segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O comendador


Marcus Vinicius Batista
 

Na Era do Espetáculo, aparecer e parecer são verbos essenciais, nomes de capítulos do manual da fama. De excesso de gel nas coxas a cirurgias plásticas de irmãos que querem ser clones (ou zumbis) do Brad Pitt, a regra é se expor com armamento pesado: paus de selfie, câmeras escondidas ou vida feliz editada em rede social. Quem deseja o anonimato sofre duplamente. Em primeiro lugar, é impossível escapar de flashes, seja no ponto de ônibus, seja na festa da firma. Depois, se você se parece com alguém e tenta fugir da rotina de sósia, isso aumenta a comparação a ponto de, por um instante, você duvidar da própria identidade.

Júlio Amarante é um amigo recente, foi um aluno de longa data. Ele é músico e editor de vídeos dos mais talentosos. Boa conversa, culturalmente antenado, quase sempre sereno. Mas desde o final do ano passado, a vida dele virou uma provação. Júlio foi eleito por velhinhas, crianças, pais de família, amigos e seres desconhecidos o clone perfeito do ator Alexandre Nero, o Comendador da novela das nove.

Minto. Ele seria uma versão mais nova do protagonista, parecido na barba e nos cabelos compridos, rebeldes e, em parte, grisalhos. A comparação é tão incômoda que não tive coragem de perguntar se ele conhecia o ator antes da fama ou se o conheceu quando virou sub-celebridade (uma classificação para aqueles que navegam perto das celebridades, mas nunca serão, o que inclui sósias).

No final do ano passado, Júlio e a mulher Nathália foram descansar em Monte Alegre do Sul, uma cidade paulista como tantas outras. Feira de Artesanato, praça central com igreja, relógio que corre mais lento. Como sempre desconfiei que as pessoas adoram assistir às novelas, embora mintam sobre isso, entendi porque Júlio se transformou na celebridade local. Dedos apontavam o visitante ilustre. Senhoras e crianças colocavam mãos à boca para comentar sobre ele.

Júlio chegou a duvidar de si mesmo. Não que se imaginasse como o galã do momento, mas que houvesse risco de assédio. “Perguntei para meus amigos e para a Nathália: vocês estão vendo o que eu estou vendo?”

Numa das tardes, Júlio estava parado em frente a uma loja, enquanto esperava pelo resto da turma. A vendedora tomou coragem e iniciou a cena, os 15 segundos de fama sem câmeras. 




“Moço, você sabia que é parecido com o Comendador?”

Por um motivo desconhecido, Júlio não xingou, como fazia com os amigos. Apenas continuou o diálogo, com resignação. “É o que estão dizendo!”

“Mas você parece mesmo o Alexandre Nero. É a cara do Comendador.”

“Eu percebi.” Não havia o que explicar. Agradecer? Dar corda à fama?

“Olha, moço, o Comendador é muito bonito. Mas você é mais jovem. Isso é uma vantagem.” Segundo o próprio sósia, as frases pareciam conselhos, jamais uma cantada. Na sequência da microtrama, os amigos apareceram e Júlio retomou a vida de celebridade novata, devorado por olhares e risinhos.

Ser amigo de uma celebridade, ainda que cópia, me permitiu ver que Júlio cultiva com fé a honestidade. Que ele não entenda como sugestão, mas ainda bem que não resolveu apresentar baile de terceira idade, aparecer em eventos corporativos ou dançar com a aniversariante em festa de 15 anos.

Fiquei feliz também em saber que o sósia do Comendador jamais pensou em desafinar ao lado de Roberto Carlos, mesmo aquele cover que cantava nas praias de Santos. Como bom baterista, ele pensou que o máximo seria tocar com os amigos na orla da praia ou na Lagoa da Saudade. Até ali, na calma do Morro da Nova Cintra surgiu uma fã carioca. Nem o Comendador genérico escapou do selfie.

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