty Watanabe*

Cair da tarde de 1º de março de 2015. Já se passou muito tempo; tempo de brincar de pegador, de esconde-esconde, numa das muitas praças de Itanhaém. A Praça Narciso de Andrade que, junto com a Praça Carlos Botelho, formam o chamado "Centro Histórico", onde se contempla a Igreja Matriz de Sant' Anna, o casario e a Casa de Câmara e Cadeia.

A Casa possui dois pavimentos; em cima, a Câmara de Vereadores, a primeira no Brasil, e embaixo a Cadeia Pública. Quando eu era criança, minha mãe não me deixava olhar para aquele lado, muito menos para as janelas altas e gradeadas, preservadas até hoje. Como era uma criança curiosa e sapeca, eu sempre espiava e, na minha imaginação fértil, escutava os murmúrios dos presos.

Atualmente, esse prédio abriga o Museu Nossa Senhora da Conceição. Essa praça é o mais antigo local da cidade, que ficou e calou fundo em minha alma, tantas as lembranças e recordações. A praça sofreu várias intervenções ao longo do tempo, mas a que me entristeceu foi a retirada da fonte luminosa. Era a minha alegria, tal os sonhos que aquelas águas coloridas misteriosamente fluíam em mim e nunca deixavam de molhar as mãozinhas sorrateiramente, pois era proibido. 

Museu Nossa Senhora da Conceição
E as árvores frondosas, que serviam de esconderijo nas brincadeiras? Mais tarde, elas serviam de sombra quando eu ia até a praça para ler ou apenas ali ficar e admirar os que ali passavam, pois minha casa ficava em frente.

Modernizada e reflorestada, a praça ainda guarda aquele ar charmoso e romântico, de infância ali passada, lembranças de correrias e gritarias em volta da fonte, os mistérios do Beco de Santana, o homem que ali andava sem um braço assustando as crianças que por lá brincavam, paqueras de adolescência e outros tantos segredos. De cochichos ... fofocas.

Praça Narciso de Andrade 
Muitas vezes, ainda me acomodo em seus bancos, para contemplar suas belezas, as pessoas que - a passos largos - atravessam a praça de um lado para outro na hora do almoço, casais de namorados, turistas procurando o melhor ângulo para fotografarem e as crianças, correndo atrás dos pombos.

Penso que muitos amigos, que na época brincaram nela, também sentem um pouco de saudade da "praça de outrora".

Obs.: 8º texto a partir do curso "Como escrever crônicas."

sexta-feira, 20 de março de 2015

A cerveja que nunca deveria ter tomado

Cerveja é sempre cerveja? 
Edwar Fonseca*

Cerveja. Para quem gosta é difícil resistir. Bebida refrescante e inebriante, que nos faz relaxar e pensar sempre no próximo gole.

Cerveja sempre foi minha companheira em festas, churrascos, encontros de amigos, praia, clube, baladas; enfim, qualquer lugar onde se possa descontrair apenas com as tradicionais. Nada de beber cervejas amargas demais ou diferentes.

Não lembro quando comecei a beber. Mas bebi, gostei e não parei mais.

Para mim, cerveja sempre foi cerveja. Amarela pálida, pouco colarinho para ter mais líquido no copo, barata e bebida estupidamente gelada. Vi o garçom servindo na mesa ao lado um copo alto bonito, espuma alta. Eu quero. Bebi, cheirei, degustei. Pensei em pedir outra, mas o preço não permitiu. Mas abriu um portal que eu nem sabia a que mundo iria me levar. Entrei de cabeça!

Nunca me interessei em saber do que, em detalhes, era feita aquela bebida, como era feita, quando foi inventada ou muito menos quem inventou.

Um dia, um amigo me escreveu: “Vai ter um curso para aprender a fazer cerveja, vamos?”. O quê? Claro! Não pensei duas vezes. Era unir o útil ao agradável ou como ser um macaco produtor de bananas. Não via a hora do curso chegar, só pensando em quantas cervejas eu iria fazer, onde iria colocá-las, se iria tomar banho da minha cerveja. 

Produção artesanal de cerveja
Chegou o dia do curso! Um cara formidável, daqueles que você olha e diz: “Esse cara é legal!”. Ele era bonachão, alto, esguio, sem barriga (ué?) e engraçado. Destrinchou abertamente todos os segredos dos ingredientes, estilos, produção, e o que antes para mim era básico e sem muita graça, passou a ser mágica, especial, com cor, com sabor, resultado de uma alquimia de conhecimento.

Nada era sigiloso, muito pelo contrário, conteúdo aberto a quem tiver interesse em ler, estudar e praticar. O que antes do curso era amargo, de paladar ruim se tornou um oásis, ao beber uma cerveja artesanal servida como chope, amarga, vermelha. Era aquilo que eu queria fazer daquele dia em diante.

