sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O terno e os ditadores


Renato di Renzo e a comissão de frente da União Imperial

Marcus Vinicius Batista

Quando soube quem estaria à frente da Comissão de Frente, só pude pensar em política. Para ele, arte e política se fundem em textos, cenários, atuações, direção, como se não houvesse outro caminho. Teatro, na respiração de Renato di Renzo, é grito político, é atitude sem concessões às frivolidades do entretenimento. Política até pode distrair, desde que seja para refletir, desde que seja para sacudir o lugar-comum, com o perdão das rimas verbais.

De longe, ele me pregou a primeira peça na Passarela do Samba, em Santos. Perguntava-me como Di Renzo faria, junto com Cláudia Alonso e a turma do Orgone-Projeto TamTam, para conectar teatro, Carnaval e Comissão de Frente sem parecer ofensivo ou ultrapassar os limites do enredo da União Imperial. A avenida expandia as concepções de palco, enquanto reduzia os espaços para exclusividade cênica.

A escola de samba havia feito a escolha mais adequada e coerente para aquele setor. O enredo falaria sobre o ex-governador Mário Covas; logo, não poderia escapar da trajetória política do homenageado ou dos períodos históricos. Mas quem disse que a Comissão de Frente teria que falar apenas e diretamente sobre o político nascido em Santos?

Os ditadores 
De longe, a primeira peça era um terno branco, com algumas manchas. O terno seria a superfície para sublinhar caricaturas de políticos, daqueles que se vestiam de branco como demonstração de poder e cafonice? O terno era a fantasia que derrubava as fantasias em torno do político com vestuário de contraventor?

Mais perto, a primeira informação: as manchas eram fotografias. Mais perto ainda, era possível reconhecê-los: o terno de Renato di Renzo estava “decorado” com imagens de desaparecidos políticos. A beleza de uma fantasia, que expunha a metamorfose do horror. O cartão de visita de uma escola de samba, que agredia a imobilidade de quem vomita bobagens virtuais sobre ditadura e seus delírios em formato de benefícios.

O terno não nascera para ser vestido na rua, como manda o figurino. O terno era destinado à avenida. Mas, ali, entre o colorido de adereços, destaques e carros alegóricos, carregava o preto e o branco de quem precisava denunciar as dezenas de tons de cinza que escondem a barbárie.

Renato Di Renzo nunca anda sozinho. Traz consigo seus conterrâneos de princípios, de leitura, de broncas, de discussões sobre o papel do ator e da arte em um mundo onde os artistas transitam entre a mendicância e a mercadoria de consumo fugaz. 

A atriz e bailaria Cláudia Alonso (à esquerda)
Logo atrás, a segunda travessura travestiu-se de bonecos. Cláudia Alonso à frente e mais uma dúzia de atores e atrizes que conduziam uma carroça, que me lembrava que o circo, a arte e o Carnaval um dia foram destinados ao escárnio, à ironia, ao sarcasmo diante do poder constituído, institucionalizado e burocrático (inclua a segunda letra ‘erre’ na segunda sílaba, caso se sinta à vontade).

Outra vez, a proximidade derrubou meu olhar que não deveria ser mais ingênuo. Todos usavam bigodes. Os bonecos caíram como máscaras. Ali, desfilavam ditadores, em memória contínua daquele que quase enterrou uma nação pela guerra e pariu um holocausto. Um bigode que sempre nos leva ao maior dos palhaços cinematográficos, à sátira chapliniana do ditador nazista.

Os ditadores seguiam as ordens do homem do sapato e terno brancos. Não havia sorrisos; ao contrário, a comissão de frente parecia se comportar como anti-carnavalesca. Missão cumprida: os movimentos atraíam a atenção das arquibancadas da passarela. Avenida não era, naquela hora, lugar de simpatia. 

O chamado da liberdade
Tive a impressão, da cabine, que Cláudia Alonso olhara para mim. Eu estava em pé, pasmo diante da Comissão de Frente da União Imperial. Em ato falho, sorri para ela. Recebi, de volta, um olhar fulminante que, se não conhecesse a atriz, me deixaria ofendido. O olhar, na obviedade do simbolismo daquele pedaço de enredo, não era para mim (quanta pretensão!). Era para quem ainda não havia entendido a importância de se conectar política, cultura, arte e liberdade. A seriedade de quem gargalha de felicidade quando a arte incomoda.

O terno branco e os ditadores encenaram o melhor recado que a União Imperial poderia transmitir na avenida. O primeiro capítulo do enredo já explicava com clareza o restante do livro. A primeira bofetada abria as alas para a riqueza que o Carnaval pode possuir e exalar, em ritmo de festa, sobre temas duros, que devem ser relembrados. Ser festivo, longe disso, significa ser frívolo. 

