terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Perdão aos machos



Beth Soares

Ela nunca se achou melhor ou pior do que as outras mulheres. Mas era diferente, disso não tinha dúvida. Tia Leila, do alto de seus 17 anos, era uma revolucionária. Afinal, ouvir Queen, Legião Urbana e Barão Vermelho numa casa que só abria os ouvidos e a censura reminiscente dos anos 60 e 70 aos temas de novela e a algumas baladas do Roberto Carlos podia ser uma atitude ultrarrebelde, quase uma heresia. Falando nisso, uma vez ela ousou dizer que o Papa João Paulo II era a Besta! Foi um bafafá... disso eu me lembro bem...

Lembro-me também dos desenhos que ela fazia na primeira página dos meus cadernos. Eu os achava obras de arte. E a letra dela? Era linda! Eu não entendia como alguém com aqueles traços, com aquela delicadeza de alma, poderia ser um péssimo exemplo, como seus pais, irmãos, cunhados e afins viviam comentando nas festas e reuniões de família. 

Mas como a minha cabecinha infantil era facilmente influenciável, acabei decorando os conceitos que me injetaram no cérebro em doses cavalares. “Mulher que se preza não demonstra que está a fim”; “Se maquiar demais, usar decotes e roupas justas ou curtas é coisa de prostituta”; “Dar no primeiro encontro? Só se você for uma vadia!”.

Mas tia Leila provou que toda mulher poderia ir além, quebrar conceitos, simplesmente não se importar com o que os outros dizem ou pensam a respeito. Na família, ela foi a primeira a levantar a bandeira do feminismo. Todas as atitudes dela diziam aos parentes: “O corpo é meu e eu faço com ele o que eu quiser!”. Foi feliz enquanto pôde. Curtiu a noite, experimentou o sexo com amor ou não, como dizia Cazuza, outro de seus ídolos.

E pagou o preço que todos os precursores pagam. Foi rejeitada, humilhada e agredida. Obrigada a fazer um aborto e logo em seguida expulsa de casa, para dar o exemplo a todas as outras mulheres, que sequer imaginassem seguir sua trilha!

Sobreviveu como pôde. Até que se apaixonou de verdade. Engravidou do homem que amava. Descobriu que teria gêmeos. Dois meninos. Estava feliz.

Descobriu que o pai de seus filhos era exatamente igual a todos os homens de seu tempo. Com a demência que acomete os portadores de um mal chamado machismo, doença crônica da alma, ele a esmagou sob seus punhos.

Nos olhos de tia Leila, agora apagados de liberdade, era fácil notar que as dores geradas em seu corpo não se comparavam, nem de longe, às da sua alma.

E lá estava ela novamente na estrada, fugindo do que achava ser o mal do século. Carregava dois pequenos homens no ventre, se perguntando se conseguiria ensinar a eles algo diferente do que o mundo queria.

Nasceram na periferia da cidade, do mundo. Agora, só dependia dela. Quem dera! Nem bem nascido, um deles adoeceu gravemente. Tia Leila, sem fogão, sem geladeira, sem escolha, teve que engolir o orgulho e pedir para voltar à casa que a expulsara. Era isso ou ver um dos filhos morrer de inanição em seus braços. Retornou. Mas a condição era de que apenas ele poderia permanecer ali. Com uma dor que esmagou mais uma vez seu coração, deixou-o lá. Era a única chance que ele teria.

Criou sozinha o outro filho. Desde cedo, este demonstrou que lhe tinha uma admiração incomum. Imitava-a em tudo: trejeitos, voz, preferências. De certa forma, para ela era um alívio. Menos um machista no mundo!, pensou.

Começou a treinar mentalmente para lhe explicar algumas coisas, quando chegasse a hora. Estava disposta a assisti-lo batalhar na contramão. Contra a mão descarada da hipocrisia. Contra a mão pesada do preconceito Ela sabia que, por mais que o preparasse, não conseguiria blindá-lo dos efeitos nocivos causados por esta praga. Mas confiava em que, como ela, ele sobreviveria.

Essa confiança, no entanto, bambeava quando se lembrava do pedaço que havia deixado para trás. Lamentava cada minuto que permanecia longe do outro filho. Lastimava não ter visto os primeiros passos dele. Nem ouvido sua primeira palavra. Soube que foi “mamãe”. Mas não foi para ela. Doeu de novo. E doía todos os dias, uma dor silenciosa. Sabia que ninguém a ouviria, ainda que gritasse. Por muitos anos, desejou secretamente ouvir aquele “mamãe” da voz infantil que soara tão poucas vezes em seus ouvidos.

Até que, um dia, acordou e se viu coagida a jogar o sonho fora. Deu-se conta de que o filho não era dela. Era macho. Era exatamente igual a todos os homens que conheceu. Não a perdoou por nada. Pensava e agia como todos. Humilhou-a enquanto teve chance, assim como ao irmão. Também nunca o chamou assim.

Massacrada pela mão implacável do universo machista, aos poucos, tia Leila foi cedendo às bizarrices dele. Sem nau forte o suficiente para continuar no contrafluxo, mergulhou de vez naquele mar, seco de razão: encontrou na religião seu refúgio. Ou seu ópio. E nessa nova viagem, foi tragada de uma vez por todas.

Já era o século 21. E eu já era como hoje: um tipo de criança que não se deixa iludir tão fácil. Já a via como ela realmente era. Mas era tarde. Ela não era mais ela mesma.

Em seu último dia na Terra, tentou ver os homens que pôs no mundo. Achou que precisava pedir perdão a eles por não conseguir ser, na maior parte de sua vida, uma mulher subserviente às leis que, agora sabia, todas deveriam seguir: “Oprima seu coração! Mate seus desejos!”. Ela assim o fez. Mas era tarde. Não foi perdoada. Nem pelos filhos, nem pelos machos, nem pelas mulheres, nem por seu coração.

Obs.: Texto publicado no blog Poesia Cotidiana, em 13 de junho de 2013. 

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