domingo, 22 de fevereiro de 2015

Fred, sem mais


Maria do Carmo/Folha Imagem

Marcus Vinicius Batista

Estou cansado de tantas notícias ruins. Exausto por ter que testemunhar a perda de amigos, colegas de profissão, ex-alunos, não importa a qualificação social. São partidas provisórias e definitivas que resolveram se acumular sem intervalos para assimilação de golpes. Queda, tontura, novo soco na cara. Nestes momentos, me sinto exaurido em acumular seguidas sensações de ausências em tempos recentes.

Confesso que relutei em escrever porque me sinto dolorido por reprisar um caminho. Escrevo porque me empurro na obrigação de fazê-lo. Não me entenda mal, não se trata de um fardo a ser cumprido, mas o desejo de me manifestar da única forma que me aproxima da lucidez.

A sensação piora quando penso naqueles que ficaram, que talvez se sintam lesados pela alteração da lógica da vida. A morte nunca pensou desse jeito. Filhos não deveriam partir antes de seus pais, reza a cartilha não escrita e perpetuada pelos próprios pais e pelos seus filhos quando se transformam em pais.

Escrever sobre o Fred é como demonstrar gratidão por conviver com ele, é expor minha admiração por quem tinha tudo para dar errado, para reclamar da vida, para responsabilizar a todos e paralisar diante das lutas diárias, sempre mais complexas num cenário de intolerância e exclusão mascaradas em sorrisos e palavras politicamente corretas e indecentes.

Fred me surpreendeu na primeira vez que nos vimos. Ele era mais um entre dezenas de alunos de Jornalismo. Pedi, ao final da primeira aula, que os calouros escrevessem um texto. O tema, não me lembro qual era. Fred me pediu licença para usar um computador. Imaginei que não voltaria mais até que, meia hora depois, me trouxe o melhor texto do dia.

Fred era um sujeito persistente, teimoso até. Não desistia quando desejava vencer um obstáculo, concretizar um objetivo. Cismou que trabalharia na ESPN e tanto fez que acabou contratado pela emissora. Não era um sujeito fácil (e quem o é?) e sabia ser rude quando desagradado (e quem não o faz?), mas possuía uma visão de Jornalismo que me parece rara em muitos jovens jornalistas. Fred simplesmente se importava com sua profissão, com a qualidade do trabalho, com os rumos editoriais da empresa onde suava diariamente. Era defensor dos próprios princípios, muitos deles construídos em diálogos dentro de sala de aula, com vários colegas, professores de cargo ou da vida.

Meus encontros com Fred geralmente aconteciam aos sábados, na sala M-426, um dos laboratórios da Unisanta. Lá, falávamos de dois assuntos que nos conectavam: Jornalismo e futebol. Eu já tinha terminado meu expediente em outro laboratório e ele vinha visitar vários professores. Trocávamos opiniões e ele sempre me atualizava sobre bastidores do esporte e da cobertura de TV em São Paulo.

Fred sabia no couro engrossado como era a cor do desrespeito, da arrogância rasteira dos ignorantes que confundiam paralisia com retardamento. Seu Jornalismo materializava a resposta, com luva de pelica ou vocabulário ácido e desconcertante.

Talvez por isso foi um dos alunos que mais respeitava e compreendia, nas entrelinhas, o papel de um professor. Era bom ouvinte e sabia a quem pedir conselhos e, com discrição, expor suas dificuldades pessoais e profissionais. Humanos, apenas.

Do final do ano passado para cá, dei para esbarrar com o Fred. Nos encontramos no ônibus, em show de orquestra sinfônica na praia, no shopping. Ele sempre parava para um cumprimento, uma palavra, um abraço. Numa das conversas, ele manifestou seu desejo de retornar para Santos em definitivo.

Fred havia se cansado da vida em São Paulo. Os motivos não ficaram cristalinos, mas havia certamente uma insatisfação com o Jornalismo que praticava, com as amarras que o impediam de repetir algumas práticas profissionais. A conversa resultou, recentemente, em um currículo na minha caixa de e-mail. Para mim, um voto de confiança, uma lição mais profunda do que o conhecimento técnico-acadêmico.

Pouco me importa saber por que Fred preferiu sair de cena. Nesta altura, nada ou pouco significa. Não é meu direito julgá-lo e muito menos apontar a ele um dedo pela decisão que tomou. Respeito a escolha de meu amigo e permaneço cansado por conviver com as notícias que não gostaríamos de ler.

Fred, descanse em paz! As dores esgotaram as palavras.

Um comentário:

Marcus Vinicius Batista disse...

Depoimento de Amanda Albuquerque:

Ele sempre foi muito gentil comigo. Fiquei realmente triste, eu costumava chama-lo de "entidade ocasional". Eu lhe dizia que ele era duas coisas surpreendentes: perfeito para o problema que eu estava enfrentando no momento (que geralmente era de texto, ele leu mais artigos meus que eu mesma) e de ser silencioso (ele sempre aparecia atrás de mim e me dava " oi" sem que eu o tivesse visto, me deu altos sustos e ele ria da minha cara... era engraçado). Eu enchia os olhos sempre que o via, ele era como um ídolo acessível para mim. Nunca quis dizer isso tanto para não parecer pedantismo quanto parecer tietagem. Guardava para mim a alegria de encontrá-lo eventualmente e o alívio dele me ajudar a escrever. Acho que nunca fui boa para textos jornalísticos e acho que ele concordava, mas ele me dava forças e dizia que eu devia encontrar alguma forma de relatar em que eu fosse boa. Queria tanto contar-lhe que encontrei o roteiro, eu chorei tanto quando vi na wall do Rittes... E chorei tanto agora. Não verei mais minha entidade ocasional e isso tira a magia da vida. Estou muito triste e ninguém entende o motivo porque nunca dividi essa adimiração com ninguém, sempre guardei como algo especial só meu. Um dia eu contei para ele. Ele riu achando que era piada. Eu ri também e fingi que era. De certa forma eu contei e acho que de certa forma ele acreditou. Preciso pensar que sim.
Obrigada pelo texto, professor. Eu não seria capaz de fazê-lo.