A Comissão de Frente, na área de dispersão da Passarela
Soube, horas antes de escrever este texto, que a Comissão de Frente da União Imperial receberia o Troféu Estandarte Santista, prêmio baseado em escolha popular. Não quero ser indelicado, mas o troféu – que materializa a voz de quem acompanhou as escolas de samba – reforça que rostos sisudos e passos firmes podem ser a mensagem mais carnavalesca de uma cultura. Depende do que precisa ser dito, pouco importa o tom do samba.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O guardião


Carro abre-alas. Enredo sobre a infância
Fotos: Matheus José Maria 

Marcus Vinicius Batista

Às 3 horas da madrugada, meus ouvidos zumbiam. O assovio contínuo duraria pelo restante da noite – a previsão indicava mais duas horas de trabalho - e ressuscitaria assim que eu acordasse, mais ou menos na hora do almoço na quarta-feira de Cinzas.

O barulho em formato de chiado perdia a importância a maior parte do tempo. A riqueza cultural prevalecia, desde a beleza de uma fantasia à profundidade dos símbolos de uma comissão de frente. A poesia de uma escola de samba não pulsa na capacidade somente de empolgar pelo samba-enredo, pela suntuosidade de um carro alegórico ou pelo balé dos passistas.

Uma escola de samba, no meu olhar leigo, expõe seu lirismo nos detalhes dentro da avenida, imprevisíveis ou não, no roteiro do desfile ou na espontaneidade de um dos integrantes. Quando isso acontece, o samba dá lugar ao silêncio. É uma parada mais aguda e sensível do que aquela que os ritmistas fazem na bateria para demonstrar habilidade musical.

Durante menos de um minuto, tempo de passagem pela cabine de transmissão onde trabalhava, pude testemunhar o que significa, talvez de forma enviesada, o samba e o Carnaval. Logo após o casal de mestre-sala e porta-bandeira da Mocidade Amazonense, lá vinha o guardião.

A Mocidade encerrava o desfile do Guarujá. A escola, que compete em Santos, cumpria o protocolo de homenagear a cidade de origem, sem compromisso com notas e avaliações de jurados. É provavelmente o momento mais puro de uma festa cada vez mais competitiva.

O guardião caminhava alheio aos rodopios do casal de mestre-sala e porta-bandeira. E pouco se preocupava em manter distância segura do carro alegórico logo atrás, que se arrastava desfigurado pelo tamanho menor da passarela em Guarujá. Aparentando 25 anos, o guardião – assim dizia sua camiseta da escola – nitidamente protegia outro passista, que balançava a um metro e meio do solo. Movimentos repetidos, indiferentes ao ritmo do samba-enredo, cantado de pé nas arquibancadas da avenida Santos Dumont.

O passista não vestia fantasia e não pertencia a ala alguma. Não cantava o samba-enredo nem representava perigo para a harmonia da escola. O passista era um estrangeiro, ainda que seu pai o protegesse no próprio colo e carregasse essa função impressa nas costas. 


Alas das Emílias. Homenagem ao alter ego de Monteiro Lobato
O guardião paralisou minha atenção porque levava consigo, com a naturalidade daqueles que agem quando amam, o próprio filho, um bebê alimentado com refrões temperados pela bateria acostumada a notas 10. Mais do que preocupado com a competição ou radiante pelo final da festa, o bebê poderia transmitir a impressão de ser o anti-samba. O menino dormia, enquanto o pai o conduzia como o adereço mais importante da Mocidade Amazonense.

O guardião não olhava para os lados, na máxima concentração e eficiência de seu trabalho. O bebê era precioso demais para permitir um desvio para a arquibancada, que percebera a diferença no desfile. Olhar para quem transmitia a festa, então, soava utópico. No testemunho-figurante do cronista, o que me restou foi mencioná-lo na transmissão, perdido entre descrições simbólicas, análises históricas e reflexões técnicas sobre o Carnaval.

O bebê, na sabedoria sagrada das crianças, seguiu de olhos fechados e ressonando no peito paterno, ciente de que ali quem ditava o ritmo da escola – naquele pedacinho da engrenagem – era ele.

Todas as escolas de samba, no fundo, se parecem. Não por falta de criatividade, mas pela necessidade de cumprir quesitos e disputar notas de jurados. Os décimos de pontos diferem a campeã da vice, a sobrevivente da rebaixada. Décimos simbolizam os detalhes que só os especialistas – que não é o meu caso – compreendem e explicam aos foliões. 