Nada mais importava do que comprar todo equipamento, os ingredientes e produzir nossa primeira cerveja e, lógico, muitas outras depois dela. Quando a gente ama é pra valer, diz a música. Um hobby é algo que não tem concorrente, fica sempre de fora das economias pré-definidas. O que importa é fazer algo sempre novo, melhorar o equipamento, investir sem fim.

Fabricar, beber ou os dois, eis a questão!
Beber pode virar vício; hobby pode virar vício, hobby de produzir cerveja é vício do vício! Vício de beber menos, mas beber melhor. Vício de estudar. Vício de conhecer mais e mais. Vício de fazer melhores cervejas. Bebo todas que faço. Hoje, se pudesse escolher, nunca teria tomado cerveja sem graça.

Obs.: 7º texto a partir do curso "Como escrever crônicas".


quinta-feira, 19 de março de 2015

O Estadão



Maria Luiza*

— Senhores passageiros, estamos começando o processo de aterrissagem. Portanto, voltem aos seus lugares, afivelem os cintos e ponham suas poltronas na posição vertical.

Que ansiedade, sentia ela, louca de vontade de entrar no Aeroporto Internacional de Guarulhos, retirar a bagagem na esteira e procurar o Sr. Carlos, taxista contratado para buscá-la.

Depois de 40 dias fora do Brasil, a maior vontade dela era parar em uma banca de jornal para comprar O Estadão. Precisava saber como estava o país, a política, quem teria falecido nesse mês e meio de ausência. Tinha sede de notícias de São Paulo.

E a falta de água, será que nesses dias choveu? Será que choveu na Cantareira?

E esse avião que ainda não desceu. O comandante informou que ainda não tinha ordem da Torre para descer. O tráfego aéreo era grande porque era domingo e final das férias de janeiro.

Mas e O Estadão? Era tão cedo ainda, 5h30 da manhã, seria difícil encontrar alguma banca aberta.

Quando saiu do avião, ela correu para retirar a mala da esteira e procurar o Sr. Carlos. Qual era mesmo a cor do carro dele? Por que, marca, não iria se lembrar.

Saiu pelo Portão de Desembarque n. 3 e logo viu o Sr. Carlos acenar-lhe do outro lado da rua. Foi o mais rapidamente que pôde, com certa dificuldade, porque faltava uma das rodas na única mala que trazia. Tão logo o taxista guardou a mala e deu a partida no carro branco – continuou sem saber a marca do automóvel - pediu que parasse na primeira banca aberta, para comprar o tão esperado O Estadão.



O Sr. Carlos, depois de desejar-lhe boas vindas, começou a contar o que se passara durante esses 40 dias.

— A política, um horror. Estão querendo fazer um impeachment contra a Dilma. Afinal, é uma cínica, tanto quanto o seu padrinho. Ah, esse Lula, é uma falta de vergonha... como prometem bem e cumprem tão mal...., contou, exasperado.

E continuou o discurso.

— A água aumentou, apesar de estar faltando por culpa dos governadores que nada fizeram. E a falta de luz, apagões e apagões sem parar. Mas a presidente afirma que não há apagões. Que só houve na época do Fernando Henrique. E se a senhora soubesse os preços das feiras livres, dos supermercados; então, não há palavras para expressar os absurdos. Está tudo pela hora da morte. A senhora vai sentir no bolso. Tudo dobrou.

Mesmo com esse falatório “informativo”, afinal dizia o dito popular: “o taxista é a voz do povo”, ela prestava atenção no motorista em todas as bancas que passavam. Mas ainda estavam fechadas. Também mal passava das 6 horas do domingo.

— Agora, continuava ele, os crimes, assaltos, ah!, são uma constante. Eu mesmo tenho medo de trabalhar à noite. Eu não quero deixar minha mulher viúva e meus quatro filhos órfãos porque o Estado não vai garantir os estudos, o arroz e feijão na mesa, não vai mesmo. O governo só beneficia quem vota nessa corja.

O noticiário parecia próximo do final, até porque estavam chegando ao destino.



— Uma das ciclovias que o Haddad havia mandado pintar de vermelho, com a chuvarada que houve, o vermelho foi pelas ruas abaixo, um show bem colorido.

Certo de estar sendo um ótimo informante, o taxista disse, com euforia:

— Quanto aos políticos, não há nem o que dizer. Que classe nojenta, a senhora não acha? Imagine que...

E, assim, falou até acharmos a primeira banca que estava aberta.

O Sr. Carlos parou o carro, se voltou para ela e disse que iria buscar o jornal. Ela, um tanto quanto desolada, respondeu:

— Obrigada, Sr. Carlos, já não é mais necessária a compra do jornal. Já sei de tudo.

