segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A fome e a vontade de comer


Carro cubano. No adesivo, o duplo sentido


Ricardo Rugai*

Cuba é pobre. A pobreza está nos salários entre 10 e 30 dólares, na aparência das casas, no mobiliário antigo, nos prédios que volta e meia desabam, nos carros milagrosamente rodando e nas roupas modestas; enfim, a pobreza está em quase tudo na Ilha, inútil dissimular. Aquilo que alguns chamam de “desenvolvimento das forças produtivas” pouco avançou desde que a Revolução triunfou em 1959.

Todavia, para o estranhamento de quem vem do Brasil, a pobreza na ilha caribenha não rima com fome, crianças abandonadas, gente dormindo pela rua ou violência. Vivendo nessa pobreza, os cubanos não se devoram uns aos outros como estamos acostumados, de alguma forma estabeleceram “relações sociais” que foram muito além do grau de “desenvolvimento das forças produtivas”.

O que é melhor? O que é pior? Brasil? Cuba? O viajante inevitavelmente compara quase tudo, a começar pela comida, necessidade tão primal do bicho homem.

Uma lembrança de infância talvez ajude a explicar como é a alimentação dos cubanos. Algumas vezes, quando a repetida janta de sopa de ervilha (...que saudade dela hoje!) não nos animava muito a comer, eu e minha irmã ouvíamos a indefectível observação de minha mãe:

— Então não é fome... pobre quando tem fome come até sopa de pedregulho.

O desdém pela sopa de ervilha era apenas vontade de comer algo diferente, realmente não era fome; fome era comer bolacha maizena com margarina, a vontade de comer pensava em bolacha recheada, um luxo “supérfluo” naquele tempo.

É mais ou menos assim a “dieta” dos cubanos: mata-se a fome, não a vontade de comer. A variedade de alimento é pouca, a quantidade no prato modesta. Carne é quase sempre de frango ou porco; de peixe, menos; e de boi, raridade. É verdade que ninguém morre de fome, que a desnutrição é a mais baixa da América Latina, que a mortalidade infantil é menor que nos EUA e que isso não é pouca coisa no continente. Mas a comida do cubano não se compara ao suculento e inacessível prato que ele prepara e serve aos turistas nos restaurantes de Havana.


Cerveja cubana
Isso não é tudo. Sabe o churrasco que fazemos no Brasil de vez em quando? Aquele com carne de boi que prossegue pela tarde e avança pela noite regado à cerveja? Esqueça. Em Cuba, não rola nunca. Mas essa é uma comparação cruel. Mesmo o popular e cotidiano PF “caprichado” que se come no Brasil por dez reais é melhor e mais servido que o prato do cubano.

Vou tornar a coisa mais cruel agora: sabe aquela cervejinha? Aquela mesa de bar na sexta feira cheia de garrafas depois do trampo? Não vai ver isso em Cuba. Uma lata de cerveja custa no mínimo 1 dólar. Beba 10 e lá se foi o salário do mês.

Seguindo no departamento “drogas legais”, sabe aquela imagem clássica de Cuba? Charutos e rum de primeira? Pois é, eles existem, mas não para os cubanos. Para minha ingênua surpresa, vi raríssimos cubanos fumando charuto (a “comercialização” é um capítulo à parte e merece outro texto...), quase sempre mais velhos, no interior, ou numa região produtora. Vi mais puros habanos baforados por turistas do que por cubanos. Um Monte Cristo não sai por menos de 10 dólares, um Cohiba beira 20 doletas, cada unidade... tire suas conclusões. 


Folhas de tabaco secando
Algo semelhante ocorre com o rum. O mais famoso do país, o Havana Club, vai desde o Añejo Blanco, em torno de U$ 3,50, passa pelo 3 años, pelo Especial (5 anos), pelo Reserva (6 anos) e chega até o 7 años que sai por U$ 17. Dali pra cima é um mundo inacessível ao bolso e à falta de refino de paladar dos simples mortais nos quais me incluo. O máximo que vi nas mãos de consumidores cubanos era Añejo Blanco acompanhado de copos de plástico e, às vezes, uma garrafa de refrigerante de 2 litros. E isso era raro.

Contudo, praças e calçadões vivem cheios de gente a qualquer hora do dia. Sentados em grupo, papeando, rindo, alguns dançando, os cubanos estão sempre nas ruas. Incomodava muito – o que, claro, me denuncia... – a ausência de latas de cerveja, de garrafas e copos cheios e de charutos. Era como um quadro inacabado: sol, tranquilidade, gente na rua, conversa animada, tudo parecendo ótimo, mas faltava algo naquela cena...

Algumas vezes pensei: será uma necessidade de consumo do meu leve alcoolismo cervejeiro? Estaria eu contaminado por padrões consumistas do capitalismo? Um apego material superado pelos cubanos? Esse “socialismo-budista” de renúncia à matéria não seria o ideal? Mas aí você cai na real e lembra que para eles não é uma opção, é uma falta de opção. Na dúvida, haverá sempre um cubano em seu socorro lembrando que sim, eles querem comer melhor, beber melhor, viver melhor e que isso não é consumismo ou rendição ao capitalismo, é simplesmente humano. 

Fotos: Ricardo Rugai
 Certo dia, num papo regado a cerveja, um deles argumentou longamente que no Brasil se vivia melhor; sobretudo, se comia melhor. Contestei dizendo que não tínhamos a qualidade da educação e da saúde gratuita deles, ao que ele sorriu e respondeu: 

— A gente não fica doente todo dia, mas tem que comer todo o dia.

O argumento parecia fatal, mas quase derrotado contei que no Brasil se pagava aluguel para morar. Surpreso, ele reagiu:

— Alquiler? Por toda la vida?

Respondi que sim. Meio perplexo - lá são todos proprietários das casas, aluguel e financiamento significam coisas estranhas -, o cubano levantou um brinde à América Latina e deixamos o assunto de lado antes que a realidade se abatesse sobre nosso descontraído papo.

Parece que a revolução que tanto fez em Cuba estancou no meio do caminho... Mata a fome, mas permanece a vontade de comer. Os recentes afagos entre Obama e Raul aumentam as expectativas e as incertezas que pairam sobre o futuro da ilha. E mesmo que o fantasma da fome, que assola tantos na América Latina, possa acompanhar a abertura econômica, a vontade de comer dos cubanos parece maior que o medo. Sinto que estão dispostos a se arriscar.


Obs.: Ricardo Rugai é historiador e professor universitário. Essa é a segunda crônica dele com impressões sobre Cuba. 

Um comentário:

Jessica Wilhelm disse...

"— A gente não fica doente todo dia, mas tem que comer todo o dia. " ai rs

Muito interessante, aguardo novos textos!