Carro alegórico com personagens da cultura pop infantil
Na última noite do desfile em Guarujá, a Mocidade Amazonense trouxe o detalhe que assinou o final do Carnaval. Nem menino ou sua fantasia de fralda e camiseta valiam nota, mas ele era protegido por alguém que enxergava e associava samba e amor, sem recitar qualquer letra. O menino era mais essencial que quaisquer mestres-salas, porta-bandeiras ou destaques de carro alegórico. O bebê que sambava à maneira que melhor lhe conviesse, como manda o Carnaval.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Cuba servida à direita: — Vai para Cuba!


Camili Cienfuegos e Che na Plaza de la Revolucion Fotos: Ricardo Rugai

Ricardo Rugai

(Este é o quarto texto de uma série de crônicas sobre a Ilha de Fidel)

Tem sido realmente muito difícil conversar com pessoas “de direita” sobre Cuba. No imaginário delas, Cuba ocupa o lugar estratégico do mal ameaçador a ser evitado. Mesmo que nunca tenham ido a Cuba ou mesmo lido algo de substancial sobre a Ilha, suas opiniões estão fossilizadas em rocha.

Para eles, nada em Cuba funciona, e os cubanos vivem sob um regime de terror totalitário. É inútil qualquer esforço para mostrar que educação, saúde e esporte na ilha, por exemplo, são bem melhores que no Brasil e desconfio que uma viagem à ilha de nada adiantaria: eles já têm a tese, basta recolher as provas.

É notável a dificuldade dos Maniqueus para lidar com contradições. Se eu simplesmente relato algo de positivo, a tendência é me classificarem como “comunista pró-Cuba”, ou seja, você passa à condição de suspeito e tudo que disser dali pra diante será recebido com desconfiança.

Quando, pelo contrário, comento sobre um ou outro problema da sociedade cubana noto certo desconcerto: como lidar com um oponente que se nega a lutar em sua posição de oponente? Tudo tem que ser bom ou tudo tem que ser ruim.

Algumas imagens obrigatórias no estereótipo da direita sobre Cuba são facilmente frustradas. A primeira delas é a ideia de que se vive sob um Estado totalitário e todos se sentem oprimidos. Bom, polícia e exército são bem menos presentes nas ruas do que no Brasil; além disso, eu não vi nenhuma “geral” agressiva.

Nas ruas, é comum conversar com pessoas que criticam e fazem piadas do governo de forma rotineira e aberta. Alguns cubanos usam roupas com símbolos e até mesmo a bandeira dos EUA sem que sejam incomodados pela polícia e, no geral, o grau de participação política da população nos órgãos de poder locais é bem maior que no Brasil.

Casa típica do interior de Cuba
Quem adivinha o comentário?

– Então você quer dizer que Cuba é uma democracia plena? - Não. O poder político é centralizado e hierarquizado por uma cúpula, ainda que embaixo exista participação social. Cá com meus botões fico pensando se o Brasil é mais democrático que Cuba? Quanto à sensação de opressão e medo nas ruas nenhuma dúvida: é bem maior no Brasil.

Tem surpresas pra todo gosto. A ideia de que lá “tudo pertence ao Estado” desmorona rapidamente. O pequeno comércio privado está por toda parte em Havana, roupas de marca e celulares compõem a paisagem. Talvez a maior surpresa para os incautos esteja nos imóveis: são propriedade privada, isso mesmo, propriedade privada! Que assim como aqui pode ser transmitida por meio de testamento, herança ou casamento. Além disso, pasmem, compra e venda de imóveis foi permitida há alguns anos. O mais chocante é que praticamente todas as famílias cubanas são proprietárias de suas casas.

Quando alguém pretende se casar ou sair da casa dos pais, o Estado indica um terreno vago, facilita a aquisição do material de construção e o interessado se vira para erguer sua nova casa. Aluguel é um conceito particularmente difícil de explicar aos cubanos, que arregalavam os olhos quando eu lhes contava que muita gente passa a vida inteira pagando no Brasil.

Um caso que evidencia a profusa capacidade maniqueísta para distorcer nossa compreensão é o Porto de Mariel. Vendeu-se a ideia de que o “Brasil está dando dinheiro pra Cuba”, o que provaria que o PT é sim um governo “comunista”. O tema virou polêmica na última campanha eleitoral e Aécio Neves (lembremos que FHC já emprestara dinheiro a Cuba) aproveitou a deixa, o que destoa bastante de sua irmã, que foi bastante sensata sobre a ilha.