Obs.: 6º texto da série a partir do curso "Como escrever crônicas."

quarta-feira, 18 de março de 2015

Ciclovia, terra dos fogões e proibida para menores


A bicicleta na imaginação do menino
Ted Sartori*

Ainda bem que não existiam ciclovias em Santos quando meu pai me levou, aos seis anos, para aprender a andar de bicicleta. Era uma BMX tipo cross, com a placa de número 54 na frente e as essenciais duas rodinhas auxiliares para o equilíbrio. Recorria-se às ruas pouco movimentadas para isso. E assim foi comigo, bem perto de casa e na companhia dele.

Não, eu não estou louco em preterir a ciclovia. Trata-se apenas de perceber que é um reduto para iniciados, tão ou mais selvagem do que as ruas. É uma frenética e insana busca por espaço que chega a dar medo, talvez pior do que a enfrentada pelos que assumem o volante de um carro. Até porque o espaço é bem menor.

Resolver simplesmente passear por uma ciclovia é um ato de coragem para quem a observa. E um pecado para quem só pensa em correr, sonhando chegar sabe Deus onde. O espaço se transforma em um velódromo, aquele circuito circular para competições. As diferenças são a pista em linha reta e não há troféus e medalhas ao final. O grande prêmio é ultrapassar quem vier pela frente.

Definitivamente, a ciclovia não é um espaço para o bucólico, mesmo tendo a praia como cenário. Imaginem aquelas bicicletas femininas com cestinhas (nos anúncios, sempre havia flores, mas somente lá), com garotas sorridentes contemplando a passagem e quase cantando, felizes como nos filmes musicais norte-americanos dos anos 40 e 50. Impossível projetar. Tudo caiu em desuso. O negócio é ter pressa.

Hora do rush na ciclovia
O relógio conspira. Ou, pelo menos, o cronômetro instalado no braço ou na própria bicicleta. Fazer menos tempo para completar o trajeto da ciclovia é um sinal que a pessoa melhorou como atleta e piorou como pessoa. Nem consegue olhar quem está atravessando. Ou, caso perceba, é dotado daquela certeza absoluta de que o pedestre tem de vê-lo. É a lei dos mais fortes. Ou dos mais velozes.

Não sejamos injustos, no entanto, com o trabalhador que usa a bicicleta rumo à labuta diária. Aí a pressa é perdoável - e não, claro, a falta de atenção. É aquela correria para não perder a hora e, por consequência, o emprego, este artigo tão raro quanto educação na ciclovia.

E encontrar um fogão em plena ciclovia? Sim, foi o que vi em uma bicicleta quase cinco anos atrás, durante o jogo em que o Brasil acabou eliminado pela Holanda, nas quartas de final da Copa do Mundo de 2010. Não sei se o fogão chegou. Acredito que sim. Afinal, o sossego transparecia no olhar do ciclista. Tanto quanto deveria ser o ambiente de uma ciclovia.

Obs.: 5º texto da série a partir do curso "Como escrever crônicas".


terça-feira, 17 de março de 2015

O parmesão rejeitado

Pizza tradicional ou do século XXI?
Ana Maria Marins*  

Eu sou do tempo em que pizza era de tomate e queijo. Com alguma diversificação, apareciam o presunto, a lingüiça calabresa, cebola, azeitonas.

Massa fina ou massa grossa. Forno a lenha ou a gás eram os determinantes da escolha dos clientes. As pizzas tinham poucos ingredientes e fidelidade às suas origens.

Entretanto, desde que os raios gourmetizadores as atingiram... o céu é o limite: rúculas, abobrinhas, alcachofras, escarolas, queijo de cabra, mussarela de búfala, carne seca, presunto de Parma, peperoni, shitake, shimeshi, alface, bacon, banana, brigadeiro invadiram o território. Chefs estudam, pesquisam e se dedicam a harmonizar sabores para conquistar o paladar dos consumidores sedentos por novas experiências gastronômicas.

Qualquer pizzaria tem um cardápio de uns 80 tipos e ainda há aquelas que abrem a possibilidade do cliente personalizar a sua. Tanta democracia, tanta possibilidade de escolha não é suficiente para deter o sujeito “chato”.

Uma vítima dos consumidores indecisos
Tem uma coisa que me deixa perplexa: a pessoa escolhe a pizza de abobrinha com parmesão e pede para tirar o parmesão. Escolhe a pizza de calabresa com cebola, mas sem cebola. Fico pensando que, se tem 79 pizzas no cardápio sem parmesão, porque o cara pálida pede justamente aquela que tem parmesão sendo que não gosta do dito cujo. Será que é para medir forças com o pobre chef que consumiu neurônios para chegar à perfeita combinação de abobrinha com parmesão? Será que é para provar que de médico, louco e pizzaiolo todo mundo tem um pouco?

