quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Aos pés da gladiadora

Foto: Marcus Vinicius Batista

Marcus Vinicius Batista

(Para Beth)


Estava dentro da arena sem saber exatamente o porquê. Não recebera convite, não me agradava testemunhar violência de qualquer espécie, ainda mais gratuita e regada a pão adormecido. Tampouco me interessava aplaudir ou condenar gente já condenada pela natureza do abate.

Sentei-me perto de uma sombra. Poderia permanecer intocado, camuflado, escondido sem o menor risco de ser convocado para ajudar um morto-vivo de espada na mão. Sombra de uma das ruínas que insistiam em sobreviver de pé e cobertas por pedras com séculos de vísceras e urros.

Quando me ajeitei no piso de pedra, percebi a redundância visual e geográfica. Eu estava sozinho. Ao longe, na curva do círculo quase oval, vislumbrava silhuetas que mais pareciam vultos nascidos na ilusão ótica. Sentia-me de fato sozinho. Mas sentia-me espremido, sufocado, como se a arena palpitasse de gente desejosa de morte. Talvez eu tivesse desejado, em algum momento, levar comigo um cadáver, uma lembrancinha do show.

Gladiadores, concordo, são escravos. Peças para descarte. Bonecos a serem destroçados por crianças mimadas e selvagens. Gladiadores não merecem, pelas regras adotadas como dogmas, rosto, nome, passado, direitos, história ou sentimentos.

Gladiadores são figurantes de um universo machista, onde homens não sofrem, não transpiram dor, apenas cumprem o que foi traçado, de cabeça baixa e sandálias gastas. Assim me foi ensinado. Assim eu pensava até que ela entrou na arena.

O cabelo preso e a roupa indicavam a mancha no espetáculo de cartas marcadas. Um segundo olhar me deu o benefício da correção. O corpo imperfeito era a tradução da mulher perfeita. Uma mulher que existia, resistia, insistia em estar onde não era bem-vinda, sequer convidada.

Eu a conhecia de algum outro endereço, de outra função social, de outro cotidiano menos traumático e secundário para o papel que ela estava provavelmente destinada a cumprir. Na verdade, tinha a sensação de tê-la visto, aquela intuição que não padece de ser analisada ou teorizada. Por isso se chama intuição.

Abandonei a sombra e me aproximei da arena. Acomodei-me no degrau mais baixo para ver de perto. O sol e o calor tornaram-se dispensáveis, imperceptíveis diante da imagem. A imagem. Um par de sandálias brancas, presas em quatro filas de tiras, sustentava a gladiadora.

As sandálias funcionavam como anteparo para um detalhe que cutucou a memória e demitiu a intuição. Os pés me responderam: você a conhece. Os pés, lindos e únicos, eram os últimos sobreviventes daquela mulher que se transformara. Uma metamorfose que, certamente, brotou de dentro, extrapolou poros, epiderme e cicatrizes e a colocou de volta à arena pela quinta vez em mais de uma década e meia. Assim alguém me disse. Assim ela teria me contado.

Ela estava diferente, caminhava e respirava de outra maneira. Mas os pés permaneciam os mesmos. Não posso afirmar que a semelhança se dava pela aparência. Apenas me contaminava com aquela beleza emoldurada nas sandálias brancas.

Quando o portão se abriu, ela recuou. Não houve gritos da plateia. Eu estava sozinho, definitivamente. Das escadas, subiu um lobo, pelo menos no contorno. Ele rosnava, o que me permitia reforçar a adivinhação sobre quem era o bicho. A luminosidade me enganava. Ora ele parecia ser maior do que ela. Ora tinha a impressão de que ela tinha chances diante de um animal que pareceria domesticável.

Não havia introdução ao combate. Entrou na arena, que começasse a sangria. A fera avançou, houve o primeiro choque que confirmava o favoritismo de sempre. A gladiadora perdera o armamento. A espada caíra partida como papel cortado por uma unha mal cuidada.

A derrota inicial fizera a gladiadora retroceder quatro ou cinco passos. A fera rosnou e caminhou a ponto de reduzir a distância ao cheiro de ambas. Posso ter imaginado o olfato alheio, mas apostaria que ela, a gladiadora, percebera a redução do limite de segurança.

Não houve flerte. Não houve baile. Não houve sangue. Não houve morte. Não houve pão ou circo. Não houve! O previsto jamais aconteceu. Pisquei em temor pelo pior. Era um espectador inoperante para a vítima em potencial. Era um corpo inútil para o predador por natureza.

Olhava para a arena e não conseguia distinguir as duas forças. Onde estava a gladiadora? Onde estava a fera? Havia um só corpo no centro da arena. De onde eu estava, via as sandálias e aqueles pés formidáveis. Movia-me pelas bordas e, de outro ângulo, enxergava sandálias que se encaixavam em patas.

Apertava os olhos e via a mulher. Quando os arregalava, me assustava com a loba de garras em alerta. Repetia o movimento por várias vezes, enquanto as sandálias eram a única vestimenta remanescente daquele espetáculo de tempo incerto, lugar nebuloso como memória.

Voltei a vê-la quando o sol fraquejou. A imagem me absorveu. As sandálias estavam lá, firmes, seguras, renovadas sem mudar de cor. Dentro delas, os pés que poderiam ser o que eu sonhasse. Os pés que ela desejasse ser, quisesse se transformar.

Obs.: Você pode ler a visão de Beth Soares sobre a mesma arena, na crônica Gladiadora.

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