Praia, em Cayo Santa Maria. Ao fundo, guindastes
para a construção de resorts
Ora, quem se informou sobre o assunto (e claro que a maioria não se informou) sabe que o governo brasileiro, via BNDES, financiou uma empresa nada socialista, a Odebrecht, que de fato participou da construção do porto. Até onde sei a malfadada construtora não costuma praticar caridade e adora uma coisinha chamada lucro. O presidente, Marcelo Odebrecht, ironizou o assunto disse que “se o porto será de grande importância para o socialismo cubano, foi o capitalismo brasileiro que mais ganhou até agora”.

Ora, a empresa e o governo brasileiro estão fazendo em Cuba exatamente o mesmo tipo de ação que o governo dos EUA e suas empresas realizaram na ilha até 1959. O objetivo é um só: aumentar sua influência comercial e geopolítica. Capitalistas chineses, canadenses e europeus mantêm projetos na ilha cuja importância econômica e localização estratégica é tão grande que empresas dos EUA, temendo perder negócios, têm pressionado o governo Obama para restabelecer relações com Cuba o mais prontamente possível. Nem desenhando isso entra em certas cabeças.

É risível enxergar “comunismo” onde há uma empresa privada brasileira explorando mão-de-obra barata “estilo China” num porto próximo ao canal que está sendo rasgado na Nicarágua e que será maior que o do Panamá. Então, se você é favorável ao capitalismo ou de direita, deveria erguer um brinde porque aquilo é uma baita ação capitalista apoiada pelo Estado brasileiro.

Por outro lado, há sérias dúvidas sobre as consequências dessas “zonas econômicas especiais” de inspiração chinesa - como é o caso do Porto de Mariel – para a sociedade cubana. Não é fora de cabimento questionar justamente o potencial desagregador para o socialismo cubano desses empreendimentos que introduzem a lógica do capital na ilha. Enfim, Mariel deveria incomodar os socialistas, e não aqueles favoráveis ao mercado e ao capital, mas Maniqueu se mantém firme e forte em sua sanha visceral anti-Cuba e anti-socialista.

Afinal de contas, por que raios a modesta e capenga ilha de Cuba suscita tanto ódio?

É que Maniqueu tem sérios problemas. Mesmo sendo assalariado, se considera “um capitalista” convicto, vive preso no trânsito várias horas por dia, vive desviando dos menores e pedintes nas ruas, vive com medo de assalto e das drogas que rondam seus filhos, vive sonhando em subir na vida e acreditando numa meritocracia que nunca o premia, vive com receio do desemprego, vive para comprar coisas que não precisa com dinheiro que não tem, vive para pagar a prestação e o financiamento, vive com medo do “comunismo” tomar tudo o que tem, vive desconfiado e preocupado em meio à guerra de todos contra todos, vive com pressa e sem tempo para “viver a vida”.

A Virgen de Santa Regla no catolicismo, Iemanjá na Santería cubana

Vive? Sobrevive? É o que ele se pergunta de vez em quanto... E sem se dar tempo para pensar, responde a si mesmo que esta é “a vida como ela é”, que simplesmente “é o que tem para o almoço”, afinal o que mais haveria além do capitalismo? O socialismo? Aqueles regimes que caíram junto com o muro?

Na verdade, pouco importa o que tenha sido o socialismo, Maniqueu precisa dele como o mal absoluto, como um verdadeiro inferno capaz de fazê-lo aceitar o purgatório, porque na “vida como ela é” não existe céu.

— Não gostou? Vai pro inferno, vai pra Cuba!

Por isso, Maniqueu quase enlouquece quando ouve boas notícias da malfadada ilha. Não é preciso a aprovação incondicional, basta mencionar algum aspecto positivo da ilha para ele se retorcer de ódio. Aquela modesta ilha caribenha, de economia agrária e combalida, desprovida de indústria, de fontes de energia e vivendo sob bloqueio econômico, mata a fome, cuida da saúde, educa bem e vive sem medo. Não dá para aceitar isso assim sem mais nem menos, esse maldito espelho de nossa desgraça cotidiana em meio à riqueza da 7ª economia do mundo.

Nessas situações, Maniqueu tem frases feitas que saem no modo automático. Uma delas ouvi repetidas vezes:

— Gosta de Cuba? Porque não muda prá lá?

Quiçá pelo mesmo motivo que ele não tenha coragem de deixar seus amigos, sua família e romper todos os seus vínculos afetivos para morar nos EUA, supondo que seja aceito pelo consulado. Ainda assim, acrescento:

— Sabe que não seria má ideia morar em Cuba por algum tempo... e aí bate um desespero indescritível em Maniqueu.