Então, companheiro, é o seguinte: antes de fazer sua escolha, veja se existe na casa a opção “monte a sua pizza com os ingredientes de sua escolha”. Caso não exista essa alternativa, pense que o cardápio foi criado por profissionais que se dedicam e estudam para te oferecer as melhores combinações. Entre tantas opções, deve haver ao menos uma que te agrade, mas nunca - nunca mesmo - peça para mudar a receita do chef. Tá?

Obs.: 4º texto da série que nasceu do curso "Como escrever crônicas", realizado em Santos (SP). 

sábado, 14 de março de 2015

Os virgens sem livros

Cine Iporanga (extinto), no Gonzaga, em Santos
Foto: Novo Milênio
Marcus Vinicius Batista* 

Éramos dois virgens. Dois profissionais que passavam por aquela experiência pela primeira vez. Isso explicava porque andávamos de um lado para o outro em frente à livraria. Tentávamos amenizar a expectativa e o atraso do visitante com piadas, sorrisos, conversas com outros clientes e papos de boteco – mesmo sem cerveja – sobre futebol.

Eu era um jornalista com meia dúzia de anos de carreira. José Luiz Tahan era o dono da livraria Iporanga e, portanto, o sujeito que havia me contratado. A livraria ficava no Gonzaga, bairro nobre de Santos, no litoral de São Paulo.

José Luiz também organizava um evento com escritores pela primeira vez e sonhava com voos mais elevados no mercado editorial. De funcionário da Iporanga, passou a sócio. Naquele momento, em 2000, ele já aspirava atrair escritores para um dia transformar seu estabelecimento também em editora.

José Luiz, amigo desde a adolescência por conta das peladas nas praias de Santos, havia feito parceria com uma sala de cinema, também chamada Iporanga, que ficava acima da livraria. Eram três salas, sobreviventes do antigo modelo de cinema de bairro, extinto neste século por conta das salas modernas de shopping.

A proposta era convencional: o escritor seria entrevistado por mim durante uma hora. Depois, perguntas do público. No último capítulo da noite, os autógrafos do autor e a venda de alguns (ou muitos) exemplares.

A ideia, para mim, era perfeita. Além de conhecer escritores, trabalharia no meu cinema preferido. O Iporanga 3 era o menor dos irmãos, com feições de sala de casa, e tinha lugar cativo na minha memória afetiva cinematográfica. Foi lá que, aos 10 anos, vi um filme sozinho pela primeira vez. Assisti ao Superman 3, num domingo pela manhã. Minha avó Norvina, que morava do outro lado da avenida Ana Costa, onde ficava o cinema, acompanhou até a compra do ingresso pela janela do 501.

O meu pagamento para conversar com escritores era uma permuta coerente com a ocasião. Eu ganhava livros, o que era excelente, pois me poupava o trabalho de gastar a maior parte do dinheiro no mesmo lugar ou na concorrência. Além disso, recebia de presente o livro do autor a ser entrevistado para que me preparasse. Em tese. 

O escritor Ferréz. Foto: site do autor

A chuva apertava e deixava a sexta-feira mais friorenta. O autor estava atrasado meia hora. José Luiz falava do tráfego, tentava reduzir a ansiedade com conversas entrecortadas com diversos clientes; muito deles estavam ali para conhecer Ferréz, autor de Capão Pecado. O visitante era um escritor de primeira viagem, festejado no mercado, representante da periferia de São Paulo, com texto impregnado de crítica social de qualidade. Como ainda não era um ícone literário, personalizava o convidado perfeito para começar o projeto.

Após quase uma hora, José Luiz pediu que as pessoas se acomodassem na sala de cinema. Pouco mais de 15 pessoas subiram o único lance de escadas e ocuparam lugares próximos ao palco. Estava com jeito de pocket show literário.

Mais meia hora e aparece um sujeito magro, na casa dos 35, 40 anos, de camisa e calça social e barba feita. Não parecia com o Ferréz da foto da orelha do livro ou das imagens divulgadas pela imprensa. Na verdade, era oposto. Ele se aproximou de nós, logo na entrada da livraria. Estendeu a mão direita e se identificou como editor. Peço desculpas por não me lembrar do nome dele. Talvez seja o trauma literário.

O rosto do José Luiz deu sinais de alívio. Na sequência, a pergunta óbvia:

— Cadê o Ferréz?

— Não vem.

— Como não vêm?, perguntamos quase juntos, com olhos arregalados.

— Não vem. Teve um problema em São Paulo.

Eu e Zeca nos olhamos. Ele respirou fundo e fez outra pergunta, procurando alguma coisa nas mãos do editor.

— E os livros? Onde estão?

— Não trouxe. Não conseguimos exemplares extras para trazer para cá.

— Porra, e agora? O povo tá lá em cima!, disse Zeca, em tom que me pareceu mais de resignação do que de fúria.

Todos se olharam e não sei quem tomou a decisão. Provavelmente o José Luiz.

— Vamos entrevistar o editor.

