segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Cuba e os Maniqueus


Che, na Plaza de la Revolucion

Ricardo Rugai 

(Esta é terceira de uma série de cinco crônicas sobre a Ilha)

Maniqueu, profeta cristão do século III, dividia o mundo simplesmente entre Bom, ou Deus, e Mau, ou o Diabo; a matéria seria intrinsecamente má e o espírito intrinsecamente bom. Sua pregação religiosa perdeu-se no tempo, mas no plano mundano o maniqueísmo navega de vento em popa e atinge os mais variados domínios.

Escrever crônicas sobre Cuba significa evitar maniqueísmo rasteiro que normalmente pauta as conversas e textos sobre a Ilha. Não se trata de ficar com meios-termos ou cima do muro a respeito de Cuba, mas simplesmente deixar de lado visões que turvam a compreensão, pois a realidade da ilha caribenha é bem mais complexa do que imagina a lógica binária do 8 ou 80.

Porém, desde que pus os pés em terras tupiniquins, as reações de algumas pessoas têm me lembrado do quanto é difícil escapar do “Fla-Flu” ideológico. Fugi dele como o diabo da cruz mas, meio a contragosto, resolvi encarar o assunto nessa crônica, que é menos sobre Cuba e mais sobre o imaginário dos brasileiros sobre ela.

Produtos para turistas
Para parte da esquerda, Cuba é o que sobrou do socialismo e, por isso, deve ser defendida de qualquer maneira. A receita é simples: exaltar as virtudes e omitir os problemas (ou atribuir todos eles a causas externas como o “bloqueio”). Enfim, agir como agem os publicitários que douram suas pílulas para melhor vendê-las.

Para a direita, a receita é inversa e muito simples: em Cuba e no socialismo nada presta. Pois é, a Guerra Fria segue firme nos corações e mentes. 

Che, apenas um estereótipo?
Confesso que é quase inevitável comparar as realidades cubana e brasileira, dos preços às comidas, passando pelas casas, roupas, transporte. Porém, depois de alguns dias – e uma viagem mais longa ajuda – de alguma forma nossa mente se cansa dessas comparações e, sem que se perceba, a gente começa de fato a entender e sentir um pouco mais da vida em Cuba. Acho que é mais ou menos a situação de quem está aprendendo uma língua e, no começo, pensa tudo em português para traduzir depois; em algum momento, a pessoa começa a pensar na outra língua e aí sim vai aprendê-la. 

É curiosa a tendência de fazer comparações entre Brasil e Cuba: o que é melhor e o que é pior. Fazer a lista é fácil, mas e daí? Que fazemos com a maldita lista? Não dá para tratá-la feito um cardápio em que se escolhem os pratos. Seja qual for o balanço não temos como copiar modelos, a realidade não é um brinquedo lego para escolhermos as peças que mais gostamos e descartarmos as outras. 

Fotos: Ricardo Rugai

Cuba para a esquerda e Cuba por la izquierda

Ouvi de alguns amigos de esquerda que certos “problemas” de Cuba seria melhor não mencionar, pois isso “daria munição à direita”. Ora Maniqueu! Os problemas da sociedade cubana estão mais do que expostos para o mundo e, com a abertura para o turismo, isso foi escancarado. Além disso, a direita não precisa dessas informações para criticar Cuba; ela as tem e, mesmo que não tivesse, ela inventaria.

Nomes de cinco cubanos presos em Miami
Então Maniqueu, melhor bancar a mãe protetora. Mandar a real sobre Cuba não vai enfraquecer a revolução; pelo contrário, a credibilidade de um relato honesto, que fuja das construções paradisíacas, é maior e mais interessante do que o pobre esquema que despolitiza o debate.

É importante reconhecer que a ilha segue dependendo de produtos agrícolas (açúcar, tabaco, rum) e não desenvolveu indústria, que não tem autonomia energética, que a alimentação é quase racionada, que a economia se acomodou com os anos de ajuda soviética. A prostituição é uma realidade, a impossibilidade de viajar - por motivos econômicos ou burocráticos - é fato e algumas praias turísticas tornaram-se inacessíveis aos cubanos, coisa que a revolução eliminara em 1959.

O estereótipo do cubano barbudo, com boina, camisa do Che, fumando charuto Cohiba, bebendo rum Havana Club e ouvindo Buena Vista Social Club não passa disso, um estereótipo. Curiosamente, os cubanos raramente usam barba, ninguém veste Che nem boina de revolucionário; os charutos, Havana Club e as músicas como Chan-Chan são mercadoria para turista gringo, inclusive a camisa do Che! Apenas uma turma segue esse estereótipo em Cuba: o turista gringo para quem a revolução está à venda nas lojas. 

Banda de salsa "Los Mas Comerciales"

Sinto desiludir alguns colegas de esquerda: usando barbinha, boina e camisa do Che você lembra mais um gringo europeu do que um cubano. Haja contradição nessa realidade... cada qual que resolva as suas. Eu, por exemplo, não tenho a menor pretensão de renegar os charutos, o rum e Buena Vista.

A vida em Cuba tem tantas dificuldades que eles desenvolveram o seu “jeitinho brasileiro” para contornar os percalços do dia-a-dia. A sociedade simplesmente não funcionaria dentro das normas legais do Estado, que sabe disso e faz vista grossa. Os cubanos contornam suas agruras fazendo as coisas “por la izquierda”, um estilo de malandragem difícil de traduzir. Que grandiosa ironia de um povo driblar o Estado socialista “por la izquierda”.

Os que idealizam Cuba deveriam se perguntar por que um povo precisa fazer as coisas por “la izquierda” para viver melhor...dá o que pensar e alguns nos pensamentos de Maniqueu eu leio – Porra...só sobrou Cuba prá gente e tu ainda vem ‘por defeito’...não me tira essa esperança... Pois é, pena, eu não invento a realidade...

Casa decorada com bandeiras revolucionárias

Em geral, as pessoas “de esquerda” (seja lá o que isso for hoje em dia...) com as quais conversei felizmente demonstraram mais curiosidade em saber e entender a ilha do que resistência em reconhecer que existem problemas. Poucos tomaram as críticas ou menções aos problemas cubanos como prova de que esse autor é aliado da máfia de Miami ou “vendido ao imperialismo”, ou pelo menos não se manifestaram abertamente...

Não sei até que ponto isso é representativo do conjunto da esquerda ou se tenho o privilégio de não ter amigos de esquerda tão tapados, mas gostei e reforçou a impressão que tenho sobre a suposta “polarização” que estaríamos vivendo no Brasil. Paulo Arantes chamou isso de “polarização assimétrica”, onde não existem dois polos extremos se digladiando, mas apenas um polo extremado que força a barra e acirra violentamente o debate. 

Em suma, há uma direita estridente se fortalecendo enquanto uma esquerda genuína (PT já foi, não é mais) é praticamente ausente no debate. Em suma, as reações mais temperadas entre os “de esquerda” e os “quase surtos” entre a turma de direita apenas confirmaram o diagnóstico.

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