Felizmente, o mundo não é povoado apenas por Maniqueus, de esquerda ou de direita, e a maioria das pessoas com quem conversei – o que alguns chamariam de senso-comum - tinha uma vivo interesse sobre a vida em Cuba, como se de alguma forma já desconfiassem dos discursos pré-fabricados sobre a ilha. Era a curiosidade de quem sente que a vida podia ser bem melhor. Será?

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Cuba e os Maniqueus


Che, na Plaza de la Revolucion

Ricardo Rugai 

(Esta é terceira de uma série de cinco crônicas sobre a Ilha)

Maniqueu, profeta cristão do século III, dividia o mundo simplesmente entre Bom, ou Deus, e Mau, ou o Diabo; a matéria seria intrinsecamente má e o espírito intrinsecamente bom. Sua pregação religiosa perdeu-se no tempo, mas no plano mundano o maniqueísmo navega de vento em popa e atinge os mais variados domínios.

Escrever crônicas sobre Cuba significa evitar maniqueísmo rasteiro que normalmente pauta as conversas e textos sobre a Ilha. Não se trata de ficar com meios-termos ou cima do muro a respeito de Cuba, mas simplesmente deixar de lado visões que turvam a compreensão, pois a realidade da ilha caribenha é bem mais complexa do que imagina a lógica binária do 8 ou 80.

Porém, desde que pus os pés em terras tupiniquins, as reações de algumas pessoas têm me lembrado do quanto é difícil escapar do “Fla-Flu” ideológico. Fugi dele como o diabo da cruz mas, meio a contragosto, resolvi encarar o assunto nessa crônica, que é menos sobre Cuba e mais sobre o imaginário dos brasileiros sobre ela.

Produtos para turistas
Para parte da esquerda, Cuba é o que sobrou do socialismo e, por isso, deve ser defendida de qualquer maneira. A receita é simples: exaltar as virtudes e omitir os problemas (ou atribuir todos eles a causas externas como o “bloqueio”). Enfim, agir como agem os publicitários que douram suas pílulas para melhor vendê-las.

Para a direita, a receita é inversa e muito simples: em Cuba e no socialismo nada presta. Pois é, a Guerra Fria segue firme nos corações e mentes. 

Che, apenas um estereótipo?
Confesso que é quase inevitável comparar as realidades cubana e brasileira, dos preços às comidas, passando pelas casas, roupas, transporte. Porém, depois de alguns dias – e uma viagem mais longa ajuda – de alguma forma nossa mente se cansa dessas comparações e, sem que se perceba, a gente começa de fato a entender e sentir um pouco mais da vida em Cuba. Acho que é mais ou menos a situação de quem está aprendendo uma língua e, no começo, pensa tudo em português para traduzir depois; em algum momento, a pessoa começa a pensar na outra língua e aí sim vai aprendê-la. 

É curiosa a tendência de fazer comparações entre Brasil e Cuba: o que é melhor e o que é pior. Fazer a lista é fácil, mas e daí? Que fazemos com a maldita lista? Não dá para tratá-la feito um cardápio em que se escolhem os pratos. Seja qual for o balanço não temos como copiar modelos, a realidade não é um brinquedo lego para escolhermos as peças que mais gostamos e descartarmos as outras. 

Fotos: Ricardo Rugai

Cuba para a esquerda e Cuba por la izquierda

Ouvi de alguns amigos de esquerda que certos “problemas” de Cuba seria melhor não mencionar, pois isso “daria munição à direita”. Ora Maniqueu! Os problemas da sociedade cubana estão mais do que expostos para o mundo e, com a abertura para o turismo, isso foi escancarado. Além disso, a direita não precisa dessas informações para criticar Cuba; ela as tem e, mesmo que não tivesse, ela inventaria.

Nomes de cinco cubanos presos em Miami
Então Maniqueu, melhor bancar a mãe protetora. Mandar a real sobre Cuba não vai enfraquecer a revolução; pelo contrário, a credibilidade de um relato honesto, que fuja das construções paradisíacas, é maior e mais interessante do que o pobre esquema que despolitiza o debate.

É importante reconhecer que a ilha segue dependendo de produtos agrícolas (açúcar, tabaco, rum) e não desenvolveu indústria, que não tem autonomia energética, que a alimentação é quase racionada, que a economia se acomodou com os anos de ajuda soviética. A prostituição é uma realidade, a impossibilidade de viajar - por motivos econômicos ou burocráticos - é fato e algumas praias turísticas tornaram-se inacessíveis aos cubanos, coisa que a revolução eliminara em 1959.