Subimos os três, entramos na sala de cinema e José Luiz deu as explicações de praxe para o público. 

Não sei se a noite fria e chuvosa provocou receio nas 15 testemunhas ou se todos estavam encaixados nas cadeiras estofadas e confortáveis do Iporanga 3. Ninguém arredou pé e a entrevista com o editor seguiu por uma hora. O assunto, claro, foi o autor que não estava lá e o livro Capão Pecado, que também era uma abstração naquela sexta-feira, em Santos.

Infelizmente, não tenho como dar mais detalhes da conversa. Não a gravei. Não houve reportagem sobre o encontro. Não tinha cabimento escrever sobre alguém que falava sobre outra pessoa, diante daquelas circunstâncias particulares. Não me lembro do que aconteceu depois, como o editor foi embora ou da despedida. Na embriaguez saudosista, só consigo me recordar do antes.

O projeto da extinta Iporanga durou mais uns dois anos. Pude entrevistar, por exemplo, Fernando Moraes pela primeira vez, que lançava Corações Sujos. O projeto cresceu e hoje é um festival literário, com cinco anos de vida.

José Luiz fechou a livraria Iporanga, abriu outra, a Realejo, e virou editor. Os cinemas foram fechados e o prédio, demolido, deu lugar a um shopping center de mesmo nome voltado para as classes A e B, além de um flat e quatro salas de cinema com filmes não tão comerciais.

Eu continuo a entrevistar escritores, inclusive no festival literário que mencionei, e tento me tornar um deles. O livro Capão Pecado, que ganhei duas semanas depois da estreia, segue ali, na terceira prateleira de uma das minhas estantes, entre José Roberto Torero e João Gilberto Noll.

Nunca encontrei Ferréz. Até hoje, desconheço o porquê.

Obs.: Texto publicado na revista Super pedido, n.51, edição novembro-dezembro/2014, p. 42-43. A revista é destinada aos donos e funcionários de livrarias. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Duas semanas, quatro anos




Ricardo Rugai*

Passada a ressaca de um amor frustrado, levou alguns meses até “pegar a embocadura” novamente. Não havia desaprendido, era como um jogador fora de ritmo, desacostumado a prestar atenção na vida e nas mulheres ao redor.

Trabalhar no Gonzaga ajudou. O velho escritório fechado da avenida João Pessoa ficou para trás. A nova sala era ampla e acomodava mais de dez funcionários, a maioria mulheres. As janelas ocupavam dois terços da altura, o sol entrava inclemente desde as primeiras horas da manhã e atraía o olhar para o desfile de gente nas calçadas. O estilo compenetrado dele logo despertou a curiosidade das funcionárias. E já que o tom misterioso seduzia deixou que a discrição falasse por ele.

Porém, o melhor da cidade estava nas ruas do Gonzaga para onde ele baixava na hora do almoço e, em duas ou três vezes, quando levava papéis num escritório a duas quadras. Tornou-se observador das roupas, perfumes, do andar, do rebolado das mulheres e, sobretudo, ouvinte dos fragmentos de conversa nas calçadas, pontos de ônibus e portas de lojas.

Em pouco tempo, ele passou do flerte sutil ao descarado e depois para algumas conversas promissoras. No escritório, o desprezo pelas belas funcionárias só aumentava o interesse e os boatos a respeito de sua vida amorosa, amplificados por cada uma que o via de conversa pela Ana Costa.

Até que um dia tudo começou. Ao passar pela galeria, a morena da loja de perfumes postou-se em seu caminho e de sorriso aberto ofereceu aquela fragrância terrivelmente adocicada. Sem pensar muito ele disparou:

— O perfume não, mas o cinema com você sim.

Sem jeito e surpresa, ela sorriu mais ainda o que valeu como um sim. Sentindo a ansiedade da morena, ele arrematou:

— Hoje não, amanhã ok! Passo na hora de sua saída...

Ainda perdida, ela moveu a cabeça concordando.

Ele voltou ao escritório esfuziante, com um sorriso indisfarçável que aguçou ainda mais a curiosidade feminina, mas não disse uma palavra. Sentia-se realmente apaixonado pela morena, como se redescobrisse vida dentro de si.

No dia seguinte, conferiu os horários e filmes em cartaz no Roxy, último cinema de rua sobrevivente nas ruas do Gonzaga. O filme não deveria ser muito bom a ponto de prender a atenção, nem muito ruim a ponto de incomodar. Afinal, o cinema era apenas um lugar escuro onde poderiam ficar a sós sem os constrangimentos da conversa inicial, sentir se havia realmente química entre eles. Nada muito além de alguns beijos e carícias, que só deveriam abrir o apetite.