O estereótipo do cubano barbudo, com boina, camisa do Che, fumando charuto Cohiba, bebendo rum Havana Club e ouvindo Buena Vista Social Club não passa disso, um estereótipo. Curiosamente, os cubanos raramente usam barba, ninguém veste Che nem boina de revolucionário; os charutos, Havana Club e as músicas como Chan-Chan são mercadoria para turista gringo, inclusive a camisa do Che! Apenas uma turma segue esse estereótipo em Cuba: o turista gringo para quem a revolução está à venda nas lojas. 

Banda de salsa "Los Mas Comerciales"

Sinto desiludir alguns colegas de esquerda: usando barbinha, boina e camisa do Che você lembra mais um gringo europeu do que um cubano. Haja contradição nessa realidade... cada qual que resolva as suas. Eu, por exemplo, não tenho a menor pretensão de renegar os charutos, o rum e Buena Vista.

A vida em Cuba tem tantas dificuldades que eles desenvolveram o seu “jeitinho brasileiro” para contornar os percalços do dia-a-dia. A sociedade simplesmente não funcionaria dentro das normas legais do Estado, que sabe disso e faz vista grossa. Os cubanos contornam suas agruras fazendo as coisas “por la izquierda”, um estilo de malandragem difícil de traduzir. Que grandiosa ironia de um povo driblar o Estado socialista “por la izquierda”.

Os que idealizam Cuba deveriam se perguntar por que um povo precisa fazer as coisas por “la izquierda” para viver melhor...dá o que pensar e alguns nos pensamentos de Maniqueu eu leio – Porra...só sobrou Cuba prá gente e tu ainda vem ‘por defeito’...não me tira essa esperança... Pois é, pena, eu não invento a realidade...

Casa decorada com bandeiras revolucionárias

Em geral, as pessoas “de esquerda” (seja lá o que isso for hoje em dia...) com as quais conversei felizmente demonstraram mais curiosidade em saber e entender a ilha do que resistência em reconhecer que existem problemas. Poucos tomaram as críticas ou menções aos problemas cubanos como prova de que esse autor é aliado da máfia de Miami ou “vendido ao imperialismo”, ou pelo menos não se manifestaram abertamente...

Não sei até que ponto isso é representativo do conjunto da esquerda ou se tenho o privilégio de não ter amigos de esquerda tão tapados, mas gostei e reforçou a impressão que tenho sobre a suposta “polarização” que estaríamos vivendo no Brasil. Paulo Arantes chamou isso de “polarização assimétrica”, onde não existem dois polos extremos se digladiando, mas apenas um polo extremado que força a barra e acirra violentamente o debate. 

Em suma, há uma direita estridente se fortalecendo enquanto uma esquerda genuína (PT já foi, não é mais) é praticamente ausente no debate. Em suma, as reações mais temperadas entre os “de esquerda” e os “quase surtos” entre a turma de direita apenas confirmaram o diagnóstico.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Fred, sem mais


Maria do Carmo/Folha Imagem

Marcus Vinicius Batista

Estou cansado de tantas notícias ruins. Exausto por ter que testemunhar a perda de amigos, colegas de profissão, ex-alunos, não importa a qualificação social. São partidas provisórias e definitivas que resolveram se acumular sem intervalos para assimilação de golpes. Queda, tontura, novo soco na cara. Nestes momentos, me sinto exaurido em acumular seguidas sensações de ausências em tempos recentes.

Confesso que relutei em escrever porque me sinto dolorido por reprisar um caminho. Escrevo porque me empurro na obrigação de fazê-lo. Não me entenda mal, não se trata de um fardo a ser cumprido, mas o desejo de me manifestar da única forma que me aproxima da lucidez.

A sensação piora quando penso naqueles que ficaram, que talvez se sintam lesados pela alteração da lógica da vida. A morte nunca pensou desse jeito. Filhos não deveriam partir antes de seus pais, reza a cartilha não escrita e perpetuada pelos próprios pais e pelos seus filhos quando se transformam em pais.

Escrever sobre o Fred é como demonstrar gratidão por conviver com ele, é expor minha admiração por quem tinha tudo para dar errado, para reclamar da vida, para responsabilizar a todos e paralisar diante das lutas diárias, sempre mais complexas num cenário de intolerância e exclusão mascaradas em sorrisos e palavras politicamente corretas e indecentes.

Fred me surpreendeu na primeira vez que nos vimos. Ele era mais um entre dezenas de alunos de Jornalismo. Pedi, ao final da primeira aula, que os calouros escrevessem um texto. O tema, não me lembro qual era. Fred me pediu licença para usar um computador. Imaginei que não voltaria mais até que, meia hora depois, me trouxe o melhor texto do dia.

Fred era um sujeito persistente, teimoso até. Não desistia quando desejava vencer um obstáculo, concretizar um objetivo. Cismou que trabalharia na ESPN e tanto fez que acabou contratado pela emissora. Não era um sujeito fácil (e quem o é?) e sabia ser rude quando desagradado (e quem não o faz?), mas possuía uma visão de Jornalismo que me parece rara em muitos jovens jornalistas. Fred simplesmente se importava com sua profissão, com a qualidade do trabalho, com os rumos editoriais da empresa onde suava diariamente. Era defensor dos próprios princípios, muitos deles construídos em diálogos dentro de sala de aula, com vários colegas, professores de cargo ou da vida.

Meus encontros com Fred geralmente aconteciam aos sábados, na sala M-426, um dos laboratórios da Unisanta. Lá, falávamos de dois assuntos que nos conectavam: Jornalismo e futebol. Eu já tinha terminado meu expediente em outro laboratório e ele vinha visitar vários professores. Trocávamos opiniões e ele sempre me atualizava sobre bastidores do esporte e da cobertura de TV em São Paulo.

Fred sabia no couro engrossado como era a cor do desrespeito, da arrogância rasteira dos ignorantes que confundiam paralisia com retardamento. Seu Jornalismo materializava a resposta, com luva de pelica ou vocabulário ácido e desconcertante.

Talvez por isso foi um dos alunos que mais respeitava e compreendia, nas entrelinhas, o papel de um professor. Era bom ouvinte e sabia a quem pedir conselhos e, com discrição, expor suas dificuldades pessoais e profissionais. Humanos, apenas.

Do final do ano passado para cá, dei para esbarrar com o Fred. Nos encontramos no ônibus, em show de orquestra sinfônica na praia, no shopping. Ele sempre parava para um cumprimento, uma palavra, um abraço. Numa das conversas, ele manifestou seu desejo de retornar para Santos em definitivo.

Fred havia se cansado da vida em São Paulo. Os motivos não ficaram cristalinos, mas havia certamente uma insatisfação com o Jornalismo que praticava, com as amarras que o impediam de repetir algumas práticas profissionais. A conversa resultou, recentemente, em um currículo na minha caixa de e-mail. Para mim, um voto de confiança, uma lição mais profunda do que o conhecimento técnico-acadêmico.

Pouco me importa saber por que Fred preferiu sair de cena. Nesta altura, nada ou pouco significa. Não é meu direito julgá-lo e muito menos apontar a ele um dedo pela decisão que tomou. Respeito a escolha de meu amigo e permaneço cansado por conviver com as notícias que não gostaríamos de ler.

Fred, descanse em paz! As dores esgotaram as palavras.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A fome e a vontade de comer


Carro cubano. No adesivo, o duplo sentido


Ricardo Rugai*

Cuba é pobre. A pobreza está nos salários entre 10 e 30 dólares, na aparência das casas, no mobiliário antigo, nos prédios que volta e meia desabam, nos carros milagrosamente rodando e nas roupas modestas; enfim, a pobreza está em quase tudo na Ilha, inútil dissimular. Aquilo que alguns chamam de “desenvolvimento das forças produtivas” pouco avançou desde que a Revolução triunfou em 1959.

Todavia, para o estranhamento de quem vem do Brasil, a pobreza na ilha caribenha não rima com fome, crianças abandonadas, gente dormindo pela rua ou violência. Vivendo nessa pobreza, os cubanos não se devoram uns aos outros como estamos acostumados, de alguma forma estabeleceram “relações sociais” que foram muito além do grau de “desenvolvimento das forças produtivas”.

O que é melhor? O que é pior? Brasil? Cuba? O viajante inevitavelmente compara quase tudo, a começar pela comida, necessidade tão primal do bicho homem.

Uma lembrança de infância talvez ajude a explicar como é a alimentação dos cubanos. Algumas vezes, quando a repetida janta de sopa de ervilha (...que saudade dela hoje!) não nos animava muito a comer, eu e minha irmã ouvíamos a indefectível observação de minha mãe:

— Então não é fome... pobre quando tem fome come até sopa de pedregulho.

O desdém pela sopa de ervilha era apenas vontade de comer algo diferente, realmente não era fome; fome era comer bolacha maizena com margarina, a vontade de comer pensava em bolacha recheada, um luxo “supérfluo” naquele tempo.

É mais ou menos assim a “dieta” dos cubanos: mata-se a fome, não a vontade de comer. A variedade de alimento é pouca, a quantidade no prato modesta. Carne é quase sempre de frango ou porco; de peixe, menos; e de boi, raridade. É verdade que ninguém morre de fome, que a desnutrição é a mais baixa da América Latina, que a mortalidade infantil é menor que nos EUA e que isso não é pouca coisa no continente. Mas a comida do cubano não se compara ao suculento e inacessível prato que ele prepara e serve aos turistas nos restaurantes de Havana.