Por volta das nove, saíram do cinema mais à vontade, fazendo do filme um coadjuvante. De passagem, um amigo o cumprimentou com sorriso malicioso no canto. A garota desconfiou do riso irônico e perguntou. Ele desconversou e seguiu para o próximo passo: parada para um papo regado à cerveja sem exageros e nada de comida. Manter a leveza ajudaria na noite e soltar algumas risadas fazia parte do rito dessa primeira noite de paixão, que seria ímpar.

Por duas semanas, viveram num êxtase apaixonado. Era mais que pele e sexo, era a descoberta, a conversa, o passado, os sonhos de um e de outro. Devoravam-se em todos os sentidos. 



Duas semanas e, de repente, sem que nada de extraordinário ocorresse, ele passou uma semana inteira sem pensar na morena. As mensagens e telefonemas tornaram-se obrigação, e a cobrança gerou repulsa e sepultou de vez a paixão.

Dali em diante, o ciclo passou a se repetir: flerte, conversa, convite, cinema, cerveja, uma noite de paixão, duas semanas e mais nada. Cada nova mulher fazia renascer mais vívida a paixão. O fim já não surpreendia tampouco impedia um novo começo. Duas semanas de paixão, duas semanas de volta ao tédio dos pobres mortais.

Após a terceira ou quarta vez, ele quis ver uma dádiva nisso. Convenceu-se que paixão era descoberta, novidade, que não resistia ao tempo e se contentou com o privilégio de viver metade da vida apaixonado, conhecendo mulheres diferentes. Mandou às favas a conversinha politicamente correta de se reapaixonar eternamente pela mesma mulher. 



Passaram-se quase três anos e o ciclo de paixões parecia se gastar. Sempre aquele roteiro, sempre aquele bairro, sempre aquele cinema, sempre as exatas duas semanas. A consciência do fim parecia enfraquecer o próprio começo e pela primeira vez passou a desejar algo diferente.

Um dia depois do trabalho, sentou-se só num antigo boteco do Gonzaga. Enquanto o rádio tocava clássicos de Nelson Gonçalves, pediu uma cerveja ao português e deixou o pensamento vagar. Lá se iam quatro anos de efêmeras paixões pelo bairro, constatou que seu antigo amor tinha passado e que no rádio Nelson cantava “teve amores, mas nunca teve amor” ... maldito verso que teimou sem solução em sua cabeça noite adentro.

Obs.: Terceiro texto da série a partir do curso "Como escrever crônicas".

quinta-feira, 12 de março de 2015

Leitores anônimos


Promessas de leitura?
Maykon Souza*

“Olá, amigos, hoje faz um mês que não compro um livro” – teria dito eu ao meu grupo de apoio, sob aplausos efusivos, se houvesse um grupo de apoio para compradores compulsivos de livros.

Se fizesse parte de um grupo de apoio, eu não estaria agora diante desse Rubem Fonseca tentando me fazer sucumbir à sua primeira página, como um garçom que oferece displicentemente o gole inaugural a um bêbado errante.

Tenho evitado entrar em livrarias como um dono de empreiteira corre da Polícia Federal. Esse é o primeiro passo para se livrar do vício: admiti-lo.

Sou um viciado! Compro pelo mais mundano prazer de comprar e, para isso, uso as mais esfarrapadas desculpas: “Esse exemplar é raríssimo” ou “era exatamente esse que eu estava procurando. É um sinal!”. Tudo balela. Quero mesmo é aumentar aquela pilha que se ergue ao lado da minha cama. Dá prazer fazer listas dos ‘próximos a serem lidos’ e, claro, não seguir nenhuma.

Cada novo livro adquirido – que garanto: leio na semana que vem – temo que seja o exemplar que vá colocar em risco a harmonia do lar, fazendo com que aquela montanha mágica de ilusões perdidas encostada na parede do quarto sucumba ao crime da ostentação e, como castigo, soterre este que vos escreve e sua indignada esposa. 

Pilha em reprodução espontânea
Criei algumas táticas para me controlar. A que mais deu certo até agora: quando sei que haverá uma livraria em meu caminho, meto um caderninho no bolso. Ao menor sinal de tentação, saco o bloquinho e anoto o nome do volume cobiçado. Não abro, não folheio, nem tiro da prateleira: apenas anoto.

Fui criando uma biblioteca só minha, preenchendo folhas de moleskines e bloquinhos genéricos com os livros que poderia ter comprado; um, dois, dez caderninhos, até que aconteceu o inesperado: me viciei em comprar caderninhos. Reparou na variedade que existe hoje? Mais opções que Havaianas. E, assim, as livrarias ganharam outro setor proibido. Além de literatura nacional e estrangeira, materiais para escritório.

E cá estava eu, me esgueirando entre prateleiras, tentando escapar às tentações, quando encontrei esse Rubem Fonseca. O primeiro romance. Abro e ameaço degustar a primeira linha. “O primeiro gole, não dê o primeiro gole”. Tarde demais.