Cerveja cubana
Isso não é tudo. Sabe o churrasco que fazemos no Brasil de vez em quando? Aquele com carne de boi que prossegue pela tarde e avança pela noite regado à cerveja? Esqueça. Em Cuba, não rola nunca. Mas essa é uma comparação cruel. Mesmo o popular e cotidiano PF “caprichado” que se come no Brasil por dez reais é melhor e mais servido que o prato do cubano.

Vou tornar a coisa mais cruel agora: sabe aquela cervejinha? Aquela mesa de bar na sexta feira cheia de garrafas depois do trampo? Não vai ver isso em Cuba. Uma lata de cerveja custa no mínimo 1 dólar. Beba 10 e lá se foi o salário do mês.

Seguindo no departamento “drogas legais”, sabe aquela imagem clássica de Cuba? Charutos e rum de primeira? Pois é, eles existem, mas não para os cubanos. Para minha ingênua surpresa, vi raríssimos cubanos fumando charuto (a “comercialização” é um capítulo à parte e merece outro texto...), quase sempre mais velhos, no interior, ou numa região produtora. Vi mais puros habanos baforados por turistas do que por cubanos. Um Monte Cristo não sai por menos de 10 dólares, um Cohiba beira 20 doletas, cada unidade... tire suas conclusões. 


Folhas de tabaco secando
Algo semelhante ocorre com o rum. O mais famoso do país, o Havana Club, vai desde o Añejo Blanco, em torno de U$ 3,50, passa pelo 3 años, pelo Especial (5 anos), pelo Reserva (6 anos) e chega até o 7 años que sai por U$ 17. Dali pra cima é um mundo inacessível ao bolso e à falta de refino de paladar dos simples mortais nos quais me incluo. O máximo que vi nas mãos de consumidores cubanos era Añejo Blanco acompanhado de copos de plástico e, às vezes, uma garrafa de refrigerante de 2 litros. E isso era raro.

Contudo, praças e calçadões vivem cheios de gente a qualquer hora do dia. Sentados em grupo, papeando, rindo, alguns dançando, os cubanos estão sempre nas ruas. Incomodava muito – o que, claro, me denuncia... – a ausência de latas de cerveja, de garrafas e copos cheios e de charutos. Era como um quadro inacabado: sol, tranquilidade, gente na rua, conversa animada, tudo parecendo ótimo, mas faltava algo naquela cena...

Algumas vezes pensei: será uma necessidade de consumo do meu leve alcoolismo cervejeiro? Estaria eu contaminado por padrões consumistas do capitalismo? Um apego material superado pelos cubanos? Esse “socialismo-budista” de renúncia à matéria não seria o ideal? Mas aí você cai na real e lembra que para eles não é uma opção, é uma falta de opção. Na dúvida, haverá sempre um cubano em seu socorro lembrando que sim, eles querem comer melhor, beber melhor, viver melhor e que isso não é consumismo ou rendição ao capitalismo, é simplesmente humano. 

Fotos: Ricardo Rugai
 Certo dia, num papo regado a cerveja, um deles argumentou longamente que no Brasil se vivia melhor; sobretudo, se comia melhor. Contestei dizendo que não tínhamos a qualidade da educação e da saúde gratuita deles, ao que ele sorriu e respondeu: 

— A gente não fica doente todo dia, mas tem que comer todo o dia.

O argumento parecia fatal, mas quase derrotado contei que no Brasil se pagava aluguel para morar. Surpreso, ele reagiu:

— Alquiler? Por toda la vida?

Respondi que sim. Meio perplexo - lá são todos proprietários das casas, aluguel e financiamento significam coisas estranhas -, o cubano levantou um brinde à América Latina e deixamos o assunto de lado antes que a realidade se abatesse sobre nosso descontraído papo.

Parece que a revolução que tanto fez em Cuba estancou no meio do caminho... Mata a fome, mas permanece a vontade de comer. Os recentes afagos entre Obama e Raul aumentam as expectativas e as incertezas que pairam sobre o futuro da ilha. E mesmo que o fantasma da fome, que assola tantos na América Latina, possa acompanhar a abertura econômica, a vontade de comer dos cubanos parece maior que o medo. Sinto que estão dispostos a se arriscar.


Obs.: Ricardo Rugai é historiador e professor universitário. Essa é a segunda crônica dele com impressões sobre Cuba.