Uma frase curtinha, concisa. Em três palavras, ele diz tanta coisa. No verso, os comentários: “A grande obra-prima do autor”. Puxo o bloquinho, tremo. Leio mais uma frase. Demais! Muito bem escrita! Eu tenho que levar pra casa. Não posso. Por que não posso? Anote, anote... Preciso desse livro. Anote. Evite o primeiro gole... Eu precisooooo...

Livros que seduzem 
A partir daí, só lembro de alguns flashes: uma fila, uma mulher com uma máquina nas mãos. “Crédito ou débito, senhor?”. Uma senha. Eu, em cima de uma escada, colocando no topo de uma pilha minha mais nova aquisição. 

Não deveria ter contado isso aqui. Devia ter guardado a confissão para os meus colegas do grupo, que entenderiam meu problema. Pena não ter um grupo. Que vergonha.



Obs.: Este é o segundo texto da série, a partir do curso "Como escrever crônicas".

quarta-feira, 11 de março de 2015

O próximo sorvete


Sandra Silva*

Sempre que vou ao Gonzaga com minha mãe, o sorvete faz parte do roteiro, algo que chamaria de retribuição de filha. O que difere é o tipo do sorvete. Quanto mais perto de receber meu salário mais chances de ser uma casquinha do Mc Donald´s; umas moedinhas pagam. A perfeição é no dia em que o esperado cai na conta... aí, a Dona Rute faz a festa lá na Sorveteria Itanhaém. 

Sorveteria Itanhaém, na Praça da Independência, em Santos
Quando sentamos naquela mesa, o mais delicioso não é o meu sorvete, mas vê-la saboreando delicadamente cada uma daquelas cores do pote. Bem devagarinho, degusta cada colherada como se estivesse a catalogar todos os detalhes em seu paladar.

Nessas horas, penso na mudança de papel que o tempo nos impõe. Fico ali a lhe satisfazer o desejo do sorvete como ela satisfez o meu em um tempo bem distante. Aquele simples ato se enche de significado com cheiros e sabores de Natal.

Era início dos anos 70 e os doces bonitos que eu e minhas irmãs mais víamos estavam desenhados em um jogo chamado “No País do Açúcar”, onde os dados nos levavam por um caminho tortuoso com idas e vindas entre brigadeiros, pirulitos, sorvetes e outras guloseimas coloridas, mas sem sabor ou cheiro.

Com rara exceção, nossos sorvetes sempre eram os picolés das forminhas do congelador, feitos com Ki-suco e espetados com palitos de dente. Mas teve um ano em que apareceu em nossas vidas a tal de Banana Split.

Durante todo aquele ano, não cansávamos de perguntar como era aquela maravilha do mundo dos sorvetes. Nossa mãe, geralmente com pouca paciência, explicava que “colocam banana cortada ao meio, depois tem uma bola de morango, outra de creme e outra de chocolate. Aí, colocam por cima calda de chocolate, chantilly, castanha e mais umas coisas e, se perguntarem de novo, não levo mais nas Americanas no Natal, entenderam?”.

Eu e minhas irmãs escutávamos atentamente, olhávamos uma para a outra de rabo de olho como a sugerir: “bico fechado”. Não podíamos correr o risco de perder o passeio de Natal e o sorvete tão sonhado.


Mesmo assim, a pergunta surgiu outras mil vezes, e a Banana Split foi mais esperada que o Papai Noel.

Dezembro finalmente chegou. A cidade colorida, lojas enfeitadas e gente se esbarrando pelas ruas e prateleiras. A Americanas exalava cheiro de cachorro quente; o mais perfeito de todos e de todos os tempos, porém fora do nosso cardápio. Era uma coisa ou outra. Quem sabe em outro Natal seriam os dois?

As duas Bananas Split que dividiríamos finalmente estavam materializadas em nossa frente... Era muito sorvete!!! Era lindo!!! Perfeito!!! Tinha chantilly!!! Pareciam de um filme colorido de cinema. Ficamos a admirar e sem saber por onde começar, até que veio a ordem: “Comam logo meninas!!! Tá cheio de gente querendo lugar e vocês ficam olhando o sorvete?”.

Rindo, ela elegantemente comeu a primeira colherada, como ainda hoje faz ao saborear aquele potinho colorido da Itanhaém. Nós, obedientes, a seguimos, mas longe de sua elegância nos lambuzamos e saímos com nossas blusinhas brancas, coloridas e saborosas.

“Mãe!!! O que tinha naquela taça da mulher de roupa vermelha?”, perguntou minha irmã Célia ao sairmos da loja. “Milk Shake.”, respondeu nossa mãe. Cruzamos os olhares e um sorriso desejoso surgiu em nossas bocas ainda melecadas.

Obs.: Esta crônica abre a série de textos que nasceram do curso "Como escrever crônicas". O curso aconteceu na Realejo Livros, em Santos.

terça-feira, 10 de março de 2015

O arquiteto e a vaca


O arquiteto Adelino Gonçalves, na praia de Santos
Foto: Marcos Piffer
Marcus Vinicius Batista 

Texto publicado, originalmente, na revista Guaiaó, edição n.6.

Todo surfista que se preze tem duas lembranças. A primeira é a onda perfeita, o momento aventura em pontos paradisíacos. Mas a segunda lembrança é a que deixa cicatriz. Em outras palavras, todo surfista que se preze tem uma vaca, o famoso caldo, em seu caminho.

O arquiteto e perito judicial Adelino Gonçalves, de 63 anos, tem seu episódio bovino. Mesmo sendo um rato de praia, na definição dele mesmo, a vaca que o marcou não está no mar, mas no Vale do Ribeira, na década de 70.

Adelino era um soldado raso na Fortaleza de Itaipu, em Praia Grande, quando foi designado para auxiliar na perseguição a Carlos Lamarca. Numa noite de muita neblina, em Sete Barras, ele e mais dois militares estavam de tocaia em um jipe quando ouviram barulhos na mata.

Conforme o ruído se aproximava, os três tremiam de medo. “Você foi condicionado. Você só atira quando a vida está em risco.” Os dois colegas sumiram na neblina. Diante do silêncio aos vários pedidos de senha, Adelino subiu no jipe e acionou a metralhadora ponto 50.

Os disparos atraíram a atenção de outros colegas e dos oficiais de plantão. Adelino e os outros dois soldados receberam ordens para permanecer no jipe. “Quem dormia?”, conta o arquiteto. No dia seguinte, a descoberta: Adelino havia matado uma vaca, que se desgarrou do rebanho em um sítio.

O ex-soldado surfa desde moleque. Pertence a uma ordem de cavaleiros que inauguraram as ondas em Santos. Surfar está acima da competição, dos torneios, dos prêmios. Surfar é disputar um campeonato sem vencedor, que nunca termina. Construíam, inclusive, as próprias pranchas. “Nosso negócio era pegar onda. Sou um surfer free.”

Adelino vê as ondas como um arquiteto enxerga um edifício. Ele se comunica com o oceano pelas formas. Neste relacionamento de meio século, a prancha é como uma caneta que risca o papel-mar na construção de projetos que se desfazem à beira da praia.

A fascinação nasce pelo movimento das ondas, diferente da estática arquitetônica. É o efêmero que permite o desenho seguinte, na visão dele, sempre único. “É como se as ondas fossem paredes. E cada tipo de parede te dá uma resposta para a prancha.”

De 15 anos para cá, Adelino mudou para o longboard. “Não tem briga por causa de ponto nas ondas. É mais fraternal.” Seria um sinal de amadurecimento, que redesenha os traços de um casamento. “Prancha é uma segunda mulher.” Se o tamanho mudou, a devoção segue intacta. Antes de desenhar no mar, há o ritual que envolve a licença e a benção de Iemanjá.

A primeira mulher na vida de Adelino se chama Gisleine Gioia Ruffo Gonçalves, a Leninha, de 53 anos. Ela convive com a segunda esposa sem traumas. “Em viagens, ele guarda a prancha no quarto.” Tudo por conta de um furto, há 11 anos, em Florianópolis. O ladrão escalou até o segundo andar da pousada para levar o longboard que descansava na sacada. Adelino foi ressarcido pelo furto, mas desde então mantém a segunda mulher ao alcance dos olhos.

Leninha e Adelino até tentaram driblar a relação com o mar. Moraram um ano em Piracicaba logo depois do casamento. Vinham para Santos todos os finais de semana. Adelino pegava onda. Leninha o assistia na praia. “A gente sofria tanto”, justifica o arquiteto. 




         Ilha de Urubuqueçaba, na divisa entre
                    Santos e São Vicente.
                   Foto: Alan Bernardino

Três décadas se passaram para que Leninha deixasse de ser espectadora. Desde o ano passado, ela pratica stand-up paddle. A prancha, por enquanto, é emprestada, até porque há o risco de se transformar no segundo marido. Já as duas filhas do casal, Carina, de 28 anos, e Tatiana, de 25, moram em Londres. Um lugar coerente para quem não surfa.

As vacas ainda aparecem de vez em quando para Adelino, com o privilégio de unir as lembranças num lugar só. Para o arquiteto, o tal ponto paradisíaco não está na Austrália, onde surfou uma vez, em 1997. Tomar um caldo ou dançar nas melhores ondas acontece a 15 minutos de casa, na Ilha de Urubuqueçaba, ou na Pedra da Feiticeira, em São Vicente.

Mas e a vaca dos tempos da ditadura militar? “Não tenho ideia. Talvez tenha virado churrasco para os oficiais. Só sei que um japonês (agricultor local) ficou sem uma.”